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29/06/2017

Sistematização dos fenômenos mediúnicos Jayme Cerviño


Classificar, sistematizar, é um imperativo da ciência. A mesma sacrifica em geral, a realidade, mas é indispensável para apreendê-la. Tanto quanto possível, a classificação deve ser natural, ou seja, coincidir com as leis que regem o fenômeno, com o aspecto da natureza que pretende retratar.brain-sketch

O quadro de elementos químicos de Mendelejew, por exemplo, impôs-se definitivamente, porque se baseia numa lei imutável, segundo a qual as propriedades das substâncias químicas simples se repetem periodicamente quando as enfileiramos segundo a ordem crescente de números atômicos. Evidentemente não podemos ter qualquer ilusão quanto aos fatos mediúnicos. Estamos longe de conhecer as leis fundamentais que vigem no setor das pesquisas.Os estudiosos não concordam sequer sobre os fenômenos que existem realmente e os que resultam de observações mais ou menos apressadas ou inidôneas. Não estamos certos portanto, da extensão do material a sistematizar. Sairemos da dificuldade, de modo um tanto primário incluindo em nossa classificação, tanto os fatos decididamente verificados com os altamente prováveis. Não é preciso dizer que esses últimos pertencem sobretudo ao domínio da ‘parafísica’ (Metapsíquica objetiva –Richet), que constitui sempre um ponto nevrálgico das pesquisas psíquicas.

Os fenômenos mediúnicos prendem-se fundamentalmente à Biologia – com ‘B’ maiúsculo, a Ciência da vida – e nessa disciplina encontramos as linhas básicas da nossa classificação. A neurofisiologia que, fecundada pelo gênio de Pavlov, adquiriu novas dimensões, ensina que a atividade nervosa se desenvolve em três sistemas fundamentais assim discriminados, do mais recente para o mais antigo, segundo o critério filogenético:

1- Segundo sistema de sinalização (córtex frontal)

2- Primeiro sistema de sinalização (córtex extrafrontal)

3- Subcórtex ou paleoencéfalo (praticamente todo o encefálo excluído o córtex)

Consideramos o fenômeno mediúnico(1) de qualquer natureza – objetivo ou subjetivo, físico ou intelectual – sob um conceito unívoco, tendo como “primum movens” as zonas subcorticais psicoreceptoras. A partir desse nível a ‘mensagem’ pode exteriorizar-se em qualquer dos três sistemas mencionados, conforme siga a via cortical (primeiro sistema de sinalização) ou ocorre e eclosão do fenômeno no próprio subcórtex, possivelmente atraves do hipotâlamo que governa as trocas metabólicas e energéticas. Desse modo teríamos três tipos básicos de médiuns e mediunidades:

1 – Médiuns do segundo sistema de sinalização ou efeitos intelectuais como os automatistas, designados desde Allan Kardec de psicógrafos e psicofônicos(2) conforme seja preponderante a atividade dissociada dos centros motores da palavra e da escrita – segunda circunvolução frontal esquerda, ou falada – terceira circunvolução frontal esquerda(3).

Nos médiuns intuitivos haveria emersão consciente, através de pólos frontais, de afluxos subcorticais, subliminares, talvez durante um leve e despercebido transe.

2 – Médiuns do primeiro sistema de sinalização ou sensoriais. Parece-nos que Delanne foi o primeiro, ou um dos primeiros, que teve o mérito de deslindar, dos efeitos ditos intelectuais, as mediunidades melhormente chamada sensoriais. Não há contradição entre os conceitos de mediunidade sensorial e percepção extrassensorial.

A ESP independe dos sentidos, é atributo de nossa “Alma psicológica” (Rhines), mas a mensagem paranormal ora se exterioriza pela via motora – psicografia, psicofonia – ora, através do sensório, sob forma alucinatória. Fala-se mesmo em automatismo sensorial (Myers Maxwell) para designar a atividade dissociada, autônoma, dos centros sensoriais. Teoricamente são possíveis tantos tipos de médiuns sensoriais quanto são os nossos sentidos, que, como é sabido, excedem de muito os sentidos clássicos. Os mais comuns são os somestésicos ou sensitivos(4).

Atividade dissociada dos centros da sensibilidade geral, que correspondem principalmente à circunvolução pós-rolânia; os visuais ou videntes (automatismos das áreas visuais que correspondem aos lábios da cissura calcarina no lobo occipital) e os auditivos (automatismos das áreas auditivas que correspondem ao lobo frontal). Os sentidos químicos, olfato e paladar, podem igualmente traduzir, na linguagem que lhes é própria, percepções psíquicas.

3 – Médiuns do sistema subcortical, classicamente denominados de ‘efeitos físicos’. São responsáveis pelos fenômenos parafísicos ou, talvez, melhor, parabiológicos. Podemos dividi-los em somatistas, telérgicos e teleplásticos. Neste caso a ‘mensagem’ se exterioriza através de certos núcleos da base do cérebro, sobretudo o hipotálamo que preside a vida vegetativa. Na somatização, o fenômeno é intra-mediúnico, traduz-se dentro do corpo do médium sem ultrapassar-lhe a periferia (estigmatizações, incombustibilidade, transfiguração). Talvez não exista base científica para separar a telergia da telepastia. Os médiuns que produzem efeitos telérgicos, mais intensos, são tembém responsáveis pelos melhores efeitos teleplásticos. No primeiro caso ocorrem fenômenos energéticos extramediúnicos, os mais variados – mecânicos, acústicos, luminosos, elétricos magnéticos – no segundo o ‘processus’ atinge o acme, concretizam-se formas vivas e falantes, as materializações. A base comum, o substratum proteiforme, de ocorrências tão diversas, seria o ectoplasma, palavra que adquiriu um conceito muito amplo. Há pelo visto ectoplasmas dinâmicos e materiais, invisíveis e visíveis. A existência de ectoplasmia invisível foi totalmente demonstrada por Osty, no instituto metapsíquico de Paris, com o médium Rudy Schneider. OuçamosalemdoinconscienteRichet: “O ectoplasma, isto é, a projeção de uma força para além do corpo do médium, tem pois, uma primeira fase de invisibilidade durante a qual parece um vapor ou um fio “fluídico” que é quando começa a ser visível, e uma terceira fase durante a qual é tangível, visível, algumas vezes informe. Veremos num capítulo ulterior que essa forma pode tomar a aparência e a quase realidade de um ser vivo (Richet – “A Grande esperança”). No tratado de metapsíquica, aludindo á identidade entre os fenômenos de telecinesia e ectoplasmia, explica: “Formulamos então uma hipótese e diante desses fatos estranhos a hipótese é permitida – a materialização comporta duas fases: uma primeira fase de materialização invisível (apesar da aparência paradoxal da expressão), com ação mecânica, e uma segunda fase de materialização visível, com ação mecânica. Então tudo será coerente. Portanto não há delimitação nítida entre telecinesia e ectoplasmia. Um efeito inicialmente mecânico pode transformar-se em plástico. A rigor, são preferíveis a palavra telergia e teleplastia para designar respectivamente, a primeira e a segunda fase do fenômeno.

TELERGIA

Do grego tele longe, à distância, e ergon trabalho – efeito energético extramediúnico, ao passo que a telecinesia tem sentido restrito, Aplica-se apenas às ações mecânicas. Quanto á palavra ectoplasmia, usada em geral como sinônimo de materialização ou teleplastia, adquire pelas próprias elucubrações do sábio professor, um significado muito ampla, pois ectoplasmia seria também o substrato dos fenômenos telérgicos. Entretanto, quando nos referimos ao ectoplasma, sem qualquer adjetivação deve-se entender o fator material, quimicamente analizável, que flui, em geral, das cavidades materiais e talvez dos polos glandulares da pele. Para maior clareza poderíamos distinguir ectoplasmas funcionais (fenômenos telérgicos) e ectoplasmas orgânicos (ectoplasmia propriamente dito), ou usar, no mesmo sentido, a expressão ectoplasma-força e ectoplasma-matéria. É claro que deve existir inúmeras graduações entre esses dois extremos.

FUNÇÕES PSI E CLASSIFICAÇÃO DOS FENÔMENOS MEDIÚNICOS

Em nenhum fenômeno mediúnico encontramos isoladamente um dos fatores ESP-PK. Nas mediunidades que se expressam atraves do córtex cerebral predomina a ESP, enquanto nos efeitos físicos ou subcorticais, a psicocinesia é o aspecto marcante. Três questões surgem entretanto:

– Qual o papel da psicocinese nos fenômenos mediúnicos corticais?

– Como conciliar as noções metapsíquicas de ectoplasma-força e ectoplasma-matéria com o conceito parapsicológico de uma energia não-física atuante nesses fenômenos?

– Qual a participação da ESP nos efeitos mediúnicos psicocinéticos?

O papel da PK nos fenômenos mediúnicos corticais é um aspecto particular do problema mais geral da relação mente-corpo. O Dr. Rhine admite que essa relação é de natureza psicocinética, ou seja, mediada por uma forma singular de energia não física, a força psicocinética.

“Uma espécie de ação psicocinética deve produzir-se evidentemente, cada vez que nosso pensamento provoca uma ação neuro-muscular, supondo que o faça. Esse efeito psicofísico produz evidentemente fenômenos eletro-químicos e transformações físicas no cérebro, e origina uma sucessão de reações físicas nos nervos e músculos do corpo” (Rhine – “The reach of the mind”)

Já sugerimos que a conversão de estímulos psicocinéticos em influxo nervoso talvez ocorra em zonas psicoreceptoras do subcórtex. A partir desse nível, o ‘pensamento’ como que se materializa, adquire uma base física e, atravez das fibras nervosas, se projeta no córtex cerebral. Que se trate de fenômeno psicológico ou parapsicológico, o mecanismo é o mesmo, apenas no segundo caso a ‘alma’ transmite ao receptor cerebral um informação que hauriu na esfera extrafísica, sem o concurso dos órgãos sensorias.(ESP). Há uma aparente contradição entre as pesquisas clássicas e as da moderna parapsicologia. Os testes parapsicológicos do Dr. Rhine e sua escola se baseiam como é sabido, na possibilidade de interferir mentalmente nos dados de jogar, obtendo um número de acertos superior ao que prevê os cálculos das probabilidades. Verificou-se que o número, a massa, a natureza e forma dos dados, bem como a distância que se coloca o indivíduo testado não ifluem notadamente no resultado das experiências. Entretanto antigas observações metapsíquicas não abonam, pelo menos em toda a linha, essa conclusão. Richet que personifica a própria Metapsíquica, salienta que os efeitos telecinéticos “não transpõe os limites das forças de um homem mediano”, e mais “produzem-se facilmente quando o objeto é leve, mais dificilmente quando é pesado e, quando o objeto é muito pesado não se produzem mais. Dizer que a força que muda os objetos é limitada e que é mais ou menos da ordem da força humana é adiantar a questão, desde que se trata de uma força de ordem transcedental, diferente das forças mecânicas conhecidas e de outra natureza essencial; não haveria razão para que o peso de um tonelada não fosse levantado tão facilmente quanto o peso de uma grama”. (Richet – “Traité de Métapsychique).

A nosso ver, os metapsíquistas de ontem e os parapsicológos de hoje observaram em realidade fenômenos diferentes. Existem uma psicocinesia pura – ação direta da mente ou ‘alma’ sobre a matéria, muito débil na maioria dos indivíduos. Podemos chamar-lhes psicocinesia imediata e seu estudo é o objeto da parapsicologia atual. Ocorre em plena claridade, mas é fenômeno pouco ostensivo que só se evidencia atraves de método estatístico, mediante numerosos testes. Trata-se de um força não-física relacionada com nosso sistema anímico e, assim, livre de certas limitações têmporo-espaciais.

Não parece razoável entretanto, fazer ‘tábula rasa’ da velha metapsíquica; são fortes as evidências a favor do ectoplasma, isto é, da exteriorização de um fator energético, até mesmo material, capaz de produzir efeitos extra-mediúnicos. É a psicocinesia mediata que, como observa agudamente Richet se excerce dentro dos limites mais restritos do que seria de se esperar de uma força ‘sui generis’ desvinculada do mundo físico. De fato, neste caso, há um impulso psicocinético inicial que se converte em processo biológico ao nível do subcórtex e a partir desse momento está condicionado às leis da matéria, ao tempo e ao espaço. Ao influxo anímico primário (PK) é veiculado, ou mediatizado, por um fator físico que na sua forma mais sutil é ectoplasma-força e, no aspecto mais denso, ectoplasma-matéria. A Pk mediata não se presta a estudos estatísticos, é privilégio de raríssimos indivíduos – médiuns dito de ‘efeitos físicos’. E exige condições muito especiais para se efetivar. As radiações luminosas, por exemplo, exercem ao que parece, uma ação impediente para o fenômeno, que é nitidamente mediúnico, há quase sempre um certo grau de transe e dissociação da atividade psíquica.

É possível que existam gradações entre a Pk imediata e mediata, possibilitando fenômenos que obedecem a leis diversas e desorientam os investigadores. Em síntese, seriam possíveis três graus principais aos fenômenos psicocinéticos:

1Psicokinesia pura ou Imediata, ação da mente sobre a matéria sem intermediário físico, ou, se preferirem, atraves de uma força de natureza psíquica, a Força Psicocinética.

2 – Ação psicocinética da mesma sobre o próprio organismo, determinando a exteriorização de um fator dinâmico de natureza física. (ectoplasma-força): psicocinese energética.

3 – A ação Pk mais intensa que mobiliza a própria substância protoplasmática para além da periferia do corpo (ectoplasma-matéria): Psicocinesia ectoplásmica propriamente dita. As duas últimas formas são evidentemente mediatas.

Quanto á participação da ESP nos fenômenos mediúnicos psicocinéticos, dois pontos merecem destaques. Em primeiro lugar, a maioria dos fenômenos de efeitos físicos da literatura Metapsíquica pressupõe, no ‘modus operandi’ o exercício da ESP, ou de uma prodigiosa hiperestesia visual; Assim os movimentos intencionais de objetos vários em plena obscuridade ou a concretização de objetos ectoplasmicos, com características humanas e fisionomias identificáveis, nas mesmas condições. Por outro lado, o próprio fenômeno psicocinético pode ter um conteúdo intelectual inexplicável em termos de psicologia clássica, sugerindo a intervenção da ESP. Um efeito telérgico pode ser anúncio da morte de uma parante distante. Nepenthes, fantasma ‘exsudado por D’Esperance’, expressava-se em grego antigo. O espectro materializado de Estela Livermore reproduzia não só traços fisionômicos, mas a caligrafia, o estilo e a aptidão linguística da morta, que conhecia bem o francês, idioma ignorado pela médium, Kate Fox. De acordo com o predomínio de um ou de outro fator do binômio ESP-PK e com o nível de atividade psiconervosa atraves do qual o fenômeno se exterioriza, propomos a classificação dos fatos mediúnicos segundo o quadro estampado na página seguinte.

Praticamente carece de importância a forma pela qual a médium obtêm a informação extra-sensória: Telepatia ou clarividência. No primeiro caso as funções Psigâmicas entram em relação com o conteúdo mental do outro indivíduo – vivo? “morto”? – no segundo, exploram diretamente a realidade exterior – física? Extrafísica? – A precognição vence a barreira do tempo, permite, de alguma sorte, prever o futuro. A retrocognição dificilmente pode ser demonstrada como fenômeno autônomo, pois a sua verificação implica o exame dos vestígios do passado – livros, documentos, achados arqueológicos – passíveis de clarividência, ou do indivíduo que conhece ou viveu determinado fato e cujo conteúdo psíquico a telepatia pode devassar. Deixamos aos parapsicológos a discussão, algo acadêmica, sobre a modalidade mais comum da ESP ou mesmo a possibilidade de reduzir a apenas a uma forma as várias manifestações do fenômeno. Roberto Amadou, por exemplo, esforça-se para explicar tudo através da Telepatia. Tão pouco insistiremos na distinção entre psicocinesia imediata e mediata. Sob o prisma mediunológico importa antes o modo pelo qual a mensagem é exteriorizada ao nível do sistema nervoso central.

Assim distinguimos efeitos intelectuais, sensoriais e físicos que correspondem, possivelmente, a uma caracteriologia mediúnica. Pavlov admitia dois tipos fundamentais de “atividade nervosa superior”, a intelectual e o artístico, conforme a predominância respectiva do segundo ou do primeiro sistema de sinalização. O artista se detém, principalmente, nos dados sensoriais imediatos, cultiva o pensamento figurativo, comum ao homem e aos animais. Sintoniza bem com a realidade concreta, distingue e fixa com clareza as formas, as nuances cromáticas e sonoras. Sonhos nítidos e intensamente coloridos são apanágio da mentalidade artistica. O intelectual vive num mundo de abstrações, especificamente humano. Ocupa-se menos com as qualidades primárias dos objetos, do que com os modelos abstratos, ideais, que resultam da comparação dessas qualidades. Um terceiro tipo mais primitivo complementaria a nosso ver, o esquema Pavloviano: o instintivo – emocional ou vegetativo, com predomínio das reações incondicionadas do subcortex, tendência para os distúrbios do vago-simpático e fácil conversão de estados psíquicos em sintomas e mesmos lesões corporais (somatização). Dir-se-ia que se expressam numa linguagem somática, orgânica. É interessante obsevar que esses tipos de médiuns coincidem, “mutatis mutandi” com as ‘almas parciais’ de Platão – Nous, a razão; timo sentimento; epitimia, instinto – e a trindade anímica dos peripatéticos. Aristóteles distinguia três formas ou aspectos da alma: a Alma intelectiva (segudo sistema de Pavlov), específica do homem, à qual correspondem os efeitos intelectuais; a Alma sensitiva, própria dos homens e dos animais (primeiro sistema de Pavlov), correspondem aos efeitos sensoriais e, finalmente, a alma vegetativa (sistema subcortical – hipotâlamo), comum a todos os seres vivos e a que se devem os efeitos físicos. Não existem certamente tipos puros. Cada um de nós é a soma, em proporções diversas, desses três fatores. O modo de exteriorização das funções Psi, as diversas mediunidades correspondem ás variantes tipológicas:

Tipo intelectual (2o sistema) – efeitos intelectuais. Tipo artístico (2o sistema) – efeitos sensoriais-(5) Tipo instintivo-emocional – (sistema subcortical) – efeitos físicos.

NOTAS:

1 – (Referimo-nos especialmente, ao fenômeno mediúnico em sentido estrito, isto é, àquele que, além da dissociação implica no exercício de uma função Psi).

2 – A palavra psicofonia, que só ultimamente tem sido vulgarizada, remonta a Kardec, conforme se pode verificar no glossário da “Instruções práticas sobre as manifestações espíritas” obra que o sistematizador do espiritismo não reeditou por considerá-la superada pelos “Livro dos Médiuns”.

3 – Pressupõe-se que durante o transe, esses centros verbo-motores guardam conexões livres com seus homólogos sensoriais, respectivamente, os centros visual e auditivo da palavra. Quando afirmamos que determinada área atua dissociada, não se deve inferir que o faça de modo absoluto. Certamente, sempre persistem, ativas, vias de associação corticais. Cumpre ainda lembrar que as localizações clássicas, citadas no texto, sofrem severas críticas de Pierre Marie, Head e outros pesquisadores.

4 – A palavra ‘sensitivo’ tem várias acepções. Allan Kardec empregou-a para designar os médiuns cujas percepções psíquicas se traduzem no âmbito da sensibilidade geral (médiuns sensitivos ou impressionáveis). Richet aplicou-a a indivíduos capazes de produzirem fenômenos criptestésicos. Na literatura Metapsíquica é usada, com freqüência em sentido amplo, como sinonímia de médiuns ou sujeito dotado. O Padre Quevedo prefere reservá-la para designar os hiperestésicos. O sensitivo obteria suas informações graças a uma hiperacuidade sensorial, ao contrário do metagnomo que se vale justamente da PES. Adotamos o conceito kardequiano. A PES pode traduzir-se em linguagem ‘alucinatória’, atravez do automatismo de qualquer centros sensoriais. Quando o faz pelas áreas da somestesia ou sensibilidade geral (parietal ascendente ao pé da 1o e 2o circunvolução parietal), dizemos que o médium é somestésico ou sensitivo. Compreendem-se no âmbito da mediunidade sensitiva alterações, não patológicas, ocasionais, da sensibilidade superficial e profunda – impressões de contacto, cinestésicas, ou cenestésicas.

5 – A expressão “médiuns do primeiro sistema, que usamos na classificação geral, pode suscitar críticas mais ou menos válidas. Com efeito ao ouvir uma frase, que lhe parece extrínseca, o médium audiente mobiliza recursos do segundo sistema, responsável pela linguagem simbólica ou convencional. Mas em realidade, o fato de se expressar projetando para o mundo exterior imagens sonoro-inteligíveis ou não, a tendência de objetivar a percepção parapsíquica, indica que o metagnomo pertence ao tipo artistico de Pavlov ou sensorial de Minkowska, isto é, sua atividade nervosa superior é regida principalmente, pelo primeiro sistema. Aliás, mesmo nos efeitos físicos, há frequentemente um grau variável de intelectualidade que traduz a participação do segundo sistema.

Em certo sentido o fenômeno mediúnico pode ser interpretado como uma regressão filogenética.Os médiuns mais raros são os de efeitos físicos que implicam justamente, no retorno a um nível evolucionário remotíssimo: os automatismos subcorticais. Os mais comuns são os de efeitos intelectuais, que se expressam pelo segundo sistema de sinalização, mais recente e exclusivo do homem. Os médiuns sensoriais ocupam lugar intermediário, tanto numericamente quanto no que se refere a intensidade do mecanismo regressivo. É claro que não existem trabalhos estatísticos sobre a incidência das várias mediunidades, mas grosso modo, são razoáveis nossas estimativas. Parece óbvio, igualmente, que a excepcionalidade do médium seja paralela ao grau de regressão que a natureza do fenômeno exige.

A palavra regressão para nós tem significado muito especial. Entendemos que a telencefalização, a caminho do intelecto, representa apenas uma das possibilidades evolutivas. A espécie como o indivíduo “é um fluido que se solidifica, um tesouro que se estanca.” (Carrel). Há aspectos virtuais da personalidade humana à margem das linhas mestras da evolução, que podem em determinadas condições, ser atualizados. Regredir, no caso, equivale a reencontrar momentaneamente as potencialidades do ser primitivo e dar –lhe uma espécie de vida transitória. Algo semelhante á metaplasia. Uma célula pode transformar-se noutra, de aspecto diverso, mas, precedendo o salto, há sempre certo grau de regressão à multipotência embrionária.

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