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19/10/2017

Reminiscências de uma vida anterior


Esse caso elimina de um só golpe todas as explicações com as quais psicologia oficial se esforça para conta dos fenômenos de “paramnésia”, desde a teoria da “falsa memória” até a sugestão, auto-sugestão, as “coincidências, fortuitas ” e a “telestesia durante o sonho “.

Há três anos o engenheiro José Costa publicou na Itália obra notabilíssima de assunto metapsíquico intitulada “Di lá dalla vita” (Do outra lado da vida), na qual as provas da sobrevivência da alma extraídas dos fenômenos mediúnicos são apoiados com argumentos impressionantes, baseados nas ciências físicas e químicas.

A obra se divide em quatro partes, a primeira das quais contém as experiências pessoais do autor, que consistem principalmente no sentimento do “já visto” e “já sentido” (paramnésia), sentimento que havia experimentado desde sua infância em presença de quadros, de ambientes, de paisagens que lhe acontecia ver e que com freqüência se lhe produziram na adolescência e na juventude. Por fim, um dia, em conseqüência de uma visão que tivera, conseguiu descobrir alguns documentos históricos particulares, graças aos quais viu agrupar-se em um conjunto coerente e orgânico as distintas impressões de paramnésia que experimentara, conjunto que se apresentava com o aspecto de uma série de acontecimentos vividos por um personagem da Idade Média.Sem nenhuma dúvida, as impressões de paramnésia experimentadas pelo autor convergem à demonstração do fato de que ele mesmo fora o dito personagem, constituindo uma excelente prova neste sentido. Com efeito, este caso elimina de um só golpe todas as explicações com as quais a psicologia oficial se esforça em explicar os fenômenos de paramnésia, começando pelas diferentes teorias sobre a “falsa memória” e terminando pela hipótese da sugestão, da autosugestão, das “coincidências fortuitas” e da “telestesia durante o sonho”, estados psicológicos e supranormais que não conseguiram produzir uma convergência de impressões subjetivas perfeitamente concordes com os acontecimentos vividos por um obscuro e esquecido personagem da Idade Média.

O caso era, pois, digno de ser levado em consideração e estudado. Mas continha alguns episódios muito românticos que, embora não tivessem nada inverossímil podiam deixar perplexo o investigador. Mas ele evitava analisá-lo e dar-lhe uma divulgação maior.

Não obstante, um de meus amigos que conhecia pessoalmente o Sr. José Costa desde sua infância e que seguira com interesse os incidentes recolhidos pelo referido autor em sua obra, não se cansava de assegurar-me que minhas perplexidades eram injustificadas, que o engenheiro Costa era um homem positivo, sério e probo e que, por outro lado, havia escrito várias obras muito apreciadas sobre construções navais e matemáticas superiores. Finalmente, vendo que não conseguia dissipar minhas dúvidas (que não tinham, na verdade, outra causa senão a impressão pessoal já indicada) meu amigo se apresentou um dia em minha casa com o Senhor Costa. Eu fiquei impressionado. Achei me napresença de um gigante de uns quarenta anos com um tórax de Hércules e uma aspecto marcial de antigo guerreiro que se harmonizava estranhamente com suas recordações de uma existência anterior, na qual fora um cavaleiro medieval. Uma vez passado meu primeiro sentimento de surpresa, fiz seguir a conversa sobre o caso de que era protagonista, rogando lhe me proporcionasse informações sobre o assunto. Iniciou, com um semblante frio e mesurado, contando-me a história de suas reminiscências referentes a um passado muito antigo que vivera. Como acontece geralmente em tais circunstâncias, a palavra sincera e convencida do narrador não demorou em dissipar as desconfianças que havia despertado em mim a leitura dos acontecimentos a que nos referimos. Por esta razão, creio-me no dever de relatar brevemente o caso do engenheiro José Costa. Este relato ocupa umas cinqüenta páginas no livro, pelo que me vejo obrigado a resumi-lo. O autor começa assim: Os fatos que vou relatar tem algo de fantástico e irreal. E, sem dúvida, são verdadeiros. Mas estão de tal forma em oposição com as idéias da maioria dos humanos, com as teorias científicas mais arraigadas, que eu mesmo não pude subtrair-me a um trabalho de análise para julgar os desacordos entre meu raciocínio, orientado segundo idéias pré-concebidas da vida normal e o testemunho dos meus sentidos, que não podiam ter feito o prodígio de transformar imagens alucinatórias em acontecimentos que se realizaram efetivamente. Não ignoro que ao publicar estes fatos, esperavam-me a incredulidade e a crítica pouco benévola. Mas, sei por outro lado, que se me calasse ocultaria fatos que projetaram estranhos fachos de luz sobre os esses comentários e o dever de contribuir com o desenvolvimentodas investigações, um campo cientifico de imenso interesse para a humanidade, não titubeio. A crítica deverá, quanto menos, levar em conta meu ato de valor…

Castelo de Verres

Castelo de Verres

As primeiras vagas sensações do “já visto” e do “já sentido” surgiram na mente do autor durante sua primeira infância, passada na pequena cidade de Gonzaga, próxima a Mantua. Acontecia-lhe isto diante de um pequeno quadro que pendia em uma das paredes de sua casa e que representava Constantinopla e o estreito. O senhor Costa escreve:
Tenho presente todavia a profunda emoção despertada em mim por um antigo quadrinho que representava uma paisagem oriental, na luz resplandecente de um pôr de sol, que acendia como relâmpagos nas altas torres e as cúpulas douradas de uma cidade que se estendia de um modo pitoresco na orla de um golfo maravilhoso… Este assunto despertava em mim mil recordações de lugares, fatos, tempos antigos, gravados em minha memória com formas que se esfumaçavam quando eu tentava retê-las e penetrar mais fundo nas lembranças. Em vão me esforçava por buscar nos lugares e nos acontecimentos estritamente relacionados com a imagem, à qual se associava à lembrança de uma multidão de homens de armas, de navios desprendendo ao vento suas velas e suas bandeiras, de lutas, de choques de armas ensurdecedores, de montanhas, de vastas extensões de água esfumando-se no horizonte em linhas indefinidas, de colinas verdes, cobertas de flores, descendo suavemente até verdadeiros espelhos d’água, entre luzes e cores que fundiam harmonicamente os meios tons do céu, da terra e da água. Que eram essas imagens tão vivas, tão claras, tão presentes em minha memória e que contrastavam tanto comas paisagens e a tranqüilidade prosaica da planície de Mantua? Não se referia certamente a fatos, a acontecimentos de minha vida presente, nem a relatos nem a leituras, pois eu não sabia sequer dar o nome apropriado de navios, lagos, guerreiros nas impressões que me apareciam nessa forma simbólica. Não pude fazê-lo senão alguns anos mais tarde, comparando com descrições ou figuras essas imagens que eu conhecia sem havê-las visto nunca, nem em realidade nem em desenho.

O Senhor Costa destaca que estas vivas evocações espirituais de sua infância, provocadas pelo quadrinho colocado na parede, teria se dissipada provavelmente com a idade se uma estranha sucessão de idéias não houvesse enlaçado o quadro de Gonzaga com a cidade de Veneza, quando seu pai o levou até lá. Tinha então dez anos e assim descreve suas impressões:

Desde minha chegada, o eco tão característico das vozes e sons da cidade, apagando-se na água dos diques e canais, evocou em meu espírito uma impressão análoga que, ao surgir, me havia surpreendido no mesmo lugar e do mesmo modo, muito tempo antes… E, a sensação que lhe produziu este sentimento “já visto”, do “já sentido” foi tão forte que durante a noite se transformou em um sonho vivo. Sonhei que chegava a Veneza depois de um longo trajeto por rios e canais, por entre pântanos e vales, em barcos cheios de uma multidão de homens armados como na Idade Média. Eu estava no meio deles, mas com aspecto de um homem de uns trinta anos, encarregado do mando. Depois, uma estância em Veneza; logo, o embarque em galeras sobre as quais flotavam estandartes azuis com a imagem sagradade Maria em meio a estrelas douradas e bandeiras vermelhas com a grande Cruz Branca de Saboya.

O Conde Verde

Sobre o barco-insígnia, mais pintado e decorado que os demais, um personagem a quem todo mundo prestava cortesias, falava-me com afetuosa cordialidade. Depois, a extensão infinita das águas até os limites do horizonte, o desembarque em uma terra fértil, sob céu límpido de cobalto. Um novo embarque e outro desembarque em uma praia deserta, dominada por uma cidade defendida por altas torres, cheia de guerreiros. Logo o assalto, a batalha, a luta feroz, a vitória, nossa entrada na cidade conquistada. Finalmente a marcha de nosso exército até a cidade das cúpulas douradas no golfo maravilhoso. Era esta a cidade pintada no quadro de Gonzaga: Constantinopla, tal como a revi depois… O autor observa que estas imagens do sonho não eram fantasias nem criações novas; que constituíam os acontecimentos que desde sua primeira infância evocavam em seu espírito o quadrinho que pendia na parede; acontecimentos que, no sonho, foram coordenados em uma sucessão lógica, cronológica, como deveriam se produzir na realidade. Sua mentalidade infantil foi de tal modo impressionada que acreditou haver sonhado a verdade. Neste sentido falou-lhe seu pai, esforçando-se por tirar-lhe da cabeça estas fantasias.

Já adulto, o Senhor Costa sentiu nascer em si uma verdadeira paixão pelas armas, as salas de armas, as ginásticas e os locais de equitação. Entrou para o exercito na qualidade de voluntário. Pouco depois foi nomeado subtenente no regimento da cavalaria “Piemonte-Reale”, com guarnição em Verceil. Viu-se imediatamente em seumeio natural, “como se retomasse costumes e tendências adquiridas em um passado distante”. Um dia, atraído por uma solene e misteriosa harmonia sagrada, entrou na igreja de San Andrés, em Verceil, e se sentiu invadido pelo sentimento profundo de uma humilhação sofrida em outros tempos. E se pergunta:

Por que transpus com tanto temor o umbral da igreja, como se a voz de um arrependimento já distante houvesse despertado em mim? Por que contemplei com uma dolorosa lembrança as três majestosas naves, os maciços pilares, com sua coroa de colunas ligeiras? Havia entrado no passado nesta igreja? Estes mármores solenes haviam sido testemunhas de uma cerimônia análoga pela qual minha alma durante muito tempo ficou oprimida? Eu não soube então, nem durante algum tempo, explicar-me logicamente estas lembranças, bem como outras reminiscências que despertavam em mim paisagens e acontecimentos com a nitidez e o colorido das coisas reais…

O autor prossegue dizendo que as urgentes necessidades da vida não tardaram a impor-se a ele, levando-o a renunciar a toda investigação que não tivesse como resultado imediato o melhoramento do bem estar de sua família. Nestas condições, as misteriosas reminiscências que nele despertavam, de armas e batalhas, de galeras e cidades orientais, ficariam apagadas ao contato com a realidade, se outros acontecimentos em sucessão incessante não se houvessem projetado e justaposta às sensações da primeira juventude, levando-o a meditar seriamente sobre sua possível origem. Mas o Senhor Costa era um positivista materialista, o que impedia que seu pensamento tivesse uma orientação justa. Finalmente, aconteceu-lhe um incidente em que estevea ponto de perder a vida, que modificou radicalmente suas convicções filosóficas.

Um noite em que se achava estudando, preparando-se para os exames do diploma universitária, foi vencida pela sono, caindo sobre a cama e provocando a queda de uma lâmpada de petróleo que não se apagou, produzindo uma densa labareda asfixiante. A atmosfera se tornou irrespirável e o Senhor Costa sucumbiria asfixiado se não houvesse sucedido estranho incidente. Viu-se subitamente de pé em meio ao quarto, perfeitamente desperto, mas separado do corpo o qual contemplava diante de si, deitado insensível sobre o leito. E não somente o via exteriormente, mas, também, interiormente, divisando sobretudo os plexos nervosos e os vasos sangüíneos que palpitavam a um ritmo acelerado. Ele se sentia livre, ligeiro, etéreo, mas ao mesmo tempo oprimido por uma angústia inexplicável; é que estava ligado ao corpo material que naquele momento sofria horrivelmente. Pensou em levantar a lâmpada e abrir a janela, mas se deu conta de que não tinha ação sobre a matéria. Pensou então em sua mãe que dormia no quarto ao lado e, imediatamente, através da parede, viu-a dormindo em sua cama, rodeada de uma atmosfera radiante que não tinha seu próprio corpo. Chamou-a, pedindo-lhe socorro e viu como despertava sobressaltada, deixava rapidamente a cama e corria a abrir a janela, como se executasse automaticamente a última exortação expressa por ele. Viu-a em seguida sair do seu quarto, precipitar-se para o do seu filho, abrir a janela e buscar o corpo inanimado. Ao contato com as mãos maternais, o espírito exteriorizado do filho sesentiu atraído para seu corpo, que revivesceu, despertando pouco depois, com gravíssimos sintomas de asfixia. Este fenômeno de “bilocação” que acorreu com ele mesmo, no qual seu espírito havia abandonada o corpo que pôde contemplar à distância, como se já não lhe pertencesse, enquanto permanecia vivendo e mais consciente que antes, serviu par convencer o paciente da existência e da sobrevivência da alma e, conseqüentemente, serviu para orientar corretamente o seu pensamento na busca de uma hipótese capaz de explicar as sensações do “já visto” e do “já sentido”, que se renovavam nele com tanta freqüência. Alude a tudo isto na seguinte passagem:

Jamais experimentei tão fortemente a sensação de viver como no momento em que me senti separado do corpo. Perguntei a minha mãe pouco depois do incidente e ela me confirmou que primeiramente abriu a janela de seu quarto como se experimentasse ela mesma uma sensação de asfixia, antes de correr em meu auxílio. Pois bem, o fato de havê-la visto fazer isto, apesar da parede que nos separava, enquanto eu estava deitado, inanimado, sobre a cama, excluía a hipótese de uma alucinação ou de um pesadelo durante um sonho que transcorria em circunstâncias fisicamente anormais. Não me vinha nenhuma outra dedução lógica senão supor que meu “Eu” pensante havia trabalhado fora do meu corpo… Tivera, pois, a prova evidente de que minha alma se separara do corpo durante a existência corporal, tivera, em suma, a prova da existência da alma e até da imortalidade. Porque se e verdade que se desprendeu, sob a influência de circunstâncias especiais, da envoltura material do corpo, atuando e pensando fora dele, é natural que volte aencontrar depois da morte a plenitude de sua liberdade e o desprendimento de todo laço material.

Uma vez admitida esta explicação (que a lógica dos fatos confirma), eu vi por fim dissipar-se a meus olhos a névoa que envolvia as causas e as origens dessas lembranças distantes e esfumaçadas que caracterizaram minha infância e minha juventude. Deviam remontar a outra existência, a outra personalidade, a outro corpo que minha alma tivera sabe Deus em que época e em que circunstâncias. Eu devia guardar uma vaga lembrança desses acontecimentos, em virtude de uma disposição psíquica especial. Esta disposição devia ser bastante rara, tão rara como os fenômenos que eu havia comprovado em mim mesmo…

Como se pode ver, o incidente da “bilocação” que experimentara o Senhor Costa, ao proporcionar-lhe a convicção da existência e da sobrevivência da alma, fez lhe pensar pela primeira vez que suas impressões subjetivas, tão freqüente e claras, procediam de lembranças de uma existência vivida anteriormente. Tratava-se, sem duvida, de uma suposição puramente intuitiva que, pra que tivesse um valor demonstrativo, exigiria que o autor conseguisse descobrir no passado um personagem ao qual se adaptassem todos os acontecimentos que correspondiam às sensações diversas e complexas do “já visto” e do “já sentido”, que emergiam tenazmente de seu subconsciente. Tamanho esforço parecia praticamente irrealizável. E, sem dúvida, certas circunstâncias a tornaram possível.

Um dia o Senhor Costa, com dois amigos, os senhores Alberico Barbiano de Belgioioso d’Este e Eneas Silvio Piccolomini partiram para uma excursão no Vale de Aosta. Assinalemos que a presença do primeiro dos referidossenhores, descendente de uma antiga família patrícia, poderosa na Idade Média, constitui outra curiosa coincidência no conjunto dos fatos, pois o nome de um dos seus antepassados desempenha importante papel nos acontecimentos históricos que correspondem às impressões “paramnésicas” experimentadas pelo autor. A visita a alguns dos famosos castelos antigos do vale de Aosta constituem uma nova fonte de impressões do “já visto” e do “já sentido” para nosso sensitivo. Por isso, pergunta-se: Por que razão misteriosa experimentei um sentimento de tristeza infinita e de repulsão à vista do castelo de Ussel, como se uma vaga lembrança de dolorosos acontecimentos estivesse estreitamente vinculada a seus muros?… Entre os resplendores do crepúsculo vespertino me parecia ver manchas de sangue nas muralhas de Ussel. As ruínas do castelo, a tristeza e o silêncio do lugar me oprimiam a alma como um arrependimento inapagável… O castelo de Fenis, muito melhor conservado que o de Ussel, não desperta no Senhor Costa sensações subjetivas; ele o observa e estudava artisticamente seus interessantes detalhes.

Conde-verde-SaboyaO mesmo já não acontece com o castelo de Verrés, que se apresenta cheio de reminiscências do passado, vibrantes de emoção, de paixão, de dor. Decide voltar a vê-lo à noite, sozinho, ao clarão da lua. Nessas circunstâncias se desenvolve o episódio culminante de suas recordações de uma vida anterior vivida por ele. O castelo foi edificado em 1380, por Iblet de Challant, o personagem mais ilustre da família de Challant, conselheirodo “Conde Verde” (Amadeu VI) e do “Conde Vermelho” (Amadeu VII), da Casa de Sabóia. Enquanto nosso sensitivo se achava no interior do castelo, desencadeou-se uma furiosa tormenta. O Senhor Costa observa a este respeito: Uma estranha lucidez de espírito parecia opor-se àquelas profundas trevas, fazendo-me entrever, em meio aos relâmpagos, as salas restauradas com seu antigo esplendor; as abóbadas rotas se compunham, acendiam-se os fogos nos imensos queimadores das chaminés, a chuva se confundia com o alegre sussurro de várias vozes reunidas, passando na praça em torno do fogo. Não lamentei que a chuva violenta me houvesse impedido de regressar a Verrés, porque não desejava subtrair-me àquele caudal de imagens e visões. O cansaço terminou por vencê-lo e acabou dormindo no grande salão em ruínas do segundo piso. Eis aqui como o autor descreve a cena de seu despertar:

Quis levantar-me. Tinha os membros entumecidos pela prolongada imobilidade e o corpo trêmulo de calafrios por causa do frio noturno, quando a sombra mais escura da parede não iluminada pela lua pareceu iluminar-se com um resplendor fosforescente. Fixei meus olhos, bem abertos, na misteriosa luz que parecia restringir-se e condensar-se, aumentando a intensidade, de maneira que do pronto adquiriu o aspecto de uma forma material cada vez mais visível na sombra negra. Na luminosidade difusa se divisava lentamente um corpo humano, com contornos progressivamente mais pronunciados, destacando-se em meio de uma auréola mais tênue que o rodeava, até que todos os seus átomos se condensavam em uma imagem de mulher, ainda imprecisa em sua forma espectral, mas perfeitamentevisível… Eu estava como que preso ao chão, com os membros paralisados pela emoção… Mas foi só um instante. A razão se sobrepôs em seguida ao vil temor da matéria e me levantei. Pareceu-me então que aquela forma espectral se apequenava ao dominá-la eu com minha manta gigantesca. Fui a ela para saber quem era, para prendê-la como matéria, para obrigá-la a revelar o mistério de sua aparição. Mas, ao avançar fiquei deslumbrado pela luz da lua que me veio em pleno rosto. Ao penetrar de novo na sombra de onde o fantasma saíra, nada vi. Sonhara? Seria uma alucinação original do sonho e que a vivacidade da impressão retera durante este estado de semi-sonho, no qual sumira o sino de ão Gil? Mas, não!… no umbral da porta entrevejo a forma do fantasma que me convida a segui-lo. Eu o faço tropeçando nas ruínas, nos degraus da escada, enquanto a figura parece planar, roçando apenas o chão. De pronto, volta-se para mim do patamar da escada e vejo-a lá em cima, sobre o arco de círculo que une as duas paredes, muito bela em sua imagem olímpica como se fosse a estátua do ideal… Já não será mais um fantasma para mim: é a lembrança de um amor profundo o que persigo neste momento. Mas, quem é ela? Eu o ignorava e pouco me importava saber. Sentia um divino desejo imaterial, o sublime sentimento espiritual que se desprende ao contacto de dois seres que se amam. Eu a via agora maravilhosa, com seus grandes olhos que devo ter contemplado cem vezes em um êxtase divino, com sua boca sorrindo, que eu devo ter beijado tantas vezes, unindo nossas almas… Quando me acerquei dela, na contemplação extática de sua etérea figura, tive a impressão de ouvir que me dirigia a palavra, devendo tratar-se sem dúvida da transmissão depensamento, de sua alma para a minha. E assim falou-me: “Iblet! Tenho desejado ver-te antes do grande dia em que a morte divina nos reunirá outra vez, para que retires de minhas lembranças a fé que se distância de ti, de modo que te seja cada vez mais duro o laço da vida… Li, próximo da torre de Albenga, algumas lembranças de teu passado terrestre… Guarda as lembranças de meu rosto e de minha alma que foi boa e que tem falado à tua, Iblet, a alma gêmea que espero na hora solene!!! Vi-a então esfumar-se, dissolver-se, perder-se na luz cada vez mais diáfana… Podia repetir, palavra por palavra, o que ela me disse, mas não conseguia lembrar do timbre nem do som de sua voz, sequer conceber de que modo aquela voz havia chegado a mim… Aquele nome de Iblet pelo qual me chamara era, pois, o nome com que me designavam em uma existência anterior, da qual eu guardava tão vagamente a lembrança? O destino havia-me conduzido àquele lugar, que havia sido minha morada? As impressões que eu havia experimentado à vista do castelo de Verrés não pareciam confirmar, por acaso, essa suposição? Tais são as passagens essenciais do relato da visão notabilíssima que apareceu para nosso autor, no castelo de Verrés. A persuasão de haver visto um fantasma autêntico ficou firmemente gravada nele durante vários dias. Logo sua razão começou a rebelar-se contra esta idéia ao mesmo tempo em que se rebelava contra si mesmo por admitir a possibilidade de uma alucinação. Finalmente, chegou às seguintes conclusões, que parecem incontestáveis: Que eu haja visto realmente um fantasma ou que haja sonhado vê-lo, não é menos certo que eu sei agora, sem que ninguém me haja falado disso e menos ainda que o haja lido,que há na torre de Albenga documentos nos quais poderia inteirar-me de muitas coisas sobre a vida de uma tal “Iblet de Challant”

Uma vez esclarecido este ponto, restava apenas ao Sr Costa trasladar-se a Albenga, próximo de Savona, para assegurar-se do que havia de realidade na manifestação de Verrés. Nosso autor foi até lá, fez-se apresentar ao proprietário da torre de Albenga, o Marques Del Carreto di Balestrino e solicitou-lhe autorização para efetuar algumas investigações nos arquivos da família, com o pretexto de haver sido informado de que naqueles arquivos particulares se conservavam alguns documentos relativas a um certo Iblet Challant, pelo qual se interessava do ponto de vista histórico. O Marquês Del Carreto lhe concedeu amavelmente a autorização solicitada e não demorou em achar um feixe de documentos que se referiam efetivamente à casa de Challant. Pode verificar que em 1694 estes documentos foram retirados furtivamente do castelo de Issogne e depositados nos arquivos Del Carretto, em Albenga. Entre aqueles papéis, achou uma biografia de Iblet de Fenis. O Senhor Costa observa a propósito disso: Tocava assim outra prova material evidente da realidade dos acontecimentos daquela inolvidável noite no castelo de Verrés. Aqueles acontecimentos não eram, pois, produtos de minha fantasia alucinada, posto que me haviam levado a pôr a mão em documentos que ninguém no mundo, afora o Marques Del Carretto (cuja existência eu ignorava) podia conhecer nem dizer-me onde se achavam, ninguém que não estivesse provido de um poder transcendental, como a aparição de castelo de Verrés…Aqui estão as principais passagens da vida de Iblet de Challant, em que se observam concordâncias impressionantes com as sensações do “já visto” e “já sentido” que havia experimentado o autor, o qual escreve: Iblet de Challant foi o Senhor de Montjovet, São Vicente, Challant, Graines, Verrés e Issogne.

Nasceu em 1330 e esteve durante sua juventude na Corte do Conde de Sabóia, Amadeu VI, o “Conde Verde”, que teve por ele uma estima e uma amizade fraternais. Começou então um episódio novelesco que pesou consideravelmente sobre a natureza e os acontecimentos de sua vida. Segundo parece, uma ardente paixão recíproca uniu os corações de Iblet e Branca de Sabóia (o fantasma de Verrés?), irmã do “Conde Verde”, mas, que razões de Estado levaram Amadeu VI a romper aquele amor, concedendo a mão de sua irmã ao feroz Duque de Milão, Galeas Visconti? Isso explica a vacilação de Iblet em casar com Jacqueline de Châtillon, que seu pai, Juan de Challant, lhe havia destinado, e sua decisão de acompanhar o Conde Verde na expedição ao Oriente, em 1366. Esta expedição partiu de Veneza e se compunha de 16.000 homens (Quem sabe se referiam a este acontecimento minhas impressões do “já visto” quando me encontrei pela primeira vez em Veneza? Procediam do mesmo acontecimento as reminiscências simultâneas de armas e guerreiros, de caravelas e galeras que formigavam confusamente em minha memória e que se reorganizaram em sonho) Ao chegar às costas de Morea, a expedição se reorganizou e tomou de assalto Gallipoli, que domina a entrada do mar de Mármara, em cuja ocasião se distinguiu Iblet por seu valor. Por fim, trasladou-se para Constantinopla (o quadro de Gonzaga?)…Tudo isto sc refere, sobretudo, às lembranças Oriente. Passando às reminiscências da Itália, nosso autor achou estas outras passagens que têm relação com elas: A crueldade de Juan Galeas Visconti e sua avidez de conquistas determinaram aos príncipes italianos a juntarem-se sob as ordens do Conde Verde (1371). Iblet toma parte na expedição comandada pelas forças de Sabóia e organiza um golpe de mão para penetrar, com seu sobrinho Bonifácio e um punhado de homens de confiança no castelo de Milão. O manuscrito não explica o objetivo principal de tão arriscada empresa, mas é possível que se tratasse de conseguir que Iblet falasse com Branca de Sabóia e a induzisse a fugir. Iblet é descoberto e teria pagado sua audácia com a vida não fosse a nobre intervenção de Alberico de Barbiano, que se achava às ordens de Galeas Visconti e o salvou. Que misteriosa relação entre este acontecimento e o encontro estranhamente fortuito com aquele outro Alberico de Barbiano, descendente seu, que visitou comigo os castelos do vale de Aosta! Há outros pontos de contato entre Iblet e Alberico, ambos falecidos no curso do mesmo ano de 1409.) Iblet volta à frente das forças de Sabóia na expedição empreendida pelo Conde Verde (1377) para liberar Biella do senhorio de Juan Fieschi, bispo de Vorceil, ajudado e incitado este por Galeas Visconti. Suas tropas obtêm uma brilhante vitória e, inclusive, tomam prisioneiro o Bispo, confinado no castelo de Montjovet. Por causa disso, Iblet foi excomungado pelo papa Gregório XI.

A excomunhão pesa dolorosamente sobre a alma de Iblet e em suas relações com seus vassalos… Depois da morte de Gregório XI, ao ser nomeado papa Urbano VI, Iblet consegue que seja revogada a excomunhão, mas sob acondição de realizar um ato de humildade respeitosa para o bispo na Basílica de Santo André, em Verceil… (Este acontecimento se relaciona talvez com a estranha sensação que me fez penetrar na dita Basílica, para unir de imediato a ela a evocação de um ato, doloroso, de humilhação oprimente, realizado por mim?) Estas são as notabilíssimas concordâncias que se encontram entre as impressões, as reminiscências as visões do engenheiro José Costa e os acontecimentos que caracterizaram a existência pessoal de um cavaleiro da Idade Média. É indispensável ir mais longe na vida aventureira de Iblet de Challant, que, desiludido pela ingratidão que para com ele tiveram os poderosos, terminou por se retirar, indignado, ao seu castelo de Verrés, que embelezou com altíssimo sentimento artístico. Morreu em 1409, vivamente lamentado por sua família seu país. Outra coincidência de caráter distinto, mas notavelmente sugestiva, consiste em que Iblet de Challant era de estatura gigantesca e compleição atlética, exatamente como o Sr. José Costa! E ainda mais: existe um retrato de Iblet de Challant que apresenta com 30 anos. O Senhor Costa publicou uma fototipia do mesmo, colocando frente a ela seu próprio retrato de quando tinha mais ou menos a mesma idade. Pois bem, ambas as fotografias se parecem a um ponto tal que se colocasse na cabeça de Iblet de Challant o capacete de oficial da cavalaria que leva o Senhor Costa em sua foto, pareceria que os dois retratos representam a mesma pessoa. Depois do que acabo de dizer, e levando em consideração o que me declarou pessoalmente o Senhor Costa, de que não tem nenhuma dúvida sobre haver vividooutra vida, na qual foi um cavaleiro medieval chamado Iblet de Challant, é preciso convir que tem ele boas razões para o fazer.

Alberico de Barbiano

Alberico de Barbiano

Do ponto de vista cientifico, o detalhe que é preciso levarem em consideração especial é o do fantasma do castelo de Verrés, que revela ao sensitivo-vidente que nos arquivos privados de um patrício da Ligúria acharia a biografia de um esquecido personagem da Idade Média, que nasceu e viveu em outra província da Itália, biografia cuja existência ninguém no mundo conhecia, salvo, talvez, o proprietário dos arquivos onde estava guardada. Este detalhe representa um interesse teórico considerável, já que demonstra a origem supranormal da visão de Verrés, que se une indissoluvelmente a todas as impressões de “paramnésia” experimentadas pelo Sr. Costa. Em resumo: considerando que o fantasma de Verrés chamou o sensitivo pelo nome de “Iblet”; considerando que os incidentes pessoais, os amores contrariados, as façanhas guerreiras do cavaleiro que assim se chamava e viveu na Idade Média, concordam admiravelmente com as impressões, as lembranças e as visões que o Sr. José Costa experimentou desde a meninice até a idade viril; considerando que as múltiplas explicações com as quais a psicologia oficial se esforça para explicar os fenômenos de “paramnésia”, desde as diversas teorias de “falsa memória” até a hipótese da sugestão, da auto-sugestão, das “coincidências fortuitas” e da “telestesia durante o sono” são todas relativas a estados psicológicos, patológicos ou supranormais que não puderam produzir uma convergência de impressões subjetivas perfeitamente concordantes com os acontecimentos vividos por um personagem da Idade Média,obscuro e esquecido; considerando que devemos contemplar tudo isso, há que deduzir logicamente que a única conclusão legítima que se pode extrair dos fatos em conjunto é a que encara a possibilidade de o engenheiro José Costa ter vivido anteriormente outra vida, na pessoa de um cavaleiro medieval chamado Iblet de Challant.

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