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22/11/2017

A QUESTÃO DOUTRINÁRIA DO ROMANCE ESPÍRITA RENÚNCIA Carlos Gomes – Núcleo Espírita Fraternidade e Amor – NEFA, Itajubá, MG


RESUMO – Este artigo tem por objetivo pesquisar o caráter doutrinário em uma obra espírita romanceada. A escolha do tema justifica-se pela depreciação que se tem visto em relação à leitura de romances no Movimento Espírita. Para esse propósito foi escolhido o romance Renúncia psicografado por Chico Xavier e ditado pelo Espírito Emmanuel. Ao se realizar a leitura desse livro de forma qualitativa constata-se que é possível perceber algumas questões doutrinárias permeando a vida das personagens narradas na história. Com isso conclui-se que um romance pode sim, ser considerado obra doutrinária, desde que, em sua avaliação essa proposta esteja clara e concisa.

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INTRODUÇÃO

A Doutrina Espírita foi codificada (organizada de forma sistemática e registrada em livros) pelo professor francês Hippolyte Leon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec. Seu advento data do dia 18 de abril de 1857 com o lançamento, em Paris, de O Livro dos Espíritos, obra filosófica dessa doutrina e que apresenta os seus postulados.

Os livros básicos que estudam a proposta da Doutrina Espírita são: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese.

No Brasil, sob a psicografia do médium Francisco Cândido Xavier, vieram à lume mais de 400 obras espíritas, a partir de 1932, com assuntos científicos, filosóficos, mensagens evangélicas, contos, poemas, romances etc.

É importante salientar que muito antes da consagração do médium Chico Xavier, o Espiritismo surgia no Brasil com obras romanescas traduzidas, juntamente com as obras básicas de Allan Kardec.

O caráter romanesco refere-se a obras literárias escritas em forma de narrativa em prosa. Nesse tipo de literatura, normalmente longa, são criados fatos relacionados a personagens, que vivem diferentes conflitos ou situações dramáticas, numa sequência de tempo relativamente ampla.

Segundo PRATA (2016) entre 1870 e 1880 houve uma grande procura de livros espíritas e começaram a se formar grupos de leitores interessados nessa nova doutrina no Brasil, sendo fundadas, inclusive, várias instituições espíritas, na época do Brasil Imperial, principalmente na capital.

Os romances espíritas traduzidos e produzidos no Brasil fizeram parte de um projeto literário que nasceu da necessidade dos escritores espíritas construírem uma literatura, sobretudo doutrinária, que abrangesse as questões concernentes à evolução espiritual do homem. Os romancistas contribuíram para que conceitos doutrinários enfeixados em livros teóricos fossem difundidos e repensados à luz de enredos contundentes. (PRATA, 2016 p. 115)

Em sua tese, a autora apresenta o histórico dos romances espíritas, que surgiram justamente em uma época em que a FEB iniciava seu trabalho de consolidação da Doutrina Espírita no Brasil. “Nas últimas décadas do sec. XIX, os primeiros romances tinham por finalidade a propaganda da doutrina” (Ibid p. 118).

A autora afirma, também, que os grupos religiosos católicos da época não viam com bons olhos os romances espíritas, porque, para eles, os erros vividos pelas personagens incitavam o pecado. Temiam que o público fosse influenciado pelas cenas degradantes inseridas nas narrativas, o que causaria a desestabilização da saúde espiritual.

Prata (2016) destaca ainda que o dr. Bezerra de Menezes, quando presidente da FEB (1895-1900) foi um grande incentivador da produção doutrinária e dos romances espíritas, chegando, ele mesmo, a escrever livros doutrinários e romances que ficaram famosos no cenário espírita.

Segundo a sua pesquisa, os articuladores da revista Reformador da FEB, na época, consideravam os romances como instrumentos de moralização, ao contrário do que alegavam os grupos religiosos católicos.

A preocupação dos Espíritas ao perceberem a crescente atenção do mercado livreiro em relação à literatura romanesca foi em relação à qualidade doutrinária dos enredos. Há um receio de que com o interesse comercial pela publicação dessas obras, percam seu objetivo de produtoras de conhecimento espírita para se reduzirem a divulgação rápida de ideias superficiais

Até hoje os romances sofrem uma certa discriminação por parte dos adeptos do espiritismo. Alguns argumentam que os espiritistas deveriam ler somente livros que abordem diretamente a questão científica do espiritismo. Outros dizem ser perda de tempo a leitura de romances, por serem longos e de pouco aproveitamento, que só servem para o lazer e o entretenimento, dentre outros argumentos.

Partindo dessa questão em relação aos romances, procurou-se pesquisar em uma dessas obras se haveria em seu bojo, a questão doutrinária, mesmo tratando-se da categoria romance psicográfico.

Elegeu-se, aleatoriamente, a obra Renúncia, ditada ao médium Chico Xavier pelo Espírito Emmanuel, em 1944, cujo enredo apresenta a história de Alcíone, um Espírito considerado superior em relação aos demais Espíritos do planeta. Embora já tenha cumprido suas etapas reencarnatórias na Terra esse Espírito decide reencarnar mais uma vez para auxiliar seus entes queridos que não alcançaram a mesma evolução.

A apresentação da obra pelo seu autor espiritual diz o seguinte:
Trata-se de um livro de sentimento, para quem aprecie a experiência humana através do coração. Em particular, fala a todos os que se encontrem encarcerados, sentenciados, esquecidos daquele amor que cobre a multidão de pecados, consoante os ensinamentos de Jesus (XAVIER/EMMANUEL, 1985, p.9)

Assim, o objetivo desse trabalho de pesquisa, é selecionar algumas passagens do romance que possam ser identificadas como mensagens doutrinárias, visando o aprimoramento moral da humanidade.

Quando se fala em Doutrina Espírita está se falando da própria Doutrina Cristã, ou seja, dos Ensinamentos de Jesus Cristo, porque, conforme Kardec afirma na obra O Evangelho Segundo o Espiritismo, seu objetivo foi reunir artigos da moral evangélica, deixada por Jesus, para constituir um código de moral universal, independentemente de culto religioso.

Para Allan Kardec, de todos os assuntos apresentados no Evangelho, o ensinamento moral de Cristo pode ser considerado o ponto de interseção, ou, em suas próprias palavras: “o terreno onde todos os cultos podem se reencontrar, a bandeira sob a qual todos podem se abrigar, quaisquer que sejam suas crenças, porque jamais foi objeto de disputas religiosas. ” (KARDEC, 2014, p. 6)

O autor faz questão de destacar que O Evangelho Segundo o Espiritismo foi escrito para que todos possam encontrar nele “os meios de conformar sua conduta à moral do Cristo. ” É um esclarecimento da lei evangélica, ensinada a todas as nações, para esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho.
Jesus foi o iniciador da mais pura moral, a mais sublime: a moral evangélica, cristã, que deve renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los fraternos; que deve fazer jorrar de todos os corações humanos uma solidariedade comum. Uma moral, enfim, que deve transformar a Terra, fazê-la morada de Espíritos superiores aos que hoje a habitam. (KARDEC, 2014, p.42).

Dentre os 28 capítulos de O Evangelho Segundo o Espiritismo, procurou-se debruçar sobre o capítulo 17, que se intitula “Sede Perfeitos”. Um tema que faz alusão ao ensinamento de Jesus, registrado no livro de Mateus, 5:44-48: “Sede pois, vós outros, perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito. ”

Kardec interpreta esse ensinamento como uma perfeição relativa, observando que a essência da perfeição estaria na prática da caridade em sua mais larga acepção, porque implicaria na prática de todas as virtudes.

O autor chama a atenção para um tipo de comportamento que estaria de acordo com esse convite de Jesus, relacionando algumas atitudes daquele que chamou de “homem de bem”:

– praticar a lei de justiça, de amor e de caridade;
– interrogar a consciência sobre seus próprios atos;
– ter fé em Deus, em sua bondade, justiça e sabedoria;
– submeter-se à vontade de Deus;
– aceitar, sem murmurar as vicissitudes da vida, como provas ou expiações;
– fazer o bem pelo bem, sem esperança de recompensa;
– pensar no outro, antes de pensar em si;
– ser bom, humano, benevolente para com todos;
– respeitar nos outros as convicções sinceras;
– em todas as circunstâncias, fazer da caridade seu guia;
– não ter ódio, nem rancor, nem desejo de vingança;
– a exemplo de Jesus, perdoar e esquecer as ofensas;
– ser indulgente com as fraquezas alheias;
– não procurar defeitos alheios;
– estudar as suas próprias imperfeições e trabalhar, sem cessar, em combate-las.
– não valorizar nem seu espírito, nem seus talentos, mas ressaltar as vantagens dos outros;
– não se envaidecer com a fortuna, nem com as vantagens pessoais;
– usar, mas não abusar dos bens que lhe são concedidos;
– respeitar em seus semelhantes todos os direitos dados pelas leis da Natureza.

Kardec acrescenta ainda que, aquele que se esforçar em desenvolver tais atitudes, está no caminho que irá lhe conduzir a todas as outras qualidades que o distinguem como um homem de bem, cumpridor das leis de Deus.
Diante dessas afirmações e considerações, pensou-se em procurar registros, nos romances psicografados, de pessoas que tenham conseguido praticar os itens citados para o homem de bem, na vida diária, corroborando os postulados doutrinários.
Trata-se de uma pesquisa de caráter qualitativo, utilizando-se a revisão bibliográfica como metodologia de pesquisa.
Após essa introdução, serão apresentados nos capítulos subsequentes uma breve relação entre o autor espiritual do livro Renúncia e seu enredo; logo a seguir a relação entre o romance e a Doutrina Espírita, encerrando com as Considerações Finais e a Referência Bibliográfica.

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O AUTOR ESPIRITUAL E SUA OBRA

Emmanuel, mentor espiritual do médium Francisco Cândido Xavier (1910- 2002), escreveu, utilizando-se da sua psicografia, diversos livros com diferentes temáticas como: mensagens evangélicas, científicas, históricas e romances baseados em fatos reais com o objetivo de elucidar a questão doutrinária do Espiritismo, baseada no Evangelho de Jesus.

Dentre os diversos romances psicografados, escolheu-se a obra intitulada Renúncia, que já traz em seu título a própria proposta doutrinária.
Essa obra começa com a apresentação da personagem principal Alcíone que, segundo o autor espiritual, estaria habitando outro planeta, denominado Sírius. A personagem, mesmo distante da Terra, ouve um chamado daqueles que amou em existências passadas, quando habitou o planeta Terra. Ela pede, então, autorização para reencarnar entre os “seus” amados para auxiliá-los em sua trajetória terrena, em especial, uma personagem de nome Pólux que, outrora, não soube aproveitar a oportunidade dada.

Embora já suplantadas todas as experiências terrenas, esse Espírito não se encontrava ocioso nesse mundo mais evoluído, como se isso constituísse um prêmio às almas nobres. Ao contrário, estava envolvido em um projeto de arte, com o propósito de inspirar Espíritos dos músicos encarnados na Terra, na época, a desenvolverem músicas mais elevadas e harmônicas, que sensibilizassem corações doridos, ou mesmo, duros ainda, para o amor divino.
Ao escrever essa obra, Emmanuel quis prestar sua homenagem para esse Espírito que ele identificara como uma benfeitora cheia de sabedoria. O autor espiritual também faz parte da história narrada. Ele é a personagem representada por Padre Damiano que, no Velho Mundo auxilia a família de Alcíone na difícil caminhada de sua existência. Ele narra o comportamento das personagens, com a emoção de quem com elas conviveu:

Sua vida não representava um feixe de atos comuns, mas um testemunho permanente de sacrifícios santificantes. Desde a primeira juventude, Alcíone transformara-se em centro de afeições, em fonte de luz viva, onde se podiam vislumbrar as claridades augustas do Céu. Sua conduta, na alegria e na dor, na facilidade e no obstáculo, era um ensinamento generoso, em todas as circunstâncias. ( XAVIER/EMMANUEL, 1985, p.8)

Esse livro é um cântico de esperança àqueles que padecem de sofrimentos e, desalentados, pensam em desanimar e acabam por se isolar, como se estivessem esquecidos do Alto. A história de Alcíone apresenta um bálsamo reconfortador. Em todos os diálogos a personagem procura substituir os lamentos e ideias equivocadas sobre castigo aos pecadores, pela lembrança da proposta de Cristo, num manancial inexaurível do seu amor.

Como Jesus, levantando os caídos e restituindo a visão aos cegos, ela procura levantar aqueles que se esqueceram das lições do Mestre Jesus. Exorta a todos a sentirem prazer em trabalhar por amor a seu nome. O título da obra justifica-se pela grandeza da sua dedicação, quando renuncia à glória da luz, a fim de se mergulhar no mundo da morte.

Com a sua meiguice celestial, Alcíone personifica nessa história a orientação dada por Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo:

Fostes chamados ao contato de Espíritos de naturezas diversas, de caracteres antagônicos (…). Estai sempre alegres e contentes, mas com a alegria de uma boa consciência e a ventura do herdeiro do céu, que conta os dias que o aproximam de sua herança. Ao fazer qualquer coisa, voltai vosso pensamento à fonte suprema; nada façais sem que a lembrança de Deus venha purificar e santificar os vossos atos. (KARDEC, 2014, p.230).

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RELAÇÕES ENTRE O ROMANCE E A DOUTRINA ESPÍRITA

Em O Livro dos Espíritos, no capítulo IV, cujo título é a Pluralidade das Existências, Kardec pergunta aos Espíritos na questão 172: As nossas diversas existências corporais se verificam todas na Terra? E eles respondem: Não; vivemo-las em diferentes mundos. (KARDEC, 2013, p. 125)

Essa resposta pode ser observada na primeira parte do romance Renúncia, quando o autor nos permite acompanhar os passos de Alcíone:
Pouco depois, ei-la que aporta em portentosa esfera, inconfundível em magnificência e grandeza. O espetáculo maravilhoso de suas perspectivas excedia a tudo que pudesse caracterizar a beleza, no sentido humano. A sagrada visão do conjunto permanecia muito além da famosa cidade dos santos, idealizada pelos pensadores do Cristianismo. (…). Primorosas construções, engalanadas de flores indescritíveis, tomavam a forma de castelos talhados em filigranas douradas, com irradiações de efeitos policromos. Seres alados, iam e vinham obedecendo a objetivos santificados, num trabalho de natureza superior, inacessível à compreensão dos terrícolas. (XAVIER/EMMANUEL, 1985, p.26).

Kardec também pergunta aos Espíritos se haveria alguma vantagem em voltar-se a habitar a Terra. Os Espíritos respondem que não, a menos que seja em missão. Isso vem corroborar a intenção de Alcíone em querer voltar à Terra para auxiliar seus entes queridos, como missão, já que não teria mais nada a expiar.
Quase todos os meus companheiros bem-amados, no esforço evolutivo de outras eras, estão atualmente no Planeta, mas, em sua generalidade, envenenados por consequências sinistras de oportunidades menosprezadas e perdidas. Às vezes, suas queixas dolorosas e aflitivas me repercutem penosamente n’alma, ouço-lhes as preces ansiosas e nossos cooperadores nos fluidos pesados do orbe me enviam mensagens que são verdadeiros brados de socorro, aos quais não posso ficar insensível, por mais que me procure confugir à perfeita confiança no Todo-Poderoso. (ibid, p.28).

A história de Alcíone se passa na Europa do século XVII. Em 1681 encontra-se com 17 anos.

Familiarizada com a música, toca cravo e é a primeira no coro da catedral da cidade. Artista por temperamento, tem também de forma preponderante o pendor religioso, era realmente uma jovem muito talentosa.

Nessa passagem da história é possível estabelecer relação com a atividade da personagem em outro planeta, a música, citada no início da obra.
Esse comportamento está de acordo com o que responderam os Espíritos a Kardec, quando perguntado, na questão 219 sobre a origem das faculdades extraordinárias dos indivíduos que, sem estudo prévio, parecem ter a intuição de certos conhecimentos, o das línguas, do cálculo, por exemplo. Ao que os Espíritos respondem: “Lembrança do passado; progresso anterior da alma, mas de que ela não tem consciência. O corpo muda, o Espírito, porém, não muda, embora troque de roupagem.” (KARDEC, 2013, p. 141).

Além do talento musical, em seu comportamento, Alcíone nunca teve uma palavra de superioridade jactanciosa, jamais se desinteressou dos trabalhos domésticos em suas mínimas facetas.

Como filha, era um modelo de virtude familiar; como discípula, tivera o louvor de todos os preceptores pela aplicação irrepreensível aos estudos; como amiga, era sempre companheira afável e carinhosa, pronta a cooperar nas situações mais difíceis, com a sabedoria do amor fraternal. Na intimidade do Evangelho sabia expressar-se com alegria. O exemplo de Jesus era aplicado em cada caso, precisa e logicamente. (XAVIER/EMMANUEL, 1985, p.240)
Tratando-se de um Espírito Superior, tudo era espontâneo, percebendo em si a presença permanente do Mestre em seu caminho, sentindo-lhe a companhia divina, qual Amigo invisível a lhe medir cada passo, cheio de compreensão e de júbilo.

Algumas expressões de Alcíone:

(…) o dever não pode, jamais, tornar-se um fantasma aos nossos olhos. Deus semeou a criação de infinita alegria e nós estamos no divino trabalho de acendramento espiritual. Toda obrigação nobre embeleza o caminho e não devemos andar tristes na tarefa grandiosa ou simples, que nos foi confiada. (ibid, p. 254).

Na certeza da vida espiritual repetia conceitos evangélicos como bálsamos aos problemas diários: “Para o nosso conceito de paz e felicidade, são quase mesquinhos os períodos de tempo que assinalam, na Terra, a infância, a juventude e a velhice. Somos espíritos eternos. ” (ibid, p. 254).

No capítulo III de O Livro dos Espíritos, na segunda parte que trata das leis morais, encontra-se a explicação do trabalho como uma lei.

Dizem os Espíritos que o trabalho é Lei da Natureza, por isso mesmo que constitui uma necessidade. Trabalho no sentido de toda ocupação útil. Lembram-nos, os Espíritos, que tudo na Natureza trabalha e que o trabalho do homem visa a duas finalidades principais: a conservação do corpo e o desenvolvimento da faculdade de pensar. Eles ainda reforçam que Deus quer que cada um seja útil, de acordo com as suas faculdades.

No livro Renúncia esse assunto é muito bem-posto pela personagem em uma de suas falas:
O dia de hoje terminará com a noite. É preciso honrá-lo com o trabalho sadio e com a obediência a Deus, para que o amanhã seja o presente glorificado. Ninguém deverá aguardar a claridade do porvir, se se compraz em repouso nas trevas, durante o dia que passa. (…) Se Deus nos honrou com os trabalhos, não nos esquecerá com os recursos da paz necessária ao cumprimento do dever. (XAVIER/EMMANUEL, 1985, p. 258 e 263).

A questão doutrinária do livro Renúncia aparece nos diálogos mais despretensiosos, mas ricos de ensinamento. Quando a patroa de Alcíone a mandou lavar as roupas da casa, Beatriz, filha dos donos da casa, ficou indignada com essa atitude da mãe, e Alcíone dialogou com ela o seguinte:
Então, Beatriz, consideras a limpeza da roupa como serviço pesado? Não penses assim. Deve ser muito sagrado, para todos nós, o asseio das coisas caseiras.
(…) – No entanto, sempre ouvi dizer que cada serviçal deve estar no seu lugar, objetou a menina.

– E não erras, pensando assim, mas essa verdade não impede o dever de ampliarmos nossas experiências em todo e qualquer trabalho honesto. Não estimas tanto as lições de Jesus? Pois no Cristo encontramos o verdadeiro ânimo de trabalho. O Mestre Divino nunca se ausentou do lugar sublime que lhe compete na Criação e, no entanto, carpintejou na modesta oficina de Nazaré; exegeta da Lei, perante os doutores de Jerusalém, serviu vinho da amizade nas bodas de Caná; médico da sogra de Pedro, enfermeiro dos paralíticos, guia de cegos, amigo das crianças, mas também lacaio dos discípulos, quando lhes lavou os pés, no cenáculo. E nada obstante o contraste e a diversidade de tantas tarefas, Jesus não deixou de ser o nosso Salvador, em todos os momentos. (ibid, p. 322)

E nos questionamentos da personagem principal, a reflexão necessária quanto à proposta de Jesus na Terra, de acordo com a Doutrina Espírita: “Será que Jesus peregrinou pela Terra somente para que o admirássemos? Teria sido escrito o Evangelho apenas para que os homens encontrassem nas suas páginas motivos de apologias brilhantes? (310)

É de conhecimento Espírita a importância de se realizar o “evangelho no lar” pelo menos uma vez por semana. Na obra citada, Alcíone discorre sobre sua eficácia

Não há que olvidar a necessidade de estabelecer o culto do Senhor, dentro de nós mesmos. (…) o lar é o templo mais nobre, porque oferece oportunidade diária de esforço e adoração. Cada criatura de nossa convivência, sob o mesmo teto, representa um altar para o culto da bondade, do carinho, da compreensão. Cada borrasca doméstica é um ensejo para a distribuição de esperança e fé. Cada dia afanoso enseja possibilidades de testemunhar confiança em Deus. (326)

Em todos os diálogos da protagonista, o Evangelho é o foco principal:

… não devemos acreditar que o Cristo só haja trazido ao mundo a palavra revigoradora e afetuosa, senão também um roteiro de trabalho, que é preciso conhecer e seguir, em que pesem às maiores dificuldades. Para isso é indispensável tomar os nossos sentimentos e raciocínios como campo de observação e experiência, trabalhando diariamente com Jesus na construção da arca íntima da nossa fé. (ibid, p.331)

E acrescenta uma mensagem emblemática para todos os leitores: “A mensagem do Cristo precisa ser conhecida, meditada, sentida e vivida. Nesta ordem de aquisições, não basta estar informado. ” (ibid, p. 333)

Além de Alcíone, os diálogos da personagem do Padre Damiano enfatizam as questões propostas pelo espiritismo, principalmente em relação à morte e à reencarnação.

A morte não existe como a entendemos. O que se verifica, apenas, é uma transmutação da vida. Os teólogos suprimiriam a chave simples das nossas crenças. Quando o corpo é reclamado pelo sepulcro, o Espírito volta à pátria de origem, e como a Natureza não dá saltos, as almas que alimentam aspirações puramente terrestres continuam no ambiente do mundo, embora sem o revestimento do corpo carnal. Desde a mais remota antiguidade, os homens se comunicaram com os seus semelhantes já mortos. (ibid, p. 197)

Nossa época não comporta a divulgação das supremas verdades, mas nós nascemos e renascemos. A vida é uma só; entretanto, as experiências são diversas. O próprio Jesus declarou aos mentores de Israel que não era possível atingir o Reino de Deus sem renascer de novo. Inferno ou purgatório são estados do espírito em tribulação por faltas graves, ou em vias de penitência regeneradora. (ibid, p.198).

Diálogos como esses que entremeiam a narração das histórias das personagens, caracterizam o aspecto doutrinário do romance.

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MÉTODO DA PESQUISA

Para a elaboração dessa pesquisa foi escolhido o método de Revisão Bibliográfica. Procurou-se, a partir da leitura em livros básicos da Doutrina Espírita e em artigos pertinentes ao tema, fundamentar teoricamente a análise do livro Renúncia, objeto da pesquisa.
Esta metodologia tem caráter qualitativo e apresenta como objetivo selecionar conceitos resultantes de pesquisas, procurando no presente contexto, realizar reflexões sobre o problema

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec em 1857 tem caráter educativo. Sendo assim, o objetivo do espiritismo é a educação do Espírito, quer esteja encarnado (dentro de um corpo de carne, material), quer esteja desencarnado (na região espiritual). Portanto, toda obra caracterizada por espírita, apresenta o mesmo caráter.

Diante disso procurou-se apresentar uma obra considerada espírita, por consideração ao médium sério que a psicografou, quanto ao Espírito que a ditou e, principalmente, quanto ao conteúdo apresentado.

Nesta obra em especial é possível perceber a preocupação do autor espiritual em narrar histórias que, embora tenha acontecido no século XVII, são histórias da humanidade com seus caracteres humanos de imperfeição, mas também de aprendizado evolutivo.
Alcíone consegue transitar por várias situações em sua existência cumprindo um plano traçado antes de sua encarnação, com o objetivo de auxiliar a evolução de todos que estão ligados à sua história.

Percebe-se sempre em seus diálogos a presença do evangelho vivo de Jesus, no serviço, nas virtudes desempenhadas e no exemplo de vida da jovem Alcíone.
Lembrando que as parábolas deixadas por Jesus são histórias de fundo moral, ricas de ensinamentos, pode-se constatar que o livro pesquisado possui o mesmo propósito.

O gênero romanesco de leitura apresenta uma forma leve, atrativa e, aparentemente despretensiosa, mas, em seu bojo, carrega a questão doutrinária e, por isso, deve ser dada a merecida atenção a esse tipo de literatura no meio espírita.

Com isso conclui-se que um romance pode sim, ser considerado obra doutrinária, desde que, em sua avaliação essa proposta esteja clara e concisa.
Espera-se, com esse trabalho contribuir com a discussão entre os Espíritas sobre o que se deve ou não ler em nome do espiritismo e ainda, suscitar outras pesquisas nesse sentido, o que só viria a enriquecer a proposta espírita, sempre educativa.

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REFERÊNCIA

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos trad. Guillon Ribeiro, 93. ed. Brasília: FEB, 2013.
_________ O Evangelho Segundo o Espiritismo trad. J. Herculano Pires, 73.ed. São Paulo: LAKE, 2014.
PRATA, Denise A. V. De Allan Kardec a Chico Xavier: uma visão histórica das poesias e dos romances mediúnicos. Tese de doutorado em letras, Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, 2016.
XAVIER, Chico/Emmanuel Renúncia, 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1985.

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