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27/04/2017

Reencarnação – Decifrando o caso Antônia Marcio Rodrigues Horta


Thomas Kuhn afirmou que uma revolução científica resulta antes da reinterpretação dos dados existentes que do acúmulo de fatos novos[ Kuhn 1998.]. Infelizmente, trata-se aqui de uma contrarrevolução, pois tenciono evidenciar que o conhecimento excepcional apresentado por Laurel Dilmen (LD) pode resultar de uma ocorrência rara da mente humana, mas não necessária ou prioritariamente de reencarnação. Para mim, convicto da sobrevivência após a morte e simpatizante da reencarnação, não é uma situação confortável escrever um texto como este; aliás, considerando meus escritos anteriores, parece um fado evidenciar fraude nos[ Vide Biasetto 2011 & 2011a. Horta 2007 & 2011.] ou que os textos reencarnacionistas que li não demonstraram seus termos[ Vide Horta 1996 & 2012.]. Como muitos, acreditei inicialmente que o caso Antonia, pesquisado por Linda Tarazi, reunia condições para ser o corvo branco de William James; tanto que resolvi fazer uma nova tradução para o português do artigo Um caso inusual de regressão hipnótica com alguns aspectos inexplicados[ Tarazi 1990. A nova tradução segue abaixo.], publicado em 1990, visto que a existente não me agradava. Entrementes, ao trabalhar mais proximamente ao texto, pude perceber que dentro dele pulsa uma explicação mais econômica dos dados existentes [ Segundo Stevenson, “as “personalidades” geralmente evocadas durante as regressões a uma vida anterior, induzidas hipnoticamente, parecem se constituir de uma mistura de vários ingredientes. Estes podem incluir a personalidade atual do paciente, suas expectativas daquilo que ele pensa que o hipnotizador deseja, suas fantasias sobre aquilo que ele imagina ter sido sua vida anterior e, talvez ainda, elementos obtidos paranormalmente” (Stevenson 1970 p.22).], que talvez dispense qualquer tema metafísico para dar conta dos aspectos apresentados.

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AUTOR: Marcio Rodrigues Horta é Doutor em filosofia pela USP e funcionário de carreira do TRE/SP.

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Nota do Editor

Para que se possa compreender a analise crítica do autor Marcio Rodrigues Horta quanto ao caso Antônia, se faz necessário a leitura do artigo original traduzido por este mesmo autor, localizado no final da página. Você também poderá acessá-lo clicando aqui.

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ÍNDICE

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HISTÓRIA FACTUAL & ESTRANHAS LACUNAS

Na década de 80, Tarazi investigou alegações reencarnacionistas feitas sob hipnose por sua paciente LD, constatando que muitos fatos nelas contidos são verdadeiros, embora alguns só possam ser averiguados em livros por demais especializados, em documentos existentes em arquivos de um município espanhol e da Igreja Católica. Não obstante, um aspecto que salta aos olhos e que a própria investigadora se deu conta é que a narrativa fornecida por LD era lacunosa, pois:

“Os episódios eram incompletos e fora de ordem cronológica, mas ela continuou a divulgar fatos detalhados que haveriam de ser encontrados apenas em fontes obscuras”.

Salientando os acertos de LD, Tarazi não desenvolveu um estudo crítico acerca da importância do que os espaços vazios ocultam. Todavia, alguns aspectos históricos problemáticos são:

1º) a nacionalidade alemã de Erika (a mãe de Antonia) e de sua dama de companhia. Embora possível, a presença de duas alemãs germanófonas no interior de uma ilha americana no início da colonização espanhola (meados do séc. XVI) é muito pouco provável – a narrativa não explicou suas presenças ali em nenhuma passagem. O nome completo de Erika também não foi fornecido, tornando muito difícil a averiguação[ A presença de mulheres alemãs no início da colonização espanhola da América não é provável, mas não é impossível; sabe-se que companhias alemãs de mineração se envolveram com o ouro e a prata do novo mundo, inclusive fornecendo mineiros. Na colonização portuguesa, Martim Afonso de Souza trouxe alguns alemães (muito provavelmente homens) para São Vicente em 1532; por essa época, Hans Staden comandava o Forte de Bertioga e, em 1557, escreveu sobre suas peripécias no Brasil (cf. Rosenthal 1986). Contudo, não encontrei informações sobre mulheres germânicas em Hispaniola nessa época – a principal possibilidade remete a criptojudias buscando ocultação.].

2º) A viagem de Antonia à Alemanha. Segundo a narrativa, Erika, deprimida pela ausência do marido, foi “visitar seu irmão Karl” em Leipzig. Com efeito, caminhando para meados do séc. XX, a infante LD pôde viajar para Dresden com sua mãe porque era relativamente fácil fazê-lo. Vivemos num mundo em grande medida livre e, se tiverem dinheiro, as pessoas vão praticamente onde querem (inclusive as mulheres), alcançando rápida e seguramente seu destino. Assim, apesar da depressão econômica, membros de uma família de classe média baixa americana que desejassem fazer uma viagem longa podiam reunir economias, obter dinheiro emprestado num banco, pedir a familiares etc[ Segundo Tarazi, aos seis anos, LD viajou com sua mãe para Dresden (cidade próxima a Leipzig), Alemanha.]. E no séc. XVI? Seria simples sair de Hispaniola, uma ilha no recém-descoberto Novo Mundo, e alcançar o miolo continental da Saxônia apenas porque se desejou fazer uma visita? Ainda que não fosse impossível, qual a plausibilidade dessa história? Ela não recende um anacrônico feminismo?

Apresento aqui dificuldades históricas muito prováveis para essa narrativa no séc. XVI: caso resolvesse viajar para fora de Hispaniola, Erika teria que pedir permissão ao seu marido ausente, por carta (sim, pois os familiares eram chefiados pelo pai & marido na época). Esta talvez chegasse & talvez não à zona militarizada na qual o oficial espanhol servia. Se chegasse, é pouco provável que o militar consentisse, porque o risco de vida para seus entes queridos era enorme, o custo financeiro de tal viagem muito grande e, por fim, ele acabaria ficando sozinho, sem sua família (e bens também? Vendidos para financiar o passeio?)[ Em 1936, um ensaísta americano escreveu uma inspiradora advertência a ser sempre observada por um pensamento histórico crítico & realista: “os diretores dos filmes antigos costumavam fazer coisas estranhas. Uma das mais curiosas era seu hábito de mostrar as pessoas andando de carro, depois descerem atabalhoadamente e se afastarem sem pagar o motorista. Rodavam por toda a cidade, divertiam-se ou se dirigiam a seus negócios, e isso era tudo. Sem ser preciso pagar nada. Assemelhavam-se em muito à maioria dos livros da Idade Média que, por páginas e páginas, falavam de cavaleiros e damas, engalanados em suas armaduras brilhantes e vestidos alegres em torneios e jogos. Sempre viviam em castelos esplêndidos com fartura de comida e bebida. Poucos indícios há de que alguém devia produzir todas essas coisas, que armaduras não crescem em árvores e que os alimentos (que realmente crescem) têm que ser plantados e cuidados. Mas assim é. E tal como é necessário pagar por uma corrida de táxi, assim alguém nos séculos X a XII tinha que pagar pelas diversões e coisas boas que os cavaleiros e damas desfrutavam. Também alguém tinha que fornecer alimentação e vestuário aos clérigos e padres que pregavam enquanto os cavaleiros lutavam”. Huberman 1986 I.], como efetivamente ocorreu na narrativa. Fora de Hispaniola e sem ninguém para defendê-las, as damas corriam o risco de sofrer toda sorte de abusos no navio, naufrágio, escorbuto, piratas, pestes, guerras – uma lista imensa de males.

Mas imaginemos que o militar, até então descrito como apegado à família, após ingerir algum cogumelo tropical resolvesse permitir a viagem. Para poder embarcar, Erika muito provavelmente teria que pedir autorização ao governador espanhol em Santo Domingo, pois não se vivia num mundo liberal, e o direito de ir e vir não existia a menos que uma autoridade lhe desse um salvo conduto, um passe de trânsito livre. O governador só faria isso se o chefe da família consentisse e se o potentado considerasse essa viagem conveniente aos interesses do império. Naquele momento, com grande custo econômico, a Espanha estava colonizando Hispaniola e parte substantiva da América, ou seja, enviando gente para tomar posse de seus novos territórios, e não convinha agir no sentido inverso. O governador talvez resolvesse consultar a matriz, pois estava subordinado diretamente ao Conselho das Índias, sediado na Espanha, e não haveria de contrariar sua política senão por bons motivos; neste caso, a resposta para a solicitação de Erika entraria no mundo burocrático e lento da corte, em Madri, e demoraria meses, talvez anos para voltar[ Acerca da liberdade de ir e vir, as monarquias absolutas eram muito distintas das democracias modernas; assim como nos estados socialistas atuais, a movimentação individual dependia de autorização governamental. Um exemplo interessante vem do absolutismo português, irmão do espanhol: em 1792, quando o inconfidente Tomás Antônio Gonzaga aportou em Moçambique, foi informado pelo governo local que não poderia “abandonar a ilha sem a ordem expressa do capitão-general”, ou seja, do governador. E isso não se devia à sua condição de condenado, pois segundo o historiador, “essa regra valia para todos os habitantes” (Gonçalves 1999 p. 323). E isso acontecia em todo o império: para casar com sua amada Marília, Gonzaga solicitou autorização à rainha; para viajar ao Rio de Janeiro, Tiradentes pediu ao governador Barbacena – sem um passe, seria preso na estrada real por trânsito ilegal etc. ].

Não obstante, segundo a narrativa, Antonia deixou a ilha de Hispaniola e (após um lapso de tempo e circunstâncias ignorados) se apresentou em Leipzig. Leipzig? Presumindo-se a inexistência de uma linha náutica regular fazendo esse trajeto, ou seja, de um navio partindo de Hispaniola rumo à Alemanha bem na ocasião conveniente para Erika e Antonia, elas teriam que alcançar a península ibérica e zarpar novamente para um porto do norte da Alemanha – nova autorização, nova avaliação de conveniência política, tempo, dinheiro etc[ Gonzaga partiu do Rio de Janeiro em 25/05/1792 e alcançou Moçambique em 31/07/1792; ou seja, sua viagem demorou mais de dois meses (cf. Gonçalves 1999 p. 319). Em 1807, a família real portuguesa fugiu de Napoleão Bonaparte seguindo de Lisboa para Salvador; a viagem durou cinquenta e quatro dias, quase dois meses no mar com uma escolta inglesa protegendo a frota para evitar os perigos – e estes eram muitos: em 08/12/1807, “uma violenta tempestade destrói velas e mastros e dispersa os navios”; no final de dezembro, “por falta de ventos, as naus levam dez dias para percorrer trinta léguas, distância que, em situação normal, seria vencida em dez horas” (Gomes 2008 p. 92). O historiador informa também que, em 1807, “o envio de uma carta de Lisboa para Paris demorava cerca de duas semanas. Os correios viajavam por estradas de terra esburacadas, que ficavam praticamente intransitáveis em dias de chuva. Para ir e voltar, gastava-se um mês ou até mais” (pp. 49-50). A viagem de duas mulheres partindo de Hispaniola rumo à Leipzig poderia durar perfeitamente uns seis atribulados meses e custar uma pequena fortuna. ]. A Alemanha só se unificou em 1871; no séc. XVI, havia naquele território vários principados desunidos, com feudos e taxas de passagem a cada pequena extensão de viagem; para ir de um porto no norte germânico até Leipzig, no centro continental, o custo da viagem por terra seria alto e esta poderia levar meses, numa terra conflagrada por pestes, guerras regionais e religiosas[ Recordo que, anos mais tarde, Galileu Galilei, em sua derradeira viagem para Roma, partiu de Florença em 20/01/1633 e só alcançou a capital em 13/02/1633; vinte e quatro dias para percorrer duzentos e trinta e um quilômetros; isso porque atravessar feudos por estradas de péssima qualidade, chuva, lama a deter a carroça, buscar autorizações & alimentos, precaver-se contra malfeitores e, no caso, evitar doenças locais custaram um bom tempo & dinheiro.]. Eis aspectos que a lacuna da narrativa oculta. Magicamente, independente das circunstâncias reais de uma viagem notável como essa para aquele tempo, Antonia deixa Hispaniola e se reapresenta incólume em Leipzig, como se tivesse saído de uma sala e entrado noutra (coisa bem possível num museu).

3º) A própria pesquisadora, escrupulosa, admitiu jamais ter encontrado uma prova histórica que Antonia Micaela Maria Ruiz de Prado existiu. E algum documento deveria existir, pois, segundo a narrativa, a protagonista teria sido processada pela inquisição espanhola, instituição obcecada pela produção de documentos e zelosa na conservação de seus arquivos. Juan Ruiz de Prado (o alegado irmão mais novo de seu pai) é um personagem histórico conhecido, tendo sido enviado duas vezes de Madri para Lima para atuar como inquisidor; seu nome está fortemente ligado à história do Peru, e não se prosperava na inquisição espanhola senão após longa pesquisa que mostrasse filiação, árvore genealógica, a condição de cristão velho, posição de nobreza (ou seja, que nenhum antepassado ou parente realizou trabalhos braçais) etc. Enfim, um inquisidor era largamente estudado e esses apontamentos eram publicados e arquivados.

4º) A construção do nome da protagonista parece se constituir apenas da junção do pouco significativo conjunto “Antonia Micaela Maria” ao sobrenome do personagem histórico Juan “Ruiz de Prado”. Por que o sobrenome de Erika não compõe seu nome? A princípio, passada uma geração, um novo sobrenome deveria ter sido acrescentado ao nome da filha. Digamos que a mãe se chamasse Erika Shultz; então, pela tradição de formação dos nomes espanhóis, o resultado seria Antonia Micaela Maria Ruiz de Prado Shultz, este último sobrenome informando a ascendência materna (os sobrenomes anteriores informam a ascendência paterna, primeiros e mais relevantes na tradição espanhola). Teríamos aqui uma lacuna que o inconsciente de LD, por não conhecer a cultura espanhola, não soube preencher corretamente?

5º) Tarazi informa que um personagem da trama chamado Bey de Argel era italiano, e mais, que “depois de uma incômoda e vacilante conversa em árabe, Bey perguntou se ele (seu interlocutor) podia falar um pouco melhor em italiano, pois este era seu idioma nativo”. Todavia, a Itália somente se unificou no séc. XIX e, assim, Bey dificilmente se identificaria como “italiano”: napolitano talvez, talvez florentino ou genovês etc.; ademais, o “italiano”, o idioma da Itália unificada, ainda hoje tem rivais na península itálica. Na ocasião, não havia um idioma “italiano” único para o interlocutor árabe falar, mas numerosos dialetos: o toscano, o napolitano, o lombardo etc. O diálogo acima citado não faz sentido à luz da história.

6º) Por que um personagem tão importante no drama foi chamado apenas “tio Karl”? Seu nome completo foi omitido, seu exato local de trabalho também; ainda assim, houve quem[ Segundo Braude (2003 pp. 190-198 & 222-224), Alan Gauld, um famoso estudioso do tema, “possui suspeitas muito razoáveis sobre o valor da evidência desse caso. Uma diz respeito à possibilidade que Laurel certa vez tenha lido (e, então, se esquecido mais tarde) alguma obscura novela rica em acurados detalhes históricos do período. Com efeito, há um precedente para tal preocupação; existe ao menos um pequeno corpo de evidências para este tipo de criptomnésia. … Entretanto, a busca de Gauld por tal novela foi muito mal sucedida. Tarazi, do mesmo modo, não encontrou nenhum livro com a informação relevante. … Particularmente, o problema está na falta da evidência não somente para a existência de Antonia, mas também para seu tio Karl. … [Gauld] embarcou numa busca cuidadosa por indícios de Antonia e Karl na Inglaterra. Ele assume, razoavelmente, que tais traços deveriam existir, dadas as afiliações acadêmicas de Karl e o alegado ativismo político de Antonia. Mas essa busca também nada obteve”. Na nota três ao texto, Braude entra em detalhes da longa pesquisa conduzida por Gauld em assentamentos ingleses.] levantasse arquivos ingleses à procura de um professor Karl com as características apontadas, um lente que abandonou a batina para casar, que teve uma mulher e uma filha mortas prematuramente, que se mudou para Oxford. Nada foi encontrado! Ou seja, um padrão aqui se repete: quando o personagem é histórico, seu nome completo é fornecido, detalhes de sua vida etc., mas apenas até onde a história sabe; quando o personagem não é histórico, o inconsciente é incapaz de prover detalhes – se o faz, não há corroboração histórica posterior.

7º) Na narrativa, o teatro dos acontecimentos muda nova e subitamente de Leipzig para Oxford; Antonia e seu tio Karl simplesmente reaparecem atuando em negócios governamentais espanhóis na Inglaterra. Quem financiou a mudança? Quem a autorizou? Do que eles viviam na Inglaterra? Como os personagens superaram o veto aristocrático à sua participação nos negócios públicos[ O absolutismo monárquico não funcionava como a democracia contemporânea, que permite a praticamente todos participarem da política; esta era prerrogativa dos bem-nascidos. Por exemplo: a sociedade portuguesa era tão rigidamente estamental que, Gonzaga, para passar do Judiciário (lugar da pequena nobreza) para a chefia do Executivo (restrita à alta nobreza), auxiliou na tentativa de organizar uma Nova República em Minas Gerais, sendo preso e condenado. Segundo a narrativa de LD, Antonia e seu pai administraram uma estalagem, ou seja, realizaram trabalhos braçais e, portanto, estavam alijados da nobreza; essa circunstância seria sem dúvida objeto de averiguação da inquisição e poderia impedir que seu alegado irmão, Juan Ruiz de Prado, assumisse uma posição de destaque na inquisição espanhola.]? Incrivelmente, após ser presa, Antonia fugiu da prisão e se reapresentou na França, escapando para a Espanha!!! Um verdadeiro passe de mágica uma garota escapar de uma enxovia inglesa, quando estava sob a acusação de inimiga do Estado, não deixar vestígios documentais históricos[ Ver nota 12.], embarcar num navio de não se sabe quem não se sabe como e alcançar o território francês, seguindo dali facilmente para a Espanha, sem os inevitáveis problemas de recursos, feudos, guerras, doenças, violência etc.

8º) Segundo a narrativa, Antonia praticava atividades físicas regulares desde a infância, sendo algo como uma “atleta” – imagino-a magra e forte, portanto; todavia, ela também é descrita como muito atraente para os homens de seu tempo. Por paradoxal que pareça, essa relação entre o cultivo do corpo feminino e o interesse masculino é corrente hoje, mas não era no séc. XVI. O padrão estético era outro: as mulheres gordas (muitas vezes bem gordas) tinham franca preferência; a obesidade feminina era interpretada como sinal de prosperidade e, principalmente, de saúde. Ademais, por volta dos vinte e dois anos, uma mulher que não tivesse se casado seria vista como candidata a solteirona; Antonia foi descrita como uma veterana de vinte e nove anos, culta e viajada – tudo o que um homem não desejava numa mulher naquele tempo. Muito dificilmente um ou ainda dois inquisidores cairiam de amores por ela; pelo contrário, sua figura provavelmente causaria repulsa nos eclesiásticos, que haveriam de preferir uma adolescente ingênua, frágil, carnuda e ainda com dentes.

9º) Por fim, nossa heroína Antonia (sim, pois se trata de uma vida excepcionalíssima, sempre no limite do ou forçando o possível) segue para Lima para encontrar seu tio, um inquisidor que mais tarde será famoso. Por que não o fez antes, quando estavam na Espanha? É um mistério, mas claro que a protagonista não apreciava nada fácil, resolvendo encontrá-lo no outro lado do Atlântico. Mais uma vez, todos os detalhes reais de uma tal viagem são omitidos, e a personagem vira o mundo com a facilidade que um visitante avança pelas salas de um museu.

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EVIDÊNCIAS DE TRANSPOSIÇÃO

Por essas e outras razões, sustento que muito provavelmente Antonia nada mais seja do que a projeção da vida & personalidade de LD ambientadas no mundo hispânico do séc. XVI; porém, a existência de Antonia é condição sine qua non para a explicação por reencarnação para o caso, pois, se a protagonista não existiu historicamente, logicamente não pode haver reencarnação. Restará apenas uma paciente que, hipnotizada, apresentou desse modo inusitado conhecimentos remotos sobre a história do séc. XVI, visto que Tarazi pesquisou e asseverou que LD não obteve tais conhecimentos por leituras ou filmes. Como então ela teria conhecimento de detalhes extremamente precisos da história hispânica do séc. XVI? Por ora, fiquemos com a evidência de transposição.

Observe-se que LD nasceu nos EUA durante os anos da depressão – portanto, no meio de uma crise econômica aguda, na qual produzir alimentos era muito relevante; Antonia teria nascido numa plantação no continente americano em 1555, durante o início da colonização espanhola, momento de duro esforço para viabilizar as novas possessões através da produção de alimentos[ Segundo Tarazi, LD “nasceu e cresceu na região de Chicago durante os anos da depressão”; mais tarde, LD “passou os verões dos seus treze e catorze anos trabalhando numa fazenda”. Na narrativa, Antonia “nasceu em 15 de novembro de 1555 numa plantação pequena e isolada, a meio dia de jornada de Santo Domingo, na ilha de Hispaniola”.]. A mãe de LD possui ascendência alemã; Erika, a mãe de Antonia, era alemã[ Infiro que a mãe de LD possua ascendência germânica, pois segundo Tarazi, a ascendência de LD “é alemã e seu passado religioso luterano. … Seu avô morreu quando LD tinha seis anos e, com sua mãe, ela permaneceu seis meses em Dresden, Alemanha. … Sua mãe pertencia a um clube alemão e levou LD às reuniões, nas quais fez amizade com outras crianças germano-americanas, atuou em peças e, por três anos, cantou músicas folclóricas alemãs numa estação de rádio alemã”. Por sua vez, na narrativa, Antonia “era filha de Antonio, um oficial espanhol, e Erika, sua esposa alemã” (negrito-itálico meu). ]. LD foi filha única durante algum tempo (sua irmã é temporã); Antonia era filha única. LD não tinha irmãos; Antonia também não. O pai de LD era o único numa vizinhança pobremente educada com formação superior; o pai de Antonia era um oficial espanhol cercado de servidores incultos e escravos[ Tarazi informa que, por volta dos seis anos de idade de LD, “seus amigos e vizinhos eram imigrantes ou americanos de primeira geração. … A maioria era pobremente educada e não conhecia senão seu idioma de origem e o inglês. … Seu pai era o único na vizinhança com educação superior”. Na narrativa, por sua vez, Antonia “era a filha de Antonio, um oficial espanhol … Em campanhas militares, Antonio estava fora a maior parte do tempo … Isto deixava a criança vigorosa e inteligente aos cuidados da serva de companhia alemã de sua mãe, de servos incultos e escravos”.]. O pai de LD participou ativamente de sua educação; o pai de Antonia também[ Segundo Tarazi, o pai de LD “vivia com elas e lia para LD diariamente. Pelos cinco anos, ela já conhecia todos os contos de fadas de Andersen e Grimm, a maioria das Mil e uma noites, vários livros de mitologia grega e romana, Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda e os Contos da Cantuária”. Por sua vez, na narrativa sobre a vida de Antonia, “Antonio, um fidalgo orgulhoso e austero… ensinou-lhe a montar, atirar e algo de táticas militares”.]. O pai de LD morreu quando ela ainda era jovem; o pai de Antonia também. LD viajou na adolescência para Dresden na infância; Antonia viajou para Leipzig, cidade ao lado. A morte está associada a estas viagens, pois LD seguiu para a Alemanha por ocasião da morte de seu avô; a mãe de Antonia morreu assim que chegou à Alemanha. Na Alemanha, LD viveu um despertar cultural impactante em seus museus; Antonia foi educada por seu “tio Karl” (uma provável metáfora para os inúmeros museus, centros culturais e universidades da região). LD invadia bibliotecas; Antonia invadia bibliotecas e universidades na juventude. No teatro de LD, presumo que as mulheres costumavam vestir roupas masculinas; Antonia também costumava fazê-lo. LD canta, cozinha, gosta de esgrima, luta, frequenta o mundo masculino; Antonia também. LD mudou de residência durante toda sua juventude; Antonia saiu pelo mundo afora. LD pertenceu à juventude do partido republicano e Antonia era politicamente conservadora. LD fazia política nos arredores de Chicago; Antonia era ativista política em favor de sua fé e pátria. LD era irrequieta culturalmente e Antonia idem. LD era luterana e converteu-se ao metodismo, religiosa portanto; Antonia era católica devota. Ambas tiveram dois filhos etc. É perfeitamente razoável argumentar tratar-se aqui da biografia de LD ambientada no séc. XVI, personificada em Antonia.

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UMA NOITE NO MUSEU

Uma comédia agradável, um filme intitulado Uma noite no museu, brinca que (fechadas as portas & distantes dos olhos das pessoas) os personagens de um museu saem de seus estandes e passam a atuar condicionados por seu enredo histórico, muitas vezes entrando em relação com personagens de outras salas. Os diversos tipos de informação expostos durante o dia ganham vida à noite, tal como poderia acontecer no inconsciente de uma pessoa. A própria Tarazi observou que LD vivenciou um episódio marcante em sua infância, uma viagem à Alemanha, particularmente a Dresden, onde a menina pôde frequentar naquele importantíssimo centro cultural europeu muitas exposições em museus:

“Seu avô morreu quando LD tinha seis anos e, com sua mãe, ela permaneceu seis meses em Dresden, Alemanha (elas não visitaram Leipzig, cidade próxima onde Antonia supostamente passou um par de anos em sua adolescência). Foi aqui que, pela primeira vez, ela foi apresentada a edifícios e artefatos dos sécs. XV ao XVIII, devido aos muitos palácios e castelos transformados em museus. Eles fascinavam-na. Ela não era uma criança que corre através do museu tentando tocar e mexer em tudo, mas permanecia assombrada por horas, fixando e estudando prédios, mobília, arte, armas, armaduras, roupas, joalheria e utensílios de tempos idos”.

Repare-se que a menina LD não era como os outros & fascinada, fixava a exposição assombrada por horas, contida nos movimentos mas ativa cognitiva e emocionalmente. Logo, é razoável admitir que ela pode ter “fotografado” mentalmente todos os detalhes das exposições às quais compareceu e, armazenando-os no inconsciente, após algum tempo reapresentou-os impregnados num enredo teatral, a “vida” de Antonia.

Uma exposição num museu europeu de primeira linha, e a Alemanha estava recheada deles, resulta de um trabalho extremamente preciso, que começa geralmente com a contratação de doutores em história e figurinistas de excepcional talento para a montagem de seus estandes e salas temáticas. Cada informação exposta é retirada de fontes primárias e secundárias confiáveis e, assim, precisamente estudada e montada, a exposição da África tribal deve possuir datas, nomes, pequenas descrições de eventos, figuras & bonecos adornados, objetos idênticos aos do evento representado etc. O mesmo costuma acontecer com a inquisição, tema onipresente em exposições nos museus, pois causa grande comoção no mundo e mentalidades democráticos. Cópias de quadros idênticos aos originais (se não forem os próprios originais), documentos, bonecos vestidos como os apavorantes inquisidores, nomes de potentados, datas, pequenas narrativas de episódios, máquinas de tortura, calabouços etc. são apresentados com grande realismo. Nos anos de ascensão e governo nazista, quando a infante LD esteve por lá, a Alemanha estava especialmente interessada no assunto, visto sua intenção de repetir vários procedimentos da inquisição e convencer a população acerca de sua normalidade.

Portanto, LD não precisava necessariamente ter lido livros e documentos de difícil acesso para narrar com pertinência fatos do séc. XVI durante sua hipnose – historiadores altamente qualificados podem ter feito isso por ela. Para explicar o caso, precisamos apenas nos comprometer com a hipótese que as exposições que visitou em Dresden (e, mais tarde, na região de Chicago[ Segundo Tarazi, LD continuou frequentando museus: “com doze anos, … quanto mais estudava e aprendia, menos tinha em comum com seus pares. … Seus amigos liam histórias em quadrinhos; ela lia clássicos. Eles gostavam de Frank Sinatra; ela gostava de ópera. Eles gostavam de jogar bola; ela de conferências no museu” (negrito-itálico meu).]) eram muito boas e, principalmente, que a menina possuía a rara capacidade de conhecer e, com o tempo, acomodar inconscientemente em sua memória (num grau ótimo e muito superior à maioria das pessoas) as informações que lhe impressionaram. A criptomnésia[ Stevenson apontou a capacidade dramática excepcional da mente humana quando inconsciente ou em algum estado alterado (Stevenson 1977). Adendo que, durante o sonho, o inconsciente constrói num átimo um enredo com os fatos da vida e, no seu desenrolar, produz no sonhador a forte convicção de sua realidade. A palavra hipnose vem de Hypnos, o deus grego do sono, e o estado hipnótico talvez seja basicamente uma variante do estado onírico.] pode explicar o caso mais satisfatoriamente do que a reencarnação – no mínimo, essa hipótese evidencia que a explicação por reencarnação não segue necessariamente ou merece possuir alguma preferência para o caso. Segundo Tarazi, LD:

“Revelou “vidas” na África tribal, Esparta, Egito antigo, Espanha do séc. XVI, início & fim do século XVII na Inglaterra”.

Parece-me legítimo sugerir que cada “vida passada” que LD apresentou em sua terapia corresponde a uma exposição que viu e esqueceu em museus europeus e da região de Chicago; podemos imaginar a menina entrando numa sala com a África tribal sendo representada, fascinada em face de um estande de Esparta, impressionada com o Egito antigo etc. e, anos depois, para cada uma das salas, hipnotizada, elaborou uma “vida prévia” condizente e precisa.

Por que LD resolveu semi ou inconscientemente ambientar seus desejos mais profundos no séc. XVI? Talvez porque fosse a época que melhor se adequava à sua própria história presente. LD envolveu-se profissionalmente com teatro; como figurinista teatral, certamente possuía olho de águia para indumentária histórica e, dai, para objetos utilizados em tempos passados (segundo Tarazi, ela lia pequenas biografias de personagens). Organizou também um pequeno grupo teatral, viajou com teatro itinerante pelos EUA e, principalmente, tornou-se dramaturga, ao escrever uma peça sobre a reforma protestante para sua igreja; para conceber seu enredo, LD estudou algo da inquisição – quem sabe um pouco da espanhola, posto que um dos episódios centrais da reforma protestante foi o encontro de Lutero com Carlos V, ocasião na qual o imperador espanhol controlava os países baixos, Hispaniola & parte da América, além de parte da Alemanha[ Segundo Tarazi, LD “relatou que, quando trabalhava como desenhista de figurino teatral, leu vários livros sobre figurinos históricos retirados da principal biblioteca pública de Chicago. Vários desses livros possuíam esboços biográficos dos personagens históricos retratados. Mais tarde, leu alguns livros sobre Lutero e a reforma protestante, que obteve na Biblioteca Pública de Evanston quando estava escrevendo a peça Dia da reforma para o Conselho das Igrejas de Evanston” (negritos-itálicos meus).].

Assim, vemos que algumas vezes tudo que as coisas pedem é uma mudança de perspectiva. Em seus escritos, Tarazi realçou as adequações históricas da narração de sua paciente. Neste trabalho, salientei as inadequações da possível realização inconsciente de LD, ou seja, busquei mostrar que talvez o que não havia sobre o séc. XVI nos museus, a narradora ignorava e lacunou – aliás, ela parece ter apresentado os eventos históricos em forma de estandes, salas temáticas, do modo como são frequentemente apresentados em museus.

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BIBLIOGRAFIA

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Editor geral e responsável pela diagramação dos artigos no Jornal Impresso e Online.