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23/02/2020

Visão Espírita da Bíblia


 J. Herculano Píres

Sumário

Bíblia e Evangelho

A Bíblia (cujo nome quer dizer simplesmente: O Livro) é na verdade uma biblioteca, reunindo os livros diversos da religião hebraica. Representa a codificação da primeira revelação do ciclo do Cristianismo. Livros escritos por vários autores estão nela colecionados, em número de 42. Foram todos escritos em hebraico e aramaico e traduzidos mais tarde para o latim, por São Jerônimo, na conhecida Vulgata Latina, no século quinto da nossa era. As igrejas católicas e protestantes reuniram a esse livro os Evangelhos de Jesus, dando a estes o nome geral de Novo Testamento.

O Evangelho, como se costuma designar o Novo Testamento, não pertence de fato à Bíblia. É outro livro, escrito muito mais tarde, com a reunião dos vários escritos sobre Jesus e seus ensinos. O Evangelho é a codificação da segunda revelação cristã. Traz uma nova mensagem, substituindo o deus-guerreiro da Bíblia pelo deus-amor do Sermão da Montanha. No Espiritismo não devemos confundir esses dois livros, mas devemos reconhecer a linha histórica e profética, a linhagem espiritual que os liga. São, portanto, dois livros distintos.

O Espiritismo

A antiga religião hebraica é geralmente conhecida como Mosaísmo, porque surgiu e se desenvolveu com Moisés. A nova religião dos Evangelhos é designada como Cristianismo, porque vem do ensino do Cristo. Mas, assim como nas páginas da Bíblia está anunciado o advento do Cristo, também nas páginas do Evangelho está anunciado o advento do Espírito de Verdade. Esse advento se deu no século passado, com a terceira e última revelação cristã, chamada revelação espírita. Cinco novos livros aparecem, então, escritos por Allan Kardec, mas ditados, inspirados e orientados pelo Espírito de Verdade e outros Espíritos Superiores. Os cinco livros fundamentais do Espiritismo, que têm como base O Livro dos Espíritos, representam a codificação da terceira revelação. Essa revelação se chama Espiritismo porque foi dada pelos Espíritos. Sua finalidade é esclarecer os ensinos anteriores, de acordo com a mentalidade moderna, já suficientemente arejada e evoluída para entender as alegorias e símbolos contidos na Bíblia e no Evangelho. Mas enganam-se os que pensam que a Codificação do Espiritismo contraria ou reforma o Evangelho.

Sentido histórico da Bíblia e a sua natureza profética

Qual a posição do Espiritismo diante do problema bíblico? Os recentes debates na televisão entre espíritas, pastores protestantes e sacerdotes católicos deram motivo a algumas incompreensões, das quais se aproveitaram adversários pouco escrupulosos da Doutrina Espírita, para lhe desfecharem novos e injustos ataques. Vamos procurar esclarecer, por estas colunas, a posição espírita, como já havíamos prometido.

Kardec define essa posição, desde O Livro dos Espíritos, como a de estudo e esclarecimento do texto, à luz da História e na perspectiva da evolução espiritual da Humanidade. No capítulo III desse livro, final do item 59, depois de analisar as contradições entre a Bíblia e as Ciências, no tocante à criação do mundo, ele declara: “Devemos concluir que a Bíblia é um erro? Não; mas que os homens se enganaram na sua interpretação”.

Essas palavras de Kardec, sustentadas através de toda a Codificação, esclarecem a posição espírita. Devemos reconhecer na Bíblia a sua natureza profética (ou seja: mediúnica), encerrando a I Revelação, no ciclo histórico das revelações cristãs. Esse ciclo começa com Moisés (I Revelação), define-se com Jesus (II Revelação) e encerra-se com o Espiritismo (III Revelação). Os leitores encontrarão explicações detalhadas a respeito em O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, que é um manual de moral evangélica. O conceito espírita de Revelação, porém, não é o mesmo das religiões em geral. Revelar é ensinar, e isso tanto pode ser feito pelos Espíritos (revelação divina) quanto pelos homens (revelação humana), mas não por Deus “em pessoa”, porque Deus age através de suas leis e dos Espíritos. A revelação bíblica, portanto, não pode ser chamada de “palavra de Deus”. Ela é tão-somente a palavra dos Espíritos-Reveladores, e essa palavra é sempre adequada ao tempo em que foi proferida. Isto é confirmado pela própria Bíblia, como veremos no decorrer deste estudo.

A expressão “a palavra de Deus” é de origem judaica. Foi naturalmente herdada pelo Cristianismo, que a empregou para o mesmo fim dos judeus: dar autoridade à Igreja. A Bíblia, considerada “a palavra de Deus”, reveste-se de um poder mágico: a sua simples leitura, ou simplesmente a audiência dessa leitura, pode espantar o Demônio de uma pessoa e convertê-la a Deus. Claro que o Espiritismo não aceita nem prega essa velha crendice, mas não a condena. A cada um, segundo suas convicções, desde que haja boa intenção.

Coisas terríveis e ingênuas figuram nos livros bíblicos

A palavra de Deus não está na Bíblia, mas na natureza, traduzida em suas leis. A Bíblia é simplesmente uma coletânea de livros hebraicos, que nos dão um panorama histórico do judaísmo primitivo. Os cinco livros iniciais da Bíblia, que constituem o Pentateuco mosaico, referem-se à formação e organização do povo judeu, após a libertação do Egito e a conquista de Canaã. Atribuídos a Moisés, esses livros não foram escritos por ele, pois relatam, inclusive, a sua própria morte.

As pesquisas históricas revelam que os livros da Bíblia têm origem na literatura oral do povo judeu. Só depois do exílio na Babilônia foi que Esdras conseguiu reunir e compilar os livros orais (guardados na memória) e proclamá-los em praça pública como a lei do judaísmo, ditada por Deus.

Os relatos históricos da Bíblia são ao mesmo tempo ingênuos e terríveis. Leia o estudante, por exemplo, o Deuteronômio, especialmente os capítulos 23 e 28 desse livro, e veja se Deus podia ditar aquelas regras de higiene simplória, aquelas impiedosas leis de guerra total, aquelas maldições horríveis contra os que não crêem na “sua palavra”. Essas maldições, até hoje, apavoram as criaturas simples que têm medo de duvidar da Bíblia. Muitos espertalhões se servem disso e do prestígio da Bíblia como “palavra de Deus”, para arregimentar e tosquiar gostosamente vastos rebanhos.

As leis morais da Bíblia podem ser resumidas nos Dez Mandamentos. Mas esses mandamentos nada têm de transcendentes. São regras normais de vida para um povo de pastores e agricultores, com pormenores que fazem rir o homem de hoje. Por isso, os mandamentos são hoje apresentados em resumo. O Espírito que ditou essas leis a Moisés, no Sinai, era o guia espiritual da família de Abrão, Isaac e Jacob, mais tarde transformado no Deus de Israel. Desempenhando uma elevada missão, esse Espírito preparava o povo judeu para o monoteísmo, a crença num só Deus, pois os deuses da antiguidade eram muitos.

O Espiritismo reconhece a ação de Deus na Bíblia, mas não pode admiti-la como “a palavra de Deus”. Na verdade, como ensinou o apóstolo Paulo, foram os mensageiros de Deus, os Espíritos, que guiaram o povo de Israel, através dos médiuns, então chamados profetas. O próprio Moisés era um médium, em constante ligação com Iavé ou Jeová, o deus bíblico, violento e irascível, tão diferente do deus-pai do Evangelho. Devemos respeitar a Bíblia no seu exato valor, mas nunca fazer dela um mito, um novo bezerro de ouro. Deus não ditou nem dita livros aos homens.

Como a palavra de Deus ficou sujeita ao homem

Os estudos bíblicos se processam no mundo em duas direções diversas: há o estudo normativo dos institutos religiosos, ligados às várias igrejas, que seguem as regras de hermenêutica e a orientação de pesquisas destas igrejas; e há o estudo livre dos institutos universitários independentes, que seguem os princípios da pesquisa científica e da interpretação histórica. O Espiritismo não se prende a nenhum dos dois sistemas, pois sua posição é intermediária. Reconhecendo o conteúdo espiritual da Bíblia, o Espiritismo a estuda à luz dos seus princípios, em harmonia com os métodos da antropologia cultural e dos estudos históricos.

Somente às religiões dogmáticas, que se apresentam como vias exclusivas de salvação, interessa o velho conceito da Bíblia como “a palavra de Deus”. Primeiro, porque esse conceito impede a investigação livre. Considerada como “a palavra de Deus”, a Bíblia é indiscutível, deve ser aceita literalmente ou de acordo com a “interpretação autorizada da igreja”. Por isso, as igrejas sempre se apresentam como “autoridade única na interpretação da Bíblia”. Segundo, porque essa posição corresponde aos tempos mitológicos, ao pensamento mágico, e não à era de razão em que vivemos.

Vimos rapidamente as contradições insanáveis em que se afundam os hermeneutas religiosos. Vêem-se eles obrigados a perigosas ginásticas do raciocínio, apoiadas em fórmulas pré-fabricadas, para se safarem das contradições do texto. Mas não escapam jamais à contradição fundamental, que é esta: consideram a Bíblia como “a palavra de Deus”, mas estabelecem, para sua interpretação, regras humanas. Dessa maneira, é o homem que faz Deus dizer o que lhe interessa.

Há no meio espírita alguns críticos agressivos da Bíblia. São confrades ilustres e estudiosos, que tomam essa posição em face das agressões religiosas à Doutrina, com base nos textos bíblicos. A posição da Doutrina, porém, não é essa, como já vimos em Kardec. As supostas condenações do Espiritismo pela Bíblia decorrem das interpretações sacerdotais. A Bíblia é um dos maiores repositórios de fatos espíritas de toda bibliografia religiosa. E os textos bíblicos estão eivados de passagens tipicamente espíritas, como veremos.

Toda a Bíblia está cheia dos fenômenos mediúnicos

O Espiritismo é apresentado por Kardec, sob a orientação do Espírito da Verdade, como uma seqüência natural do Cristianismo. É o cumprimento da promessa evangélica de Jesus, de enviar à Terra o Consolador, que completaria o seu ensino, esclarecendo os homens a respeito daquilo que ele só pudera ensinar através de alegorias, no seu tempo. Os homens de então não estavam em condições de compreender o fenômeno natural da comunicação espírita, que misturavam com sistemas de magia e interpretações supersticiosas. Em A Gênese, Kardec esclarece, no capítulo I, que era necessária a evolução das ciências, o progresso dos conhecimentos, o desenvolvimento intelectual, para que o Espiritismo fizesse seu aparecimento, como doutrina, em nosso mundo.

Assim sendo, o Espiritismo tem como base as Escrituras, tem seus fundamentos na Bíblia. Mas é claro que o conceito espírita da Bíblia não pode ser igual ao das religiões que ficaram no passado, apegadas às formas sacramentais de magia, aos ritos materiais e aos cultos exteriores do próprio paganismo. A Bíblia não pode ser, para o espírita esclarecido, “a palavra de Deus”, pois é um livro escrito pelos homens, como todos os outros livros, e é, principalmente, um conjunto de livros em que encontramos de tudo, desde as regras simplórias de higiene dos judeus primitivos até as lendas e tradições do povo hebreu, misturadas às heranças dos egípcios e babilônios. O Espiritismo ensina a encarar a Bíblia como um marco da evolução religiosa na Terra, mas não faz dela um novo bezerro de ouro.

É difícil falarmos da Bíblia a pessoas apegadas ao processo de fanatismo religioso de algumas seitas obscurantistas, que chegam, em pleno século vinte, ao cúmulo de renegarem a cultura, para só aceitarem os escritos judeus da época das civilizações agrárias. São pessoas simples e crentes, que merecem o nosso respeito, mas inteiramente incapazes de compreender o problema bíblico. Isso, entretanto, não deve impedir-nos de esclarecer esse problema à luz dos princípios espíritas. A Bíblia não condena o Espiritismo. Pelo contrário, a Bíblia confirma o Espiritismo, como demonstraremos. Basta lembrar o caso de Samuel, atormentado pelo espírito mau, aliviado pela mediunidade de Davi, que usava a música para afastá-lo. Caso típico de mediunidade curadora, constante de Samuel 16:14-23. E o colégio de médiuns que acompanhava Moisés no deserto? E assim por diante, da primeira à última página da Bíblia. Mas o pior cego é aquele que não quer enxergar.

Professor de teologia defende a interpretação espírita da Bíblia

Numa insistência verdadeiramente desanimadora, certas seitas religiosas que fazem do combate ao Espiritismo a sua principal tarefa, alegam sempre que os espíritas têm medo da Bíblia. Num debate de TV, o reitor de um instituto bíblico protestante chegou a declarar aos espíritas presentes, de Bíblia em punho: “Vocês não querem ouvir a palavra de Deus, mas hoje vão ouvir!” Na sua ingenuidade, pensava que a leitura da Bíblia poria os espíritas a correr.

Outro pastor, chefe de uma seita por ele mesmo fundada, escandalizou-se quando afirmamos que a Bíblia não é “a palavra de Deus”, e ingenuamente perguntou-nos: “Mas o Senhor tem a coragem de dizer uma coisa dessas na frente do povo de São Paulo?” Mais tarde, esquecendo os seus deveres religiosos de honestidade e respeito à verdade, promoveu uma campanha sistemática, pelo rádio, de desvirtuamento das nossas declarações. Pensava, certamente, que Deus aprovava sua “bonita” atitude.

Alguns espíritas, por sua vez, ficaram assustados com a nossa audácia. Achavam que poderíamos afastar do Espiritismo os crentes na Bíblia. Esqueceram-se de que o Espiritismo não se interessa por quantidade de adeptos, mas pela sua qualidade. Espíritas que se assustam com a verdade sobre a Bíblia estão ainda longe de compreender a Doutrina. Foi por isso tudo que resolvemos enfrentar o tema durante algum tempo, nesta seção[1]. É necessário que se diga a verdade, que se esclareça o povo, em vez de deixá-lo iludido por expressões como “a palavra de Deus”, que servem apenas para os que não querem estudar o problema bíblico em sua realidade histórica, religiosa e cultural.

Os que vivem gritando, de Bíblia em punho, que o Espiritismo é condenado pela Bíblia, não conhecem uma coisa nem outra. Ignoram o que seja a Bíblia e não têm a mais leve noção de Espiritismo. No dia em que conhecerem ambas as coisas, terão vergonha de suas acusações atuais. Se essas pessoas gostassem de ilustrar-se um pouco, indicaríamos a elas a leitura de alguns livros de ilustres figuras protestantes. Por exemplo, o livro de Haraldur Nielsson, teólogo, tradutor da Bíblia para o islandês e professor de teologia da Universidade da Islândia, intitulado: O Espiritismo e a Igreja[2]. É um livrinho pequeno, que ainda agora aparece em nova edição brasileira e está nas livrarias. Nesse livro, os nossos acusadores terão o testemunho de um membro da Sociedade Bíblica Inglesa, que não se tornou espírita, mas que reconhece a natureza dos livros bíblicos. Ele protesta contra as afirmações, sempre levianas, de que a Bíblia condena as manifestações espíritas e as sessões de Espiritismo.

Ensinou o apóstolo Paulo: a Bíblia é um livro mediúnico

A origem mediúnica das religiões é hoje uma tese provada pelas pesquisas antropológicas e etnológicas. Só os materialistas a rejeitam. Os interessados podem estudar o assunto no livro do professor Ernesto Bozzano, Povos Primitivos e Manifestações Supranormais, ou em nosso livro O Espírito e o Tempo, lançado pela Editora Pensamento, nesta capital. A origem da Bíblia é um capítulo natural desse processo geral que originou as religiões. Os leitores podem encontrar material a respeito no livro do professor Romeu do Amaral Camargo, De Cá e de Lá, no meu livro já citado e em Os 3 Caminhos de Hécate, editado pela Edicel.

Mas não pense o leitor que são os espíritas que afirmam a origem mediúnica da Bíblia. Quem afirmou foi o apóstolo Paulo, quando declarou peremptoriamente: “Vós recebestes a lei por ministério de anjos”, isto em Atos, 7:53, explicando ainda em Hebreus 2:2: “Porque a lei foi anunciada pelos anjos”, e confirmando na mesma epístola, 1:14: “Espíritos são administradores, enviados para exercer o ministério”. Antes, em Hebreus, 1:7, Paulo, depois de advertir que Deus havia falado de muitas maneiras aos profetas, acrescenta: “Sobre os anjos, diz: o que faz os seus anjos espíritos e os seus ministros chamas de fogo”.

Está claro que os anjos são espíritos, reveladores das leis de Deus aos homens, como afirma o Espiritismo. Paulo vai mais longe, afirmando em Atos 7:30-31, que Deus falou a Moisés através de um anjo na sarça ardente. Veja-se o que ficou dito acima: os anjos são espíritos, ministros de Deus, que o faz chama do fogo, nas aparições mediúnicas. O reverendo Haraldur Nielsson, em seu livro O Espiritismo e a Igreja, ele que foi o tradutor da Bíblia para o islandês, a serviço da Sociedade Bíblica Inglesa, afirma que o Cristo é muitas vezes chamado no Evangelho, no original grego, de “pneuma”, depois da ressurreição. E “pneuma” quer dizer espírito. Da mesma maneira, lembra que Paulo, em Hebreus, 12:9, refere-se a Deus como “Deus dos Espíritos”. Lembra ainda que as manifestações dos Espíritos, nas sessões que realizou com o bispo Hallgrimur Svenson em Reikjavik, eram na forma de línguas de fogo. Essas manifestações confirmavam que o anjo da sarça ardente e os fenômenos do Pentecoste foram mediúnicos.

O que falta aos acusadores do Espiritismo é estudo. Se pusessem o seu dogmatismo de lado e estudassem um pouco, haveriam de compreender essas coisas. A Bíblia foi inspirada pelos Espíritos, como mensageiros de Deus, no tocante aos seus livros proféticos, que chamamos de mediúnicos. Os livros históricos e de legislação civil receberam também a colaboração dos Espíritos. A Bíblia, pois, é um livro mediúnico que não pode condenar o Espiritismo, pois estaria se condenando a si mesma.

Comunicações de Espíritos e materialização na Bíblia

O ministério dos anjos, esse ministério divino, a que o apóstolo Paulo se referiu tantas vezes, é exercido através da mediunidade. A própria Bíblia nos relata uma infinidade de comunicações mediúnicas. Veja-se, por exemplo, as palavras do rei Samuel, em Provérbios, 31:1-9, que, segundo o texto bíblico, são “a profecia com que lhe ensinou sua mãe”. Temos ali uma comunicação espírita integralmente reproduzida na Bíblia. A mãe do rei Samuel (não em forma de anjo, mas na sua própria forma humana) aparece ao Rei e lhe dita a mensagem.

A Bíblia condenou essa comunicação? Não. Pelo contrário, aprovou-a e transcreveu-a. Em Números 11:23-25, temos a descrição de dois fatos mediúnicos valiosos. Primeiro, o Senhor fala a Moisés. Depois, Moisés reúne os setenta anciãos, formando uma roda, e o Senhor se manifesta materialmente, descendo numa nuvem. Temos a comunicação pessoal de Jeová a Moisés, e a seguir o fenômeno evidente de materialização de Jeová, através da mediunidade dos anciãos, reunidos para isso na tenda. A nuvem é a formação de ectoplasma na qual o espírito se corporifica.

Só os que não conhecem os fenômenos espíritas podem aceitar que ali se deu um milagre, um fato sobrenatural. E podem aceitar, também, a manifestação do próprio Deus. Longe disso. Jeová era o espírito protetor de Israel, que se apresentava como Deus, porque a mentalidade dos povos do tempo era mitológica, e os espíritos eram considerados deuses. O filósofo Tales de Mileto já dizia, na Grécia, cinco séculos antes de Cristo: “O mundo é cheio de deuses”. Os espíritos elevados eram considerados deuses benéficos, e os espíritos inferiores eram deuses maléficos. Daí a invenção do Diabo, como concorrente de Deus no domínio do mundo e das almas.

Deuses, anjos e demônios, da Bíblia, dos Vedas, do Alcorão, de todos os livros sagrados, nada mais são do que espíritos. Como podem essas criaturas condenar o Espiritismo? Elas são a prova tradicional da verdade espírita, ao longo da História, como ensina Kardec. O que Moisés condenou foi apenas o abuso da mediunidade. Isso o Espiritismo também condena.

Moisés proibiu precisamente o que o Espiritismo proíbe

A condenação do Espiritismo pela Bíblia, que é a mais citada e repetida, figura no capítulo 18 do Deuteronômio. É a condenação de Moisés, que vai do versículo 9 ao 14. A tradução, como sempre, varia de um tradutor para outro, e às vezes nas diversas edições da mesma tradução. Moisés proíbe os judeus, quando se estabeleceram em Canaã, de praticar estas abominações: fazer os filhos passarem pelo fogo; entregar-se à adivinhação, prognosticar, agourar ou fazer feitiçaria; fazer encantamento, necromancia, magia, ou consultar os mortos. E Moisés acrescenta, no versículo 14: “Porque essas nações, que hás de possuir, ouvem os prognosticadores e os adivinhadores, porém a ti o Senhor teu Deus não permitiu tal coisa”. Assim está na tradução de Almeida, mas variando de forma, por exemplo, na edição das Sociedades Bíblicas Unidas e na edição mais recente da Sociedade Bíblica do Brasil.

Na primeira dessas edições (ambas da mesma tradução de João Ferreira de Almeida) lê-se, por exemplo: “quem pergunte a um espírito adivinhante”, e na segunda: “quem consulte os mortos”. Na tradução de Antonio Pereira de Figueiredo, lê-se: “nem quem indague dos mortos a verdade”. Qual delas estará mais de acordo com o texto? Seja qual for, pouco importa, pois a verdade dita pelos mortos ou pelos vivos (estes, mortos na carne) é que tudo isso que Moisés condena, também o Espiritismo condena. Não esqueçamos, porém, de que a condenação de Moisés era circunstancial, pois os povos de Canaã, que os judeus iam conquistar a fio de espada, eram os que praticavam essas coisas. Mas a condenação do Espiritismo é permanente e geral, pois o Espiritismo, sendo essencialmente cristão, não se interessa por conquistas guerreiras e não faz divisão entre os povos.

Kardec adverte em O Evangelho segundo o Espiritismo, livro de estudo das partes morais do Evangelho: “Não soliciteis milagres nem prodígios ao Espiritismo, porque ele declara formalmente que não os produz”. (capítulo XXI, item 7). Em O Livro dos Médiuns, Kardec adverte: “Julgar o Espiritismo pelo que ele não admite é dar prova de ignorância e desvalorizar a própria opinião” (primeira parte, capítulo II, item 14). Em A Gênese e em O Livro dos Espíritos, como nos já citados, Kardec esclarece que a finalidade da prática espírita é moralizar os homens e os povos. Quem conhece o Espiritismo sabe que todo interesse pessoal, particular, é rigorosamente condenado. Adivinhações, agouros, feitiçaria, encantamentos, consultas interesseiras, são práticas de magia antiga, que Moisés condenou, como o Espiritismo condena hoje. Mas o próprio Moisés aprovou a mediunidade moralizadora, a prática espiritual da relação com o mundo invisível, como veremos.

Moisés praticava e desejava a mediunidade bem orientada

As pretensas condenações da Bíblia ao Espiritismo são condenações das práticas de magia, que os judeus haviam aprendido na Babilônia e no Egito, e que iriam encontrar também em Canaã, pois os cananitas (habitantes da Palestina) como todos os povos antigos, davam-se a essas práticas. Mas nos mesmos livros da Bíblia, em que aparecem essas condenações, há numerosas ordenações que os mais aferrados seguidores da Bíblia não obedecem. Um pastor nos respondeu, em programa de televisão, que a sua igreja cumpria a palavra de Deus pela metade. O que vale dizer que a palavra de Deus é por ela desrespeitada. Preferimos cumprir a palavra de Deus integralmente, e por isso evitamos confundi-la com as palavras humanas e com a legislação envelhecida de povos antigos.

Conforme prometemos, vamos hoje demonstrar que Moisés, o grande legislador judeu, médium de excepcionais faculdades, não condenou, mas praticou a mediunidade e desejava vê-la praticada pelo seu povo. Quanto à prática da mediunidade por Moisés, não precisamos fazer novas citações. Ele recebia espíritos, conversava com espíritos, evocava espíritos, e além disso fazia-se acompanhar no deserto por uma equipe de médiuns, provocando até mesmo fenômenos de materialização. Isso tudo já demonstramos. Mas vamos agora a um episódio que pastores e padres não citam, mas que está na Bíblia, em todas as traduções.

O professor Romeu do Amaral Camargo, que foi diácono da I Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, comenta esse episódio em seu livro espírita De cá e de Lá. É o constante do livro de Números, capítulo 11, versículos 26 a 29. Foi logo após a reunião dos setenta médiuns na tenda, para a manifestação de Jeová.

Dois médiuns haviam ficado no campo: Eldad e Medad. E lá mesmo foram tomados e profetizavam, ou seja, davam comunicações de espíritos. Um jovem correu e denunciou o fato a Josué. Este pediu a Moisés que proibisse as comunicações.

A resposta de Moisés é um golpe de morte em todas as pretensas condenações do Espiritismo pela Bíblia. Eis o que diz o grande condutor do povo hebreu: “Que zelos são esses, que mostras por mim? Quem dera que todo o povo profetizasse, e que o Senhor lhe desse o seu espírito!” Comenta o professor Camargo: “Médium de extraordinárias faculdades, Moisés sabia que Eldad e Medad não eram mercenários nem mistificadores, não procuravam comunicar-se com o mundo invisível, mas eram procurados pelos espíritos”. Como acabamos de ver, Moisés aprovava a mediunidade pura que o Espiritismo aprova e defende. Mas o pior cego é o que não quer ver, principalmente quando fechar os olhos é conveniente e proveitoso.

Jeová dá lições sobre formas de mediunidade

Jeová ou Iavé, o Deus de Israel, como já vimos anteriormente, era o Espírito Guia do povo hebreu. Para os povos antigos, os Espíritos eram Deuses e o Deus de cada povo era a Divindade Suprema. Esse o motivo pelo qual Jeová se apresentava ao seu povo como se fosse o próprio Deus único. E como se apresentava ele? Através da mediunidade, ensinando aos homens rudes do tempo as verdades espirituais que deveriam frutificar no futuro. É por isso que encontramos, nas páginas da Bíblia, não só o relato de fenômenos espíritas ocorridos com o povo hebreu, mas também ensinamentos precisos e claros sobre a mediunidade.

Logo após os episódios que comentamos, com fenômenos de materialização e de comunicações, O Livro dos Médiuns fornece-nos outros, em que vemos Jeová ensinar que a mediunidade tem várias formas, como o ensina hoje o Espiritismo. A Bíblia está cheia desses ensinos, que só não vêem os cegos ou os que não querem ver. Basta o leitor ler a Bíblia, de qualquer tradução, católica ou protestante, no Livro de Números, capítulo 12. Pode ler todo o capítulo, ou apenas os versículos 5 a 8. Nestes versículos, Jeová dá aos hebreus uma das lições que só muito mais tarde apareceria de novo, mas então em O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec. Vejamo-la.

Miriam e Aarão falavam mal de Moisés, por haver ele tomado uma nova mulher, de origem cusita (era a mulher negra de Moisés). Ora, Jeová não gostou disso e subitamente “desceu da nuvem”, para repreendê-los. Descer da nuvem é materializar-se, pois a nuvem é simplesmente a formação de ectoplasma, como a Bíblia deixa bem claro nos seus relatos. Imagina-se o Senhor do Universo, o Deus-Pai do Evangelho, fazendo esse papel de alcoviteiro! Seria absurdo tomarmos esse Jeová, sempre imiscuído nos assuntos domésticos, pelo próprio Deus! Como espírito-guia, podemos compreendê-lo. E é como espírito-guia que ele repreende os maldizentes, castiga Miriam, mas antes ensina:

Primeiro, diz ele que pode manifestar-se aos profetas (médiuns) por meio de visão (da vidência) ou de sonhos. Depois, lembrando que Moisés é o seu instrumento para direção do povo, esclareceu: “Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa”, e acrescenta: “Boca a boca falo com ele, claramente, e não por enigmas”. Cinco formas da mediunidade figuram no ensino bíblico: 1) a de vidência; 2) a de desprendimento, ou sonambúlica; 3) a de materialização; 4) a de voz-direta; e 5) a de audiência. O próprio Jeová ensinava a mediunidade, como o apóstolo Paulo, em I Coríntios, ensinaria mais tarde a fazer uma sessão mediúnica.

Deuteronômio confirma mediunidade de Moisés

Quem conhece o Deuteronômio, livro Bíblico sempre citado contra o Espiritismo, sabe que os seus melhores episódios são de ordem declaradamente mediúnica. O próprio Moisés é constantemente citado como “mediador entre Deus e o povo”. A palavra “médium” é moderna, mas quer dizer o mesmo que “mediador”. A modernização dos textos bíblicos, feita por várias igrejas, chegou a incluir a palavra “médium” numa tradução clássica da nossa língua, mas somente quando aplicada para combater o Espiritismo. Nenhum revisor sagrado das nossas traduções clássicas foi capaz da necessária coerência, substituindo a palavra “mediador”, que se refere a Moisés, pela “perigosa” palavrinha espírita. Mas o leitor perspicaz, mesmo que não seja espírita, logo percebe a manobra.

O capítulo 5 do Deuteronômio é inteiramente mediúnico. Mas convém lembrar que os sucessos desse capítulo são mais bem compreendidos quando lemos o Êxodo, caps. 18 a 20. Nos versículos 13 a 16, do capítulo 18, vemos Moisés diante do povo, para ser o mediador, o intérprete – mas na verdade o médium, – entre Deus e o povo. No capítulo 5, versículos 22 a 31, do Deuteronômio, temos uma bonita descrição de conhecidos fenômenos mediúnicos: o monte Horebe envolto em chamas, a nuvem de fluidos ectoplásmicos (materializantes) e a voz-direta de Jeová, que falava do meio do fogo, sem se apresentar ao povo; e Moisés, como sempre, servindo de intermediário, na sua função mediúnica. Por fim, Jeová recomenda a Moisés que mande o povo embora, mas permaneça com ele, para receber as demais instruções (Deuteronômio, 5:30-31).

No famoso capítulo 18 de Deuteronômio, tão citado contra o Espiritismo, logo após os versículos das proibições, temos a promessa de Jeová, de que suscitará um grande profeta para auxiliar e orientar o povo. Como fazia com Moisés, o próprio Jeová promete que porá as suas palavras na boca desse novo médium. Não obstante, sabendo que todo médium está sujeito a envaidecer-se e dar entrada a espíritos perturbadores, Jeová determina que o profeta seja morto, “se falar em nome de outros deuses”.

Esta passagem (capítulo 18, versículo 20) é uma confirmação bíblica do ensino espírita de que, naquele tempo, os espíritos eram chamados “deuses”. Jeová era espírito-guia do povo hebreu, e por isso considerado como o seu deus, o único verdadeiro. Mas os profetas de Jeová podiam receber outros deuses, como Baal, Apolo ou Zeus, pelo que a proibição bíblica nesse sentido é terrível e desumana, como podemos ver nos textos. A evolução espiritual do povo hebreu permitiria a Jesus vir corrigir esses abusos e substituir a concepção bárbara de Deus dos Exércitos pela concepção evangélica do Deus-Pai, cheio de amor com todas as criaturas.

Como os homens conseguem amoldar a palavra de Deus

Entre as curiosas contradições dos que aceitam a Bíblia como “a palavra de Deus”, podemos citar o caso das alterações do texto, com a finalidade de adaptá-lo a interesses sectários. Essas alterações vêm de longe e constituem um dos campos mais interessantes dos estudos bíblicos. Kardec menciona, no capítulo IV de O Evangelho segundo o Espiritismo, uma referência livre de Jó à reencarnação, que aparece modificada na tradução católica de Sacy (francesa), na tradução protestante de Osterwald e na tradução da Igreja Ortodoxa Grega. Nesta última, que é a mais próxima do texto original, o princípio da reencarnação está evidente.

Outra citação de Kardec, no mesmo capítulo, é de Isaías (capítulo 26, versículo 19) em que a expressão bíblica é bastante clara: “os teus mortos viverão; os meus, a quem deram vida, ressuscitarão”. Essa passagem, como outras, é adaptada nas traduções, para esconder a crença dos profetas na reencarnação. O texto de Jó (capítulo 14, versículos 10-14), aparece desta maneira na versão grega ortodoxa: “Quando o homem está morto, vive sempre; findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente”.

Temos aí uma síntese admirável do princípio da reencarnação, de pleno acordo com o Espiritismo: morto o homem, não fica enterrado, mas ressuscita no corpo espiritual, como ensina o apóstolo Paulo. Ressuscitado, espera no mundo espiritual o momento de voltar à vida terrena, a fim de prosseguir no seu desenvolvimento. Todas as alterações, como se vê, caem fragorosamente diante dos estudos críticos da Bíblia, que revelam o verdadeiro sentido dos textos desfigurantes. E cada alteração corrigida mostra que os textos originais confirmam os princípios do Espiritismo.

Mas as alterações não se deram apenas no passado. Dão-se agora mesmo, aos nossos olhos. Examine o leitor a última edição da Bíblia feita pela Sociedade Bíblica do Brasil e impressa em São Paulo, nas oficinas da “Impress”. A tradução portuguesa é a clássica, de João Ferreira de Almeida, mas “revista e atualizada no Brasil”. A revisão implicou a mudança de palavras, às vezes com a finalidade de enquadrar o Espiritismo nas condenações bíblicas às práticas da antiga magia. É assim que, em I Samuel, como título do capítulo 28, encontramos o seguinte: “Saul consulta a médium de En-Dor”. E também no texto a palavra espírita “médium” foi incluída. Mas no capítulo 18 de Deuteronômio foram conservadas as expressões antigas: “adivinhos e feiticeiros”. Que diria disso o bom padre Almeida? Como se vê, a palavra de Deus é moldada pelos homens, conforme as suas conveniências.

Expressões e palavras desfiguradas na Bíblia

Estamos vivendo uma fase de intensa reformulação dos textos bíblicos. A palavra de Deus vem sendo alterada, modificada e muitas vezes arranjada, de acordo com os interesses dos homens. Já existe mesmo uma tradução da Bíblia que se diz aceitável pelos materialistas. A velha discussão sobre a Vulgata Latina levou os novos tradutores a recorrerem ao texto hebraico. A tradução clássica do padre Figueiredo, segundo a Vulgata, é acusada de suspeita, preferindo-se a do padre Almeida, que como vimos, também já foi modificada. O religioso esclarecido sabe muito bem que as versões antigas da Bíblia estão superadas. Mas há os que nada entendem e consideram o velho livro como intocável e imutável. Esses acreditam cegamente nas pretensas condenações ao Espiritismo. Para eles, só podemos repetir as palavras de Jerônimo de Praga, quando uma velhinha beata levou mais uma acha de lenha para a fogueira em que o queimaram: “Sancta Simplicitas”.

A tradução dinamarquesa da Bíblia não trata dos dons espirituais. O teólogo Haraldur Nielsson explica-nos a razão dessa aparente discrepância. Pasmem os defensores do dogma da graça, que consideram Deus como chefe do partido a que pertencem! O tradutor categorizado da Bíblia para o islandês, o rev. Nielsson, que fez a tradução a serviço da Sociedade Bíblica Inglesa, declara: “No texto grego está a palavra Espíritos e não a expressão Dons Espirituais”. E acrescenta: “Em muitas traduções da Bíblia, esta passagem foi verificada de maneira confusa apesar de não haver a menor dúvida quanto à verdadeira significação dos termos gregos do texto original: epei zelotai este pneumaten”.

Nielsson adverte ainda que os tradutores e revisores da Bíblia nem sempre tiveram a coragem de traduzir com exatidão os textos originais que se referem claramente à comunicação dos Espíritos. E faz, corretamente, uma grave denúncia: “Os teólogos prenderam os seus sistemas em pesadas e estreitas cadeias”. A Bíblia, estudada segundo o espírito que vivifica, sem os prejuízos da letra que mata, revela a sua face espirítica e portanto mediúnica, como o demonstra o rev. Nielsson e como afirmou Kardec. Trataremos mais amplamente dos Dons Espirituais.

Epístolas testemunham mediunidade apostólica

A expressão Dons Espirituais, como a expressão Espírito Santo, não aparece nos textos bíblicos originais. O rev. Nielsson declara, com sua autoridade de teólogo e tradutor da Bíblia: “Os termos da Vulgata Latina, spiritum bonum, correspondem exatamente aos dos originais gregos. A Vulgata não fala absolutamente em Espírito e Espírito Santo”. Isso, no tocante ao Novo Testamento, pois no Velho só se fala em Espírito e Espírito de Deus. Quanto aos Dons Espirituais, a situação é a mesma. Essa expressão aparece apenas nos textos paulinos, com a palavra grega charismata, que significa literalmente mediunidade, ou seja, a graça de ser intermediário entre os Espíritos e os Homens.

Os estudos do Rev. Haraldur Nielsson, enfeixados no livrinho O Espiritismo e a Igreja, recentemente lançado, esclarecem bem este assunto. Nielsson nos mostra, com sua imensa autoridade, que a palavra transe vem da Bíblia, derivando diretamente de êxtase. Eis uma das suas afirmações: “O próprio Paulo nos diz que estava freqüentemente em transe. O apóstolo Pedro conta-nos a mesma coisa”. E a propósito de João e sua advertência para examinarmos “se os Espíritos são de Deus”, lembra que Paulo também adverte que: “… ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz anátema contra Jesus…” (I Coríntios, 12:3).

A mediunidade era usada entre os judeus e entre os cristãos primitivos, e Nielsson acentua textualmente: “Segundo a concepção dos tempos apostólicos, os Espíritos podiam ser bons ou maus, muito evoluídos ou inferiores e atrasados”. Isto explica as advertências apostólicas, pois nas assembléias cristãs manifestavam-se também os maus Espíritos, amaldiçoando o Cristo para defenderem o Judaísmo ortodoxo ou mesmo para defenderem as religiões politeístas, que também usavam a mediunidade.

Vemos assim como são inúteis os ataques ao Espiritismo em nome da Bíblia, que é um livro mediúnico, e como os espiritistas e o Espiritismo nada têm a temer da Bíblia. É preciso apenas mostrar a verdade sobre a Bíblia, separar o que há nela de humano e divino, não aceitá-la de olhos fechados, dogmaticamente, como “a palavra de Deus”, o que é simples absurdo proveniente de épocas de fanatismo. A Bíblia é muito valiosa para os espiritistas estudiosos, porque é o maior e mais vigoroso testemunho da verdade espírita na Antigüidade.

Como os apóstolos faziam as suas sessões espíritas

Qual era o culto dos cristãos na Igreja Primitiva? Que responda o apóstolo Paulo, na I Epístola aos Coríntios. Nas suas instruções para a celebração da ceia, (I Coríntios, 11:17-34), Paulo nos mostra que esta era simbólica e memorial. Não se tratava propriamente de uma ceia, mas de uma cerimônia religiosa, e os participantes já deviam ter tomado em casa o seu alimento, para não perturbarem a reunião. Comia-se o pão e bebia-se o vinho. Um pequeno pedaço de pão e uma pequena taça de vinho, em memória do Senhor. Veja-se a advertência do versículo 34: “Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo”.

A cerimônia simbólica de pão e de vinho não era privativa dos cristãos. Os próprios cananitas a usavam, a ceia maçônica primitiva se constituía dela e as religiões idólatras a praticavam para os pagãos; o pão representava a deusa Ceres e o vinho o deus Dionísio. Para os cristãos, o pão representava a matéria e o vinho o espírito. A união do espírito com a matéria produzia a “comunhão”, que tanto pode ser a encarnação do espírito quanto a incorporação, o nascimento do ser humano ou a união do espírito com o profeta para a transmissão da comunicação mediúnica.

Os profetas eram chamados “pneumáticos”, na expressão grega do texto, que quer dizer: cheios de espírito. Havia dois tipos de espíritos: os de Deus, que eram bons, e os do mundo, que eram maus. A respeito das comunicações, Paulo é incisivo: “A manifestação do espírito é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso”. Reunidos os pneumáticos à mesa, em ordem, não se devia permitir o tumulto. Paulo avisa: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem”. Do capítulo 11 ao 14 Paulo ensina como se fazia a reunião “pneumática” da Igreja Primitiva, e essas regras são as mesmas das sessões mediúnicas de hoje.

O dogmatismo desfigurou a pureza do texto, através de interpretações errôneas ou capciosas. Mas, apesar disso, o texto conserva o sentido verdadeiro, mesmo nas traduções atualizadas. As citações acima são da tradução de Almeida, na recente edição da Sociedade Bíblica do Brasil, na qual foi introduzida a palavra “médium”. O estudo das expressões de Paulo nessa epístola, à luz dos estudos históricos e em confronto com todo o contexto escriturístico, mostra que os apóstolos e os cristãos primitivos faziam sessões espíritas. E mostra mais: que nessas sessões, como nas atuais, manifestavam-se espíritos bons e maus; aqueles, dando instruções e estes, necessitando de orientação espiritual. Para esconder sua verdade, foram necessárias as “pesadas e estreitas cadeias” de que fala o rev. Haraldur Nielsson em seu livro O Espiritismo e a Igreja.

Deus morre quando os homens se apegam à letra que mata

Revistas inglesas, norte-americanas, alemãs e francesas vêm há meses anunciando a morte de Deus. Uma revista brasileira aproveitou o assunto e os dados das revistas estrangeiras. Não há nenhuma novidade no assunto, que outras publicações do mundo inteiro vão repetindo. Nem se trata de campanha contra a idéia de Deus, como pretendem alguns religiosos de vistas curtas. Simples questão de interesse jornalístico. Mas a verdade é que tudo começou com os teólogos, os doutores da ciência de Deus, que já não sabem mais o que fazer com essa ciência.

A existência de ateus e a propagação do ateísmo não são novidades. Os ateus já dominam politicamente mais da metade do mundo. Ideologicamente representam a maioria das pessoas cultas. Para todos eles, Deus já morreu há muito tempo. As igrejas são importantes para devolver-lhes a fé. Esse o motivo do desespero dos teólogos, que chegam à conclusão de que Deus está morrendo e é necessário salvá-lo. Mas é preciso não confundir Deus com a concepção antropomórfica de Deus. O que está morrendo, e ninguém jamais conseguirá reabilitá-la, é essa concepção, oferecida ingenuamente pelos pregadores bíblicos a um mundo que não vive mais a fase agrária da civilização judaica antiga.

Os fanáticos da Bíblia não podem evitar a morte de Deus. Quanto mais falarem e escreverem sobre Deus, mais o afastarão do espírito arejado dos homens modernos. Porque a idéia de um Deus semelhante ao homem só podia servir para criaturas ingênuas, numa fase primária da evolução humana. Enquanto os teólogos, os pregadores, os religiosos em geral, não se convencerem de que as Escrituras Sagradas não são tabus e devem ser estudadas no seu espírito, sem apego à letra, nada poderão fazer contra o ateísmo.

A concepção bíblica de Deus é alegórica, como já afirmamos numerosas vezes. O Livro dos Espíritos ensina isso desde as suas primeiras páginas. A própria Bíblia proíbe que façamos imagens de Deus, pois essas imagens são perecíveis. Quando elas morrem, Deus pode morrer na alma desolada dos crentes. Se quisermos evitar a morte de Deus na consciência humana, evitemos o literalismo bíblico e a idolatria. Uma imagem mental de Deus é também um ídolo perecível, e quem a cultua não é menos idólatra que os adoradores de imagens materiais. A concepção espírita de Deus está acima dessas controvérsias teológicas. O Deus espírita não é um ídolo, mas aquela realidade que, como dizia Descartes, está na consciência do homem como a marca do artista na sua obra.

Jesus proclamou em Nazaré o ano agradável ao Senhor

Jesus declarou, na sua prédica primeira na Sinagoga de Nazaré, ao ler Isaías e interpretá-lo: “O espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos e proclamar o ano aceitável do Senhor”. É o que consta dos versículos 18 a 19 do capítulo 4 do Evangelho de Lucas, tradução de Almeida, revista e atualizada no Brasil. Outras traduções mencionam, em lugar de “ano aceitável” o “ano agradável ao Senhor”.

Esse ano era uma tradição judaica a que o Levítico se refere de maneira minuciosa (25:1-34). Havia o ano Sétimo, o Sábado do Senhor, por analogia com a semana, que era o ano do descanso da terra cultivada. E havia o Ano do Jubileu, ou Quinquagésimo, que era o da Justiça, caracterizado na proclamação de Jesus. De cinqüenta em cinqüenta anos se procedia a uma verdadeira reforma da estrutura agrária do Estado para o reequilíbrio das condições sociais, com libertação dos escravos. Jesus serviu-se dessa tradição para anunciar a sua missão como a proclamação do Ano Agradável ao Senhor, ou seja, de uma nova fase da vida na Terra.

Um famoso pastor, o rev. Stanley Jones, chamado o Cavaleiro do Reino de Deus, estudou essa tradição em suas ligações com o Cristianismo dos primeiros tempos, demonstrando que os cristãos primitivos queriam realmente estabelecer na Terra o Ano Agradável ao Senhor. A idéia do Novo Ano como oportunidade de renovação, de volta do homem para Deus e de sujeição das leis humanas às leis de Deus vem das próprias Escrituras. Em O Livro dos Espíritos, de Kardec, obra básica do Espiritismo, essa idéia se traduz num esforço profundo de renovação pessoal e social, afirmando os Espíritos que a função da doutrina é renovar o mundo para aproximá-lo das leis de Deus cujo centro de gravitação é a “Lei de Justiça, Amor e Caridade”, estudada num capítulo especial.

Aproveitemos a oportunidade do Novo Ano para ler esse capítulo (terceira parte, capítulo XI) de O Livro dos Espíritos e meditar sobre as palavras de Jesus na proclamação de Nazaré. O Cristianismo é o foco central de um processo histórico que vem do Judaísmo e se desenvolve no Espiritismo, segundo a promessa de Jesus no Evangelho de João. A finalidade do Espiritismo é estabelecer na Terra o Ano Agradável ao Senhor, com a substituição do egoísmo e da ambição do homem velho pelo amor e a fraternidade do homem novo. Que o Novo Ano nos ajude nessa renovação cristã.

A Gênese explicada à luz dos princípios espíritas

O Espiritismo rejeita a concepção bíblica da gênese ou procura explicá-la? Como temos dito, repetindo afirmações de Kardec e Léon Denis, o Espiritismo é a grande síntese do conhecimento. Originada pelo desenvolvimento histórico do Cristianismo, essa síntese obedece à orientação do Cristo: não vem destruir ou negar, mas confirmar e explicar. No caso da criação do mundo e do homem, segundo a Bíblia, ele confirma a realidade na alegoria e dá a explicação desta. Impossível tomar-se hoje a Bíblia ao pé da letra. É necessário penetrar o sentido dos seus símbolos, dos seus mitos, das suas alegorias.

No capítulo IV de A Gênese, Kardec estuda o problema à luz das conquistas científicas do seu tempo. Mostra que o poema bíblico da Criação é uma explicação figurada, à semelhança da gênese de todas as religiões antigas, e conclui: “De todas as antigas gêneses, a que mais se aproxima dos dados científicos modernos, apesar dos seus erros, hoje evidentemente demonstrados, é incontestavelmente a de Moisés”. Alguns dos seus erros, acrescenta, são mais aparentes do que reais, decorrendo de falsas interpretações de palavras nas traduções, de modificações semânticas ao longo dos milênios e de se tomar ao pé da letra as suas expressões e formas alegóricas. O Livro dos Espíritos, no capítulo I de sua terceira parte, traz um estudo intitulado “Considerações e concordâncias bíblicas referentes à Criação”, que esclarece bem este assunto. No capítulo XII de A Gênese, reproduzindo o texto bíblico, Kardec o estuda em relação aos dados científicos, oferecendo um quadro comparativo da alegoria dos seis dias da criação com os espíritos da formação geológica determinados pela Ciência. Acentua, porém, que a concordância não é rigorosa e não pode ser tomada como tal, mas basta para provar a intuição da realidade na alegoria bíblica.

Kardec conclui o capítulo afirmando: “Não rejeitemos, pois, a gênese bíblica, mas estudemo-la, como estudamos a história da origem dos povos”. Hoje, os próprios teólogos católicos e protestantes estão endossando as explicações espíritas. Há uma revolução teológica em marcha, que vem apenas confirmar a legitimidade da interpretação espírita das Escrituras. Só os crentes fanáticos da Bíblia, os literalistas amarrados ao texto, ainda investem contra o Espiritismo de Bíblia em punho.

Como Deus tirou o homem do barro ou pó da Terra

Todos conhecemos a alegoria bíblica da formação do homem, mas nem todos sabemos que, para muita gente, essa alegoria representa uma verdade incontestável, uma realidade. Diz a tradução de Almeida, no capítulo 2 do Gênesis, versículo 7: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida: e o homem foi feito alma vivente”. A mesma tradução, na edição revista e atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil, corrige “narizes” para “narinas” e faz outras pequenas alterações. Na tradução de Figueiredo o “pó da terra” é substituído pelo “barro da terra”. De qualquer maneira, o fato essencial é o mesmo em todas as versões bíblicas, ou seja: Deus formou o homem da terra e assoprou-lhe a vida nas narinas.

O Espiritismo não pode admitir que essa alegoria, aliás muito bela e expressiva, seja tomada ao pé da letra. Kardec admite, no O Livro dos Espíritos, que Adão tenha realmente existido, como possível sobrevivente de um cataclismo na região citada pela Bíblia. Mas adverte que é mais razoável considerá-lo como um mito ou uma alegoria, “personificando as primeiras idades do mundo”. A espécie humana não começou por um só homem. Surgiu na Terra pelo encadeamento natural da evolução das seres. Em A Gênese, Kardec estuda a posição do homem na escala animal e declara: “Por mais que isso possa ferir o seu orgulho, o homem deve resignar-se a ver no seu corpo material o último elo da animalidade na Terra.” (capítulo X, item 29).

Há contradição, neste ponto, entre a Bíblia e o Espiritismo?

Kardec responde acertadamente que não. Porque o Espiritismo apenas explica a alegoria bíblica, dá-lhe a necessária interpretação, esclarece-nos quanto ao espírito da letra, em vez de escravizar-nos à “letra que mata”. Os que, pelo contrário, se apegam à letra, acabam fazendo da Bíblia um livro absurdo, contraditório e inaceitável para as pessoas de discernimento. Os Espíritos esclarecem bem esta questão, como vemos na pergunta 47 de O Livro dos Espíritos.

Kardec pergunta: “A espécie humana estava entre os elementos orgânicos do globo terrestre?” E a resposta é a seguinte: “Sim, e veio a seu tempo; foi isso que deu motivo a dizer-se que o homem foi feito do limo da terra”. Como se vê, por esta clara resposta, a obra de Deus não se assemelha aos grosseiros trabalhos humanos. Deus cria através de processos cósmicos ainda inacessíveis ao nosso entendimento. Os livros bíblicos não poderiam tratar da criação do homem senão de forma alegórica.

Eva e a costela de Adão: Um mito de origem social

Acreditam alguns comentaristas e exegetas que a alegoria bíblica da criação da mulher tinha uma finalidade social: incutir no homem o respeito pela companheira tirada da sua própria carne. A verdade, ao que parece, é outra. Esse objetivo seria melhor atingido se Deus criasse o casal ao mesmo tempo. A Bíblia deu preferência ao homem e colocou a mulher em segundo plano. O motivo deve ser a necessidade de atender aos preconceitos da época. Mas é incrível que até hoje, no mundo inteiro, multidões de pessoas acreditem que Adão dormiu sozinho e acordou acompanhado de Eva, porque Deus lhe tirou uma costela e dela fez a primeira mulher.

A passagem figura no capítulo 2 do Gênesis, versículos 18 a 25. Note-se que Deus já havia criado todas as coisas, o mundo já estava feito e povoado de animais, com Adão solitário no Éden, quando a mulher foi criada. Tudo concorre para a sua situação de dependência e subserviência das sociedades patriarcais. O próprio Moisés não compreenderia a mulher criada ao mesmo tempo que o homem. Por isso, o espírito-guia do povo hebreu, que na verdade era o deus-familiar de Abrão, Isaac e Jacó, lançou mão dessa alegoria ingênua e poética, proveniente de lendas folclóricas.

Quem estuda, na História das Religiões e na Antropologia cultural, o problema das cosmogonias antigas, não tem dúvida quanto à natureza lendária e alegórica dessa passagem bíblica. Basta recordar os processos mitológicos de criação, em que os próprios deuses eram tirados do corpo de outros deuses e as criaturas humanas também, como no caso muito conhecido da descendência de Brama, na Índia. Aceitar, pois, literalmente, o relato bíblico da criação da mulher é deixar de lado a nossa faculdade de pensar, que Deus nos deu para que seja usada e desenvolvida cada vez mais.

A situação de dependência da mulher se justifica ainda com a alegoria do pecado original, pois é a mulher, criatura inferior, que põe o homem a perder. O Cristianismo veio modificar essa situação, típica das sociedades patriarcais de toda a Antigüidade, ao valorizar a mulher no plano espiritual, como vemos no Novo Testamento, a começar do nascimento do Messias. O Espiritismo, que representa o desenvolvimento natural do Cristianismo, completa essa modificação, ao revelar que homem e mulher só existem como expressões da vida nos planos inferiores.

O espírito não tem sexo e se encarna neste ou naquele sexo de acordo com as suas necessidades evolutivas. Por isso Jesus ensinou que os espíritos “nem se casam nem se dão em casamento, pois são como os anjos do céu”, como vemos na passagem de Mateus sobre a ressurreição (Mateus, 22:23-33). E Paulo sustenta o mesmo princípio, afirmando que em Cristo, na vida espiritual que ele nos oferece: “não há nem homem nem mulher”. (Gálatas, 3:28).

Kardec esclarece a alegoria da queda do homem na Bíblia

O dogma da queda do homem é sustentado no campo religioso como um dos mistérios de Deus, impenetrável à inteligência humana. Seu fundamento bíblico é o capítulo 3 do Gênesis. Todos conhecem a lenda poética da árvore proibida, no meio do jardim do Éden, com a serpente demoníaca (a píton grega) enganando Eva, que leva Adão ao pecado original da desobediência. Mas em virtude do dogmatismo fideísta das religiões, poucas pessoas admitem a natureza alegórica desse conto ingênuo. O símbolo está evidente, à flor da pele. Mas os que consideram a Bíblia como “a palavra de Deus” não podem admiti-lo. Entendem a alegoria como realidade divina, tomando-a simplesmente ao pé da letra.

Kardec explica em A Gênese, capítulo XII, toda a simbologia dessa passagem bíblica: Adão é a personificação da Humanidade e sua falta representa a fragilidade humana; a árvore da vida é o símbolo da vida espiritual, que desenvolve a consciência humana e o livre-arbítrio da criatura; o fruto proibido está no meio do jardim de delícias, porque é a tentação dos prazeres materiais; a desobediência de Adão e Eva é a violação das leis de Deus pela concupiscência do homem; a serpente é a imagem da perfídia, da maldade que incita os outros ao erro.

Pergunta Kardec: “Por que impor à fé ingênua da credulidade infantil, como verdades, alegorias tão evidentes, falseando o seu julgamento e fazendo-as mais tarde encarar a Bíblia como um conjunto de fábulas absurdas?” Além disso, Kardec estuda o verdadeiro sentido dos termos bíblicos em sua origem hebraica e estabelece comparações entre o texto sagrado e conhecidas alegorias mitológicas. A forma das alegorias bíblicas é bela e o seu sentido é profundo. Mas essa beleza e essa profundidade são transformadas em absurdo e ridículo pela interpretação literal.

Mostra a Bíblia que Adão não foi o primeiro homem

Expulso do Éden, o casal primitivo teve dois filhos: Caim e Abel, segundo nos relata o capítulo 4 do Gênesis, versículos 1 a 16. Estava assim iniciada, segundo as religiões dogmáticas, a raça humana na Terra. Mas a própria bíblia desmente essa suposição, ao declarar, logo no versículo 2, que “Abel foi pastor e Caim lavrador”. Nos versículos 14 e 15 vemos Caim temer que “outros” o matem e o Senhor “pôs um sinal em Caim, para que não o ferisse de morte quem quer que o encontrasse”. E o versículo 16 nos oferece esta preciosa informação: retirando-se da presença do Senhor o renegado Caim “habitou na terra de Node, ao oriente do Éden”.

Não precisamos sair dos limites desse capítulo 4 do Gênesis para ver que Adão e Eva não iniciaram a raça humana, mas apenas a sua própria descendência, num mundo já povoado há muito tempo. Os versículos seguintes confirmam isso plenamente. Que faz o Espiritismo em face deste problema? Rejeita e condena a Bíblia como falsa? Não. Pelo contrário, procura interpretá-la em espírito e verdade, em vez de apegar-se às contradições e aos absurdos da “letra que mata”.

No capítulo XI de A Gênese, Kardec explica que a chamada raça adâmica foi uma das últimas a surgirem na Terra. “O Gênesis no-la mostra – diz ele –, desde o seu início, industriosa, apta para as artes e as ciências, sem haver passado pela infância intelectual, o que não é próprio das raças primitivas, mas concorda com a opinião de que ela se compunha de Espíritos já avançados”. Caim era lavrador, Abel era pastor, e logo mais veremos Caim casar-se (com quem?), ter filhos e construir uma cidade. Tratemos agora do fratricídio de Caim, cujo símbolo é também dos mais significativos.

Vemos na Bíblia que Caim matou Abel por ciúmes de Deus. Ambos haviam oferecido ao Senhor as primícias de seus trabalhos; Caim, os frutos da terra, Abel, os gordos rebentos do seu rebanho. O que mostra que já viviam na era das civilizações agrárias. Mas o Senhor não gostou da oferta vegetal, preferindo a de carne. Como todos os deuses antigos, o Deus Único da Bíblia também gostava mais de carnes que de frutas.

A alegoria é evidente: Caim representa o egoísmo humano de uma raça em desenvolvimento, Abel é a vítima inocente desse egoísmo feroz; Deus pune Caim, mas não o aniquila, porque ele precisa continuar progredindo; e o Deus em causa não é o verdadeiro Deus, mas um guia espiritual, que representa o Senhor perante a ingenuidade desse povo nascente. É inacreditável que ainda hoje nos queiram impingir essas alegorias em seu sentido literal!

Caim fundou uma cidade sem ter quem habitá-la

Com quem se casou Caim, ao retirar-se para a terra do Node? Se Adão e Eva eram as primeiras criaturas humanas, Caim era a terceira. Não haveria mais gente em toda a Terra. Mas a Bíblia nos conta o seguinte: “E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho”. (Gênesis, 4:17). Não há explicação teológica que possa resolver as contradições do texto. É evidente que Caim não era a terceira criatura da Terra, mas apenas o primeiro descendente de uma nova raça, que surgia num mundo já povoado e evoluído.

A mulher de Caim era de outra raça, do povo que habitava a terra de Node. Os costumes da época ressaltam de todo o texto. Ao construir uma cidade, Caim lhe deu o nome do filho, homenagem comum nos tempos antigos e ainda hoje comum entre os pioneiros de zonas novas. E com que povo ia Caim povoar a sua cidade? Pensaria em fazê-lo apenas com a sua geração? Claro que isso seria absurdo. Era o povo de Node que teria de habitar a cidade de Caim.

O fato mesmo de Caim ser pastor e Abel lavrador já nos mostra que Adão e Eva viviam numa civilização constituída. Se já havia profissões, divisão do trabalho, especialização da produção e até mesmo fundação de cidades, é evidente que o mundo não estava começando, mas já havia começado há muito tempo. Não se pode ajeitar as coisas, diante destes dados do texto. O que se pode e deve fazer é interpretar o texto, desvendar-lhe o sentido, decifrar-lhe o símbolo, como o fez Kardec.

A raça adâmica era uma nova raça que surgia na Terra, proveniente de migrações espirituais. Sua missão era auxiliar o desenvolvimento do planeta, ajudar os seus habitantes primitivos a se elevarem espiritualmente. Não surgia milagrosamente, mas de forma natural, por descendência biológica de outras raças mais aperfeiçoadas. Entretanto, como era necessário preservar a condição evolutiva dessa raça, a fim de que ela não se perdesse na animalidade terrena, a Bíblia usou o mito da criação direta de Adão e Eva por Deus.

A descendência de Caim e a genealogia do povo hebreu, que vêm nos versículos seguintes da Bíblia, desse mesmo capítulo 4:17-26, e do capítulo 5:1-32, provam precisamente o que acabamos de acentuar. Os casamentos ali referidos não podem ser explicados sem a existência de outros povos na Terra, como não se pode admitir que a corrupção do gênero humano tenha ocorrido na descendência de Adão. Insistir na aceitação literal dessas coisas, a pretexto de que a Bíblia é “a palavra de Deus”, só serve para desmoralizar a Bíblia e a própria religião. Já é tempo das criaturas pensantes examinarem problemas tão sérios com maior seriedade.

Os filhos de Deus casaram com as filhas dos homens

Como se multiplicou a raça adâmica na Terra? O capítulo 6 do Gênesis nos conta isso. E os versículos de 1 a 7 confirmam plenamente que Adão não era o primeiro homem nem Eva a primeira mulher. Vemos no versículo 2 a distinção entre os adâmicos, chamados filhos de Deus, e as suas esposas, chamadas filhas dos homens. Explica, pois, a própria Bíblia, o casamento de Caim. O versículo 4 é explícito: “Ora, naquele tempo havia gigantes na Terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes varões de renome na Antigüidade”.

Vemos assim que a Terra estava povoada de gigantes, ou seja, dos descendentes dos homens primitivos com que Deus a povoara, muito antes da vinda da raça adâmica. Por que a Bíblia os chama de gigantes? As pesquisas científicas demonstram que os homens primitivos eram gigantes. Muitas raças conservavam ainda proporções gigantescas. Ligando-se a isso a influência da tradição mitológica e os excessos de imaginação, tudo se explica racionalmente. Um exemplo histórico nos auxilia a compreender esses supostos mistérios: os portugueses (filhos brancos do Deus Europeu) casaram-se com as índias (filhos dos homens primitivos no Brasil) e deles nasceram os homens que continuariam a raça de gigantes do Planalto de Piratininga (os Bandeirantes).

Os descendentes de Adão e Eva não constituíram, pois, o gênero humano, mas apenas contribuíram para o seu desenvolvimento na Terra. Como ensina Kardec, em A Gênese, capítulo XI, item 40, a raça adâmica veio impulsionar o progresso. E todo progresso acarreta a superação de costumes e tradições, a substituição de valores antigos por novos, mudanças profundas nas formas de relações humanas, com fases intermediárias de aparente anarquia, que são sempre consideradas como de corrupção de costumes. Daí o dogma bíblico da “corrupção do gênero humano”, provocando a ira de Deus e o castigo de Deus, por motivo de dissolução de costumes, as catástrofes geológicas, as trombas d’água e as inundações que dizimam em geral criaturas inocentes, em zonas sempre acusadas de dissolutas.

Dilúvio: catástrofe parcial adaptada a uma antiga lenda

A lenda do dilúvio, que encontramos em Gênesis, 7 e 8, é uma dessas passagens bíblicas que só podem ser tomadas ao pé da letra pelo fanatismo e a ignorância. Pouco importa que durante séculos as religiões cristãs, com seus doutores e sacerdotes, tenham sustentado a realidade literal dessa lenda. A verdade histórica é apenas esta: a lenda do dilúvio corresponde a um dos arquétipos mentais atualmente estudados pela psicologia profunda. Os estudos de Karl Jung a respeito são bastante esclarecedores. Mas o arquétipo coletivo, que corresponde no plano social aos complexos psicanalíticos do plano individual, não é uma abstração. Pelo contrário, é uma realidade psíquica enraizada nos fatos concretos. O dilúvio bíblico, por isso mesmo, tem duas faces: uma é a realidade histórica, a ocorrência real da catástrofe; outra é a interpretação alegórica, enraizada no arquétipo coletivo e que o texto sagrado nos oferece.

O Livro dos Espíritos explica o problema do dilúvio através dessas duas faces, a real e a lendária. É o que vemos nos seu item 59, nas “Considerações e concordâncias bíblicas referentes à Criação”, que se podem resumir nestas palavras: “O dilúvio de Noé foi uma catástrofe parcial, que se tomou pelo cataclismo geológico”. Aliás, essa afirmação de Kardec foi posteriormente confirmada pelas investigações científicas. O arqueólogo inglês sir Charles Leonardo Woolley descobriu ao norte de Basora, próximo ao Golfo Pérsico, ao dirigir escavações para a descoberta dos restos da cidade de Ur, as camadas de lama do dilúvio mencionado na Bíblia. Pesquisas posteriores completaram a descoberta. O dilúvio parcial do delta dos rios Tigre e Eufrates é hoje uma realidade atestada pela Ciência. Foi esse dilúvio, ou seja, essa inundação parcial, que serviu de motivo histórico para a lenda bíblica.

Como acentua Kardec, nada perdeu com isso a Bíblia, nem a Religião. Mas ambas são diminuídas quando o fanatismo insiste em defender um absurdo, quando teima em dizer que Deus afogou o mundo nas águas de uma chuva de quarenta dias e fez Noé salvar-se, com a própria família e as privilegiadas famílias dos animais de cada espécie existente, para que a vida pudesse continuar na Terra. Sustentar como realidade histórica a figuração ingênua de uma lenda, conferindo-lhe ainda autoridade divina, é ridicularizar o sentimento religioso e minar as bases da concepção espiritual do mundo. Foi esse processo infeliz de ridicularização que levou o nosso tempo ao materialismo e à descrença que hoje o dominam.

Que diriam os fanáticos da “palavra de Deus” ao saberem que o dilúvio bíblico tem por antecessores o dilúvio babilônico de Gilgamesch, historicamente chamado de “o Noé babilônico”, e o dilúvio grego de Deucalião? O Espiritismo esclarece esse problema, mostrando que o “arquétipo coletivo” de dilúvio é responsável pelo seu aparecimento em diversos capítulos da História das Religiões, e até mesmo na pré-história, entre os povos selvagens. É esse um dos pontos mais curiosos da psicologia das Religiões.

Adão não foi o primeiro homem, mas apenas o primeiro hebreu

O versículo 4 do capítulo 6 do Gênesis informa: “Ora, naquele tempo havia gigantes na Terra”. O tempo referido é o da criação do homem. Se havia gigantes, Adão não era o primeiro homem, tanto mais que a própria Bíblia nos diz que os “filhos de Deus”, que eram Adão e sua descendência, casavam-se com as “filhas dos homens”. É o que vemos no versículo dois do capítulo 6: “Vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres”, e ainda no versículo quarto, já acima citado: “e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos”.

Verifica-se no texto uma dubiedade, parecendo haver uma diferença entre os gigantes e os homens, mas não se poderia explicar as “filhas dos homens”, se não fossem filhas dos gigantes. Essa dubiedade se explica pela Mitologia. Os gigantes, na verdade, são figuras mitológicas que aparecem no texto bíblico, da mesma maneira que nos textos hindus, egípcios e na “Gigantemaquia”, poema que se considera como fragmento extraviado da “Teogonia” de Hesíodo. A Bíblia herdou dos antigos livros mesopotâmicos a lenda mitológica dos gigantes. Esse fato comprova a tese espírita da raça adâmica, que na verdade nada mais é do que o povo hebreu.

O exame do texto bíblico, à luz da Antropologia Cultural e da Mitologia, prova que Adão é apenas o primeiro hebreu e não o primeiro homem. A lenda de Adão e Eva é o capítulo mitológico da História dos Judeus, como a lenda grega de Deucalião e Pirra é o da História dos Hebreus. As duas histórias se confundem, de tão semelhantes, no caso do dilúvio. Assim como Heleno foi o primeiro homem para os gregos, Adão foi o primeiro para os judeus. A falta de conhecimento histórico e a falsa interpretação teológica da Bíblia transformaram uma antiga lenda mitológica em verdade revelada. O Espiritismo não endossa esse absurdo.

Curioso notar que Deucalião, o Noé grego, e Pirra, sua mulher, tiveram três filhos, como aconteceu com Adão e Eva e depois com Noé. Em todas essas coincidências comprova-se a origem mitológica e a presença dos arquétipos coletivos nas passagens supostamente históricas da Bíblia. Querer sustentar a realidade desses relatos ingênuos e impô-los ao povo como verdade divina é querer confundir religião com superstição. O Espiritismo prefere esclarecer esses problemas à luz da razão.

O papel dos profetas na Bíblia e no culto da igreja primitiva

Esclarecimentos dados pelas epístolas de Paulo – Profetas em Israel e na Igreja Cristã, e sibilas, oráculos e pitonisas, nos meios pagãos –, João, o evangelista, e os Espíritos.

Um dos problemas mais discutidos no mundo cristão, desde o aparecimento do Espiritismo, é o profetismo. O que era o profetismo bíblico, e o que era, por sua vez, o profetismo apostólico? Por que, na Igreja Primitiva, ao lado dos vários responsáveis pelo movimento cristão, havia os profetas? E o que faziam esses profetas, do que estavam eles incumbidos? O rev. Robert Hastings Nichols, em sua História da Igreja Cristã, publicada em versão portuguesa pela Casa Editora Presbiteriana, lembra que podemos ter uma idéia das práticas da Igreja Primitiva pelas epístolas de Paulo, “especialmente as enviadas aos coríntios”.

É precisamente o que dizem os estudiosos espíritas do assunto. No seu livro De Cá e de Lá, publicado nesta capital há cerca de quinze anos, pela livraria da União Federativa Espírita Paulista, o professor Romeu do Amaral Camargo, ex-diácono da I Igreja Presbiteriana da Capital, estuda o problema com base nas epístolas de Paulo, especialmente na I Coríntios. Para o rev. Nichols, havia na Igreja Primitiva dois tipos de culto, sendo um “o da oração” e outro o da refeição em comum, a chamada “Festa do Amor”. Quanto ao primeiro, diz o rev. Nichols: “O culto era dirigido conforme o espírito os movia no momento. Faziam orações, davam testemunho, ministravam certos ensinos, cantavam salmos”. O que seriam esses “certos ensinos”, e como seriam ministrados? Noutro trecho, o rev. Nichols levanta uma pontinha do véu: “O Novo Testamento fala de oficiais que se ocupavam do ministério da pregação e do ensino. São conhecidos como apóstolos, profetas e mestres. O nome de apóstolo não era restrito aos companheiros de Jesus, mas pertencia também a outros pioneiros do Evangelho, que levavam as boas novas aos novos campos. Os profetas, mestres e doutores esclareciam o significado dos Evangelhos às igrejas. Todos esses exerciam seus ofícios, não pela indicação de qualquer autoridade, mas porque revelavam estar habilitados para tais ofícios, pelos dons do Espírito Santo”.

Kardec, em O Evangelho segundo o Espiritismo, estudando a passagem referente à entrevista de Nicodemos com Jesus, acentua: “O texto primitivo diz apenas ‘da água e do espírito’, enquanto certas traduções substituíram Espírito por Espírito Santo, o que não é a mesma coisa. Este ponto capital sobressai dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, o que um dia será analisado sem equívoco possível”. Kardec cita ainda a tradução clássica de Osterwald, conforme o texto primitivo que diz: “Quem não renascer da água e do espírito”.

A expressão Espírito Santo, que poderia, pois, levar confusões à compreensão do texto, deve ser substituída por Espírito, conforme o original do texto grego primitivo, e tudo se esclarecerá. Os dons do Espírito, dons que podem ser movidos no profeta por um espírito que seja santo ou não, eram os elementos dominantes da Igreja Primitiva. E tanto assim, que o apóstolo João, também evangelista, advertiu os crentes, na sua primeira epístola: “Caríssimos, não acrediteis em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus”. (I João, 4:1).

Estudando os capítulos 12 e 14 da I Epístola aos Coríntios, de Paulo, o professor Romeu do Amaral Camargo declara: “Esses dois capítulos encerram matéria de grande importância e real utilidade para os assistentes de uma sessão espírita, e também indicam claramente o procedimento a ser observado pelos que participam de uma sessão”. E assim é, realmente. De tal maneira o apóstolo Paulo se refere aos dons mediúnicos dos profetas, que essa epístola se torna uma espécie de orientação para os trabalhos práticos de Espiritismo. Por ela se vê, com absoluta clareza, que o culto da oração incluía os ensinos proféticos e que estes nada mais eram do que as manifestações mediúnicas.

O Espiritismo veio esclarecer o papel dos profetas na antiguidade, que era semelhante ao das sibilas e pitonisas. Espinosa já havia chegado à conclusão, nos seus famosos estudos sobre as Escrituras, de que o profetismo não era um privilégio dos judeus, mas uma qualidade do homem, existente em todo o mundo antigo, como em todo o mundo moderno. Mas aquilo que Espinosa não podia explicar senão como efeito da imaginação, comparando a inspiração dos profetas à dos poetas, o Espiritismo veio explicar mais tarde, no cumprimento das promessas do Consolador, restabelecendo as coisas em seu verdadeiro sentido.

O profetismo bíblico e o apostólico eram simplesmente o uso da mediunidade, como hoje se faz nas sessões espíritas. E assim como, na antiguidade, havia profetas em Israel e na Igreja Primitiva, enquanto no mundo pagão existiam sibilas, pitonisas e oráculos, assim, no mundo moderno, há médiuns no Espiritismo, e há “cavalos”, “tremedores”, “possessos” e “convulsionários”, em organizações religiosas que não seguem os princípios do Consolador ou Espírito da Verdade. O velho problema do profetismo está perfeitamente esclarecido, graças aos estudos espíritas.

Sentido cosmossociológico da lenda bíblica do dilúvio

Já vimos que o dilúvio bíblico foi apenas uma inundação parcial, no delta dos rios Tigre e Eufrates, o que está comprovado pelas escavações arqueológicas. Vimos que Adão e Eva são apenas o mito alegórico do aparecimento da raça hebraica, e que Jeová não é o Deus único do Novo Testamento, mas apenas o deus-familiar da clã de Abrão, Isaac e Jacó. Tudo nos mostra, numa análise cultural da Bíblia, que ela deve ser interpretada na perspectiva das civilizações agrárias, a que realmente pertence. A lenda do dilúvio, que é também um mito agrário e ocupa todo o espaço dos capítulos 6 a 10 do Gênesis, confirma plenamente o caráter local e racial do livro que as igrejas cristãs consideram como “a palavra de Deus”.

As civilizações agrárias, como acentuou Durkheim a respeito das cidades gregas, explicam-se pela Cosmossociologia. O cosmos participa das estruturas sociais, pois o homem está ainda profundamente ligado à Natureza, entranhado na Terra. Por isso vemos, no dilúvio bíblico, Deus falando a Noé, este procurando embarcar todos os seres vivos na arca e servindo-se, depois, do corvo e da pomba para saber se o dilúvio acabara. Deus, homens e animais convivem e se entendem. Não existe uma sociedade, mas uma cosmossociedade. A própria duração do dilúvio (quarenta dias) obedece a ritmos naturais, como o das estações, dos períodos lunares, das enchentes, dos períodos críticos da vida humana ou mesmo da gestação de animais ou do desenvolvimento dos vegetais.

Noé solta um corvo da arca para saber se o dilúvio acabara; a seguir, uma pomba; sete dias depois (o número sete é também significativo) solta de novo a pomba e a recolhe de volta com as mãos (símbolo carinhoso da relação homem-animal). Todos esses pormenores são encontrados nas lendas do dilúvio referentes a vários povos antigos da Ásia, da Europa e da América, entre os quais os índios brasileiros. Entre os índios do México e da Nova Califórnia, por exemplo, Noé se chama Coxcox e a pomba é substituída pelo colibri. Todos os Noés, seja o mesopotâmico, o grego, o mexicano, o celta (que se chama Dwyfan e sua mulher Dwyfach), são avisados por Deus (naturalmente o Deus de cada um desses povos) que estava irritado com a corrupção do gênero humano e manda o seu escolhido construir uma arca.

Só mesmo uma ingenuidade excessiva poderia fazer-nos aceitar o relato bíblico do dilúvio como uma realidade histórica ou divina. A lenda bíblica do dilúvio corresponde a um mito dessa fase bem conhecida da História dos povos antigos, que é a fase mitológica. Sua realidade não é histórica nem divina: é simplesmente alegórica. O dilúvio é uma lenda que corresponde a um passado mitológico, comum a todos os povos.

O Livro dos Espíritos como seqüência natural da Bíblia

Este ano assinala o centésimo-décimo aniversário da publicação de O Livro dos Espíritos,[3] de Allan Kardec, obra básica do Espiritismo. Porque foi precisamente a 18 de abril de 1857, portanto há 110 anos exatos, que O Livro dos Espíritos apareceu em Paris, dando início positivo à III Revelação do Cristianismo.

Por mais que os bíblicos literalistas contestem e que as religiões cristãs dogmáticas protestem, há uma verdade que não se pode esconder: O Livro dos Espíritos é seqüência histórica e desenvolvimento natural da Bíblia. Mesmo alguns espíritas não concordam com isto. Mas, se atentassem melhor para a sua doutrina e examinassem o assunto à luz das obras básicas da doutrina, compreenderiam a verdade. Kardec afirmou e demonstrou que o Espiritismo é a continuação do Cristianismo. Veja-se o que ele escreveu a respeito da introdução e no capítulo I de O Evangelho segundo o Espiritismo. Veja-se a sua teoria da Revelação no capítulo I de A Gênese. E consulte-se o livro básico nos pontos referentes ao problema.

A I Revelação do Cristianismo foi feita através de Moisés e dos Profetas e codificada na Bíblia. Esta codificação anunciava a vinda do Messias e, portanto, outra revelação. Cumprindo a profecia, a II Revelação veio com o Cristo e foi codificada nos Evangelhos. Mas esta codificação anunciava outra vinda, a do Espírito da Verdade, que se manifestou a Kardec e deu-lhe os ensinamentos codificados em O Livro dos Espíritos. Esta codificação é a da III Revelação, que não anuncia mais nenhuma, porque nela a Revelação Cristã se completa, abrindo definitivamente as portas da mediunidade para o dialogo do Visível com o Invisível. Estando as portas abertas, a Revelação Cristã flui naturalmente daqui para diante, sem necessidade das divisões históricas do início. Por isso e para isso é que o Espiritismo não se fecha numa estrutura dogmática e eclesiástica.

Kardec afirmou que o Espiritismo é a chave da Bíblia e dos Evangelhos. Todos os que estudam esse problema sem sujeição a dogmatismos e seitas sabem que não se pode compreender as duas codificações anteriores sem o auxílio da posterior. Porque a seqüência histórica é também uma seqüência lógica. A Bíblia é a premissa maior do Cristianismo; os Evangelhos são a premissa menor; O Livro dos Espíritos a conclusão. Essa a razão pela qual Jesus prometeu que o Espírito da Verdade viria completar e restabelecer os seus ensinos. Negar isto é negar o que ele mesmo disse, como vemos no capítulo 14 do Evangelho de João (versículos 16 a 26).

O que foi e o que é

O Espírito da Verdade esclarece o passado em função do presente e este em função do futuro – A compreensão espírita em face dos textos antigos e suas dificuldades.

A insistência de alguns confrades no combate ao “biblismo” no meio espírita tem o seu lado louvável. Também é louvável a insistência dos que combatem o “evangelismo” de tipo protestante, que parece invadir numerosos Centros. Todo apego aos velhos textos não se justifica, diante dos novos, que nos foram legados por Kardec, sob a orientação do Espírito da Verdade. O Espiritismo que se enfeita de exageros bíblicos ou evangélicos está nas condições do remendo de pano novo, que se quer aplicar ao pano velho. Mas isso não quer dizer, evidentemente, que se deva atirar ao lixo o pano velho.

Todo exagero é condenável, por conduzir infalivelmente ao erro. Consideramos, portanto, errados em sua posição doutrinária, tanto os que condenam a Bíblia como pano velho e imprestável, quanto os que a consideram como “a palavra de Deus”. Kardec é o primeiro a nos dar exemplo da atitude que devemos tomar em face da Bíblia. Basta-nos a leitura dos seus livros, para compreendermos que ele não ia tanto ao mar, nem tanto à terra. Nisso, como em tudo, sua atitude era sensata, equilibrada, serena, compreensiva e, sobretudo, natural.

O espírita está de posse de uma doutrina que esclarece todos os problemas humanos, que lança uma luz bastante clara sobre a história, e que exatamente por isso não lhe permite atitudes extremadas. Ali onde os outros não vêem senão um aspecto, um lado da coisa analisada, o espírita tem obrigação de ver mais, de enxergar mais fundo. No caso da Bíblia e do Evangelho essa obrigação se torna ainda maior, pois essas duas codificações referentes a duas revelações que antecederam a espírita representam fases fundamentais da preparação do Espiritismo. Temos o direito, e até mesmo o dever, de analisar os textos antigos. Mas não temos o direito de procurar destruí-los ou negá-los.

Pedra de alicerce

Nada mais fácil do que encontrar erros históricos e contradições nos textos antigos. Muita tinta e muito papel já se gastou com isso, principalmente no caso da Bíblia. Mas nem a Bíblia, nem outros textos submetidos a esse processo de análise agressiva, tiveram o seu prestígio diminuído, ou sequer arranhado. A força de livros como a Bíblia não está no seu conteúdo racional, na sua coerência histórica ou na sua coerência moral e religiosa. Está na tradição e no sopro espiritual que lhes impregnam as páginas.

O leitor da Bíblia repele as análises modernas como heréticas, e mais fundamente se apega ao seu livro. O mesmo se dá com os textos evangélicos: quanto mais combatidos, mais se impuseram no mundo. Porque todos esses textos foram feitos para falar mais ao coração do que à razão, para despertar antes a alma do que a mente. E cumpriram e cumprem a sua missão na terra, apesar de toda a incompreensão dos que os combatem.

Alguns intelectuais espíritas, entre eles os meus prezados amigos Carlos Imbassahy e Mário Cavalcanti de Melo, representantes da “Escola de Niterói”, que é uma escola voltaireana de Espiritismo, entendem que precisamos acabar com o “biblismo” e o “evangelismo” no meio espírita. Outros entendem, por outro lado que precisamos de mais Bíblia e mais Evangelho.

Parece-me que são duas posições extremas, e por isso mesmo contrárias ao espírito de compreensão da doutrina.

O Espiritismo nasceu cristão, fundamentado nos Evangelhos, como vemos desde O Livro dos Espíritos, e tendo a Bíblia como o seu mais profundo fundamento, como a pedra mais funda do seu alicerce. Está claro que a pedra do alicerce deve ficar ali, como base. Mas, que podemos esperar, se começarmos a cavar a terra e ferir a pedra, com a intenção de destruí-la?

Violência antibíblica

Diz o confrade Cavalcanti de Mello, em seu livro Da Bíblia aos nossos dias, página 311: “Pode ser que este livro, a Bíblia, servisse a um povo ignorante e inculto; mas, para nós, em pleno século XX, está enquadrado entre os muitos contos infantis, como a estória da Carochinha. E aqui ficamos, leitores, não querendo tocar mais nas imoralidades consignadas no Velho Testamento e tão injustamente atribuídas a Jeová e a Moisés, numa infâmia multimilenar, mantida pelos ignorantes”.

Já se viu maior violência? A Bíblia é considerada como uma “infâmia multimilenar”, e o que é pior, “mantida pelos ignorantes”. Todo leitor da Bíblia, portanto, é ignorante, a menos que a leia para combater e negar. E todos os que contribuíram para que se realizasse, há milênios, a codificação bíblica, nada mais foram do que infames e infamantes.

A aceitarmos isso, teríamos de considerar ignorante o próprio Kardec, que se deu ao trabalho de citar a Bíblia como a I Revelação. Além do mais, estaríamos negando o poder de esclarecimento da doutrina espírita, cuja função não é somente aclarar o futuro, mas também o passado e o presente.

No capítulo VIII de O Evangelho segundo o Espiritismo, “Instruções dos Espíritos”, item 18, diz o espírito de João Evangelista: “Meus bem-amados, já estamos naqueles tempos em que os erros explicados se transformam em verdade. Nós mostraremos a correlação poderosa que une o que foi e o que é. Em verdade vos digo: a manifestação espírita alarga os horizontes, e aqui está o seu enviado, que vai resplandecer como um sol por cima dos montes”.

A correlação poderosa

Essa é a atitude espírita em face dos textos antigos, especialmente da Bíblia e dos evangelhos. Sabemos que são textos de um passado longínquo, e não podemos sensatamente interpretá-los ou criticá-los como se tivessem sido escritos em nossos dias. A manifestação espírita alarga os horizontes e nos faz enxergar além dos limites estreitos do presente. Os Espíritos do Senhor se manifestaram e se manifestam para nos ajudarem a transformar os erros em verdades, estabelecendo a correlação poderosa entre o que foi e o que é. Querer negar o que foi, sustentar apenas o que é, parece-nos absurdo. É como querer cortar uma árvore pelas raízes e esperar que ela continue a nos alimentar com seus frutos.

A Bíblia, como os Evangelhos e como outros textos religiosos da antiguidade, são os marcos da evolução espiritual da Terra. É claro que não podemos encontrar num marco praticamente inicial, como a Bíblia, a mesma pureza que vamos encontrar nos Evangelhos ou na codificação espírita. Mas não é justo que condenemos aquilo que não compreendemos hoje, e que representou um impulso e um valor no seu tempo, muito distante de nós. Todos os espíritas conhecem a lei de evolução. Como, então, não colocarmos a Bíblia em seu exato lugar, na evolução espiritual da Terra, e preferirmos acusá-la de infâmias e imoralidades que só existem aos nossos olhos? Procuremos, antes, como o fazia Kardec, estabelecer a “correlação poderosa” a que aludiu o espírito de João Evangelista.

A Bíblia e o Espiritismo

Há tempos, apareceu em São Paulo um livro intitulado Contradições Bíblicas, que provocou certos rebuliços nos meios espíritas. Houve mesmo quem temesse pelos efeitos deletérios da obra. Fui dos que não lhe atribuíram nenhum valor, entendendo que nada se podia temer de um ataque a esse livro que representa um monumento milenar da história humana e um marco indelével na evolução espiritual da terra: a Bíblia. O tempo se incumbiu, logo mais, de provar que eu estava com a razão. O livrinho acusatório passou rapidamente ao esquecimento, e a Bíblia continuou a ser o que sempre foi.

Agora, aparece um livro melhor, escrito com mais cuidado, em bom português, analisando o problema bíblico com um pouco mais de atenção. Mas a sua posição é a mesma do anterior, sua finalidade é ainda apontar contradições no velho texto. Da Bíblia aos nossos dias, do confrade Mário Cavalcanti de Mello, está provocando, também, agitações no meio espírita. E não faltam os que lhe batam palmas, certos de que o livro demolidor tem uma grande missão a cumprir. Não obstante, aparecem os que se opõem a essa atitude antibíblica do confrade Cavalcanti de Mello, impedindo que a crítica ao livro se generalize entre os nossos confrades pouco informados do assunto.

Sinto-me feliz de ter sido um dos primeiros a levantar a pena contra o livro do confrade Cavalcanti de Mello, e de vir mantendo com ele uma polêmica serena e fraterna em torno do problema, no jornal Mundo Espírita. Penso que me cabe o dever de dar alguma contribuição para o esclarecimento de um assunto de tamanha importância doutrinária. E mais feliz ainda me senti, quando, ao abrir o último número da Revista Internacional de Espiritismo, encontrei o artigo do confrade Arnaldo S. Thiago, quem não conheço pessoalmente, mas cujos trabalhos admiro há tempos, refutando as asserções um tanto quentes do confrade Victor Magaldi, que em artigo anterior elogiara a obra.

Penso que nós, espíritas, temos o dever de analisar as coisas de maneira serena e compreensiva, pois foi a lição de Kardec e esse é o espírito da nossa doutrina. Sim, porque o Espiritismo não é uma doutrina dogmática, de postulados rígidos, mas uma doutrina evolutiva e amplamente compreensiva, que procura entender a vida em todas as suas manifestações, entendendo, portanto, o processo geral da evolução humana. Há espíritas que condenam a Psicanálise, o Darwinismo, o Existencialismo, e outras doutrinas científicas e filosóficas, numa atitude fechada de fanáticos religiosos, sem procurarem compreender a razão de ser dessas doutrinas e o que elas representam no imenso esforço do homem para interpretar o mundo e a vida. Há outros que condenam a Bíblia, como há os que condenam os próprios Evangelhos, e ainda os que condenam o Cristianismo, afirmando que o Espiritismo nada tem a ver com ele. Todas essas atitudes dogmáticas discordam daquilo que chamamos o espírito da doutrina. O Espiritismo não condena: explica. E, explicando, justifica os erros humanos, procurando corrigi-los pela compreensão e não pela coação.

No tocante à Bíblia, é o que podemos ver em Kardec. A Bíblia é para ele um livro de grande importância histórica, pois representa a codificação da I Revelação. A seguir, vêm os Evangelhos, que são a codificação da II Revelação. E depois, como sabemos, O Livro dos Espíritos e as obras que o completam, formando a codificação do Espiritismo. Todo um processo histórico está representado nessa trilogia. Se o confrade Mário Cavalcanti de Mello tivesse compreendido isso, em vez de escrever um livro demolidor, aproveitaria o sugestivo título que usou, Da Bíblia aos nossos dias, para mostrar a beleza, a harmonia e a grandeza dessa extraordinária seqüência das fases evolutivas da humanidade terrena.

Citemos um trecho esclarecedor de Kardec em A Gênese. Trata-se do item 6 do capítulo IV: “A Bíblia, evidentemente, encerra fatos que a razão, desenvolvida pela ciência, não poderia hoje aceitar, e outros que parecem estranhos e derivam de costumes que já não são os nossos. Mas, a par disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela encerra grandes e belas coisas. A alegoria ocupa, ali, considerável espaço, ocultando sob o seu véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do pensamento, pois logo desaparece o absurdo”.

Nada se pode querer de mais claro, mais preciso e mais belo. Kardec revela a mais serena e elevada compreensão da Bíblia, e essa deve ser a nossa compreensão de espíritas em face do grande livro. O confrade Cavalcanti de Mello, que conheço e admiro, partiu de uma premissa falsa, ao escrever a sua obra de crítica bíblica. Sua intenção, cuja pureza reconheço e louvo, foi a de defender o Espiritismo contra o fanatismo bíblico. Mas mesmo nesse terreno a posição de ataque não pode surtir efeito, pois os que se apegam à Bíblia só poderão revoltar-se com a crítica ferina e impiedosa ao grande livro. Partisse da idéia de que a Bíblia é a codificação da I Revelação, o livro que encerra, na sua linguagem dramática e alegórica, milenares experiências do homem na procura da Verdade e do Bem, e chegaria facilmente a conclusão de que é um livro do passado, que os Evangelhos e o Espiritismo superaram.

Não se entenda, porém, que falando de superação – do ponto de vista histórico –, esteja eu endossando a afirmação de que a Bíblia é objeto de museu. Não. A Bíblia, como todos os grandes textos que encerram verdades reveladas, é um monumento imperecível. Como bem disse Kardec, os que souberem levantar os véus da alegoria encontrarão na Bíblia os mesmos e eternos princípios esclarecidos mais tarde por Jesus e pelo Espírito da Verdade. As matanças, os horrores, as imoralidades que o confrade Cavalcanti de Mello aponta na Bíblia, não são mais do que decorrências lógicas e naturais da época a que o livro se refere. É um pouco de exagero querermos condenar hoje os costumes de tempos tão distantes.

Tenho dito e repetido, em meus artigos de polêmica doutrinária com os confrades da Escola de Niterói – Imbassahy e Cavalcanti de Mello –, que lhes falta perspectiva histórica no exame dos problemas religiosos do Espiritismo. E a prova disso está aí, bem clara, no livro Da Bíblia aos nossos dias. Um pouco de perspectiva histórica teria modificado radicalmente a posição do confrade Mário Cavalcanti de Mello em face da Bíblia. Queira Deus que, no meio espírita, já tão cheio de incompreensões e confusões, este livro, fundamentalmente errado, não venha criar uma nova escola, absolutamente contrária ao espírito da nossa doutrina.

Argumentos versus citações

Duas posições numa polêmica sobre a Bíblia – Das “palavras vazias” à avalancha de versículos – A posição de Kardec: a Bíblia não é um erro, os homens é que se equivocam ao interpretá-la – Do pingue-pongue das citações ao esclarecimento do problema.
 

Quem leu o artigo do prezado confrade Mário Cavalcanti de Mello, “Esclarecimentos Necessários”, publicado na última edição de Mundo Espírita, sem ter lido os meus artigos anteriores, a que aquele se refere, há de ter pensado que andei fazendo demonstrações retóricas neste jornal, ao tratar do problema bíblico em face do Espiritismo. O meu caro antagonista chegou a declarar, com todas as letras, que eu somente escrevi: “até hoje, coisas vazias e sem consistência”. Louva-se o confrade Cavalcanti no seu sistema de citações do texto bíblico, e entendo que o meu dever é refutá-lo “com a Bíblia na mão”.

Desde o meu primeiro artigo, entretanto, deixei claro que não me interessava, como não pode interessar-me, um simples bate-boca no estilo de “a Bíblia disse” e “a Bíblia não disse”; porque isto seria a coisa mais estéril do mundo. Afinal de contas, nem eu, nem o meu caro confrade, somos teólogos ou discutidores de sacristia. O que me interessa, e o que penso que deve interessar aos confrades que se derem ao trabalho de acompanhar esta polêmica, é apenas saber se a Bíblia é um livro falso e sem sentido, ou se realmente é, como Kardec no-la apresentou, o monumento imperecível da I Revelação.

É claro que não custa ao confrade Cavalcanti, como não custaria a mim ou qualquer outro, tomar um volume da Bíblia, folheá-lo numa hora de calma e copiar de suas páginas os trechos que mais interessassem aos nossos pontos de vista, para com eles bombardearmos a boa fé dos leitores. A Bíblia está aí, por toda parte, ao alcance de todos. Quando o confrade Cavalcanti diz que em tal passagem bíblica existe tal coisa, me parece que ninguém porá em dúvida a sua afirmação. Nem eu pretendi, a qualquer momento, negar os morticínios de que a Bíblia está cheia. Bem vazio seria, ou bem louco, se o pretendesse, pois qualquer cidadão poderia pegar na estante o seu volume da Bíblia e ver com os próprios olhos que eu estava fraudando ou desconhecendo por completo o assunto em causa.

Não se trata, pois, de alinhavar textos. Esse alinhavo o confrade já fez, até em excesso, no seu livro Da Bíblia aos nossos dias e nos artigos publicados neste jornal. Quando dei a minha primeira opinião sobre o livro do confrade – uma simples e pequenina resposta a um leitor, na minha seção do Diário de São Paulo –, não tive a intenção de fazer polêmica. Fui breve e incisivo. Disse o que pensava do livro, cumprindo um dever a que não podia fugir: o de responder ao leitor. O confrade Cavalcanti aborreceu-se com a minha franqueza e despejou sobre a minha cabeça atônita uma avalancha de citações bíblicas e de opiniões eruditas sobre a Bíblia. Respondi, tentando colocar as coisas nos seus devidos lugares. E depois, quando nos encontramos em Niterói, pessoalmente procurei, de novo, colocar o problema. Foi então que o confrade me fez aquela promessa que eu cobrei num dos meus últimos artigos: o de não fugir da arena. Mas como, logo em seguida, voltou a se embarafustar pelo labirinto das citações bíblicas, senti-me no direito de lhe pedir que não saísse do terreno escolhido. Vejo, agora, que havia um equívoco em tudo isso. Enquanto eu pensava que o confrade queria discutir o problema bíblico em seu aspecto global e doutrinário, o confrade pensava que eu o desafiava para um pingue-pongue de citações bíblicas.

Esclarecendo o equívoco, só tenho a declarar que para isso não me presto. Nunca fui bom nessas competições. Não conheço os golpes e contragolpes que dão a palma da vitória aos jogadores inveterados de bolinhas e raquetes. Mas, se o confrade quiser continuar discutindo o assunto em seus aspectos essenciais, então estarei às suas ordens. Vamos, entretanto, para que as coisas fiquem suficientemente claras, procurar situar o problema.

Significação e importância da Bíblia

O que refuto, no livro do confrade Cavalcanti de Mello, não são as citações bíblicas, mas a sua concepção da Bíblia. Como se pode ver até mesmo pelo seu último artigo, o confrade quer provar que a Bíblia é um livro falso, forjado por espertalhões. Essa concepção é antiespírita, como já o demonstrei, em meus artigos anteriores, com citações textuais de Kardec. O codificador jamais pensou semelhante coisa da Bíblia. Desde O Livro dos Espíritos, o codificador sustentou a necessidade de uma interpretação compreensiva da Bíblia. Lá encontramos, por exemplo, no capítulo III da primeira parte, item 59, em “Considerações e concordâncias bíblicas relativas à criação”, uma excelente lição de interpretação bíblica, e esta advertência sempre oportuna: “Deve-se concluir que a Bíblia é um erro? Não; mas que os homens se equivocaram ao interpretá-la”. Para que não haja dúvidas a respeito, verifiquemos o texto original, na edição francesa do Griffon D’Or, de 1947, à página 88: “Faut-il en conclure que la Bible est une erreur? Nun; mais que les hommes se sent trompés em l’interprétant”.

Esta foi sempre a posição de Kardec. Sabemos todos que o codificador não gostava de se contradizer, nem de fazer afirmativas levianas. O confrade Cavalcanti de Mello respondeu-me que Kardec havia usado de diplomacia, ao que lhe retruquei, lembrando a seriedade do codificador, que nunca usou de artimanhas, diplomáticas ou não, em assuntos de tão grande importância. Nos livros subseqüentes da codificação, essa posição de Kardec não somente se reafirma, como se esclarece. Foi o que demonstrei, por exemplo, citando o trecho de A Gênese em que Kardec fala da necessidade de descermos “ao âmago do pensamento”, para compreendermos os absurdos aparentes do texto bíblico. Mas o confrade Cavalcanti de Mello não pensa assim. E apanha frases de Kardec que lhe parecem contradizer aquela sensata e firme do codificador, para querer convencer-nos de que a razão está do seu lado.

Não digo aqui, nem o disse jamais, que o confrade Cavalcanti tivesse feito tal coisa de má fé. Longe de mim semelhante propósito. Acho apenas que o confrade está demasiadamente empolgado pelas idéias que esposou, a ponto de não ver o conjunto da opinião de Kardec, vendo apenas as partes da mesma que lhe interessam. E disso dei um exemplo, quando mostrei que o confrade, à página 31 do seu livro, transcreveu todo um trecho de A Gênese e o interpretou a seu modo, sem ver uma pequena ressalva feita no meio da frase pelo codificador. Kardec diz ali que a ciência demonstrou “inquestionavelmente os erros da gênese mosaica”, o que agradou muito ao confrade. Mas Kardec acrescenta: “tomada ao pé da letra”, e o confrade não viu nem ouviu isso. Contentou-se tanto com a primeira parte, que nem sequer ligou à segunda, de fundamental importância. Além disso, como todos sabem, Kardec apresenta o Espiritismo como o Consolador prometido por Jesus, dando-lhe a expressiva e justa designação de Terceira Revelação. Terceira por que? Porque houve uma Primeira Revelação, feita a Moisés, e representada pela Bíblia, e uma Segunda Revelação, feita por Jesus e representada pelos Evangelhos e a do Espiritismo. Como admitir-se que Kardec pusesse uma pedra falsa como fundamento do edifício das Três Revelações? Como admitir que ele pudesse usar de “diplomacia”, ou seja, de artimanhas diplomáticas, para impingir ao mundo o Espiritismo?

Que nos perdoe o confrade Cavalcanti de Mello, mas a sua posição, nesse problema, é simplesmente insustentável. Por mais citações bíblicas que o confrade pretenda fazer, jamais conseguirá provar, aos estudiosos desapaixonados, que Kardec pensava da Bíblia o que está escrito no seu livro por nós contestado. A Bíblia significa, para o Espiritismo, segundo a opinião de Kardec, de Léon Denis, e de tantos outros espíritas do Brasil e do mundo, um livro básico cheio de verdades sublimes, de que até mesmo Jesus se serviu para a sua pregação do Reino. Verdadeiro monumento literário de um passado longínquo, representa um marco indelével da evolução espiritual do homem. Pouco nos importa que o Pentateuco tenha sido escrito por Moisés ou Hilquias, ou que os vários livros da Bíblia estejam repletos de episódios sangrentos e mesmo de relatos de coisas imorais. Esses episódios e esses relatos se referem a um passado de milhares de anos, e são, por si mesmos, testemunhos escritos da evolução humana. Muitos deles são alegóricos, como advertiu Kardec, e se hoje nos causam espanto, ontem serviam para despertar consciências.

O confrade Cavalcanti de Mello analisa a Bíblia como se analisasse um livro dos nossos dias, esquecido, como já afirmei numerosas vezes aqui, de que se trata de um velho monumento, de um marco representativo de outras eras e de outra maneira de ver, de pensar e de dizer as coisas. Kardec chama a atenção dos ledores da Bíblia para a necessidade de se ter em conta “a forma alegórica peculiar ao estilo oriental”. Entretanto, vem o confrade Cavalcanti e me diz que posso “resolver as tradições obscuras de todos os povos”, que não encontrarei “coisas tão tristes, tão degradantes e tão profundamente desmoralizantes”, como as que se encontram na Bíblia. Ora, parece-nos que, nesse caso, quem está sendo desmentido não sou eu, mas Kardec. E não somente ele, mas todos os orientalistas. Porque coisas tristes, degradantes e desmoralizadoras, segundo o nosso conceito, encontram-se também nos livros bramânicos, nos textos persas, nos islâmicos e outros. Mas o que importa, como acentua Kardec, é “descer ao âmago do pensamento”, é não nos deixarmos prender pelas aparências.

Que diria o confrade, se soubesse, por exemplo, que os famosos Rubaiyat, de Omar Khayyam, geralmente interpretados entre nós como céticos e libertinos, são considerados no Oriente, segundo o testemunho de B. Nicolas, que viveu muitos anos na Pérsia, como versos místicos-alegóricos? Khayyam, que nunca fora, aliás, um libertino, mas um homem de pensamento, um astrônomo e um místico, aparece ali como uma espécie de profeta, ensinando a mais alta moral. Almansur Haddad afirma, ainda agora, em recente edição dos Rubaiyat, que: “A significação ascético-mística da poesia de Omar Khayyam é a habitualmente aceita na Pérsia”. E essa edição, da Bolsa do Livro, de São Paulo, traz um prefácio do sr. Yadollah Azodi, ministro do Irã no Brasil, que declara o seguinte: “Temos nos Rubaiyat um livro de profecias, um catecismo filosófico, um invólucro de sabedoria”.

Veja o confrade Cavalcanti de Mello como Kardec tinha razão, ao advertir que precisamos ler a Bíblia com “olhos de ver”. Os cânticos de Salomão, como as matanças e as imoralidades que o confrade não se cansa de ver e citar, no texto bíblico, não têm o sentido absurdo que a nossa malícia lhes atribui. Os tempos são outros. Os costumes mudaram. A maneira de ver e de exprimir as coisas transformou-se profundamente. Não podemos acusar de embusteiros, e espertalhões, e malandros, os homens que, inspirados pelos melhores propósitos, realizaram, há milhares de anos, a codificação bíblica. Devemos um pouco mais de respeito a essa gente e às suas intenções. E nós, espíritas, mais do que quaisquer outros, estamos no dever de compreender essas coisas, porque conhecemos o processo complexo da evolução humana, em todos os seus aspectos.

O erro dos homens

A diferença fundamental entre a posição do confrade Cavalcanti e a posição de Kardec é a seguinte: este condena o erro da interpretação da Bíblia pelos homens, enquanto aquele condena a própria Bíblia como um erro. É isso o que eu discordo no livro do confrade Cavalcanti. A frase de Kardec, em O Livro dos Espíritos, que acima transcrevemos, é suficiente para mostrar o que dissemos. Kardec afirma, de maneira incisiva, que a Bíblia não é um erro, mas que o erro está na interpretação da Bíblia pelos homens. O confrade Cavalcanti, pelo contrário, quer provar que a Bíblia é um livro falso, escrito por farsantes. E pensa, mesmo, que já o provou!

Curioso verificar-se como o confrade repisa textos de Kardec sem os compreender, tirando do mesmo apenas o que convém à sua tese. Ainda neste último artigo vem a reprodução textual daquele belo trecho de A Gênese, em que Kardec aconselhou: “Não rejeitemos, pois, a gênese bíblica; pelo contrário, estudemo-la, como se estuda a história da infância dos povos. É ela uma espécie rica de alegorias, cujo sentido oculto é preciso procurar, comentar e explicar, por meio das luzes da razão e da ciência”. A transcrição prossegue, para depois o confrade afirmar que está de acordo com ela ao combater “os erros da gênese bíblica”. Faltou, ainda uma vez, a ressalva de Kardec: “interpretado ao pé da letra”. Porque o confrade só está de acordo com Kardec, nesse terreno, quando põe de lado essa ressalva. E no entanto, sou eu o acusado de malabarismo intelectual! Mas não se pense que desejo devolver a acusação. Pelo contrário. Não ponho em dúvida a sinceridade do confrade. O que penso é que ele se encontra demasiado empolgado pelas suas idéias, a ponto de não enxergar em Kardec tudo quanto as contradiz.

Compreendo que o confrade queira combater o apego de certas religiões ao texto bíblico, à letra que mata. Mas não compreendo como, para fazer isso, ache necessário colocar o Espiritismo numa posição tão incômoda diante da Bíblia. Todo espírita suficientemente conhecedor da sua doutrina sabe que não deve emaranhar-se nos velhos textos. Mas sabe, também, que não pode aceitar as tentativas materialistas desses textos, em que tanto se apóia o confrade Cavalcanti de Mello.

Há um abismo entre a aceitação dogmática da Bíblia e a sua rejeição erudita, baseada em pesquisas e interpretações formais do texto, realizadas por homens sem a devida formação espiritual. Mas no meio desse abismo existe um caminho seguro, que é o traçado por Kardec: o caminho da interpretação compreensiva, da interpretação sem apego e sem prevenção. Esse é o único caminho verdadeiramente espírita, e pesa-me que o confrade Cavalcanti não o tenha trilhado.

Não era minha intenção estender-me tanto no presente artigo. Mas o confrade me fez tais acusações, que me vi obrigado a repisar alguns assuntos e a demorar-me demasiado em outros. Que os leitores de Mundo Espírita me perdoem este excesso. Às avalanchas de citações bíblicas do meu prezado opositor, vi-me obrigado a opor uma avalancha de argumentos. Peço a Deus que o confrade Cavalcanti não considere todos estes argumentos como palavras vazias, pois estou convencido de que eles contêm alguma coisa. Não contêm, em verdade, desmentidos às citações do confrade, pois jamais pretendi duvidar das mesmas. Com boa vontade, porém, é possível que o confrade vislumbre, nestas linhas, o desejo de colocar o problema bíblico em termos de compreensão geral, e não de estéril e infindável discussão das misérias do texto. Emmanuel, nesse belo livro que é O Consolador, reafirma, em poucas linhas, de uma clareza admirável, a posição de Kardec, ou seja, a posição do Espiritismo em face da Bíblia. É pena que o confrade Cavalcanti não tenha lido as respostas de Emmanuel a respeito do assunto, antes de se abalançar à difícil tarefa de mostrar que os espíritas devem encarar a Bíblia como uma simples manobra de espertalhões judeus. Por mais teimosos que sejamos, um raio de luz das esferas mais altas sempre nos faz bem.

Posfácio

Você, amigo leitor, acabou de ler uma obra que, sem dúvida, enobrece a Literatura Espírita. Queremos crer que gostou do que leu e admirou a maneira como o professor J. Herculano Pires conduziu sua argumentação a favor da Bíblia. Além de tudo, ele deu uma preciosa aula de como se deve fazer uma crítica literária. Em momento algum foi grosseiro, ou agressivo. Tratou o opositor com respeito e dignidade, buscando convencê-lo de que os espíritas, se não devem cultuar a Bíblia, também não devem enxovalhá-la como fez o opositor em seu livro Da Bíblia aos nossos Dias, dizendo que a Bíblia é uma farsa. Ora, como afirma o professor, não foi isso que Kardec nos ensinou. Kardec vê o assunto por outro prisma e diz que o que está errado é a interpretação que os homens dão a ela e aconselha: não combatamos a Bíblia, estudemo-la, porque a sua força não está nos detalhes que podem não nos convencer, mas no fato de ser ela a primeira Revelação dada a Moisés. A Segunda Revelação foi trazida por Jesus e é representada pelos Evangelhos. A Terceira chegou até nós, conforme promessa do próprio Jesus, através do Espírito da Verdade. Por conseguinte vemos que tudo se encadeia e cada coisa deve ser observada dentro do seu tempo e espaço. É o caso da Bíblia e de outros escritos da antiguidade. São textos históricos, mas não isentos de incongruências aos olhos do homem hoje já burilado pela ciência.

Nós espíritas devemos ficar com Kardec, que disse: “os que souberem levantar o véu da alegoria encontrarão na Bíblia os mesmos e eternos princípios esclarecidos mais tarde por Jesus e pelo Espírito da Verdade”. O professor, como sempre o fez, primou pela fidelidade a Allan Kardec. É por isso que dizem que ele foi o melhor metro que mediu o mestre de Lion. Que falta faz hoje um líder dessa envergadura.

Que me perdoem os expoentes do movimento espírita, mas não vejo ninguém na atual idade com a vocação kardequiana e a garra do professor Herculano Pires. E aproveito a ocasião para dizer que a bibliografia desse autêntico líder é composta de 88 obras, entre as quais Edições Correio Fraterno teve a felicidade de publicar as seguintes:

  • O Homem Novo, uma coletânea de crônicas que Herculano Pires publicou, primeiramente, no extinto jornal Diário de São Paulo, com o pseudônimo de Irmão Saulo. A tônica dessas crônicas é esclarecer sobre o que é e o que não é correto dentro do movimento espírita, uma preocupação sempre constante nesse autor;
  • O Infinito e o Finito, em que o filósofo Herculano Pires brinca com as palavras e vai construindo com elas magnas lições como estas: “Deus é infinito. Nós somos finitos”; “Deus é o Ser dos seres… O homem é o ser entre os seres, pequenina criatura apegada à crosta…”;
  • O Mistério do Bem e do Mal, 45 crônicas que a pena do professor Herculano Pires vazou com o propósito de esclarecer o seu leitor como é vista essa dicotomia à luz da Doutrina dos Espíritos;
  • Educação para a Morte, um verdadeiro manual de vida, pois o professor Herculano pouco fala de morte, pelo contrário, ele nos ensina nesta obra a viver com sabedoria para vencermos a morte e possamos dizer, no futuro, como fez Paulo de Tarso: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”.

Um marco pirisiano.

Nos momentos mais importantes e mais difíceis para o Espiritismo no Brasil, o nobre professor sempre esteve presente. Foi ele, por exemplo, que sustentou a luta contra a tradução para a língua portuguesa de O Evangelho segundo o Espiritismo, feita por Paulo Alves de Godoy, publicada pela Federação Espírita do Estado de São Paulo, tendo mesmo solicitado o recolhimento da edição em virtude de enxertos indevidos. A FEESP ouvindo-o, até hoje não publicou a segunda edição. Obrigado professor!

Prof. José Herculano Pires

Cirso Santiago


Notas:

  1. O autor se refere à coluna que mantinha no Diário de São Paulo.
  2. Livro relançado por Edições Correio Fraterno, Caixa Postal 58, CEP 09700, São Bernardo do Campo – SP.
  3. O presente artigo foi escrito por Herculano no ano de 1967. (N. E.)
4.45/5 (5)

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