Go to ...
Jornal de Ciência Espírita on YouTubeRSS Feed

18/11/2017

Quem foi: Alfred Russel Wallace


Ao nascer, em 08 de janeiro de 1823, na cidade de Usk, Monmouthshire, Inglaterra, Alfred Russel Wallace tinha dois irmãos mais velhos (William e John), duas irmãs mais velhas (Eliza e Frances), e viria a ter um irmão mais novo, Herbert Edward. Teve uma infância difícil e, ainda adolescente, foi trabalhar com William, que se tornara carpinteiro, em Londres. Nesta época, a diversão deles era freqüentar o Hall of Science durante a noite. Esta instituição era uma espécie de clube onde se jogava dominó, bebia-se café e ouviam-se palestras sobre os ensinamentos de Robert Owen. Dentre as muitas idéias do owenismo, a sua visão de religião é brevemente descrita por Peter Raby na frase abaixo: A unica religião benéfica era a que inculcava o serviço à humanidade, cujo único dogma seria a irmandade do homem. (Raby, 1991, p.15) Ele estudou nos Mechanics Institutes de Kington e Neath, sempre valorizando os estudos e a ciência.

Alfred-Russel-Wallace-young

Em 1843, Thomas Wallace (pai de Alfred) faleceu e a família teve suas dificuldades financeiras aumentadas. O jovem Alfred foi trabalhar como professor de mapas na Colegiate School of Manchester, recebendo um salário modesto de 30 a 40 libras por ano. Ainda jovem, leu as narrativas de viagens de Humboldt e o trabalho de Malthus, que o impressionou bastante pelo raciocínio indutivo e a capacidade de síntese. Dois anos depois, o irmão mais velho de Wallace, William, faleceu de pneumonia. Alfred deixou o emprego e mudou-se para Neath, para cuidar dos negócios do falecido irmão. Ali pôde dedicar-se parcialmente à botânica. Ele convenceu John a vir morar com ele, o que ocorreu em 1846, e depois sua mãe e o irmão mais novo, Herbert. Eles alugaram um pequeno sítio, que ficava cerca de uma milha do centro da cidade. Ele e o irmão participaram da construção do novo Instituto de Mecânica em Neath, que foi inaugurado oficialmente em 1848. Ele tornou-se curador do Neath Literary and Philosophical Institute, que considerava um pequeno museu com poucos recursos disponíveis para a aquisição de livros.


 Wallace Naturalista

alfred1Em viagem à França, com sua irmã, Wallace visitou museus, livrarias e o Jardim Botânico, o que o fez insatisfeito com a própria coleção de plantas, por ter apenas espécimes locais. Isto, somado aos seus interesses teóricos, trouxe-lhe o desejo de viajar para fora da Inglaterra. Aos 25 anos, Alfred veio a Amazônia, sem salário e acompanhado por seu irmão, Herbert. Na floresta tropical coletou variados tipos de planta, inseto, aves e outros animais. Desembarcou em Salinópolis, em maio de 1848, e viajou por Belém do Pará, Manaus e localidades do rio Negro, fazendo sua recolha de animais e vegetais. Em sua primeira remessa à Inglaterra, enviou cerca de 1300 diferentes espécies de amimais e plantas. Herbert contraiu febre amarela em Belém e faleceu com vinte e dois anos, em junho de 1851, deixando Alfred muito abatido. Enquanto estava no rio Negro, Alfred também adoeceu gravemente, mas recuperou-se para voltar às ilhas britânicas e constatar a perda de muitas das caixas que enviou, em decorrência de tempestades e outros contratempos. Uma vez na Inglaterra, Alfred R. Wallace foi aceito como pesquisador visitante na Sociedade Entomológica, na qual fez duas conferências. Ele escreveu Travels on Amazon and Rio Negro e imprimiu 250 volumes. Wallace desejava fazer outra viagem e planejou uma segunda expedição para o arquipélago malaio, onde ficou por oito anos. Chegou em Singapura em abril de 1854 e iniciou uma extensa exploração das ilhas em busca de espécimes diversos.

Segundo Raby (2000, p. 132), desde 1838 Wallace já propunha a luta pela sobrevivência como causa da mudança das espécies no processo evolutivo, idéia que lhe ocorreu a partir da leitura de Malthus. Quatro anos depois, escreveu um resumo de suas idéias em 35 páginas, que foram crescendo até o verão de 1844, quando já havia escrito um volume de 230 páginas. Apenas em 1855 iniciar-se-ia a correspondência entre Wallace e Charles Darwin, alimentada pelo seu interesse comum nos temas ligados à teoria da evolução. Em 1858, Darwin recebeu uma carta de seu par que o assustou bastante, porque nela se via a teoria da seleção natural, que até então Darwin acreditava ser originalmente sua. Os dois naturalistas passaram a trocar correspondência regularmente e é de se entender que vieram a ser bons amigos. Em 1858, as idéias de ambos foram apresentadas em um encontro da Linnean Society, em uma mesa que continha também uma carta da naturalista norte-americana Asa Gray.

alfred2O trabalho de Wallace denominava-se. Sobre a tendência das variedades de se afastar em indefinidamente do tipo original. As comunicações foram apresentadas na ordem cronológica, o que mostrava a preocupação dos naturalistas na Inglaterra em mostrarem que Darwin não houvera roubado nenhuma idéia de Wallace. Como Alfred encontrava-se no arquipélago malaio, seu trabalho foi lido por um dos naturalistas envolvidos no evento. No ano seguinte, Darwin enviou as provas do livro que o celebrizou, A origem das espécies, para a avaliação de Wallace, que leu com admiração o trabalho. Raby (2000, p. 151) transcreveu um comentário, acerca do livro, que Alfred dirigiu a seu correspondente George Silk: ― O senhor Darwin deu ao mundo uma nova ciência e seu nome devia, na minha opinião, ser colocado acima do de todos os filósofos dos tempos antigos ou modernos. A publicação do trabalho de Darwin fez com que Wallace desistisse de publicar o seu próprio livro de teoria. Muito recentemente, alguns escritores, com base no sumiço da correspondência de Charles Darwin, Alfred R. Wallace, Charles Lyell e Hooker, trocada pouco antes da famosa comunicação conjunta na Linnean Society, aventaram a hipótese de Darwin ter-se apropriado indevidamente das idéias de Wallace para a solução de problemas que não houvera resolvido em sua teoria. Esta idéia, entretanto, continua sendo apenas especulação e possibilidade.

Alfred R. Wallace retornou à Inglaterra, de volta de sua grande viagem, em abril de 1862. Nesse período, ele participou ativamente de debates sobre a origem do homem, tema que Darwin se resguardava de discutir, possivelmente, por sua implicações religiosas e políticas. Em 1866, Wallace se casou com a senhorita Annie Mitten, com quem viveu por longos anos. A vida intelectual de Wallace foi muito prolífica. Entre livros, artigos e entrevistas, ele efetuou mais de 750 publicações. Seus livros que abordam mais citados temas da biologia são: Darwinismo (1889), O arquipélago malaio (1869), A distribuição geográfica dos animais (1876), A vida insular (1880), A natureza dos trópicos e outros ensaios (1878), Contribuições à teoria da seleção natural (1870).

Diversas vezes ele foi premiado por seus trabalhos e se tornou membro das sociedades científicas inglesas mais eminentes em sua área, dentre elas a Zoological Society, a British Ornitologists Union, a Linnean Society e a British Society for lhe Advancement of Science. Tornou-se presidente da Entomological Society, em 1872. Como cientista, expôs-se em situações polêmicas, como na condenação da vacinação – que entendia ser um equívoco da medicina “que o futuro não tardaria em mostrar” -, na defesa da frenologia e ao aceitar o desafio público que um leigo havia lançado com relação ao relevo das ilhas, que Wallace venceu, ganhando uma soma em dinheiro adicionada ao desafeto do adversário. Wallace Espiritualista Alfred R. Wallace foi introduzido ao pensamento de Robert Owen em sua juventude, como já o dissemos. De certa forma, a influência de Owen incentivou o seu gosto pelos estudos e pelas ciências. Ainda como professor em Leicester, assistiu a uma conferência sobre mesmerismo, dada por Spencer Hall, que o levou a fazer experimentos com seus alunos, obtendo resultados que o impressionaram e marcaram o início das pesquisas que o conduziriam ao exame dos fatos do espiritualismo. Em suas viagens pela Amazônia e pelo arquipélago malaio, ele não se esqueceu dos seus estudos mesméricos. No Pará, seu irmão Herbert fez alguns experimentos com índios e com a população local, e os biógrafos relatam que ele levou curumins ao estado de transe profundo. Alfred paralisou o braço de um homem de sua idade, empregando as técnicas de magnetização que conhecia.

Nas correspondências que trocava com os seus amigos e familiares, foi informado da onda espiritualista que havia sido criada pelas viagens de médiuns norte-americanos pela Europa. No início dos anos 1850, a senhora Hayden converteu Robert Owen ao espiritualismo moderno e isto pode ter afetado a Wallace, que demonstrou interesse em realizar pesquisas sobre a mediunidade quando retornasse às ilhas britânicas. Smith (2002) entende que ele se converteu ao espiritualismo em meados de 1866 e permaneceu espiritualista até o final de seus dias, tendo levado a efeito mais de cem publicações sobre o assunto. Raby (2001) afirma que a sua uma Fanny já era uma espiritualista ativa e que isto o influenciara, entretanto, não há como negar o interesse de Wallace pelo owenismo desde a juventude, assim como suas incursões pelo mesmerismo e pela frenologia, o que mostra uma trajetória pessoal anterior à influência de Frances Wallace. Outra clara influência que se pode perceber em um outro trabalho de Wallace é a da epistemologia dos empiristas ingleses, que postulavam a observação como base da construção do conhecimento, bem como do seu naturalismo. Essa metodologia seria a escolhida por Alfred para o estado dos fenômenos considerados espirituais, bem como para o debate que realizou com os céticos durante o resto de sua vida. O próprio Wallace explica sua conversão às idéias espiritualistas em uma entrevista: Quando voltei do exterior, em 1862, li sobre o espiritualismo e, como a maioria das pessoas, achei que fosse tudo fraude, ilusão, estupidez.

Encontrei pessoas aparentemente inteligentes e sadias que ora asseguravam que haviam experienciado coisas maravilhosas. A senhora Marshall era uma médium conhecida em Londres àquela época e, após um exame detido, fiquei convencido de que os fenômenos associados a ela eram perfeitamente genuínos. Mas levei três anos de investigações subseqüentes para certificar-me de que eles eram produzidos por espíritos. (Dawson, 1898) Peter Raby conduziu sua biografia de Wallace mostrando como a idéia do espiritualismo era mal recebida pelos círculos científicos da época e, de certa forma, tentando explicar como um homem como ele teria sido crédulo o suficiente para defender estas idéias. A leitura da obra de Wallace mostrou-nos que ele trabalhou como um naturalista em assuntos espiritualistas. Ele leu a literatura disponível à sua época, realizou pesquisas diversas, criou mecanismos de identificação de fraude e tentou sensibilizar seus pares para o tema, tendo sido mal recebido e mal interpretado na maioria das vezes. Isto não o fez desanimar, o que foi interpretado por Raby como um traço obsessivo – em outras palavras, sua convicção foi entendida como teimosia.

Como o leitor pôde ler com mais detalhes neste livro, Wallace fez contato com pessoas do seu círculo que se interessavam pelo espiritualismo. Inicialmente, assistiu a algumas sessões promovidas pela senhora Marshall, uma médium profissional, e pôde assistir a fenômenos de mesas girantes e raps. Posteriormente, promoveu sessões de pesquisa em sua própria residência, controlando com rigor o ambiente e buscado obter fenômenos que o permitissem sustentar a hipótese espiritualista frente a outras hipóteses, então em voga, propostas por pessoas que buscavam dar uma explicação diversa aos fenômenos. O aspecto científico do sobrenatural foi publicado em 1866 e, em 1871, ele escreveu e leu um trabalho chamado uma resposta aos argumentos de Hume, Lecky e outros contra os milagres para a Dialectical Society.

Nessa época, Crookes estava realizando suas pesquisas com o médium Daniel D. Home. Wallace se tornou um defensor das idéias espiritualistas, como no episódio em que escreveu para uma revista um artigo de seis páginas, contrapondo-se a um trabalho de Tyndall, que contradizia a opinião de que Daniel Dunglas Home, conhecido médium de materializações, não havia sido devidamente investigado. Uma das médiuns que Wallace pesquisou foi a senhora Guppy (anteriormente senhorita Nichols), que possuía faculdades de efeitos físicos. Em março de 1874, ele identificou a mãe em duas das fotos obtidas. Raby considera improvável a existência anterior de alguma fotografia da senhora Guppy junto à família. Nesse mesmo ano, Wallace publicou, no Fortnighly Review, um grande ensaio denominado A defesa do espiritualismo moderno. Este ensaio e os dois anteriores foram reunidos em um livro que se chamou Milagres e o espiritualismo moderno, publicado em março de 1875. Teve diversas edições posteriores, às quais foram adicionados outros trabalhos.

A última edição de que temos notícia foi tirada em 1970. O médium Henry Slade, em viagem pela Europa, realizou sessões pagas na Inglaterra a partir de setembro de 1876, quando teve suas faculdades estudadas por diversos pesquisadores, como o professor Barrett, o reverendo Stainton Moses, Serjeant Cox, o doutor Carter Blake e o próprio Wallace. Slade foi acusado de fraude pelo biólogo professor Ray Lankester, que fez uma carta-denúncia para o jornal The Times, acusando de tomar dinheiro de modo fraudulento. O caso foi parar na barra dos tribunais e Wallace levantou-se em defesa do médium, reafirmando suas faculdades, relatando as demais observações realizadas com ele por outros pesquisadores e explicando a posição de Lankester com a seguinte sentença: O professor Lankester foi com a firme convicção de que tudo o que ia assistir era impostura e, assim, pensa que viu imposturas, assim (Apud Doyle, s.n. p. 241). Mesmo com a defesa realizada pelos espiritualistas e a circunstancialidade das acusações, Slade foi condenado com base na lei da vagabundagem inglesa. Doyle dá alguns detalhes sobre o processo, deplorando a forma como o magistrado julgou e sentenciou o médium norte-americano.

O fato de Wallace ter-se unido aos espiritualistas ingleses na defesa do médium teve implicações em sua vida profissional, uma vez que o próprio Lankester o denunciou aos seus pares da Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência por ter “degradado as discussões da sociedade pela introdução do espiritualismo”. Esta acusação se baseou em uma comunicação em que William Barrett defendia a existência da telepatia e referia-se a fenômenos mesméricos e espiritualistas, aprovada para um encontro da referida sociedade. A aprovação da comunicação se deu na subseção de antropologia, como um voto de Minerva dado por Wallace, que era presidente da seção de biologia. Toda esta publicidade negativa fez com que Wallace não fosse eleito secretário da Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência e também dificultou a posterior concessão de uma pensão do Governo Britânico, numa época em que ele passava por dificuldades financeiras. Ele houvera escrito a Arabella Buckley, secretária de Lyell, solicitandolhe ajuda para conseguir algum emprego que o permitisse sustentar a família. Ela solicitou a Darwin que o indicasses para receber uma pensão do governo.

Darwin iniciou uma série de consultas a seus pares, que hesitaram em fazer uma recomendação de Wallace ao burocrata responsável, em decorrência dos eventos polêmicos e de sua adesão ao espiritualismo, como se pode ler no seguinte trecho da correspondência de Hooker; Como pode um homem pedir a seus amigos que assinem tal solicitação? Além disso, que governo pode honestamente ser informado que o candidato é um público e destacado espiritualista? (Raby 2001. p.222) Sem saber do acontecido, Wallace submeteu os textos de seu livro Vida insular a Hooker, acatou as suas sugestões e lhe fez uma dedicatória. Ao conhecê-lo melhor, como homem e como cientista, o pesquisador mudou de opinião e escreveu a Darwin incentivando-o a continuar com o pedido de pensão para Wallace, que foi concedida em 1881, tornando-lhe a vida um pouco mais tranqüila. Cinco anos depois, Wallace viajou a Nova York para fazer conferências e visitou três sociedades espiritualistas norte-americanas, em Boston, Washington e São Francisco (Fodor, s.n.).

Ele assistiu a sessões e fez contatos com os espiritualistas norte-americanos. Encontrou-se com o conhecido psicólogo William James em diversas ocasiões. Em uma delas, assistiu a uma sessão de materialização com a senhora Ross na qual apareceram muitas pessoas e objetos, como um índio, um rosto de bebê, que ele beijou, etc. Em uma outra sessão, ele identificou um primo, Alg. Wilson. Houve uma acusação de fraude da médium e Wallace escreveu em sua defesa em uma carta publicada no jornal Banner of Light. Nessa época, Wallace publicou um artigo intitulado “Estão os fenômenos do espiritualismo em harmonia com a ciência?”, mas os biógrafos não se entenderam quanto a data e local desta publicação. Raby e Fodor dizem que ocorreu em 1886, no Banner of Light. Smith afirma que foi publicado originalmente em 1885, no jornal Sunday Herald, de Boston, e depois republicado com pequenas modificações no periódico The Médium and Daybreak, em dezembro de 1885.

Wallace prosseguiu com suas publicações espiritualistas até o seu falecimento, em 7 de novembro de 1913. Alguns de seus artigos acham-se publicados na página de Smith, mas foge ao objetivo deste pequeno esboço biográfico apresentá-los a exaustão. Deixamos ao leitor apenas mais uma referência, a de um artigo intitulado “Espiritualismo e trabalho social”, publicado em 1898 na revista espiritualista Light e que pode ser acessado no endereço clicando aqui.

Alfred Russel Wallace enfrentou a intolerância de uma época, intolerância contra sua origem social, contra sua religião e mesmo contra a sua honestidade científica. De alguma forma, somos herdeiros do seu trabalho e por esta razão consideramos importantes homenageá-lo trazendo à luz aquilo que fez de melhor enquanto encarnado: compreender.

4/5 (2)

Por favor, avalie este artigo.

Tags: , , ,

One Response “Quem foi: Alfred Russel Wallace”

  1. Anônimo
    24/05/2015 at 09:42

    Extraordinário conteúdo. Parabéns ao autor do blog.

    0

    0

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

More Stories From Artigos