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30/05/2017

Wallace, a matemática e a reencarnação Marcio Rodrigues Horta


Em 1904, no artigo Teríamos já vivido na Terra antes? Viveremos nela novamente? [Artigo traduzido para o português e publicado no site do CPDOC espírita. Ver Horta 2011.], publicado na revista The London magazine, Alfred Wallace (1823-1913) impugnou duramente o tema da reencarnação, deixando claro que seu espiritualismo não se resolvia em espiritismo[Em 1857, na França, Allan Kardec publicou O livro dos espíritos, sendo a reencarnação o principal tema que distinguiu sua doutrina do novo espiritualismo já existente; por tê-la adotado, Kardec desviou-se significativamente do curso até então seguido pelo movimento espiritualista, criando um cristianismo sui generis e formulando uma teologia & teodicéia neoplatônicas. Cf. Kardec 1857 & 1972.]:

Marcio Rodrigues Horta – Doutor em filosofia pela USP e funcionário de carreira do TRE/SP. Artigo apresentado no XXI Congresso da CEPA, Santos, 2012.

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A concepção toda da reencarnação parece-me um pesadelo grotesco que… só pode ter se originado nas eras de mistério e superstição. Afortunadamente, a luz da ciência lhe apresenta como inteiramente infundada” [Negrito-itálicos meus.].

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O famoso cientista passou parte de sua mocidade no Brasil (1848-1852 na Amazônia) e na Oceania (1854-1862 no Arquipélago Malaio), dedicando-se à biologia, à qual forneceu contribuições notáveis[Dentre outras colaborações de Wallace, nada menos do que a co-autoria da mais influente teoria da evolução, apresentada numa comunicação conjunta com Charles Darwin, em 1858, na Sociedade Lineana de Londres. Cf. Horta 2003 & 2003a.] e, após seu retorno à Inglaterra, aproximou-se do novo espiritualismo, interesse pelo qual jamais perdeu. O panorama que encontrou nesse movimento não diferia significativamente do quadro que se encontra o espiritismo brasileiro hoje, com seus taumaturgos de variados efeitos[Ver Horta 1996 & 2007; Biazetto 2011 & 2011a.] e, rapidamente, a intenção do sábio inglês tornou-se aplicar o método científico a esse objeto.

No texto de 1904, o argumento de mais amplo alcance de Wallace consistiu no seguinte: se a reencarnação fosse real, acabaria por produzir a evolução da forma & intelecto & moralidade humanos, implicando que algum aspecto dessas mudanças deveria ser perceptível nos e aos seres humanos. Todavia, segundo o eminente sábio, desde que “o homem passou a existir, em algum período não muito remoto geologicamente”, sabe-se pelas leis da hereditariedade[Wallace notou que “a parte da biologia mais diretamente relacionada à teoria da reencarnação… consiste nas leis da hereditariedade… As duas grandes leis da hereditariedade aqui expostas abrangem todo o mundo orgânico: plantas, animais e homem; aplicam-se à mente tanto quanto ao corpo, aos mais elevados sentimentos morais assim como ao intelecto puro” (negrito-itálicos meus). Ele utilizou a teoria da herança biológica de Francis Galton: as leis da regressão à mediocridade e da proporção hereditária.], sua forma & intelecto & moralidade continuam praticamente os mesmos, o que evidencia que a reencarnação, com enorme probabilidade, deve ser falsa:

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Se a tese da reencarnação como um meio de progresso humanoé verdadeira, devem existir indícios de progressos contínuos e verdadeiramente excepcionais nas formas mais elevadas do caráter humano… Mas não há indícios sequer de uma diferença; decerto não avançamos moralmente tanto quanto intelectualmente e, mesmo no intelecto, tomando à média, é duvidoso que tenhamos realmente avançado desde o tempo de Sócrates e Platão ou dos autores do Maha-Bharata. Não apenas não há nenhuma prova de qualquer avanço excepcional no homem, como deveria ter ocorrido se ele tivesse realmente sido influenciado beneficamente por sucessivas reencarnações, mas (como mostrei) existem provas diretas muito convincentes de que nenhum avanço efetivamente se realizou” [Negrito-itálicos meus.].

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Assim, o cientista inglês apresentou sua estratégia: desqualificar a reencarnação como um tema puramente metafísico, pela ausência de sequer um ponto de contato com a realidade; uma opinião fundada, portanto, não em fatos, mas apenas na imaginação dos antigos. Tal estratagema permitiu ao escritor concluir que o assunto não passa de:

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uma especulação pura que não tem como se apoiar em qualquer evidência direta. Mas por outro lado, há um corpo considerável de evidências que a torna improvável no mais alto grau, isso se não demonstrar inteiramente sua falácia” [Negrito-itálicos meus.].

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No texto citado, Wallace afirmou a autonomia do mundo material relativamente ao espiritual: a vida evolui por leis deste mundo, mudança que resulta de um longo período de relativa estabilidade gradualista interrompido por um curto período de modificações mais rápidas. Ademais, a espécie humana não deveria estar praticamente estacionada, caso a lei espiritual alegada fosse realmente uma causa eficiente, ou seja, se estivesse incessantemente agindo como os reencarnacionistas sustentam[A saber, progresso gradual produzido pelas vidas sucessivas, um aprimoramento irresistível dos seres humanos em sua forma & intelecto & moralidade. Inicialmente, para Wallace & Darwin, a evolução implicava pequenas mudanças aleatórias que gradualmente se acumulam num dado sentido, necessitando de imensas somas de tempo para completar uma nova estrutura. No esquema reencarnacionista, as mudanças dirigir-se-iam diretamente a um dado sentido, aumentando enormemente a velocidade da transformação (tal como em Lamarck. Ver Horta 2011).]. Afinal, considerando a primeira lei da herança de Galton, a história humana apresenta apenas mediocridades e algumas famílias que, periodicamente, produzem gênios eventuais[Galton estudou a “ocorrência de grande capacidade intelectual em determinadas famílias”, o que lhe permitiu “supor que as características mentais de um indivíduo eram hereditárias” (Asimov 1976 II p. 365).]; estes, por sua vez, não colocam a forma & intelecto & moralidade humanos num novo patamar, pois sua descendência tende a retornar à média[Galton foi um dos primeiros a aplicar a matemática estatística à hereditariedade. Todavia, seu pressuposto é falso, pois ele considerava que, quando indivíduos com características diferentes se reproduzem, os traços se misturam (cf. Asimov 1976 II p. 364) – no exemplo clássico, o negro e o branco gerariam o moreno, assim como o café quando misturado ao leite. Esta crença tornou falsa sua segunda lei, que estendia esse princípio a toda árvore genealógica do indivíduo, o resultado de um blend de sua ascendência inteira. Segundo Ernst Mayr, Galton dava às partículas “um tratamento no sentido de que elas se misturavam… o que acabou contribuindo para sua refutação inequívoca… O mendelismo não podia esperar ser universalmente aceito enquanto não fosse abandonada toda a aderência à lei de Galton” (Mayr 1998 p. 876). Tal como Darwin, Wallace derrapou longamente na hereditariedade e, por jamais conhecer os trabalhos de Mendel, carregou o ônus de defender uma teoria que obstava suas descobertas teóricas evolutivas. Mendel, que se tornaria a base da genética contemporânea, argumentou de modo radicalmente atomístico, e a partícula que determina uma característica não se desfaz, dissolvendo-se no todo, mas mantém sua individualidade, o que significa que, se receber variação, é capaz de transmiti-la à progênie, superando a mais renitente dificuldade científica à aceitação da evolução.].

Observe-se que, do ponto de vista lógico, Wallace não refutou o tema da reencarnação diretamente; porém, atacou basicamente a associação dos temas da reencarnação com o da evolução da forma & intelecto & moralidade humanos, a hipótese auxiliar dos reencarnacionistas. Décadas após escrever desse modo, o próprio cientista inglês foi assim atacado: o bioquímico Michael Behe acreditou refutar a evolução por seleção natural de Wallace & Darwin contestando sua hipótese auxiliar, a tese que a evolução ocorre através de pequenas alterações que gradual e aleatoriamente se acumulam num dado sentido[Cf. Behe 1997.]; contudo, mesmo se a hipótese auxiliar gradualista inicial for falsa, não se infere que a evolução também o seja, pois esta pode ocorrer de outro modo, provavelmente como o próprio Wallace argumentou no texto de 1904, de modo pontuado (longos períodos de relativa estabilidade gradualista com mudanças comparativamente rápidas). Igualmente, se a reencarnação não for o motor da evolução da forma & intelecto & moralidade humanos, não segue necessariamente sua inexistência; a objeção apenas demonstra que, se a reencarnação for verdadeira, seus defensores superdimensionaram seu potencial.

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A linha evolucionista fundada por Wallace & Darwin foi muito bem-sucedida em demonstrar que a forma & instinto & capacidade intelectual & muitos conteúdos do intelecto & algo da moral humanos não se desenvolveram por leis “espirituais” ou metafísicas; a teoria da evolução por seleção natural explica tais eventos de modo extraordinariamente satisfatório – ainda assim, a tese que o ser humano em praticamente nada evoluiu desde seu surgimento na Terra, como argumentou o pensador vitoriano, não parece indisputável. Mais bem posicionado no tempo histórico, um evolucionista contemporâneo como Richard Leakey, por exemplo, admite que o gênero homo passou por vários aperfeiçoamentos físicos, que incidiram na capacidade intelectual e também moral do homo sapiens, a espécie humana atual. O cientista norte-americano observa que alguns de seus colegas antropólogos, assim como Wallace, preferem não utilizar o termo “hominídeo” a todos os tipos humanos ancestrais:

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Argumentam, a palavra “humano” deveria ser utilizada para nos referirmos apenas a pessoas como nós. Noutras palavras, os únicos hominídeos que podem ser designados como “humanos” são aqueles que exibem nosso próprio grau de inteligência, senso moral e profundidade de consciência introspectiva”[Leakey 1995 p. 12 (negrito-itálicos meus).].

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Por esta perspectiva, apenas o resultado final da longa fieira de hominídeos seria realmente humana, a nossa espécie (que, como vimos, para o sábio inglês, “passou a existir em algum período não muito remoto geologicamente”). Não obstante, caso se pense como Leakey, considerando todo o conjunto de hominídeos como humanos, admite-se que o surgimento do homem efetivamente remonta a sete milhões de anos, envolve uma enorme população e variações numerosas do nosso ancestral que se desgarrou dos símios – tal admissão implica uma longa evolução física, intelectual e moral.

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Acredito ser justificado chamar todas as espécies de hominídeos de “humanos”… Sabemos que a primeira espécie humana evoluiu há cerca de sete milhões de anos… entre três e dois milhões de anos atrás… [uma espécie humana] desenvolveu um cérebro significativamente maior. A expansão em tamanho do cérebro marca… a origem do gênero Homo, o ramo da árvore humana que levou ao Homo erectus e finalmente ao Homo sapiens… os humanos modernos – a evolução de gente como nós, completamente equipada com linguagem, consciência, imaginação artística e inovações tecnológicas jamais vistas antes em qualquer parte da natureza”[Leakey 1995 pp. 12-14 (negrito-itálicos meus).].

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Ressalvando que o tema da reencarnação não envolve necessariamente a convicção que as múltiplas vidas sejam o motor de algum tipo de evolução, que produzam carma justiceiro etc., ainda assim cabe indagar se, na nova cronologia apresentada por Leakey, há condições de garantir peremptoriamente que nessa longa evolução intelecto-moral nada poderia ser atribuído a múltiplas existências[Claro, numa perspectiva espiritualista, que admite a sobrevivência de algo da consciência humana após a morte, ponto comum entre Wallace e os reencarnacionistas.]. Os argumentos de Wallace não parecem terminantes quanto a esse ponto. Outra possibilidade menos frontal sugere que o tema da evolução do espírito sujeito a sucessivas reencarnações poderia não ter sido tocado nessa discussão, vez que é perfeitamente possível conceber que dois processos evolutivos distintos tenham ocorrido: um da forma humana, através das leis naturais desveladas a partir de Wallace & Darwin, e outra de seu espírito, eventualmente por vidas sucessivas, sendo que o segundo só seria perceptível na medida em que o primeiro o permitisse (assim como existiriam limites ao desempenho de um piloto nas corridas atuais que conduzisse um fusca, por mais hábil que aquele fosse – nesse sentido, encarnar significaria sofrer uma considerável restrição). Nesse ponto, conviria ao espiritualismo manter a distinção entre capacidade intelectual e intelecto, sendo que algo deste último poderia pertencer ao espírito.

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Uma pergunta legítima feita freqüentemente pelas pessoas consiste no seguinte: se a reencarnação existe, por que não nos recordamos de nossas vidas passadas? E o ponto é que talvez algumas pessoas as recordem! Todavia, possivelmente se recordem não como estão acostumadas a recordar. Habitualmente, um esforço de memória básico permite que, no dia seguinte, as pessoas se lembrem de algumas coisas feitas no dia anterior: relembram os amigos vistos, o filme assistido etc. Este é o padrão do que é considerado memorizar e, quando pensamos em recordar vidas passadas, geralmente expectamos obter recordações desse tipo e com a mesma clareza, o que infelizmente talvez seja muito, mas muito raro. Contudo, algumas vezes, as memórias de existências passadas estejam talvez imbricadas nas decisões de algumas pessoas, e a evolução consista num paulatino aprendizado de vida, na capacidade de decidir melhor, possuindo geralmente uma natureza fundamentalmente qualitativa.

Como exemplo imaginário[Recorde-se que Galileu e Darwin se valeram de exemplos imaginários, não sendo este expediente uma heresia científica.], consideremos que uma alma inexperiente, em sua “primeira” encarnação, sofra como todos os mortais das dores do amor e, ao se separar da pessoa amada, acabe por se matar. Digamos que nisto consista a solução padrão de suas decepções no jogo amoroso, até que, enfim, ela resolva firmemente tentar algo diferente, na esperança de sofrer menos. Assim, quando novamente ocorre um desencontro, cansada dos efeitos supostamente insatisfatórios da primeira solução, ela luta para viver, sobreviver, talvez até amar de novo. Parece-me perfeitamente possível chamar a isso de memória; ademais, de evolução. Assim, por essa hipótese, algo das encarnações passadas restaria preservado em certas intuições, naquelas que carregam experiências, emoções e reflexões pretéritas; se as memórias detalhadas talvez já não mais estejam disponíveis integralmente, não obstante, restaria uma carga emocional e informativa capaz de auxiliar na tomada de decisões importantes. De início, a evolução consistiria em possuí-las[Apresentada teologicamente & algo modificada, cf. essa idéia em Kardec 1972 p. 193 e segs.].

Esse é um modo hipotético & possível de responder à objeção de Wallace, que alega que efeitos evolutivos perceptíveis devidos a múltiplas encarnações não aparecem. Talvez apareçam, mas não sejam mensuráveis, não se encontrando na estrutura do corpo humano, tal como a mudança das formas vivas explicada pela teoria da evolução por seleção natural; também não estariam presentes nos instintos da espécie, sendo possivelmente patrimônio pessoal e intransferível. Um adolescente, fora de sua tradição familiar, deseja inexplicavelmente ser padre, até que a vontade passa de modo igualmente injustificado alguns anos depois; uma criança, a cada conflito familiar, agarra-se à Bíblia sem saber porque – quando se interroga do motivo dessa tendência, abre o livro, nada entende daquele difícil texto e abandona o gesto etc. A evolução por reencarnação talvez se manifeste em atitudes e decisões subjetivas de parte da população humana, num fenômeno muito mais difícil de apanhar, descrever e, principalmente, demonstrar.

Aplicar o método científico a temas espiritualistas, no texto de Wallace de 1904, significou utilizar horizontes matemáticos para impugnar a reencarnação. Desde que cientistas passaram a aplicar a matemática à natureza, os êxitos da ciência natural têm sido crescentes. Portanto, gostaria de complementar o esforço crítico do famoso pensador inglês num tema matemático que ele não cogitou: hoje, sabemos que a espécie humana se reproduz natural e aleatoriamente na proporção aproximada de 1:1; uma menina, um menino[Exemplifico uma seqüência aleatória de nascimentos humanos: h; h; m; h; m; m; h; m; h; h; h; m; h; m; m; m etc. As informações correntes dão conta de vinte concepções femininas a cada vinte e uma masculinas, numa proporção muito próxima a 1:1.]. Nossos ancestrais, nas eras de mistério e superstição anteriormente citadas, não podiam garantir com certeza qual a proporção dos sexos nas concepções, pois careciam de levantamentos estatísticos confiáveis e suficientemente extensos no tempo e no espaço. Assim, as culturas reencarnacionistas se constituíram ignorando uma regra áurea sobre o assunto – presentemente, faz-se possível utilizar essa regularidade natural como um critério objetivo para avaliar a plausibilidade das narrativas reencarnacionistas e seus modelos culturais.

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Entrementes, seguem alguns apontamentos históricos: o encanto que o tema da reencarnação exerceu sobre Kardec deveu-se sem dúvida à possibilidade de formular uma teodicéia aceitável, que explicasse teologicamente as desigualdades e injustiças do mundo, conservando, na esteira de Platão, a divindade inocente. Assim, abaixo do subtítulo a justiça da reencarnação, consta em O livro dos espíritos a seguinte passagem:

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“171. No que se funda o dogma da reencarnação? Na justiça de Deus e na revelação, pois repetimos sem cessar: um bom pai deixa sempre aos seus filhos uma porta aberta ao arrependimento… (etc.)”[Kardec 1972 p. 82 (tradução & negrito-itálicos meus). Particularmente, agrada-me a consideração mais naturalista que “se a alma desce à Terra uma vez, para viver num corpo material, em princípio não há razão para que isto não ocorra novamente, ou até diversas vezes” (Muller 1970 p. 20).].

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Todavia, como observa Curt Ducasse, filósofo da ciência francês, de um ponto de vista científico, permitir a construção de uma teodicéia defensável não comprova em absoluto as vidas sucessivas:

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“Então, se perguntarmos o que poderia constituir uma genuína evidência da reencarnação, a única resposta possível parece ser… que agora nos recordamos de ter vivido naquela época, neste ou naquele lugar ou situação e haver feito… certas coisas e adquirido determinadas experiências. Mas haverá alguém que se lembre de ter tido uma existência na Terra, anterior à presente? Posto sejam raros os relatos de tais afirmações, existem alguns. A pessoa que os faz é, quase sempre, uma criança em cuja mente essas lembranças se apagam depois de alguns anos”[Apud Stevenson 1970 pp. 8-9.].

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Com efeito, Ian Stevenson observa que a reencarnação constitui um dos princípios da religião hinduísta, professada pela maioria dos indianos, antiga, organizada praticamente na pré-história:

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“O hinduísmo é a mais antiga religião sobrevivente no mundo, uma vez que sua origem remonta ao quarto milênio A. C…. A viabilidade do hinduísmo de hoje pode ser devida a relatos bastante freqüentes na Índia, de experiências que parecem fornecer provas de reencarnação. Casos do tipo que vou descrever parecem ter ocorrido durante séculos na Índia. Sua existência é admitida ou insinuada através de muitas das escrituras e mitos hindus. Como sabemos que muitos casos do tipo de reencarnação sucedem hoje na Índia, parece pelo menos possível, e é talvez verossímil, que tais fatos hajam ocorrido com a mesma freqüência durante séculos… Sua simples existência proporcionou um fluxo contínuo de apoio, aparentemente empírico, para a religião do hinduísmo, bem como para o budismo”[Stevenson 1970 pp. 37-38 (negrito-itálicos meus).].

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Enfim, temos aqui a origem e as fundações de todo um edifício que, posteriormente, ganhou o mundo e se diversificou: uma religião organizada na antigüidade e sustentada principalmente através de relatos de crianças. Neste sentido, o famoso cientista canadense prossegue, afirmando que, até o presente:

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A história de casos sugestivos de reencarnação, na Índia e em outros lugares, segue um padrão… O caso geralmente principia quando uma criança de 2 a 4 anos de idade põe-se a falar, a seus pais ou irmãos, de uma vida que teve em qualquer época e lugar… O fato geralmente atrai muita atenção nas comunidades em que ocorre e os relatos chegam aos jornais”[Stevenson 1970 p. 40 (negrito-itálicos meus).].

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O próprio Stevenson reitera em vários momentos de sua obra que, do ponto de vista epistemológico, ou seja, independentemente das convicções pessoais dos envolvidos, o tema da reencarnação consiste numa hipótese, não se tratando de um saber demonstrado, comprovado. Também observa que, embora exista presentemente certo entusiasmo dentre os pesquisadores do tema com a redescoberta dos relatos reencarnacionistas de crianças, tal linha de pesquisa é tão obscura quanto aquela dos relatos induzidos por hipnose, já experimentados anteriormente e mais conhecidos dos ocidentais:

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“As “personalidades” geralmente evocadas durante as regressões a uma vida anterior, induzidas hipnoticamente, parecem constituir uma mistura de vários ingredientes. Estes podem incluir a personalidade atual do paciente, suas expectativas daquilo que ele pensa que o hipnotizador deseja, suas fantasias sobre aquilo que ele imagina ter sido sua vida anterior e, talvez ainda, elementos obtidos paranormalmente… Entrementes, a mais promissora evidência relacionada com a reencarnação parece provir de casos espontâneos, especialmente entre crianças. Contudo, o estudo e a avaliação de tais fatos é tão difícil quanto o de outras espécies de casos espontâneos em pesquisa psíquica, naturalmente, estando sujeito aos mesmos tipos de crítica”[Stevenson 1970 pp. 22-23 (negrito-itálicos meus).].

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No famoso clássico de Stevenson, Vinte casos sugestivos de reencarnação, publicado inicialmente em 1966, em apenas dois casos houve troca de sexo da primeira para a segunda vida do personagem pesquisado; todavia, a princípio, sendo a troca de sexo aleatória e próxima à proporção de 1:1 na natureza, a estatística deveria ter apontado dez casos de mudança para dez de conservação ou algo próximo – observe-se que a proporção obtida por Stevenson foi de 1,8:0,2, extravagante à luz do princípio apresentado, pois a natureza jamais produziu tal relação em toda a história humana. Contudo, como o cientista canadense considera esse um tema fundamentalmente cultural, seu comentário sobre o assunto foi bastante plácido:

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Na série inteira dos casos ora em estudo no censo internacional de casos sugestivos de reencarnação, raramente ocorrem exemplos de diferença nos sexos das personalidades atual e anterior. No total de uns seiscentos de todas as espécies, as diferenças de sexo entre as duas personalidades ocorrem em menos de dez por cento”[Stevenson 1970 p. 200 (negrito-itálicos meus).].

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James Matlock informa-nos que Stevenson realizou um levantamento da proporção na qual algumas culturas reencarnacionistas estudadas alegam haver troca de sexos entre encarnações, obtendo resultados distintos – a maioria das matrizes culturais admite que, numa série de encarnações, não há ou há pouca troca de sexos entre as vidas sucessivas:

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“O número de pessoas que alega se lembrar de vidas passadas como membros do sexo oposto varia muito de cultura para cultura. Stevenson fornece uma tabela comparando a incidência de casos de mudança de sexo em dez culturas. Em quatro destas, Haida (índios da Colúmbia Britânica. Nota do autor) (N=24); Tlingit (N=65); Drusa (árabes do oriente próximo: Síria, Líbia e Israel. Nota do autor) (N=77); Alevi (tribo turca) (N=133), nenhum caso desse tipo foi informado. A proporção de casos de mudança de sexo é de 3% na Índia (N=261), 12% no Sri Lanka (N=114), 13% na Tailândia (N=32) e 15% (N=60) em sociedades não tribais americanas. Em Burma, o índice é de 33% (N=154) – o índice mais alto de todas as culturas estudadas por Stevenson”[Matlock 1997 p. 220. E mais, “Mills relata não ter encontrado nenhum caso de mudança de sexo dentre os Gitksans (índios canadenses. Nota do autor) (N=35) ou os Carriers (índios da Colúmbia Britânica, província do Canadá. Nota do autor. (N=28), mas três (13%) entre vinte e três casos nos Beavers… De acordo com Stevenson e Mills, os Drusos, Alevi, Tlingits (índios do sudeste do Alasca & Colúmbia Britânica. Nota do autor) e Carrier garantem ser impossível mudar de sexo entre as vidas… Os Haida e Gitksan não rejeitam a possibilidade de mudança de sexo, embora nenhum caso de mudança de sexo tenha sido informado como ocorrendo nessas sociedades… Considerando de forma conjunta os casos de todas as outras culturas nos quais a mudança de sexo foi identificada, os sujeitos femininos alegaram mais freqüentemente vidas passadas como masculinos do que vice-versa por uma margem de 3 para 1. Em algumas culturas, a proporção é até mais alta. Nos Estados Unidos, só uma dentre quinze crianças que alegaram se lembrar de uma vida passada do sexo oposto era menino”. Idem (negrito-itálicos meus).].

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Atente-se que, a princípio, a mudança aleatória de sexo deveria surgir em aproximadamente 50% dos casos em todas as narrativas de vidas sucessivas e suas culturas. Na matemática estatística, a proporção dos nascimentos humanos perfaz um caso semelhante ao conhecido exemplo do lançamento de um dado & proporção dos resultados obtidos; caso o dado possua lados iguais, num conjunto de lançamentos, os números de 1 a 6 tendem a vencer numa proporção próxima. A igualdade dos lados e as leis da física garantem isso. Algo semelhante se passa quando um professor manda as meninas sentarem-se à direita e os meninos à esquerda numa sala de aula – o docente introduz uma lei no que era potencialmente anárquico. Por outro lado, se o educador estiver ausente e cada criança puder escolher onde sentar, o resultado final deve mostrar meninas e meninos misturados, com grupos numericamente distintos à esquerda e à direita. Assim se passa em segundos-turnos eleitorais: com apenas dois candidatos, ocorrem freqüentemente quantidades bastante distintas de votos para cada lado, pois é a vontade livre de cada eleitor que produz os resultados finais – 75% vs 25%; 80% vs 20%; 60% vs 40% são resultados normais em situações desse tipo.

Entrementes, para Kardec, em O livro dos espíritos, o mundo espiritual é autônomo, ou seja, cada espírito escolhe livremente o sexo no qual deseja renascer, considerando as provas que pretende enfrentar:

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“202. Quando somos espíritos, preferimos encarnar num corpo de homem ou de mulher? Isso importa pouco ao espírito; é segundo as provas que se deve escolher. [Adendo de Kardec:] Os espíritos encarnam como homens ou mulheres, pois não possuem sexo; como devem progredir em tudo, cada sexo, assim como cada posição social, oferece-lhes as provas, os deveres próprios e a ocasião de adquirir experiência. Alguém que fosse sempre homem não saberia senão o que os homens sabem”[Kardec 1972 p. 96 (tradução & negrito-itálicos meus).].

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Já para Stevenson, infere-se dos resultados apresentados em sua obra, cada espírito possui uma “preferência” por renascer num ou noutro sexo. Não obstante, para ambos os autores, o ponto crucial da questão estaria ligado à vontade dos espíritos & espiritualidade – sendo, portanto, fundamentalmente volitivo. Mesmo no caso que aqui recomendo como paradigmático, aquele obtido por Linda Tarazi, na qual uma paciente sua recordou várias encarnações, sendo que, para uma destas, na Espanha, existe corroboração documental relativa a algumas de suas alegações, a pesquisadora norte-americana negligenciou o tema da mudança de sexo nas várias vidas narradas, não fornecendo a informação[Cf. Tarazi 1990.].

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Não se perca de vista que a lei que regula o sexo dos infantes é natural, ou seja, tal como a evolução por seleção natural de Wallace & Darwin, pertence a “este mundo”. É tão natural quanto a lei que faz com que a esmagadora maioria dos seres humanos nasça com cabeça, tronco e membros etc. É muito pouco variável, tendendo aleatoriamente à proporção 1:1 tanto no tempo quanto no espaço. Se assim não fosse, se o sexo das crianças dependesse da vontade dos espíritos ou do mundo espiritual (de um plano ou vocação sexual, de modo autônomo), proporções outras seriam correntemente encontradas na história da humanidade – na verdade, como no segundo-turno das eleições, constituiriam a regra: 0,5:1,5; 1,3:0,7; em alguns casos, talvez até 2:0 tivesse ocorrido no mundo – o que não se dá nem nunca se deu.

Como exemplos, imagine-se que, durante a Guerra do Paraguai, a morte sistemática de homens paraguaios comovesse “o mundo dos espíritos paraguaios” que, decididos a auxiliar sua nação, passasse a promover sistemáticos nascimentos para recompor a população masculina extinta[Na falta de homens adultos, dizimados na primeira parte da guerra, o governo paraguaio utilizou meninos para recompor suas tropas, o que desbalanceou enormemente a relação entre homens e mulheres no Paraguai por décadas.]. Para auxiliar seu povo, renasceriam na proporção de duas meninas para oito meninos. Mas verificamos que tal não se passou, pois, até o início do século passado, as avaliações sobre o tema apontavam que a população masculina paraguaia não havia se recomposto totalmente do desfalque. Na China contemporânea, em virtude do tamanho da população, bem mais de um bilhão de seres humanos, o governo chinês e seus cidadãos não são nada discretos em sua preferência por meninos; algumas vezes, até promovem abortos de fetos femininos ou a eliminação física de meninas já nascidas. Contudo, as meninas insistem em surgir naturalmente na proporção aproximada de 1:1, independentemente das conveniências e da vontade das pessoas envolvidas. Poder-se-ia contra-argumentar dizendo que a espiritualidade não se importa com as conveniências deste mundo; mas, mesmo assim, observando apenas seus interesses, os espíritos continuam a se apresentar aqui, em qualquer lugar e tempo da existência da humanidade, na proporção aproximada de 1:1 – regularidade que não teria razão de ser caso a proporção de nascimentos dependesse de outro fator que não a citada lei natural.

E o problema não está na proporção apresentada, mas na existência de uma proporção fixa, fato que não se coaduna com a liberdade e autonomia atribuídas ao mundo espiritual, com o que isto significaria matematicamente se fosse verdade. Tal regularidade natural demonstra que as variadas narrativas reencarnacionistas existentes (e suas culturas) sobre o sexo dos reencarnantes, para serem adequadas à lei natural, deveriam a princípio ter obedecido à regra áurea de 1:1. Todavia, na esmagadora maioria das descrições palingenésicas existentes isso não se deu; um tema fundamental de credibilidade não foi observado, tornando a grande maioria das descrições de reencarnações refutáveis e atingindo o próprio cerne do tema, pois, se não existem narrativas racionalizáveis sobre a reencarnação, com que fundamento o tema pode ser sustentado?

A história da ciência, especialmente em seus episódios revolucionários, registra casos nos quais todo um castelo de hipóteses foi erguido antes da prova definitiva, prática que se mostrou muito útil ao desenvolvimento do conhecimento. Um exemplo consiste em nada menos do que a primeira revolução científica moderna: quando, por volta de 1530, Nicolau Copérnico propôs revolucionariamente que a Terra não permanece fixa mas se move, não havia uma prova física satisfatória a justificar tal excepcional afirmação[Cf. Burt 1989 p. 29.]. Com efeito, os críticos justamente argumentaram que, se a Terra está em movimento, algum efeito perceptível deveria aparecer (considere-se que nosso planeta gira a uma velocidade aproximada de 1.700km/h[Cf. Martins 1994 p. 198.]); contudo, muito pelo contrário, tanto a experiência imediata do vulgo quanto os experimentos apenas disponíveis aos sábios não sustentavam tal ambiciosa mudança em todo o arcabouço científico, religioso e político da época. Segundo Roberto Martins:

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“Quando Copérnico propôs seu sistema heliocêntrico, no século XVI, a ideia de que a Terra se movia era inaceitável sob o ponto de vista físico… de acordo com os conhecimentos mecânicos da época, se a Terra se movesse, deveriam surgir fenômenos observáveis na própria Terra, por causa desse movimento. O movimento da Terra deveria afetar o movimento de queda dos corpos, o dos projéteis, dos pássaros, das nuvens etc. A rotação da Terra deveria produzir a expulsão de todos os corpos de sua superfície”[Martins 1994 p. 196 (negrito-itálicos meus).].

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O homem do povo perguntar-se-ia: se a Terra está em movimento, como o voo das aves não é imediatamente alterado, assim como o curso de todos os objetos lançados ao ar? Por que, efetivamente, são o Sol e as estrelas que viajam aos olhos de todos? Os sábios se perguntaram: como não se observa o fenômeno da extrusão, ou seja, como a Terra não tem pedaços arrancados de sua superfície em virtude desse movimento extremamente veloz? Não havia respostas para tais objeções e, mesmo assim, Copérnico e seus simpatizantes se obstinaram em sua convicção; porém, o astrônomo polonês não ignorava a crítica mais difícil à sua proposta, pois apontou em sua obra máxima a existência de uma antiga objeção ao movimento da Terra:

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“As coisas que giram de forma repentina e violenta são inadequadas para se reunir, e por mais unidas que sejam, elas se espalham, a menos que alguma força constante as obrigue a se prenderem. E há muito tempo, diz ele [Ptolomeu], a Terra espedaçada teria passado para além dos céus, o que é certamente ridículo; e a fortiori também todas as criaturas vivas e todas as outras massas separadas não poderiam permanecer inabaláveis”[Copérnico, De revolutionibus, 1.7 (apud Martins 1994 p. 197. Negrito-itálicos meus).].

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Quando o cardeal Roberto Bellarmino, o primeiro inquisidor católico[Esse inquisidor foi particularmente importante na história da ciência. Jesuíta, estudou geometria e astronomia, sempre compromissado com o aristotelismo; militante contra-reformista entusiasta, queimou Giordano Bruno em 1600, proibiu as teses de Copérnico e admoestou Galileu em 1616. Segundo Pablo Mariconda, Bellarmino (1542-1621) “ocupava uma posição de destaque na cúria romana como principal consultor teológico dos pontífices Clemente VIII e Paulo V. Educado desde jovem pelos jesuítas… torna-se membro da Sociedade de Jesus em 1560 e logo seu talento para a teologia é notado. Particularmente bem-dotado como controversista, é enviado, em 1570, como professor para Louvain, onde realiza um estudo detalhado das heresias então em voga. Em 1576, assume a cátedra de controvérsias do Colégio Romano e durante esse período escreve seu trabalho mais conhecido… Disputas sobre as controvérsias da fé cristã contra os heréticos deste tempo, no qual desenvolve uma refutação sistemática das heresias, organizando os argumentos católicos de modo a conduzir a uma controvérsia efetiva. O trabalho de Bellarmino tem tal impacto entre os teólogos reformados que se fundaram cátedras na Inglaterra e Alemanha com o propósito especial de refutar suas teses… As discussões empreendidas por Bellarmino da base natural e da origem jurídica do Estado, da fonte da autoridade política, dos direitos e deveres dos magistrados e das relações entre o poder secular e o poder eclesiástico representam a versão mais sistemática e clara da concepção contra-reformista do Estado e do poder político, razão pela qual Bellarmino se firma como o principal teórico e ideólogo da Contra-reforma” (Mariconda 2000 pp. 117-118).] encarregado de processar Galileu Galilei, respondeu que o sistema copernicano do notável cientista italiano era absurdo[Mariconda 2000 p. 127.] (significando impossível – ou o ridículo ao inverso, de Copérnico), de fato, a física da época não havia resolvido o problema apontado. Quatro anos após Galileu publicar sua defesa do movimento da Terra, contida no Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo, publicado em 1632, Marin Mersenne demonstrou matematicamente que a resposta geométrica do sábio italiano ao problema da extrusão era insuficiente[Para Martins, “de modo nenhum [Galileu] consegue apresentar uma teoria física completa e satisfatória, coerente com o copernicanismo… Por que motivo os corpos em rotação tendem a se… espalhar? Atualmente, interpretamos isso como uma conseqüência da inércia. Suponhamos que vários corpos estão inicialmente presos entre si e que o conjunto está girando com grande velocidade. Se a ligação entre eles for rompida, cada um tenderá a manter a velocidade que tem naquele instante e se mover em linha reta. Como cada um desses corpos estará se movendo numa direção diferente (por causa da rotação), o resultado será que eles se espalharão, distanciando-se uns dos outros… A rotação da Terra tende, de fato, a expelir os corpos de sua superfície; mas… essa tendência é muito inferior à atração gravitacional e, por isso, a Terra não se desfaz em pedaços… Sob o ponto de vista quantitativo… [a visão de Galileu] é totalmente inadequada… [Ele] acreditava que, por menor que fosse essa gravidade, ela seria suficiente para reter os corpos na superfície da Terra” (Martins 1994 pp. 197-199. Negrito-itálicos meus). Ademais, a um aristotelista, um crítico de Copérnico, sem a Terra firme, o próprio conceito de gravidade perde o sentido; para a escolástica, um corpo cai porque o pesado (o grave, daí a gravidade) tende ao centro (teórico) do universo (coincidente com o centro físico da Terra). Se a Terra se move e o centro do mundo está no Sol, que sentido há em falar de gravidade numa física terrestre? Copérnico e Galileu continuaram a falar de uma força a que chamavam de gravidade, mas esta solicitava uma redefinição, só apresentada completamente por Newton no final do séc. XVII.]. Segundo Martins:

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O erro de Galileu não passou despercebido na época. Ele foi notado e criticado, poucos anos depois, por outro defensor de Copérnico e amigo de Galileu: o padre Marin Mersenne. Em sua obra Harmonie universelle, Mersenne mostra… que Galileu estava errado. E este livro foi publicado apenas quatro anos depois da obra de Galileu… Era preciso mais do que o argumento geométrico de Galileu para responder ao argumento clássico contra a rotação da Terra. Ou seja; Galileu não sabia explicar por qual motivo os corpos não são lançados para fora pela rotação da Terra. Como havia pelo menos um argumento contra a rotação da Terra ao qual Galileu não deu uma reposta satisfatória… seus contemporâneos poderiam, racionalmente, negar-se a aceitar o movimento da Terra, utilizando o argumento de extrusão por rotação”[Martins 1994 pp. 204-205 (negrito-itálicos meus).].

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Somente trinta anos após a obra apologética de Galileu foi que Christian Huygens conseguiu mostrar que o argumento da extrusão não era necessariamente pertinente, demonstrando matematicamente não ser impossível que a Terra se mova. Observe-se que o físico holandês não provou que a Terra se move, mas que não é impossível que ela se mova, derrubando a objeção cardinalícia. Isaac Newton, por sua vez, trabalhou num tempo em que evidências circunstanciais se avolumavam em sentido favorável à revolução científica, mas o heliocentrismo era ainda uma hipótese que precisava receber uma prova física terminante. Apenas em 1851, Jean Foulcault, um físico francês, apresentou um experimento que, por fim, resolveu o problema, provando que o comportamento de um pêndulo gigante preso à cúpula da catedral de Paris só podia ser explicado através do movimento terrestre. Todavia, havia se passado mais de trezentos anos da postulação à comprovação física final desse movimento.

Todos nós, que aprendemos ciência na escola, somos enganados pelo fato de que, numa mesma aula, tanto o problema quanto a resposta são apresentados em seguida, num curtíssimo espaço de tempo, situação que gera uma imagem do empreendimento científico absolutamente racional, inteiramente distinta de qualquer outra atividade humana e livre de hipóteses. Contudo, as hipóteses não apenas são úteis no elaborar histórico da ciência como algumas das conjecturas mais caras ao progresso do conhecimento humano permaneceram como tais por séculos. Quando Galileu, Mersenne, Huygens e Newton (completamente convencidos que Copérnico estava certo) elaboraram longos tratados sobre a nova visão de mundo, eles não dispunham de uma prova física peremptória a justificar tal ambicioso empreendimento. Hoje, do ponto de vista filosófico, tal esforço pode ser apresentado na fórmula lógica estóica: se x, então y. Se Copérnico tem razão (deveriam dizer os newtonianos até 1851), então o melhor modelo de mundo disponível é o de Newton (com seus inúmeros detalhes que, por conseguinte, eram forçosamente também hipotéticos). Essa talvez seja a mais precisa interpretação da situação da ciência durante a revolução científica – um esforço cuja felicidade foi estar do lado direito da natureza; nem toda ciência de pretensões revolucionárias teve a mesma sorte, mas sempre teve a mesma estrutura hipotético-dedutiva.

Com a objeção natural & matemática acima apresentada, relativa à proporção dos sexos nas gestações e nascimentos, o tema da reencarnação apresenta-se tal como o tema do movimento da Terra se apresentava a Huygens. Não tenho, no momento, argumentos satisfatórios para vencer essa dificuldade; por outro lado, graças à história da ciência, sabe-se que tal situação tanto pode se dever à uma momentânea ignorância quanto à falsidade do tema. Portanto, quem estuda a reencarnação numa perspectiva científica precisa tomar consciência de que, inevitavelmente, de início, terá de utilizar raciocínios miseravelmente hipotéticos, na esperança que a natureza corresponda em razoável medida às suas expectativas e modelos, até o feliz momento no qual pontos de contato entre teoria e realidade possam ser reconhecidos e explorados.

Assim, seguem alguns quadros possíveis: caso se admita que narrativas e culturas não se adequam à lei natural da proporção dos sexos nos nascimentos humanos, mas deveriam ter se adequado, então o tema da reencarnação a) está refutado ou, b) um modelo que observe a citada lei natural deve ser proposto. Porém, que motivação teria alguém para repropor um tema agora puramente metafísico? Outra alternativa consiste num esforço de salvar os fenômenos e admitir que, para manter como válidas algumas das experiências e culturas reencarnacionistas, faz-se necessário acrescentar uma hipótese auxiliar à da reencarnação: c) os espíritos teriam como saber o sexo de um conjunto de células reprodutivas humanas recém-concebido. Ironizando, mas não longe do que teria de ser real, algo como uma “luzinha” rosa ou azul, dependendo do sexo feminino ou masculino, deveria imediatamente faiscar da barriga das gestantes, logo após a concepção, permitindo o conhecimento do sexo do feto pelos espíritos que, a partir das provas que desejam enfrentar (Kardec) ou da preferência por um dos sexos (Stevenson), invadam-no com a segurança de não nascer num sexo indesejado.

Por consegüinte, a tese de Kardec que o espírito começa a encarnar no momento da concepção[Lê-se em O livro dos espíritos: “344. Em que momento a alma se une ao corpo? A união começa na concepção, mas não se completa senão no momento do nascimento… 345. A união entre espírito e corpo é definitiva no momento da concepção?… A união é definitiva, no sentido que outro espírito não poderia substituir aquele designado a um corpo” (Kardec 1972 p. 166. Tradução minha).] não seria precisa, pois algum tempo, ainda que pequeno, seria necessário para a tomada de consciência quanto ao sexo de um feto e a decisão quanto à reencarnação por parte de um espírito. Mas a alegação ad hoc de c) significa assumir um ônus imenso, pois tanto Kardec quanto Stevenson descrevem o mundo dos espíritos como um lugar e estado dificilmente complexos: gente que já desencarnou e não sabe[Cf. Kardec 1972 p. 163; Muller 1970 p. 195. ]; espíritos que invadem corpos de adultos e os infernizam, alegando não terem notado que já estavam ocupados[Cf. Stevenson 1970 p. 498.] etc. Como sustentar que espíritos tão problemáticos sempre souberam precisamente onde encarnar, para não errar de sexo? As peças não se encaixam.

Uma hipótese que não foi desenvolvida para responder a questão apresentada, mas que pode ser estendida como uma tentativa de solução ao problema, foi comentada por Muller (que, em seu livro, colocou irrefletidamente a mudança de sexo nas reencarnações junto com outros problemas secundários):

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“Nos casos de crianças, verificou-se que 16% das meninas se recordavam da mudança de sexo. Entre os adultos, 23% das mulheres alegaram haver sido homens, numa vida anterior… Aceitando-se os 16% como o índice mais provável, teremos, em média, seis encarnações sob o mesmo sexo… Poucos homens recordam haver vivido como mulher. É possível que uma encarnação sob o sexo feminino seja mais difícil de ser relembrada pelo fato de ser mais calma e rotineira. A morte violenta, em circunstâncias dramáticas, é proeminente nos relatos do sexo masculino, notadamente entre soldados… O Dr. Bjrkhem, que preferia submeter os interessados a uma leve hipnose, fez a seguinte observação: na ocorrência de uma troca de sexo, o indivíduo tentava resistir, mas o fenômeno era de caráter compulsório. A personalidade prévia se manifestava e a consciência atual não conseguia interferir. Isso prova que há um mecanismo psicológico que filtra e protege o sexo atual das influências do sexo oposto. É possível que esse isolamento psicológico seja mais forte nos homens”[Muller 1970 pp. 289-291.].

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Assim, pode-se apontar: d) o isolamento psicológico da personalidade atual como um modo de explicar as discrepâncias numéricas entre os dados obtidos nas supostas experiências de vidas passadas e a exigência matemática.

Porém, cumpre salientar a premissa do raciocínio de Muller: uma encarnação do sexo feminino é mais difícil de ser relembrada pelo fato de ser mais calma e rotineira. Seria possível estender esta afirmação à história inteira das mulheres? A maior parte das existências femininas deu-se entre feras e homens brutos (sete milhões de anos…); a perda de filhos era e é freqüente (assim como sua dor); mulheres morriam com freqüência e ainda morrem em partos. As guerras envolvem os homens, sem dúvida, mas também as mulheres – vítimas freqüentes de estupro & rapto & morte; elas assistiam e assistem suas vilas inteiras serem queimadas; a perda de entes queridos etc. As mulheres foram vítimas de peste, fome, secas, escravidão, prostituição, sacrifícios religiosos e de todas as tragédias que marcaram a existência humana. Mortes violentas ocorrem no trânsito e atingem homens & mulheres. A alegação de Muller talvez cubra a história recente de mulheres européias e norte-americanas pacatas, ou um pouco mais além disso.

Sem a premissa, resta a afirmação pura de Muller que os homens têm certo bloqueio para recordar encarnações femininas. Meninos de 2 a 4 anos (historicamente, uma parte dos principais narradores de vidas passadas) também já manifestam essa dificuldade psicológica & cultural? Na proporção muitas vezes de quase 100%? Números pequenos não são explicativos para a dificuldade apontada. Ademais, na obra de Stevenson, a grande maioria das sugestões de reencarnação estudadas deu-se num prazo muito curto, no qual praticamente não teria havido tempo para encarnações intermediárias do outro sexo, cujo bloqueio psicológico oportuno explicasse o problema estatístico. Por fim, tal existência intermediária do outro sexo seria anti-metodológica para Stevenson, pois a razão de ser de sua pesquisa consiste exatamente na imediatez entre a vida atual da criança que narra e sua vida recentemente perdida em virtude da morte – essa proximidade constituindo usualmente a circunstância sine qua non para a memória infantil recordar uma ocorrência dessa natureza.

Já foi anteriormente apresentado o quanto se torna pesado a uma postulação o acréscimo de apenas uma hipótese auxiliar, seja na contestação de Behe ao gradualismo da teoria da evolução por seleção natural seja na crítica de Wallace ao gradualismo da evolução por vidas sucessivas, praticamente invisível. Uma tese cara fica, em termos probabilísticos, cada vez mais improvável – não obstante, ainda não impossível de, no futuro, restar demonstrada[Cumpre observar que Matlock faz também duas notificações importantes: “Slobodin informa um índice de 50% para quarenta e quatro casos nos índios Kutchins (Alasca & Canadá. N.A.)… Na Nigéria, sujeitos masculinos e femininos alegaram lembrar-se de vidas passadas como o sexo oposto de modo igualmente freqüente” (Matlock 1997 p. 220). Os nigerianos e seus descendentes são particularmente importantes aos estudiosos do tema brasileiros, pois há várias comunidades deles no Brasil.].

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BIBLIOGRAFIA

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2 Responses “Wallace, a matemática e a reencarnação Marcio Rodrigues Horta

  1. quintinomelo
    03/09/2016 at 10:10

    Parabéns pelo jornal ciência espírita. Desconhecia a existência desta publicação de tão alta qualidade em língua portuguesa.

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