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20/09/2017

Quem foi: Camille Flammarion Um crítico e um gigante da Ciência Espírita


Nascido em Montigny-le-Roi, Haute-Marne, França, num sábado, à uma hora do dia 26 de fevereiro de 1842; e, como ele mesmo diria mais tarde, “estava muito impaciente para chegar à Terra, e não esperou os 9 meses; nasceu aos 7 meses.”, e desencarnado em Juvissy no mesmo país, à 4 de junho de 1925.

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Nicolas Camille Flammarion foi um homem cujas obras encheram de luzes o século XIX. Ele era o mais velho de uma família de quatro filhos, entretanto, desde muito jovem se revelaram nele qualidades excepcionais. Queixava-se constantemente que o tempo não lhe deixava fazer um décimo daquilo que planejava. Aos quatro anos de idade já sabia ler, aos quatro e meio sabia escrever e aos cinco já dominava rudimentos de gramática e aritmética.

Tornou-se o melhor aluno da escola onde frequentava conquistando, nos primeiros cursos, uma Cruz de Honra, que guardava como recordação de seu primeiro mestre, o Senhor Crapelet. Para que ele seguisse a carreira eclesiástica, puseram-no a aprender latim com o vigário Lassalle e foi então que Flammarion conheceu profundamente o Novo Testamento e a Oratória. Em pouco tempo estava lendo os discursos de Massilon e Bonsuet. O Padre Mirbel ensinava sobre a beleza da ciência e da grandeza da Astronomia e mal sabia que um de seus auxiliares lhe absorvia com dedicada atenção todas as suas lições. Esse auxiliar era Flammarion, aquele que iria ilustrar a letra e a significação galo-romana do seu nome: Flammarion: “Aquele que leva a luz”.

Foi dura a vida dos Flammarions, e Camille compreendeu o mérito de seu pai entregando tudo o que havia conquistado aos credores. Reconhecia nele o mais belo exemplo de energia e trabalho, entretanto, essa situação levou-o a viver com escaços recursos. Camille, depois de muito procurar, encontrou serviço de aprendiz de gravador, recebendo como parte do pagamento casa e comida. Comia pouco e mal dormia, numa cama dura sem o menor conforto; era áspero o trabalho e o patrão exigia que tudo fosse feito com rapidez. Pretendia completar seus estudos, principalmente a matemática, a língua inglesa e o latim. Queria obter o bacharelado e por isso estudava sozinho à noite. Deitava-se tarde e nem sempre tinha vela, escrevia ao clarão da lua e considerava-se feliz por isto. Apesar de estudar à noite, em ocasiões regulares, trabalhava mais de 12 horas por dia. Ingressou na Escola de desenho dos frades da Igreja de São Roque, a qual frequentava todas as quintas- feiras. Naturalmente tinha os domingos livres e tratou de ocupá-los. Nesse dia assistia as conferências feitas pelo abade sobre Astronomia. Em seguida tratou de difundir as associações dos alunos de desenho dos frades de São Roque, todos eles aprendizes residentes nas vizinhanças. Seu objetivo era tratar de ciências, literatura e desenho, o que era um programa um tanto ambicioso.

Flammarion foi presidente de muitas Academias, uma ao ser inaugurada, teve como discurso de abertura o tema “As Maravilhas da Natureza”. Nessa mesma época escreveu “Cosmogonia Universal”, um livro de quinhentas páginas; o seu irmão Ernest Flammarion, também muito seu amigo, tornou-se famoso livreiro e publicava-lhe os livros. A primeira obra que escreveu foi “O Mundo antes da Aparição dos Homens”, o que fez quando tinha apenas 16 anos de idade. Gostava mais da Astronomia do que das demais ciências. Assim era sua vida: passar mal, estudar demais e trabalhar em exagero.

Um domingo desmaiou no decorrer da missa, por sinal, um desmaio muito providencial. O doutor Edouvard Fornié foi ver o doente. Em cima da sua cabeceira estava um manuscrito do livro “Cosmologia Universal”. Após ver a obra, achou que Camille merecia posição melhor. Prometeu-lhe, então, colocá-lo no Observatório, como aluno de Astronomia e em 1858, com 16 anos de idade, Camille foi admitido como auxiliar no Observatório de Paris do qual era diretor Levèrrier e fez parte do “Bureau des Longitudes”, como calculador. Muito sofreu com as impertinências e perseguições desse diretor, que não podia conceber a ideia de um rapazola acompanhá-lo em estudos de ordem tão transcendental.

Retirando-se em 1862 do Observatório de Paris, continuou com mais liberdade os seus estudos, no sentido de legar à humanidade os mais belos ensinamentos sobre as regiões silenciosas do Infinito. Livre da atmosfera sufocante do Observatório, publicou no mesmo ano a sua obra “Pluralidade dos Mundos Habitados”, atraindo a atenção de todo o mundo estudioso. Para conhecer a direção das correntes aéreas, realizou, no ano de 1868, algumas ascensões aerostáticas.

Pela publicação de sua “Astronomia Popular”, recebeu da Academia Francesa, no ano de 1880, o prêmio Montyon. Em 1870 escreveu e publicou um tratado sobre a rotação dos corpos celestes, através do qual demonstrou que o movimento de rotação dos planetas é uma aplicação da gravidade às suas densidades respectivas.

Ele morou em Paris, no piso mais alto de uma casa que forma a esquina da rua Cassini com a avenida do Observatório, a que se ligou muito, pois foi aí que sofreu as amargas vicissitudes da luta pela própria existência e onde gozou das maiores alegrias de sua vida. Nesta casa ele escreveu a maioria das obras que lhe deram fama; onde também, depois de casar-se, morou com a sua fiel companheira, esclarecida confidente de todos os seus trabalhos, e sua preciosa secretária.

O gabinete de Flammarion era muito singelo; mas, nas paredes, sobre o pavimento, em cima das mesas e das cadeiras, por todos os lados, uma montanha de livros, periódicos, folhetos e papéis. A sua mesa estava sempre coberta de cartas, que chegavam todos os dias, dos quatro extremos do mundo, e de provas para a sua Revista “L´Astronomie”, que fundara em 1882, e para o “Nouveau Dictionnaire Encyclopedique, etc.”

Durante cerca de uma dezena de anos, Flammarion recebia, quase todas as semanas, extensas cartas de um Senhor chamado Meret, de Burgos, que o felicitava. Flammarion, demasiado ocupado para responder a tal desbordamento de entusiasmo, se contentava em dar-lhe graças de vez em quando, por um breve bilhete de recebimento. Flammarion já não se preocupava com o generoso Bordelés, quando, um dia, se apresentou um notário em seu domicílio, para anunciar-lhe que M. Meret, sentindo próximo o seu fim, e não tendo herdeiros, lhe legava totalmente – objetivando que a utilizasse para seus estúdios de observação e pesquisa – a bela e vasta propriedade que possuía em Juvisy, e que se chamava, no país, de o ” Castelo da Corte de França…” Em 1883, Flammarion fundou o Observatório Juvisy, que dirigiu durante toda a sua vida.

Tornando-se espírita, foi amigo pessoal e dedicado de Allan Kardec, rendendo homenagem ao Codificador do Espiritismo, que desencarnara, repentinamente, dia 31 de março de 1869, Flammarion, à convite da Direção da Sociedade Espírita de Paris, consigna, no seu discurso, para a posteridade que “Ele era o que eu denominarei o bom senso encarnado”, publicado, posteriormente, sob o título “Discours prononcé sur la tombe d´Allan Kardec”, por Didier et Cie. Paris, 1869, Imp. P. A. Bourdier, 24 pp.; reeditado pela “Librairie Spirite”, com o título “Le Spiritisme et la Science”, Paris, 1869, “in” 8º., 24 pp., e incluída, por Pierre-Gaëtan Leymarie, em “Oeuvres Posthumes d´Allan Kardec” (Obras Póstumas) (RE – 1869 – Maio; OP, Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec).

As obras de Flammarion foram traduzidas para grande número de idiomas – para o inglês, espanhol, sueco, dinamarquês, italiano, húngaro, checo, holandês, romeno, russo, alemão, português – e são referidas na “Revue Spirite”, que também publica seus artigos. Suas obras, de uma forma geral, giram em torno do postulado espírita da pluralidade dos mundos habitados e são as seguintes: “Os Mundos Imaginários e os Mundos Reais”, “As Maravilhas Celestes”, “Deus na Natureza”, “Contemplações Científicas”, “Estudos e Leitura sobre Astronomia”, “Atmosfera”, “Astronomia Popular”, “Descrição Geral do Céu”, “O Mundo antes da Criação do Homem”, “Os Cometas”, “As Casas Mal- Assombradas”, “Narrações do Infinito”, “Sonhos Estelares”, “Urânia”, “Estela”, “O Desconhecido”, “A Morte e seus Mistérios”, “Problemas Psíquicos”, “O Fim do Mundo” entre outras… Fez extensivas experiências, entre outras, com as médiuns Madame Girardin (na casa de Victor Hugo, em Jersey), Mademoiselle Huet e Eusápia Paladino.

Camille Flammarion, segundo Gabriel Delanne, foi sábio filósofo, dominando a Arte da Ciência e a Ciência da Arte. Flammarion: “poeta dos Céus”, como o denominava Michelet, tornou-se baluarte do Espiritismo, pois, sempre coerente com suas convicções inabaláveis, foi um verdadeiro idealista e inovador. Mas sua carreira como investigador e militante das verdades altivas foi muito além, Flammarion também presidiu a Society for Psychical Research em 1923, entrando para o hall dos grandes cientistas desta renomada instituição. Em seus muito bem escritos e coerentes discursos, fazia questão de deixar claro sua posição sobre o destino do ser, expondo de maneira objetiva as conclusões dos mais de 60 anos de investigações, e que nem sempre convergia com as conclusões dos espíritas de modo geral, os que não se dedicavam ao método científico. Nutria amizade com os mais destacados gênios de seu tempo, como o escritor e militante espírita Victor Hugo, repartindo com estes o espírito investigativo e questionador, sem medo de expor suas opiniões ao público.

O “Anuário Espírita do Brasil” (1931, 1ª ed.) destaca que “o sábio das constelações siderais, com a sabedoria de mestre, provou ao mundo que os domínios da Astronomia não iam somente ao conhecimento dos corpos celestes”.

O Imperador Pedro II, amante das ciências, foi visitar o astrônomo em seu retiro e plantou, com as suas próprias mãos, no parque, para perpetuar a memória de sua passagem, um pequeno cedro do Líbano, de cujo ato Flammarion, por sua vez, gravou em uma prancha de cobre, os detalhes desse acontecimento.

O Pesquisador e Cientista Espírita João Donha, faz uma interessante descrição das memórias de Flammarion que não foram todas traduzidas para o português. Escreveu ele: “Alguns dizem que Camille Flammarion oscilava entre explicações espiríticas e explicações pelo inconsciente. Na verdade, ele vivia e valorizava a dúvida. Por isso, se irritava com todos os que têm certeza absoluta das coisas. Criticava a postura não científica dos espíritas que têm certeza de que foi realmente Sócrates, Platão e companhia a trazer-lhes a doutrina. Mas, criticava principalmente a postura anti-científica dos próprios cientistas, que negam a priori, ou com pouquíssimos elementos para tal.

São suas palavras nas sombras da dúvida: — “Não encontro nada do que procuro, o Espiritismo não me satisfaz, e eu sou tentado a dizer com Dante: A floresta que me envolve é obscura, áspera e selvagem”.

Para logo se erguer na dúvida construtiva: — “Devemos compreender que não podemos tudo compreender”. […] Mostram uma alma inquieta; alguém que deseja ardentemente o conhecimento do nosso destino após a morte, mas mantém-se suficientemente lúcido para não abandonar o critério estritamente científico e não cair em certezas precipitadas, mesmo tendo que pagar o preço da angústia permanente da dúvida. Espiritismo ou animismo? Animismo ou espiritismo? É a gangorra onde ele balança sua angústia por toda a vida. […] Ele aborda suas experiências espíritas. Faz, também, um breve relato e uma análise dos três cadernos resultantes das experiências realizadas sob a direção do Victor Hugo, quando na ilha de Jersey. Chega a elaborar a hipótese de que a soma dos presentes cria as personalidades comunicantes sob o domínio da mente prodigiosa de Hugo. Vamos a alguns trechos:

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Ação inconsciente da alma. Mas como? Existem espíritas de uma fé cega, que têm certeza de estarem em comunicação com os espíritos. Não há como chamá-los à razão. Eles não me perdoam de não compartilhar suas certezas, que se tornaram entre eles crenças religiosas. Mas há outros que compreendem que apenas o método científico pode nos conduzir ao conhecimento verdadeiro. Esses continuam meus amigos. Eu acabei de encontrar numa coletânea de correspondências a carta seguinte que me permito reproduzir, e que parece ter seu lugar aqui. Ela é datada de Bordeaux, 29 de março de 1904:

‘Caro mestre,

Há cerca de quarenta anos, ouvi, em Bordeaux, um velho fazer o elogio de um jovem, por volta dos dezoito anos, portador de condições de fato excepcionais. Segundo ele, esse jovem seria um prodígio, que deveria remexer o mundo. O jovem, era o senhor. O velho, era Allan Kardec.'(…)

J.Bayard.

A carta continua, tecendo elogios ao espírito científico do Flammarion. Ao final, ele enfatiza:

“Publico esta carta, dentre várias, para mostrar que nem todos os espíritas me guardam ressentimento em função do meu método científico. Pode-se repelir o espiritismo, pode-se repelir o cristianismo, sem deixar-se de ser espiritualista. São doutrinas claramente distintas.”

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A informação desta carta, a análise na Revue à sua obra, e outras manifestações de Kardec deixam clara a predileção e o carinho que o fundador do Espiritismo nutria por ele; e compartilhava com a Amelié que, ao herdar seu espólio, tudo fez para que o jovem astrônomo se tornasse o continuador da obra. Certamente, viam nele o filho que desejariam ter tido. Por mais independente que fosse, ante tanta consideração seus sentimentos não lhe permitiriam apartar-se totalmente da hipótese espírita, e, é bem provável, condicionaram sua abordagem delicada e suas críticas amenas à “obra de feição pessoal”, ou à “religião” do amigo, externadas no discurso do sepultamento. […]

Léon Denis, segundo a pena dedicada de Zêus Wantuil, tece alguns comentários que transcrevemos abaixo: “E também Camille Flammarion teve suas horas de incertezas. Nos fizeram notar que na última edição do seu livro – As Forças Naturais Desconhecidas – publicada em 1917, mostra uma tendência a explicar todos os fenômenos apenas pela exteriorização do médium”. (DENIS, 1918. p. 135).

Carlos Imbassahy (1951, p. 111-112) considera que Flammarion eleva a ciência a uma posição ímpar, procurando com seus métodos equacionar as questões do espírito. “Ora, Flammarion é um simples cientista, que só no último quartel de suas experiências admitiu a comunicabilidade dos mortos. Não se trata, nunca se tratou de um doutrinador. A Ciência para ele era tudo. A certeza de que o fenômeno psíquico era devido à alma dos defuntos custou-lhe uma existência de trabalhos, de lutas, de verdadeira violência às suas antigas convicções. (…) Não se lhe podia pedir muito, nem pedir mais.”

Apesar destes “senões”, Flammarion, após uma vida de estudos psíquicos, não deixa dúvidas quanto à sua convicção, baseada em fatos, na sobrevivência e personalidade da alma humana. O astrônomo francês é enfático em sua defesa da imortalidade do espírito em “A Morte e Seu Mistério”, do qual transcrevemos o seguinte parágrafo: “Esses fatos, devidamente comprovados, provam que a morte não existe, que é apenas uma evolução, sobrevivendo o ente humano a essa hora suprema, a qual não é de modo nenhum a última hora. Mors janua vitæ: a morte é a porta da vida. O corpo é somente um vestuário orgânico do espírito; ele passa, muda, desagrega-se: o espírito permanece. (…) (FLAMMARION, 1922c. p. 323)

Em sua publicação mais próxima da desencarnação , o livro “As Casas Mal Assombradas”, Flammarion sustenta uma polêmica com autores franceses que resistem à ideia da imortalidade da alma, marcando, sem deixar dúvidas, a sua posição. “Se o Universo é um dinamismo, se o Cosmos bem justifica seu nome (ordem), se o mundo desconhecido é mais importante que o conhecido, se há forças inteligentes e seres invisíveis, devemos preferir ao negativismo de Naquet, Berthelot, Le Dantec, Littré, Cabanis, Lalande, Voltaire, às convicções de Hugo, Pasteur, Ampère, G”the, Euler, Pascal, Newton, espiritualistas, de vez que estes atravessam a crosta das aparências e descobrem, na análise das coisas, o dinamismos invisível, fundamental.” (FLAMMARION, 1923. p. 320)

O próprio Léon Denis, quando convidado por Jean Meyer para ser presidente do III Congresso Espírita Internacional (Paris-1925), recusou, tendo como certo que Flammarion o seria. Foi necessário que o espírito Jerônimo lhe dissesse, sem explicar, que ele não estaria lá. Flammarion certamente estaria, se não fosse colhido pela visita da morte. Há que se compreender, nos dias de hoje, as pressões pelas quais Flammarion não deve ter passado, seja no meio científico, seja no meio espírita. Ainda nos dias de hoje procuram descaracterizar ou desvalorizar sua obra espírita.

Texto adaptado para Revista de Ciência Espírita, de acordo diversas fontes biográficas disponíveis sobre este renomado cientista espírita.

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