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25/05/2017

Um convite à postura científica Backpacker


Muitos companheiros no movimento espírita que criticam ou ainda, são indiferentes ao aspecto científico do Espiritismo, se limitam a utilizar trechos isolados da codificação para defenderem, mesmo que timidamente, seu ponto de vista.

A frase mais mencionada está presente no Evangelho Segundo o Espiritismo, Capitulo XVII Item 4, onde Kardec assegura que o verdadeiro espírita é aquele que se dedica continuamente contra suas más inclinações. De maneira precoce, muitos chegam a afirmar que se trata tão somente das inclinações morais.

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que faz para dominar suas más inclinações. Enquanto um se compraz no seu horizonte limitado, o outro, que compreende a existência de alguma coisa melhor, esforça-se para se libertar, e sempre o consegue, quando dispõe de uma vontade firme.” (ESE, Cap. XVII, Item 4)

Nos é dito na questão 780 (1) de O Livro dos Espíritos, que a evolução moral decorre da intelectual, mas nem sempre a segue imediatamente. Sob posse desse conhecimento, de que a intelectualidade é a ferramenta que alicerça e alavanca o progresso moral, as más inclinações, por sua vez, têm origem também no uso inadequado do intelecto.

Tentamos aqui, longe de criar conflitos desnecessários, direcionar o leitor de forma adequada, ao fato conclusivo de que o comportamento científico deve fazer parte de todos aqueles que almejam denominarem-se como espíritas. Assim sendo, demonstraremos um histórico que ratifica essa afirmação.

No período em que organizou a Doutrina Espírita, Kardec demonstrou esta postura em todo período que presidiu a SPEE – Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Algumas destas expressões, mencionadas na Biografia de Kardec e na obra O que é o Espiritismo, são destacadas a seguir:

Foi aí que fiz os meus primeiros estudos sérios em Espiritismo, menos ainda por efeito de revelações que por observação. Apliquei a essa nova ciência, como até então o tinha feito, o método da experimentação; nunca formulei teorias preconcebidas; observava atentamente, comparava, deduzia as consequências; dos efeitos procurava remontar às causas pela dedução, pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo como válida uma explicação, senão quando ela podia resolver todas.” (OQE, Introdução – Biografia de Kardec)
1 – Vide questões 192 e 365 para complementar o estudo.

Foi assim que o codificador estruturou o CUEE – Controle Universal do Ensino dos Espíritos: um método de aferição estatística que consistia na compilação, filtragem de dados, caracteres dedutivos e indutivos que direcionavam a tabulação de informações com maior credibilidade, consideradas como expressão da verdade através da adesão do maior número.

A melhor garantia de que um princípio é a expressão da verdade se encontra em ser ensinado e revelado por diferentes Espíritos, com o concurso de médiuns diversos, desconhecidos uns dos outros e em lugares vários, e em ser, ao demais, confirmado pela razão e sancionado pela adesão do maior número. […]” (Livro dos Médiuns – Nota do item XXVIII, Cap XXXI)

Na execução deste método, Kardec contava com os seguintes materiais: Mensagens espontâneas enviadas por diversos espíritos, no mesmo intervalo de tempo, e sobre o mesmo assunto. Tais mensagens eram recebidas por um grande número de médiuns, distintos e estranhos uns aos outros, espalhados pelo globo.

Figura 1. Centralização das informações para o CUEE:

Fonte: Prezi.com

Fonte: Prezi.com

O estudioso espírita, por sua vez, integrando o conhecimento desta metodologia e as diretrizes advindas das manifestações dos espíritos superiores, se preserva de construir sistemas de verdade absoluta a partir de opiniões pessoais, aprendendo a separar o joio do trigo, sob o crivo da razão, do bom senso e da análise crítica. O intuito dos espíritas, na esfera da divulgação coerente dos princípios doutrinários, deve estar propenso ao atingimento desta condição, onde o arcabouço de informações possa galgar paulatinamente um espaço no meio acadêmico, sendo que o próprio codificador afirmou que somente a ciência poderia desmentir ou complementar as variáveis espiritistas:

Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” (A Gênese, Cap 1, item 55)

No âmbito da regulação proposta por Kardec para o uso de grupos e pequenas sociedades espíritas, a integração do conhecimento no processo decisório novamente é mencionada:

Toda publicação relativa ao Espiritismo que emanar da Sociedade será revista com o maior cuidado, para se eliminar dela tudo quanto seja inútil ou possa produzir um mau resultado. Os membros se comprometerão a nada publicar sobre a matéria antes de tomar a opinião de todos. (A Viagem Espírita em 1862. p.44/45)

Estes aspectos demonstram a grande responsabilidade em se publicar algo contendo o selo espírita.

No meio acadêmico, métodos científicos têm sido utilizados exaustivamente, assim como a adesão de um maior número de pesquisadores, nos critérios de aceite e outros parâmetros de uma pesquisa, tese, dissertação, artigo, entre outros documentos técnicos que em si buscam assegurar a efetividade de uma teoria ou hipótese.Assim sendo, é de suma importância que os espíritas assumam esta postura, e se engajem em projetos que objetivem a comprovação científica de um ou mais fundamentos que sustentam o Espiritismo, pois somente assim se combaterá de forma vigorosa o fim do período estritamente religioso, o qual se passa e foi previsto por Kardec na Revista Espírita:

A luta determinará uma nova fase do Espiritismo e conduzirá ao quarto período, que será o período religioso; depois virá o quinto, período intermediário, consequência natural do precedente, e que receberá mais tarde a sua denominação característica. O sexto e último período será o de renovação social, que abrirá a era do século vinte.” (RE-1863, pp. 377/379)

Independente da denominação e do tempo demarcado para cada período, confirma-se a necessidade da postura supracitada, para que nos adiantemos um passo à frente no conhecimento do chamado mundo invisível, face a evidenciar para materialistas e negativistas os princípios eminentemente espíritas.

Métodos científicos tem sido empregados constantemente, visando a comprovação de fenômenos tidos como espíritas. Crookes (1874) analisou fenômenos que consistiam em: movimento de corpos a distância, tiptologia, alteração de peso dos corpos, levitação, aparência de objetos luminosos, aparência de figuras fantasmagóricas, aparência de escrita sem intervenção humana e outras circunstâncias que “sugeririam a atuação de uma inteligência externa”.

Mesmo contando com a validação de outros pesquisadores, aqui citam-se: Alfred Russel Wallace, Sir Oliver Joseph Lodge, Lord Rayleigh, e William James (Doyle, 1926), Crookes perdeu seu prestígio na Royal Society pois a maioria dos cientistas portava a opinião pré-concebida de que o Espiritismo era fraudulento.

Lombroso foi um destes pesquisadores que por um período chegou a ridicularizar as manifestações espíritas. Porém, quando foi convidado a averiguar fenômenos associados à médium italiana Eusápia Paladino, concluiu a autenticidade dos mesmos. Lombroso se tornou um adepto do Espiritismo e as suas principais pesquisas relacionadas ao assunto encontram-se publicadas na obra Ricerche sui fenomeni ipnotici e spiritic (Turim, 1909).

Richet (1922) em seu Tratado de Metapsíquica afirma que uma teoria não pode ser edificada segundo apenas os fatos isolados, mas uma vez confirmando a necessidade da adesão do maior número de observadores e validadores.

Na década atual, pesquisadores como Peres (2013), Rodrigues (2009), Fonseca (2007), e algumas instituições de cunho científico, tem iniciado um árduo caminho de aproximação do Espiritismo com o academicismo, no âmbito da valorização dos axiomas espíritas, ou ainda, no intuito de comprovar um ou mais pilares da Doutrina Espírita de maneira incontestável.

Alguns partem de premissas materiais para encontrar vestígios que subsidiem a exploração mais abrangente de um dos pilares da Doutrina Espírita, que é a mediunidade em suas faculdades diversas. Esse é o caso de Peres (2013) que evidencia em sua pesquisa, o mapeamento das atividades cerebrais em uma amostra de supostos médiuns, de distintas tipologias.

Quadro 1. Estudo de neuroimagem envolvendo supostas experiências mediúnicas:

Estudo Método Sujeitos Paradigma Atividade cerebral (Diminuição x Aumento)
Peres et al, 2013 SPECT 10 psicógrafos Escrita psicografada L culmen, L hipocampo, L giro occipital inferior, L cíngulo anterior, R giro temporal superior e R giro pré-central

SPECT: tomografia computadorizada por emissão de fóton único; R: direita; L: esquerda.

Peres evidencia a necessidade de averiguação de um maior número de observadores, denominados como peritos cegos, para continuidade de seu estudo, o que denota mais uma vez a assertividade do método empregado por Kardec na codificação espírita.

Futuros estudos devem considerar a possibilidade de avaliadores externos especialistas pontuarem cegamente aspectos da experiência mediúnica, bem como a qualidade dos conteúdos produzidos nesse estado (expressados em palavras, textos, pinturas etc.), e dos conteúdos gerados em estado habitual de consciência (fora do transe) pelos próprios médiuns e por grupos de controles. Além disso, uma avaliação cuidadosa da experiência fenomenológica investigada por neuroimagem pode favorecer a correlação mais precisa entre a experiência em primeira pessoa (fenomenológica) e a experiência em terceira pessoa (atividades neurais). Os escores de complexidade – avaliados cegamente por especialistas – dos conteúdos produzidos durante o transe ou aspectos relevantes da experiência podem ser usados como regressores em análises estatísticas.( Neuroimaging and mediumship: a promising research line. p.229)

Para nós, espíritas, a observação deste estudo e outros que visam a demonstração de correlatos neurais com experiências complexas, é objetivo prioritário no intuito de aproximarmos cada vez mais a doutrina espírita da ciência acadêmica, evoluindo a proposta de associação entre consciência, experiências espirituais e cérebro, refutando-se as bases do materialismo promissório, tal como fazia o codificador.Rodrigues (2009) relaciona, por sua vez, atividades cognitivas e evidências de que há uma causa inteligente que antecede nossas decisões afetas aos estímulos cerebrais. Pormenoriza também, em uma tabela os componentes presentes nas religiões e na ciência, demonstrando que a Doutrina Espírita em absolutamente nada se assemelha a uma religião (ou pelo menos, não deveria se assemelhar):

Tabela 1. Caracteres da religião e da ciência

Religião Ciência
Baseada em revelações Baseada em descobertas
Constituída por dogmas Constituída por evidências
Rituais Metodologia científica
Livros sagrados Periódicos
Estática Dinâmica, mutável

Fonte: Rodrigues (2010)

Outros pesquisadores têm buscado encontrar argumentos para comprovar de maneira cabal, a sobrevivência do ser após a morte, através de estudos diversificados:

  • Fenômenos PSI (telepatia, precognição, etc…);
  • Experiências de quase morte (Near death experiences);
  • Experiências fora do corpo (Out of body experiences);
  • Visões no leito de morte (Deathbed visions);
  • Pesquisas em mediunidade (grafoscopia, neuroimagem, etc…);
  • Casos de Reencarnação (CORTs) e estudos de marca de nascença (Birthmarks);
  • Cura a distância (Distant healing);
  • Transcomunicação instrumental (Electronic Voice Phenomena).

Fonseca (2007) nos brindou com um modelo matemático que confirmou o grau de confiança de O Livro dos Espíritos como fruto do ensinamento dos Espíritos Superiores. Empregou-se a Teoria da Probabilidade para estimar a influência dos médiuns sobre as comunicações mediúnicas nos casos de consenso e obteve-se uma expressão que permite avaliar o grau de confiança de que os conteúdos das ideias em comum são dos Espíritos e não da mente dos médiuns. E mais uma vez, estamos falando em adesão do maior número, para dar credibilidade a determinado resultado ou fenômeno.

A dedicação destes estudiosos reforçam cada vez mais o elo entre a ciência espírita e a ciência acadêmica, visto que a primeira, como ciência de observação, alcançará inevitavelmente esta posição almejada por Kardec, desde sua concepção.

Ademais, um modelo que integre e demonstre os estudos mais importantes já realizados, agregarão maior credibilidade ao movimento espírita, direcionando os neófitos e seus grupos de estudos a valorizarem e trabalharem pelo cientificismo, ferramenta indispensável para validação e aprovação de ideias que intentem avançar com a denominação espírita.

Assim sendo, as obras básicas retomarão seu status de prestígio, a partir das boas práticas metodológicas, da potencialização do modelo de comportamento científico e filosófico nas sociedades espíritas, e da divulgação adequada dos princípios e diretrizes espíritas.

REFERÊNCIAS CONSULTADAS

Crookes, William. Notes of an Enquiry into the Phenomena called Spiritual during the Years 1870-1873.(Notas de uma Investigação sobre os Fenômenos Denominados Espíritas durante os Anos de 1870 a 1872) Quarterly Journal of Science (Revista Quadrimestral de Ciência). 1874.

Doyle, Arthur Conan. The History of Spiritualism (A História do Espiritualismo). New York: G.H. Doran, Co. Volume 1: 1926.

Fonseca, A. Análise matemática do CUEE. Artigo publicado em o Reformador, Julho de 2007, pp. 29-31. Disponível em: A Era do Espírito

LOMBROSO, César. Hipnotismo e mediunidade. Rio de Janeiro: FEB,. 435p.

Peres, J.F., Newberg, A. Neuroimaging and mediumship: a promising research line. Artigo publicado na série mente-cérebro. 2013. Disponível em: HCNET USP

Rodrigues, G. Consciência e livre arbítrio: a visão da Neurociência. Grupo de Neurologia Cognitiva do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. 2010. Disponível em versão pdf cedida pelo autor. 62p.

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