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20/09/2017

Panteísmo e Materialismo: As acusações mais absurdas ao Espiritismo Lucas Berlanza Corrêa


Em meio ao clima de acirramento de ânimos e de disposição para o debate e as disputas teóricas, temos visto, no campo da discussão espiritual ou religiosa, um sem-número de críticas mais refinadas e “intelectualizadas” ao Espiritismo, por assim dizer, por parte tanto de católicos e protestantes, quanto de agnósticos autointitulados “ex-espíritas”, procurando situar nossa doutrina no rol das concepções ultrapassadas e “datadas”, ou das completas falácias.

Da parte dos espíritas, seja por não darem a isso a devida importância, seja por não estarem suficientemente compenetrados dos princípios e da identidade da sua própria doutrina para formular as respostas devidas, esse tipo de ataque é recebido com absoluto silêncio e ignorância, ou respondido com destemperos que nos tiram a razão. Raros são os que se dispõem a, no interesse do esclarecimento dos próprios espíritas, destrinchar essas críticas e, ao fim e ao cabo, constatar, para aqueles mais incautos, que elas são pouco mais que repetições de ataques que já foram levantados contra Kardec no século XIX, e que podemos nos inspirar nas suas respostas – que ele, julgando conveniente, não se furtou de dar – para articular as refutações necessárias no hoje.

Prestando atenção a algumas dessas críticas, notamos que se repetiam duas que, por enfeitadas e sofisticadas que estivessem apresentadas, podemos, sem medo de errar, taxar de as mais obviamente estúpidas. Para os espíritas que não acompanham as recentes contendas, isto pode soar até inacreditável, mas temos visto o Espiritismo ser acusado de sustentar o Panteísmo e o Materialismo. Sim, você não leu errado.

Da parte do Panteísmo, muitas vezes os que sustentam essa tese esdrúxula se baseiam em comentários de autores posteriores a Kardec que sugeririam uma confusão essencial entre o Criador e suas criaturas. O Espiritismo, como sabemos, não pode assumir responsabilidade pelas opiniões dos espíritas, ou dos pretensos espíritas. Como doutrina didática que é, organizada por um pedagogo menos preocupado em produzir obras de garbo e elegância lírica – nada contra os livros que têm essa pretensão cultural, apenas ressalvamos que cada coisa tem seu departamento – que em traduzir o ensinamento coordenado dos Espíritos ao conhecimento geral, o Espiritismo provavelmente é a doutrina que mais cristalina e objetivamente se contrapõe à teoria panteísta. Imediatamente no capítulo I da Parte Primeira de O Livro dos Espíritos, sob o subtítulo precisamente designado Panteísmo – PANTEÍSMO, leram bem? -, nossa doutrina se posiciona a respeito do assunto, no já bem conhecido formato de perguntas e respostas.

Em um apanhado das questões 14 a 16, vemos os Espíritos e Kardec, em conjunto, deixando claro que Deus NÃO É “a resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo reunidas”, pois, se o fosse, Ele seria “efeito e não causa”. Em autêntica censura moral, dizem ainda que os proponentes de tal sistema são perigosamente arrogantes, pois, “Não podendo fazer-se Deus, o homem quer ao menos ser uma parte de Deus”. A doutrina deixa muito claro, para o desgosto de alguns místicos, que as criaturas, todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais, não são partículas de seu Criador, e não se confundem de maneira alguma com a Sua essência. Se assim fosse, Deus “nenhuma estabilidade teria; achar-se-ia sujeito a todas as vicissitudes, mesmo a todas as necessidades da Humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade. Não se podem aliar as propriedades da matéria à ideia de Deus, sem que Ele fique rebaixado ante o nosso pensamento, e não haverá sutilezas de sofismas que cheguem a resolver o problema da Sua natureza íntima”. De todo modo, podemos afirmar que o sistema panteísta “confunde o Criador com a criatura, exatamente como o faria quem pretendesse que engenhosa máquina fosse parte integrante do mecânico que a concebeu.” Não satisfeito, Kardec reafirma: “A inteligência de Deus se revela em Suas obras como a de um pintor no seu quadro; mas as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou”. Ainda em Obras Póstumas, no famoso texto As Cinco Alternativas da Humanidade, vemos que Kardec insistiu no tema, sustentando as mesmas posições. Por que afinal de contas insistir em negar o óbvio e em atribuir essa pecha ao Espiritismo? Por que ainda vejo essa acusação aparecer em várias cartilhas e artigos de portais católicos e protestantes?

Na Revista Espírita de junho de 1863, em Algumas refutações, Kardec discute com um sacerdote católico que fez ataque similar e desnuda que, para além de distorcer os fatos, ele também inventava palavras que o Espiritismo jamais disse. “Numa passagem de O Livro dos Espíritos ele nos faz dizer: ‘Há tanta distância entre a alma do animal e a alma do homem, quanto entre a alma do homem e a alma de Deus.’ (Nº 597). Nós dissemos: ‘… quanto entre a alma do homem e Deus’, o que é muito diferente. A alma de Deus implica uma espécie de assimilação entre Deus e as criaturas corpóreas. Compreende-se a omissão de uma palavra por inadvertência ou erro tipográfico, mas não se acrescenta uma palavra sem intenção. Por que essa adição, que desnatura o sentido do pensamento, senão para nos dar um tom materialista aos olhos dos que se contentarem em ler a citação sem verificá-la no original? Um livro que apareceu pouco antes de O Livro dos Espíritos, e que contém toda uma teoria teogônica e cosmogônica, faz de Deus um ser muito diversamente material, porque o faz composto de todos os globos do Universo, moléculas do ser universal que tem um estômago, come e digere, e de cuja digestão os homens são o mau produto. Contudo, nem uma palavra foi dita para combatê-lo.”

Como se vê, mais inverossímil do que a acusação de panteísmo, e às vezes curiosamente mesclada a ela, é a ideia de que o Espiritismo seria, paradoxalmente, materialista. Essa tese provém de muitos segmentos católicos que, também algo paradoxalmente, usam como referência distante o pensador perenialista René Guénon (1886-1951), autor do clássico O Erro Espírita – livro que os críticos do Espiritismo supõem não ter sido lido por nenhum espírita, como se fosse o ataque fulminante inescapável às nossas ideias, e acabam parecendo ter razão, já que, apegados a uma passividade incoerente com a conduta de Kardec, os espíritas efetivamente não se ocupam de conhecê-lo.

Os que tentam decretar um caráter materialista ao Espiritismo se apegam a algumas passagens. Uma delas, a questão 82 de O Livro dos Espíritos, em que os Espíritos relutam em admitir que eles próprios (os seres inteligentes da Criação) são imateriais. “Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogias, e tão eterizada que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.” Ao que Kardec acrescentou: “Dizemos que os Espíritos são imateriais, porque a sua essência difere de tudo o que conhecemos pelo nome de matéria. Um povo de cegos não teria palavras para exprimir a luz e os seus efeitos. O cego de nascença julga ter todas as percepções pelo ouvido, o paladar e o tato; não compreende as ideias que lhe seriam dadas pelo sentido que lhe falta. Da mesma maneira, no tocante à essência dos seres super-humanos, somos como verdadeiros cegos. Não podemos defini-los, a não ser por meio de comparações sempre imperfeitas ou por um esforço da imaginação.” Ora, resta evidente que dizer que o Espíritos seriam uma “matéria quintessenciada” não passa de uma apropriação da nossa linguagem imperfeita e desprovida do alcance suficiente para uma expressão exata da ideia, empregada a fim de deixar claro que o Espírito é ALGUMA COISA. Que, em outras palavras, a seu modo, ele tem uma existência concreta, É algo.

Não pode ser encarada como mais do que uma concessão às imperfeições da nossa linguagem, sobretudo se nós constatarmos todo o esforço que O Livro dos Espíritos faz em traçar uma genealogia distinta ao espírito (princípio inteligente do Universo) e à matéria. Criados por Deus, ambos compõem a partir dEle os ELEMENTOS GERAIS DO UNIVERSO. Não podem, pois, estar confundidos, e serem um e outro a mesma coisa. O que se tenta dizer aqui, portanto, é que se por “imaterial” queremos dizer que o Espírito (e o espírito, por extensão) não é nada, é menos que uma abstração, não tem qualquer essência, então o termo é ruim. Contudo, se queremos dizer com isso que ele é distinto e irredutível a tudo quanto nós pudermos imaginar sob o rótulo convencional de matéria, e que seu princípio não é igual ao princípio material, então o termo seria adequado.

A presença do períspirito, o envoltório do Espírito, este sim uma espécie de matéria, acompanhando o Espírito em toda sua existência e na manifestação dos fenômenos que ele pode produzir, é outro atalho que costuma ser usado para taxar o Espiritismo de materialista. O que poucos sabem é que isso não representa novidade alguma. No mesmo artigo de junho de 1863 citado acima, Kardec rebate rigorosamente a mesma crítica.

“O Espiritismo é acusado por alguns de basear-se no mais grosseiro materialismo, porque admite o períspirito, que tem propriedades materiais. É ainda uma falsa consequência, tirada de um princípio exposto incompletamente. Jamais o Espiritismo confundiu a alma com o períspirito, que não passa de um envoltório, como o corpo é outro envoltório. Tivesse ela dez envoltórios, isso nada tiraria de sua essência imaterial. Já não é o mesmo com a doutrina adotada pelo concílio de Viena, no Dauphiné – França, na sua segunda sessão, a 3 de abril de 1312. Segundo essa doutrina, ‘A autoridade da Igreja ordena crer que a alma é apenas a forma substancial do corpo; que não há ideias inatas, e declara heréticos os que negarem a materialidade da alma.’ Raul Fornier, professor de Direito, ensina positivamente a mesma coisa em seus discursos acadêmicos sobre a origem da alma, impressos em Paris em 1619, com aprovação e elogios de vários doutores em teologia.” E Kardec acrescenta: “É provável que o concílio, baseando-se nos fatos de numerosas manifestações espíritas visíveis e tangíveis referidas nas Escrituras, manifestações que não podem deixar de ser materiais, pois que impressionam os sentidos, tenha confundido a alma com o seu envoltório fluídico ou períspirito, cuja distinção o Espiritismo demonstra. Sua doutrina é, pois, menos materialista que a do concílio.”

Por nossa conta, acrescentamos que os mesmos que consideram de um materialismo grosseiro o Espírito ser revestido de um tipo de matéria são os que condenam certas seitas gnósticas do Cristianismo que demonizavam a matéria, considerando-a uma força do mal. Ora, nem o períspirito torna o Espírito em si material, nem ele o torna menos digno ou relevante na obra de Deus; é matéria sim, matéria que se sutiliza, mas não se confunde com a essência do Espírito, nem vemos em que o rebaixe. Acrescentamos também, com todo o respeito aos dogmas alheios, que os mesmos que apontam essa pecha de panteísta ou materialista ao Espiritismo admitem perfeitamente a ideia de que Deus – sob a forma de sua Segunda Pessoa, a partir da doutrina estranha da Trindade – Se ENCARNOU entre os homens e sacrificou-se por eles, imiscuindo-se da matéria do mundo e de suas mutabilidades, portanto (independentemente das sutilezas teológicas que se tentem aplicar aqui, como a distinção das naturezas divina e humana de Jesus ou qualquer outro postulado exótico). Seria o Cristianismo tradicional muito mais materialista do que o Espiritismo? Eis uma questão.

Seja como for, o absurdo nos parece desnudado. Se existe uma doutrina à qual o Espiritismo declare oposição mais sistemática, é ao materialismo; nele enxergamos a ameaça mais perniciosa aos bons valores e à ordem social, e a destruição das mais sagradas esperanças. Fazer do Espiritismo materialista é aplicar-lhe a mais pérfida caricatura.

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