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25/07/2017

Quem foi: Humberto de Campos Irmão X


O Brasil foi em todos os tempos presenteado com figuras ilustres, de criatividade ímpar.

Figuras em todos os ramos das atividades intelectuais, em especial nas letras. Inúmeros foram os nossos pensadores, poetas, cronistas, jornalistas e filósofos. Um talento que parece ter vindo da herança portuguesa, pátria dos nossos primeiros intelectuais e patronos.

A região nordeste foi local frequentemente escolhido para o nascimento de muitos destes talentosos homens. E é de lá que figuras como Humberto de Campos Veras, surgiram no cenário nacional.

Neste breve artigo, pretendemos apresentar a história de vida, o talento e a trajetória deste destacado literato até a posição de colaborador desencarnado de Chico Xavier.

Não pretendemos discutir o mérito das obras psicografadas através de Chico Xavier pelo Espírito de Humberto de Campos ou Irmão X, acreditamos que cada um deverá saber julgar por si. Pretendemos expor de forma imparcial os fatos e eventos do resultado de uma  pesquisa realizada sobre a vida e as obras deste autor, quando de jornalista “encarnado” à cronista “desencarnado”.

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Quem foi Humberto de Campos Veras

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Humberto de Campos nasceu em uma pequena cidade no interior do Maranhão, Miritiba, no dia 25 de outubro de 1886. Permaneceu lá até a desencarnação de seu Pai, aos seis anos de idade. Em seguida rumou à Capital São Luis, onde não permaneceu por muito tempo. Em nova mudança, partiu para Parnaíba, cidade no interior do Piauí, onde se alfabetizou frequentando pequenas escolas.

Não teve nenhuma instrução privilegiada, e não se destacou nas letras durante o período básico de sua formação educacional. Ao contrário, teve que trabalhar desde muito cedo no comércio, como aprendiz de alfaiate e balconista de loja, empregos que não duravam muito tempo pela depressão econômica que assolava aquelas paragens. Por fim, viu-se como assistente de sua mãe na confecção de meias, e outras peças íntimas, trabalho realizado em sua própria casa. Período em que se desdobrava como assistente de sua mãe e aprendiz de tipógrafo, vendo-se sem perspectivas nesta cidade, e muito possivelmente por insistência de sua mãe, voltou à Capital São Luís, quando completava seus 13 anos de idade.

Em São Luís, Humberto foi morar com seu tio Franklin, encontrou serviço em uma tipografia. Continuava porém, a perambular de emprego em emprego, voltando ao comércio como balconista e em seguida à tipografia.

Tratou pois de empregar utilmente o tempo fora do trabalho, frequentando as bibliotecas públicas, pois havia despertado vivo interesse em obras de ficção, — em especial as de Júlio Verne —, que tornou-se o seu autor favorito na adolescência. Embora tivesse despertado vivo interesse por estas obras e pela leitura em geral, não cogitava tornar-se escritor,— antes—, acreditava que poderia ter êxito na vida através do trabalho no comércio. Começava a se tornar um profissional por necessidade, não por gosto.

A convite de um outro tio, Antoninho, meteu-se a abandonar seu trabalho regressando temporariamente para Parnaíba, na expectativa de uma vida profissional mais segura mais longe dali, no estado do Pará. Mas o tio mudou de ideia, e Humberto amargou novamente o desemprego e se viu de volta, ao seio do lar maternal.

Seu tio Emídio em socorro, ofereceu-lhe novamente uma vaga na sua loja como balconista. Humberto encarou estas adversidades que lhe custaram muitas lágrimas; — ao menos, tinha o emprego de balconista novamente —, pensava.

Foi nesta época, conta ele, que sua paixão literária tomou força. Conheceu alguns escritores contemporâneos, lia diversos jornais e almanaques literários, como o Almanaque de Lembranças e o Almanaque de Pernambuco. Assim, tomou gosto pela poesia e naturalmente arriscou escrever seus primeiros poemas. Outra categoria de literatura entrava em cena, autores positivistas, evolucionistas e materialistas, que estavam em destaque naquela época, despertaram nele toda a atenção, como consequência via suas crenças católicas abaladas profundamente; após a leitura de autores como Haeckel, Buchner, Comte e Spencer, começara ali a tornar-se um cético.

Seu tio Antoninho, querendo redimir-se lhe faz novo convite e em 1903, Humberto parte para Belém do Pará. Como se o fracasso do primeiro convite deste tio não houvesse lhe ensinado a lição da cautela, meteu-se novamente em enrascada, e comeu o pão que o diabo amassou nos primeiros meses da sua estada por lá, não encontrando emprego e sendo acometido de uma neurastenia.

Com muito custo, foi contratado por um jornal em decadência com o cargo de revisor, dava seu primeiro passo…

Vendo que não teria futuro no jornal,— e a vida lhe oferecendo uma oportunidade mais segura e melhor como administrador de seringais —, pariu para Mapuá, nas divisas entre os estados do Pará e Amazonas. Durante um ano e meio trabalhou nesta região de difícil adaptação. Pela exposição à que se submetia, contraiu uma febre palustre, e correndo teve de regressar a Belém para tratamento. Ao menos, neste tempo havia conseguido provisões financeiras suficientes para se tratar.

Curado não quis regressar à Mapuá, e a vida como que lhe sorrindo após a experimentação, deu-lhe a oportunidade de ouro como Redator do Jornal Folha do Norte. A princípio, já com um tom característico e que atraía pela beleza da eloquência e palavras suaves pouco irônicas, denunciava a situação mais do que deplorável dos seringueiros daquela região, submetidos as exaustivas horas de trabalho bruto pelos contratantes em troca de quantias miseravelmente ingratas. Foi lá que desenvolveu-se cronista, muito lido e admirado, ingressava definitivamente no ramo jornalístico.

Em 1907, a vida lhe sorriu novamente sendo contratado como redator-chefe do Jornal Província do Pará. O proprietário deste jornal, Sr. Antônio Lemos, exercia também a função de prefeito da Capital, Belém, e muito impressionado com as habilidades de Humberto, o fez secretário da prefeitura.

Em 1910, período muito próspero, Humberto publicaria sua primeira obra: “Poeira”, repleto de poesias. Obra esta editada em Portugal.

Também apaixonara-se por Catharina Vergolino, que logo tornou-se sua noiva. A vida dava-lhe dignidade, prestígio e presenteava-lhe com um amor arrebatador.

Em 1912, quando a população revoltada fez um levante armado contra o prefeito que foi destituído, sofrendo também o fechamento do seu jornal, Humberto sendo ameaçado, muito possivelmente por ter exercido a defesa não muito digna do seu patrão através das folhas públicas, partiu às pressas para o Rio de Janeiro, então Capital Federal. Sua noiva não lhe acompanhara devido a urgência com que teve que partir, foi ter com ele no Rio de Janeiro apenas no ano de 1913, não antes de ter casado por procuração.

Humberto e Catharina tiveram 3 filhos, Maria de Lourdes, Henrique e Humberto. Logo que chegou ao Rio de Janeiro, estabeleceu forte amizade com Coelho Neto, autor que tanto admirava.

Alternou-se como colunista, redator, editor e outras funções editorais nos jornais Gazeta de Notícias e o Jornal O Imparcial, este último, muito renomado contava com a participação de nomes de envergadura como Goulart de Andrade, Rui Barbosa, Olavo Bilac, Paulo Barreto, Emílio de Menezes e João Ribeiro.

Desenvolvia outras habilidades literárias… Ganhara uma seção política, chamada “Ecos”, e escrevia seus primeiros contos humorísticos, todos sob o pseudônimo de Conselheiro XX. Estas suas novas habilidades deram a Humberto enorme popularidade, tornava-se neste tempo uma celebridade das letras e era lido e comentado em todos os cantos.

Mas o sucesso profissional como cronista, ainda lhe reservava muitos louros, na década de 20, época em que já não ocultava seu nome de batismo e assinava seus textos com ele.

Antes porém, em 1918, publicara seu primeiro livro de crônicas: “Da seara de Booz”. No mesmo ano publica também o primeiro da série Conselheiro XX: “Vale de Josaphat”. E as obras publicadas cresciam sem parar, até alcançarem o número de 45 títulos. A maior parte destas obras continha textos publicados por ele anteriormente em diversos jornais.

Aos 33 anos de idade, tornava-se membro na Academia Brasileira de Letras (ABL); em seguida ocupando vaga que fora de seu amigo Emílio de Menezes no ano de 1920.

Famoso e escravo do trabalho, trabalhava muito para custear a família, nesta época eram muitos os jornais que publicavam suas crônicas, poesias e notas.

Ingressando na política, em 1927 foi eleito Deputado Federal pelo estado do Maranhão; em seguida reeleito, mas no mesmo ano perdeu o mandato por causa da revolução de 1930, que encerrava definitivamente o período denominado como Primeira República.

Como escritor habilidoso que usava do talento para a causa que achava justa, adquiriu inúmeros inimigos. Mesmo assim, pelo seu talento irretocável foi reconhecido por Getúlio Vargas, seu adversário político mais poderoso, que o tornou Inspetor Federal de Ensino, posição que lhe conferiu a oportunidade de viajar pelo Uruguai e Argentina.

Getúlio exímio estrategista, sabia muito bem o que fazia ao nomear seu adversário político a tal posição. Sendo um homem tão letrado e instruído, seria o mais adequado para ocupar posição na Educação nacional, além é claro de ter sua caneta habilidosa a seu favor, pois Humberto que necessitava do cargo para subsistência familiar não ousaria criticar o governo que o acolhia.

Em 1933 publicou a obra que maior teve repercussão, pois era o cronista da sua própria vida, com toda a ironia e sarcasmo inerentes ao seu estilo, era o palhaço triste que fazia rir no picadeiro do circo da vida.

De certo modo pressentia que sua vida chegava ao término, escrevia cartas à sua mãe falando sobre sua situação depressiva, cercado pelas obrigações de escrever compulsoriamente, e que o prazer tornara-se um fardo, e era esse o preço do sucesso que fizera entre as massas.

Pouco antes de partir para o mundo espiritual, Humberto, agora muito menos cético, menos crítico negativista e menos cronista encarniçado de tudo quanto era de viés religioso, místico e sobrenatural, muito doente no físico e no espiritual, foi nomeado diretor da Casa de Rui Barbosa, função que não teve tempo de desenvolver, senão por 4 meses. Alternava cada vez mais suas noites sem dormir, entre sacos de água quente, que aliviavam as dores nos rins.

Cabe aqui três destaques publicados após sua desencarnação, em crítica positiva e negativa aos escritos de Humberto, durante o período de 1928 até sua desencarnação:

1. […] “Humberto de Campos enche os seus escritos de um tão alto espírito de humanidade, que atinge, às vezes, a pureza das grandes vozes cristãs. Quanto mais sofre, mais a sua palavra se depura. E mais resplandece.” […] (Lima, 1941, p. 354)

2. […] Os cinco últimos anos de Humberto de Campos marcaram o auge de sua popularidade. No início de 1928, ficou ciente de que padecia de hipertrofia da hipófise. Na mesma época, deixou de atuar como Conselheiro XX. Além disso, por causa da Revolução de 1930, perdeu seu mandato de deputado e voltou a ter dificuldades financeiras. Sob essas novas condições, iniciou uma outra fase em sua literatura. Considerando essas mudanças, o escritor Tristão de Athaíde escreveu que a obra de Humberto de Campos “segue uma parábola que poderíamos chamar do sensualismo ao espiritualismo.” E continua, dizendo que, após 1930, “sua literatura mudou de estilo, o que se nota nitidamente, inclusive pelo título dos seus livros, embora sempre no mesmo gênero”. […] (Athaíde, 1992, p. 708)

3. […] “O Sr. Humberto de Campos, para atrair os transeuntes menos curiosos, deu aos jornais alguns tópicos do ‘Diário dum enterrado vivo’, onde se encontram as fases dos seus tormentos, que comovem, sem dúvida alguma. Este escritor tem explorado, porém, demais, sem recato, com impertinência quase, a literatura da sua moléstia. Vai vencendo a indiferença do público pela piedade. Parece-nos que ele refoge aos deveres da capacidade meramente artística, desse modo.” […] (Pontes, s/d, p. 81).

Humberto colhia o que plantara.

Em 5 de dezembro de 1934, desencarnava durante uma cirurgia na Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio de Janeiro. Humberto de Campos Veras, estava no auge da sua notoriedade, havia alcançado o patamar dos autores mais lidos do Brasil.

Ciente da natureza irônica e sarcástica de suas crônicas, dizia estar plenamente consciente de que após sua morte, já pre anunciada pelo agravamento da sua saúde, que não seria lembrado por muito tempo, e que iria cair no esquecimento completo. Como poeta e prosador, talvez tivesse algum reconhecimento, já como parnasiano porém, estaria extinto.

O Talento literário de Humberto de Campos.

Conta-nos Alexandre Caroli Rocha:

O tipo de texto mais praticado por Humberto de Campos, sem o artifício de pseudônimo, foi a crônica. Com relação a ela, Brito Broca ressalta o êxito que obteve o escritor em sua época: “Na crônica, um dos gêneros mais ingratos em nosso país, conseguiu ele uma popularidade espantosa. Conseguiu fazer-se lido por muita gente que nunca havia passado os olhos por tal espécie de Literatura. Machado de Assis, Olavo Bilac e o próprio João do Rio – mestres da crônica – não lograram impô-la senão a um círculo relativamente restrito de leitores. Humberto de Campos, embora com certas concessões, mas se colocando sempre num nível puramente literário, fê-la chegar ao grande público.” (Broca, 1991b, p. 176)

E arremata:

Essa contribuição de Humberto de Campos à crônica no Brasil é realçada por João Clímaco Bezerra: “A crônica seria a mais alta expressão da sua atividade literária. Pode-se afirmar hoje, sem exageros indefensáveis, que ele deu nova dimensão ao gênero, eliminando as últimas reservas dos que negam a essa forma de expressão foros de literatura e de arte.” (Bezerra, 1979, p. 9)

Sobre o “esquecimento” que o próprio Humberto de Campos fazia referência antes de desencarnar, Temos uma entrevista á Revista Veja dada por Drummond.

VEJA: A posteridade o preocupa?

DRUMMOND: De maneira nenhuma, pelo contrário, não dou a mínima. Quando vejo os poetas que dominavam o Rio quando vim para cá e que hoje não têm quem reedite suas obras… Havia um escritor chamado Humberto de Campos que era o máximo – até que morreu. O Brasil inteiro acompanhou sua doença, foi uma comoção nacional. Todo mundo lia seus livros. Hoje, não há um editor que se lembre de publicar Humberto de Campos. (Drummond, 1980)

Alexandre Caroli Rocha, conclui que de maneira geral os livros integralmente a respeito de Humberto de Campos, possuem uma característica comum. O discurso encomiástico de quase irrestrito elogio ao autor.São as obras relacionadas a seguir:

  1. Humberto de Campos e sua expressão literária (data provável: segunda metade dos anos 30 ou primeira dos anos 40), por Hermes Vieira
  2.  Humberto de Campos (sem data; prefácio de 1937), de Macário de Lemos Picanço
  3. Humberto de Campos (1956), de Maria de Lourdes Lebert
  4. Humberto de Campos: um exemplo de vida (1990), de Almir de Oliveira,
  5. Irmão X, meu pai (1997) é o livro em que Humberto de Campos Filho focaliza a biografia de seu pai e a estende para além de 1934, ano de sua morte.

Algumas anotações pessoais, levadas a público para apreciação ou depredação da figura de Humberto, nos impressiona pela síntese das crônicas. De um lado, vê seus ídolos superados por ele próprio, tecendo em seu diário tristes notas como a que se segue, em referência a Coelho Neto e à época sua recente publicação, o livro “Bazar”:

Recebo um novo livro de Coelho Neto: Bazar. É um punhado de crônicas de jornal, em que se seguem os lugares-comuns, se sucedem as expressões banais, os termos da gíria, as frases feitas, compondo página sem relevo, sem interesse, sem beleza. Ao ler as primeiras, apossou-se de mim uma grande tristeza, uma grande piedade, um grande dó. Lembrei-me de uma frase do Abade Brémond, e exclamei, comigo mesmo: – Meu pobre e grande Coelho Neto! A ti, que dessedendaste de beleza tantas gerações, como custa, hoje, espremer o resto do último limão para preparar uma limonada!… (Campos, 1954a, p. 330)

Publicamente no entanto, era muito mais ameno ao se referir ao amigo que lhe dera guarita e entusiasmo nos dias em que chegara ao Rio de Janeiro. Tornou pública a seguinte crítica:

O novo livro do príncipe dos nossos prosadores, sem ser, assim, um documento reafirmador do seu estilo suntuoso ou, como querem outros, suntuário, difere dos demais pela vivacidade das idéias, e pela coragem com que desce a discutir assuntos vulgares e transitórios. Bazar é, mesmo, um livro quase político. Tem mais valor pela substância, pelas opiniões que enuncia, pelas idéias pessoais que difunde, do que pela vestimenta que lhe dá. É um retrato do sr. Coelho Neto, mas apanhando apenas meio corpo. O estilista uniforme, esse está na sua obra de ficção – nos seus romances, nos seus contos, nas suas fantasias fortes, nos cenários e acontecimentos, em suma, que se desenrolam fora da vida comum. (Campos, 1960u, p. 298-299)

Nota-se portanto que o livre pensador, cético, nem sempre fora tão nobre na intimidade quanto na publicidade, devia certamente demonstrar o respeito e a admiração que tão em voga no passado nutria à figura espartana e viril de Coelho Neto. Não deixou entretanto a crítica nas entrelinhas que certamente atingiram em cheio o coração de velho e ultrapassado ídolo.

Humberto desenvolveu suas habilidades nas letras, copiando o estilo de outros escritores, isso é notório analisando sua vida e suas obras. Não se nota contudo a intenção de subtrair méritos alheios, é um processo natural pelo qual a maioria dos escritores, cronistas ou poetas podem passar, é uma busca ao longo da vida intelectual, objetivando assimilar muitos autores, estilos e métodos, também uma forma de enaltecê-los, desenvolver as próprias faculdades, e demonstrar o alcance da cultura adquirida. É uma forma de demonstrar a quem se coloca na posição de crítico, que se escreve com conhecimento de causa e estilos diversos.

Paralelos de algumas de suas obras, foram estabelecidos por alguns pesquisadores de seu estilo e vida. Hermes Vieira por exemplo, identificou que o ponto de partida de seu conto “A Noiva”, estava filiado a um outro conto existente nas letras francesas, ambos entretanto, abstração de uma lenda oriental.

Similar analogia encontrada em “O Seringueiro”, embora o de Humberto seja muito menos fantasioso e muito mais verdadeiro que o de Lucio de Mendonça, que é, por alto, uma variante desta narrativa.” (Vieira, s/d, p. 108), conta-nos Alexandre Caroli Rocha: — Em anotação de 28 de outubro de 1931, de Fragmentos de um diário, Humberto de Campos, como fizera com Maupassant, em citação acima, compara-se com os autores que estava lendo: “O navio reduz a marcha para chegar pela madrugada a Montevidéu. Dores de cabeça e perturbação visual. Mas continuo a ler, dia e noite, assim que a vista me permite. Leio Mamine Sibiriak, Andreiev, Gorki, Garchine, Tolstoi. E meu espírito se encolhe como uma formiga à passagem desses elefantes siberianos. Que músculos têm, na alma, estes gigantes!” (Campos, 1960s, p. 218-219)

A missão junto a Chico Xavier.

Chico Xavier, dispensa apresentações. Com 80 anos dedicados à causa espiritual, mostrou desde cedo para que veio ao mundo. Não vamos analisar aqui o mérito da vida e das obras de Chico como intérprete dos espíritos, apenas salientar seu papel junto a Humberto de Campos espírito.

Humberto tomou conhecimento de Chico Xavier em 1932, logo após a publicação da primeira edição da obra mediúnica Parnasso de Além-Túmulo. Curiosamente, na segunda edição, o próprio Humberto em espírito, marcaria aquelas páginas.

Não é segredo que nos últimos anos de Humberto, desde 1928, ele tornou-se cronista de sua própria desventura, começou a esboçar um caráter mais ameno e a demonstrar mais aceitação com o religiosismo vulgar. Não tornou-se um religioso declarado, porém nas entrelinhas das suas crônicas deixa claro sua preocupação com o fim da vida que se desdobrava às vistas, também, muito possivelmente pelo sofrimento físico que implacável, lhe lançava em profunda reflexão buscando compreender o motivo do seu sofrimento. Jamais perdeu, contudo, o viés irônico nos seus escritos, mesmo como espírito.

Humberto escreveu para o Jornal Diário Carioca, sobre a recente obra supostamente mediúnica de Chico, Parnasso de Além-Túmulo: “Eu faltaria, entretanto, ao dever que me é imposto pela consciência, se não confessasse que, fazendo versos pelas penas do Sr. Francisco Cândido Xavier, os poetas de que ele é intérprete apresentam as mesmas características de inspiração e de expressão que os identificavam neste planeta. Os temas abordados são os que os preocuparam em vida. O gosto é o mesmo e o verso obedece, ordinariamente, à mesma pauta musical. Frouxo e ingênuo em Casimiro de Abreu, largo e sonoro em Castro Alves, sarcástico e variado em Junqueiro, fúnebre e grave em Antero, filosófico e profundo em Augusto dos Anjos.” (Humberto de Campos se referiu a primeira edição de “Parnaso de Além-Túmulo”, é a partir da segunda edição que há um texto atribuído a ele “em espírito”).

Em seguida desencarnava Humberto.

Em fevereiro de 1935, Chico Xavier sonhou com Humberto de Campos. Relatou seu sonho em carta de 30 de março de 1935, dirigida a — Manuel Quintão — um dos principais responsáveis pela primeira aceitação dos escritos do médium mineiro pela FEB. (Alexandre Caroli Rocha, PG 78)

Não sei se o amigo recebeu a minha última carta, mas, mesmo sem saber se o estou aborrecendo, envio-lhe outra, acompanhada de duas produções mediúnicas recebidas por mim nesta semana. Peço-lhe a sua opinião muito franca sobre elas, desejando que me escreva em breves dias. Há mais de um mês tive um sonho engraçado. Sonhei que uma pessoa me apresentou Humberto de Campos, num lugar de céu muito azul e brilhante e no chão havia uma espécie de vegetação que não me deixava ver a terra. Não vi casa alguma. O que me impressionou mais é que as pessoas que eu via estavam sob uma árvore muito grande e tão branca que, quando o sol batia nas suas frondes de folhas muito delgadas, parecia uma grande árvore de cristal. Ele veio então ao meu lado e me estendeu a mão com bondade, dizendo: “Você é o menino do Parnaso?” Disse-me mais coisas das quais não me posso recordar.

Que diz o amigo de tudo isto? Seria a minha imaginação? Não sei. Em todo o caso, mando estas páginas para o senhor ler. Estão certas as citações? (Apud Barbosa, 1997, p. 39).

Neste mesmo ano Chico publicava sua segunda obra: “Cartas de uma morta” pelo Espírito de sua mãe, Maria João de Deus.

Os primeiros textos atribuídos a Humberto de Campos (Espírito), foram publicados na Revista Reformador que já circulava pelo país desde 1883, era o órgão de divulgação do Espiritismo pela FEB (Federação Espírita Brasileira).

Em seguida seus escritos foram publicados nos seguintes livros:

  • Crônicas de além-túmulo, em 1937;
  • Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, em 1938;
  • Novas mensagens, em 1940;
  • Boa nova, em 1941;
  • Reportagens de além-túmulo, o último atribuído a Humberto de Campos, em 1943;
  • Lázaro redivivo, o primeiro assinado por Irmão X, em 1945;
  • Luz acima, em 1948;
  • Pontos e contos, em 1951;
  • Contos e apólogos, em 1958;
  • Contos desta e doutra vida, em 1964;
  • Cartas e crônicas, em 1966;
  • Estante da vida, em 1969.

Os três livros mais vendidos foram:

  • Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho (294 mil exemplares)
  • Boa nova (251 mil exemplares)
  • Crônicas de além-túmulo (100 mil exemplares).

De um modo geral, os críticos de todas as áreas, até da psiquiatria se pronunciaram a respeito das obras mediúnicas do Chico. A maior parte dos especialistas na ciência das letras, convergiam para a conclusão de que os textos correspondiam com cada suposto autor em vida — em se tratando da obra Parnasso de Além-Túmulo —, mas repudiavam a autoria dos desencarnados,— É pastiche!—, diziam,— imitação perfeita —, mas imitação, nada mais do que “A maneira de…”

Destacamos alguns:

Monteiro Lobato: – “Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, então ele merece ocupar quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras”

Zeferino Brasil, Correio do Povo, 1941: – “Seja como for, o que é certo é que – ou as poesias em apreço são de fato dos autores citados e foram transmitidas do além ao médium que as psicografou, ou o Sr. Francisco Cândido Xavier é um poeta extraordinário, genial mesmo, capaz de produzir e imitar, assombrosamente, os maiores gênios da poesia universal… Em todas elas (nas poesias) se encontram patentes as belezas, o estilo, os arrojos, as imagens próprias, os defeitos, o ‘selo pessoal’, enfim, dos nomes gloriosos que as assinam e vivem imortais na história literária do Brasil e Portugal.”

Menotti del Picchia: – “Deve haver algo de divindade no fenômeno Francisco Cândido Xavier, o qual, sozinho, vale por toda uma literatura. É que o milagre de ressuscitar espiritualmente os mortos pela vivência psicográfica de inéditos poemas é prodígio que somente pode acontecer na faixa do sobre-humano. Um psico-fisiologista veria nele um monstruoso computador imantado por múltiplas memórias. Um computador de almas e de estilos. O computador, porém, memoriza apenas o já feito. A fria mecânica não possui o dom criativo. Este dimana de Deus. Francisco Cândido Xavier usa a centelha divina imanente em nós[…]

O escritor Mário Donato disse em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo: “Dei-me ao trabalho de examinar grande número de mensagens psicografadas por Chico Xavier e vários outros médiuns; e, francamente, como não posso admitir que um homem, por mais ilustrado que seja, consiga ‘pastichar’, tão magnificamente, autores como Humberto de Campos, Antero de Quental, Augusto dos Anjos, Guerra Junqueiro e, se não me engano, Victor Hugo e Napoleão Bonaparte, opto pela explicação sobrenatural, que não satisfaz minha consciência, é verdade, mas apazigua a minha humaníssima vaidade de literato[…] É milagre. Coisas assim não podem ser senão milagre, puro milagre. Há qualquer intervenção sobre-humana no fato; não porque o diz Chico Xavier, mas porque assim o exige nossa arrogância[…] Positivamente não aceito a autoria de Chico Xavier, e aceito a de Humberto, como a de Antero, Napoleão, Dumas e qualquer outro que, do lado de lá, tenha o mau gosto de praticar literatura. E creio que essa é a atitude mais humana, a mais condizente com a nossa falta de humildade. É milagre, e o milagre, não explicando nada, explica tudo. Pois se não admitirmos que o caso é milagroso, temos que levar o Chico Xavier à Academia Brasileira de Letras e, naturalmente, estamos mais dispostos a reconhecer-lhe amizades no Céu que direitos literários ao Petit Trianon”.

Temos também as críticas mais encarniçadas e negativas que objetivavam a total desmoralização do médium e das obras como um todo. Cabe lembrar o caráter muito católico ou cético destes críticos, também encontrado nas críticas positivas. Entre estes ressaltamos:

Agripino Grieco escreveu para Diário da Noite: “Os livros póstumos, ou pretensamente póstumos, nada acrescentam à glória de Humberto de Campos, sendo mesmo bastante inferiores aos escritos em vida. Interessante: de todos os livros que conheço como sendo psicografados, escritos por intermédio de um médium, nenhum se equipara aos produzidos pelo escritor em vida.”

Conclusão:

Humberto de Campos desenvolveu ao longo dos anos uma característica marcante em seus escritos de modo geral. Era o tom irônico e sarcástico, explorando a credulidade dos homens, construindo sátiras do religiosismo e da fé alheia. Coisas que havia abandonado durante os anos em que esteve desenvolvendo suas habilidades literárias, consumindo incansavelmente diversos autores. Tinha sido fortemente influenciado neste sentido.

Verificamos que nos últimos anos de sua vida, viu-se como mais um ator fracassado na tragédia da vida humana, tendo deteriorado sua saúde, e mentalmente desgastado, escrevendo mais por obrigação do que por prazer para uma classe de leitores ávidos pela desgraça alheia, começou a dar abertura a ideias menos materialistas; talvez uma forma de alimentar qualquer esperança futura.
Tornou-se refém de si mesmo e de sua situação, escreveu seus últimos artigos tratando quase que exclusivamente do seu infortúnio. Situação que lhe rendeu duras críticas e acusações de um talento esgotado e batido.

Desencarnado, causou muita confusão no meio Espírita pelo conteúdo excessivamente religioso de suas crônicas de além-túmulo, que iam diametralmente contra sua postura enquanto vivo. Uma repercussão sem precedentes e um sucesso estrondoso entre as massas, levou sua família a processar Chico Xavier, alegando o direito do espólio das obras vendidas. O que levou Humberto a assinar seus próximos volumes como Irmão X. Em entrevista, Humberto Filho explica o que teria acontecido nesta época.

Inimigo do Espiritismo ?

“A Doutrina Espírita, na caneta de Chico Xavier sofreu diversos atentados doutrinários”—  alegam alguns espíritas leais seguidores da Codificação —, Humberto, teria sido um dos maiores deturpadores das bases fundamentais da doutrina, apresentando centenas de contradições, mas principalmente distorcendo o viés filosófico de consequências morais, em puro religiosismo à moda católica.

Isto, — alegam —, se consolidou a partir da obra: Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, publicado em 1938.

A maioria dos espíritas, que conheceram a doutrina através dos livros psicografados por Chico e publicados pela FEB, afirmam que não há contradições, e que é preciso apenas colocar a Codificação na sua devida importância, como base, fôrma ou molde, mas não circunscrita a tratar sobre espiritismo. Os livros de Humberto de Campos, André Luiz, Emmanuel e outros,  seriam — apenas uma visão particular romanceada sobre o mundo espiritual —, objetivando a inserção do espiritismo nas pessoas que tem por esta literatura, um apreço maior.

O resultado desta disputa, tem causado traumas irreparáveis e inconciliáveis entre os adeptos da doutrina. De um lado, um grupo que defende com unhas e dentes as diretrizes para composição de livros espíritas, que tratam da universalidade e da aferição, semelhantes ao C.U.E.E, e do outro lado, um grupo que alega preconceito e preciosismo purista sem fundamento.

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NOTAS:

Esta biografia foi escrita a partir da leitura de diversas fontes, em especial:

  1. O CASO HUMBERTO DE CAMPOS: AUTORIA LITERÁRIA E MEDIUNIDADE – (Tese de doutorado de Alexandre Caroli Rocha, 2008)
  2. HONRADAS FAMÍLIAS: PODER E POLÍTICA NO MARANHÃO DO SÉCULO XIX (1821-1823) por EDYENE MORAES DOS SANTOS LIMA, 2009
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Parnaso
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5 Responses “Quem foi: Humberto de Campos Irmão X

  1. Severino Almeida da Silva
    01/09/2016 at 19:59

    Sou iniciante na doutrina espírita. Este material é muito importante para os esclarecimentos, tirá as dúvidas. Aprender muito com e melhor, com essa facilidade toda.

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  2. Dario do Carmo
    25/04/2017 at 11:58

    Comecei acompanhar o movimento espírita só recentemente, sou de tradição protestante e bacharel em teologia, tenho encontrado dificuldades em conciliar os textos bíblicos com as narrativas bonitas e atraentes que se lê e ouve de autores espíritas!
    O mundo dos espíritos teria criado uma nova teologia?
    Ainda estou um pouco confuso, porem vejo coerência na codificação.

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    • 25/04/2017 at 12:05

      Para compreender a Doutrina é necessário observar atentamente as suas obras fundamentais em ordem (OQE, LE, LM, ESE, OCI, GE e as Edições da Revista Espírita). Os movimentos que se dizem espíritas, são como os enumeráveis movimentos “religiosos”, cada qual toma dos ensinos, apenas aquilo que lhe cabe ou interessa descartando o restante. Assim como há fanáticos e equivocados nas religiões vulgares, assim também há nos movimentos ditos espíritas. A Bíblia é uma obra que não se compatibiliza com o Espiritismo, exceto se olharmos para ela com a chave que o Livro dos Espíritos no fornece. Para isso, recomendamos a leitura desta análise minuciosa feita por J. Herculano Píres, um profundo conhecedor da Bíblia em várias línguas e traduções, e também um profundo conhecedor da Doutrina Espírita: http://jornalcienciaespirita.spiritualist.one/visao-espirita-da-biblia/

      Bons estudos.

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      • Paulo Pessoa
        15/07/2017 at 09:05

        Muito boa a sua observação. Conhecer o espiritismo, para depois poder analisar as obras complementares.

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