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19/10/2017

Quem foi: Ernesto Bozzano


Nasceu em 1862, em Gênova, Itália e desencarnou em 1943, na mesma localidade. Professor da Universidade de Turim, foi, antes de se converter ao Espiritismo, materialista, céptico, positivista. Pesquisador profundo e meticuloso, escreveu mais de trinta e cinco obras, todas de caráter científico. Organizador de estudo experimental, com o valioso concurso de 76 médiuns. Elaborou nove monografias inconclusas. Essa a folha de serviço de um dos mais eruditos pensadores e cientistas italianos. Seu nome: Ernesto Bozzano.

Numa época em que o Positivismo empolgava muitas consciências, Bozzano demonstrava-lhe nítida inclinação. Dos postulados positivistas gravitou para uma forma intransigente de materialismo, o que o levou a proclamar mais tarde: Fui um positivista-materialista a tal ponto convencido, que me parecia impossível pudessem existir pessoas cultas, dotadas normalmente de sentido comum, que pudessem crer na existência e sobrevivência da alma.

O fato de representantes da Ciência oficial levarem a sério a possibilidade da transmissão de pensamento entre pessoas que vivem em continentes diferentes, a aparição de fantasmas e a existência das chamadas casas mal-assombradas escandalizava Bozzano. Somente após ler diversas outras obras é que Ernesto Bozzano resolveu dedicar-se com afinco e verdadeiro fervor ao estudo aprofundado dos fenômenos espíritas, fazendo-o através das obras de Allan Kardec, Léon Denis, Gabriel Delanne, Paul Gibier, William Crookes, Alexander Aksakof e outros. Como medida inicial para um estudo profundo, Bozzano organizou um grupo experimental, do qual participaram muitos professores da Universidade de Gênova.

No decurso de cinco anos consecutivos, graças ao intenso trabalho desenvolvido, esse pequeno grupo propiciou vasto material à imprensa italiana e, ultrapassando as fronteiras, chegou a vários países. Havia-se obtido a realização de quase todos os fenômenos, culminando com a materialização de seis Espíritos, de forma bastante visível, e com a mais rígida comprovação. Dentre as mais de trinta e cinco obras escritas, citamos “A Crise da Morte”, “A Hipótese Espírita e as teorias Científicas”, “Animismo ou Espiritismo”, “Comunicações Mediúnicas entre Vivos”, “Pensamento e Vontade”, “Fenômeno de Transfiguração”, “Metapsíquica Humana”, “Os Enigmas da Psicometria”, “Fenômenos de Talestesia”, etc. O seu devotamento ao trabalho fez com que se tornasse, de direito e de fato, um dos mais salientes pesquisadores dos fenômenos espíritas, impondo-se pela projeção do seu nome e pelo acendrado amor que dedicou à causa que havia esposado e que havia defendido com todas as forças de sua convicção inabalável.

Um fato novo veio contribuir para robustecer a sua crença no Espiritismo. A desencarnação de sua mãe, em julho de 1912, serviu de ponte para demonstração da sobrevivência da alma. Bozzano realizava nessa época sessões semanais com um reduzido grupo e com a participação de famosa médium. Realizando uma sessão na data em que se dava o transcurso do primeiro ano da desencarnação de sua genitora, a médium escreveu umas palavras num pedaço de papel, as quais, depois de lidas por Bozzano o deixara assombrado. Ali estavam escritos os dois últimos versos do epitáfio que naquele mesmo dia ele havia deixado no túmulo de sua mãe.

Autobiografia

No interesse de seus leitores a International Psychic Gazette, de Londres, pediu-me um estudo autobiográfico, em que, acima de tudo, relate as circunstâncias que me levaram a interessar-me pelas pesquisas psíquicas.

Acedo de boa vontade ao pedido, reconhecendo que a história das conversões filosóficas contém sempre ensinos valiosos para os que a lêem. Digo conversões filosóficas muito de intento, porque a minha o foi na mais ampla expressão do termo. Nasci em Gênova, Itália, em 1862 e a minha vida carece literalmente de episódios biográficos, pois tem sido a de um ermitão. Nunca fiz outra coisa senão estudar. Na mocidade, todos os ramos do conhecimento, atinentes às artes e ciências, exerceram igualmente irresistível fascinação sobre mim, tornando- me até difícil seguir um caminho na vida. Decidi-me, finalmente, pela Filosofia e Herbert Spencer foi o meu ídolo. Tornei-me um positivista-materialista convicto a tal ponto que me parecia incrível existissem pessoas de cultura intelectual, dotadas normalmente de senso comum, que pudessem crer na existência ou na sobrevivência do espírito. Não somente pensava assim como até escrevia audaciosos artigos em apoio de minhas convicções.

A lembrança de tal proceder me faz indulgente e tolerante para com uma classe particular de antagonistas que, de boa fé, sustentam ser capazes de refutar as rigorosas conclusões experimentais a que tem chegado o néo- espiritualismo, opondo-me às induções e deduções da Psico-Fisiologia, nas quais eu acreditava há 40 anos passados. É preciso que se compreenda que, nos tempos a que me refiro, eu nada conhecia das investigações mediúnicas ou do Espiritismo, com exceção de breves artigos que eu lia nos jornais, sem lhes prestar maior atenção e nos quais se apontavam estratagemas de médiuns e se comentava piedosamente a credulidade dos espíritas.

Aconteceu, porém, que, no ano de 1891, o professor Th. Ribot, diretor da Revue Philosophique, me escreveu comunicando a próxima publicação de uma nova revista sob o titulo de Annales des Sciences Psychiques, tendo como diretor o Dr. Darieux, antecessor do professor Charles Richet. Era uma revista que se propunha principalmente a colher e investigar certos casos curiosos de transmissão de pensamentos à distância, compreendidos sob a denominação de fenômenos telepáticos. A misteriosa psicologia, oculta nestas frases, me atraiu a curiosidade, do mesmo modo que o nome do prof. Richet bastava para garantir a seriedade científica do empreendimento.

Respondi ao prof. Ribot, agradecendo-lhe a atenção e incluindo-me entre os assinantes da revista. Devo sinceramente declarar que a leitura dos seus primeiros números produziu desastrosa impressão sobre o meu irreconciliável critério positivista. Parecia-me escandaloso que certos representantes da ciência oficial quisessem discutir seriamente a transmissão de pensamento de um continente a outro, as aparições de fantasmas telepáticos, como entidades reais, e casos atuais de assombração. O inibitivo poder das preconcepções tornara a minha faculdade de raciocinar integramente inacessível a tais ideais novas, ou, melhor, a tais fatos novos, pois realmente se tratava de fatos demonstrados cientificamente e rigorosamente documentados, embora eu não estivesse habilitado a assimilá-los.

Quando ainda era este o meu estado mental, apareceu, na Revue Philosophique, longo artigo do prof. Rosenbach, de São Petersburg, Rússia, atacando com violência a sacrílega intromissão deste novo misticismo nos recintos da Psicologia oficial e explicando os novos casos pelas hipóteses da alucinação, das coincidências fortuitas e mais algumas de que não me lembro. Tais refutações me pareceram tão deficientes e inábeis a produzir efeito contrário ao que me repugnava à mente, como o autor pretendia, que me convenci de que a questão era realmente de fatos. Em conseqüência, julguei o prof. Rosenbach incapaz de combatê-las simplesmente com idéias preconcebidas. Aconteceu assim que refutações desastradas de um dos meus correligionários, aferrados a sua crença positivista, me fizeram dar o primeiro passo para a nova Ciência da Alma, à qual viria depois a consagrar a minha vida.

No número seguinte da Revue Philosophique apareceu, felizmente, um artigo do prof. Richet, em que as argumentações superficiais do prof. Rosenbach foram refutadas ponto por ponto. Esse artigo aumentou extraordinariamente as minhas convicções quanto à realidade dos fatos e quanto ao mistério em que a explicação deles estava envolta. Nesse mesmo ano, da lavra do Sr. Marillier, apareceu uma versão, em francês, do famoso livro Phantasms of the Living (por Gurney, Myers e e Podmore) sob o título de HaIlucionations Telepathiques, tradução que adquiri incontinente e que serviu definitivamente para me convencer da realidade dos fenômenos telepáticos.

Faço notar que esse convencimento meu em nada alterou a minha crença positivista, porque a explicação científica, então em voga, dos fenômenos, explicação segundo a qual eles derivam do pensamento a caminhar pelo infinito em ondas concêntricas, satisfazia inteiramente ao meu juízo científico. Não obstante, eu havia dado, com segurança, sem o saber, um grande passo na estrada de Damasco, porque essa primeira concessão a respeito das manifestações supranormais me colocara irrevogavelmente num novo campo de pesquisas, que iriam conduzir-me em direção oposta à do Positivismo materialista que eu professava.

De fato, não tardei a chegar a um período de crise na minha consciência científica. Foi a obra de Alexandre Aksakof Animismo e Espiritismo a causa dessa. crise, abalando profundamente os alicerces de minha crença positivista. Seguiu-se para mim uma época de perturbação moral, pois que, embora o novo caminho se orientasse no sentido de uma fé científica mais confortadora, não é sem desalento que assistimos à demolição do sistema completo de nossas convicções filosóficas, adquiridas à custa de meditações acuradas e de perseverantes esforços intelectuais. No aludido período, li várias obras metapsíquicas, de autores então afamados, as de Kardec, Delanne, Denis, d’Assier, Nus, Crookes, Brofferio, du Prel, porém não custei a verificar que quem desejasse realizar trabalhos científicos úteis, nesse novo campo de pesquisas, teria de remontar às origens do movimento espírita.

Consequentemente, escrevi para Londres e New York a fim de obter as principais publicações datando do começo do movimento até 1870 e, à chegada dos livros se abriu-se para mim o período realmente frutuoso das investigações sistemáticas no vasto terreno do metapsiquismo. Catalogava cada obra que lia, anotando os respectivos assuntos por ordem alfabética adequada, com a intenção de os utilizar para a classificação comparativa e a análise dos fatos e casos.

A excelência de semelhante método de investigação ficou de tal modo provada, que continuo a empregá-lo até à presente data. Guardo imorredoura lembrança desse período de fervorosas e perseverantes pesquisas, porque, por meio delas, me tornei capaz de assentar as minhas novas convicções espíritas sobre uma base cientificamente inabalável. Entre as obras que mais me influenciaram para a adoção de meu novo ponto de vista, mencionarei as seguintes: Robert Dale Owen: Footfalls on the Boundary of another World e The Debatable Land between this World and the Next. Epes Sargent: Planchette, the Despair of Science. Sra. De Morgan: From Matter to Spirit. Dr. N.B. Wolfe: Startling Facts in Modern Spiritualism. É verdadeiramente deplorável que tais obras, há muito impressas, não fossem reeditadas na Inglaterra e na América, desde que conservam intactos sua frescura e seu valor. Quanto à história do movimento espírita, o livro da Sra. Ema HardingeBritten Modern American Spiritualism, me foi de grande ajuda. Pelo que concerne à história dos precursores neste mesmo campo, colhi grande resultado da obra em dois volumes de William Howitt History of Supernatural.

Do ponto de vista da fenomenologia mediúnica e de efeitos físicos, as atas, redigidas, pela Sra. Speer, das sessões experimentais com William Stainton Moses foram as que produziram maior efeito persuasivo sobre as minhas convicções, em virtude da intervenção do espírito na fenomenologia, demonstradas nos comentários da Light de 1892 a 1893. Fiquei assim apto a formar para mim mesmo um sólido conhecimento científico, tirado dos argumentos. Entendi, porém, que chegara o momento em que deveria confirmar os meus conhecimentos teóricos com investigações experimentais. Entrementes, por aquela misteriosa lei que une uma pessoa a outra pela afinidade das aspi- rações e tendências, encontrei várias pessoas que se ocupavam a sério com pesquisas mediúnicas, entre as quais menciono o Dr. Giuseppe Venzano, o Cav. Carlo Peretti e Luigi Arnaldo Vassallo, editor do Século XIV.

Tivemos a boa sorte de descobrir, no nosso próprio grupo, dois médiuns poderosos de efeitos físicos e mentais, com o auxílio dos quais obtivemos manifestações de todos os gêneros: fortes pancadas a distância, luzes, transportes de objetos pesados e provas de identidade dos espíritos. Realizaram-se então as experiências com Eusápia Paladino, nas quais o prof. Enrico Morselli tomou parte e maravilhosos resultados foram conseguidos. Vimos materializações completas de espíritos, observados à luz de um bico de gás Auer, enquanto o médium jazia no gabinete, atado pelos braços, pernas e cintura a uma cama de campanha. As experiências anteriores, relatei-as em meu livro Ipotesi Spiritica e Teorie Scientifiche e o prof. Morselli fez outro tanto em sua obra Psicologia e Espiritismo. Aqui termino as minhas memórias, lembrando que o que se me pediu foi que esboçasse a narrativa dos primeiros passos por mim dados no caminho que me conduziu às convicções espíritas que atualmente possuo.

Termino, fazendo notar que as minhas convicções amadureceram lentamente, no curso, não pequeno, de 40 anos de pesquisas em que perseverei, empreendidas que foram sem idéias preconcebida de qualquer espécie, dai o me sentir no direito de manifestar abertamente a minha crença na significação e importância de tais investigações a que devotei grande parte de minha vida. Aquele que, em vez de se perder em discussões ociosas, empreende sistemáticas e aprofundadas pesquisas dos fenômenos metapsiquicos e nelas persevera por muitos anos, acumulando imenso material de casos e aplicando-lhe os métodos das investigações científicas, há de infalivelmente ficar convencido de que os fenômenos metapsiquicos constituem admirável coletânea de provas, todas convergindo para um centro: a demonstração rigorosamente científica da existência e da sobrevivência do espírito. Esta é a minha convicção inabalável e nutro a esperança de que o tempo se encarregará de demonstrar que tenho razão.

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One Response “Quem foi: Ernesto Bozzano”

  1. Ricardo Carvalho de Andrade
    11/01/2017 at 10:29

    Maravilhoso trabalho sobre Ernesto Bozzano, gostaria de ter mais trabalhos como estes dele, procurar conhecê-lo mais!!!!!!!!

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