Go to ...
Jornal de Ciência Espírita on YouTubeRSS Feed

19/10/2017

Outro Erro de Tradução? Tadeu Sabóia


Ao estudar a relação entre as várias Ciências encontramos um princípio básico de que uma determinada ciência não pode comprovar, auditar e arbitrar uma outra Ciência. Existe sempre uma relação entre as Ciências, mas nunca de interferências em seus métodos, processos e conclusões, pois seus objetos de estudos são bem diferentes e individualizados.

Não vou entrar em detalhes sobre essa relação, pois isso é muito chato. Quero dizer apenas que nos livros de filosofia da ciência existe uma unanimidade no que diz respeito a inexistência de qualquer ingerência ou comprovação de uma ciência pela outra. Elas tem uma relação de limitação (controle), mas nunca de comprovação. Exemplo: Um físico, como especialista na área da física, não pode jamais dizer que a pesquisa na área da biologia de um biólogo tem ou não coerência e validade quanto aos princípios da biologia. Existe apenas a noção de limitação. Um físico deve saber os limites impostos pelos objetos de pesquisa da física, um biólogo os limites da biologia, um psicólogo os limites da psicologia e assim por diante. Esses limites são evidenciados por ciências afins.

Exemplo de limites e relações entre as Ciências: Um físico da área de cinética (estuda o movimento dos objetos) ao estudar o movimento dos vírus (biologia/virologia) deve conversar com um biólogo para saber se os vírus (biologia/virologia) realmente se movem (física/cinética) como ele descreve. E o biólogo ao estudar o movimento (física/cinética) dos vírus (biologia/virologia) deve dialogar com um físico para saber se não está dizendo nenhuma besteira em relação a cinética.

Porque estou dizendo isso? O que aconteceu? Ao estudar A Gênese de Allan Kardec, no capitulo caráter da revelação espírita, encontrei um absurdo que entra em completa contradição com tudo o que acabei de explicar! E agora? Kardec pirou? Vejamos o que ele disse sobre a relação do Espiritismo e a Ciência:

Tradução de Guillon Ribeiro

O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação.

Tradução de Evandro Noleto Bezerra

O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência sem o Espiritismo se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação.”

Destaco: “ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação.

Como assim? O Espiritismo precisa da comprovação da Ciência? Kardec nesse trecho, além de estar em contradição com as mais básicas noções de filosofia da ciência, também, e para completar, está em contradição consigo mesmo, senão vejamos:

A Ciência propriamente dita, como Ciência, é incompetente para se pronunciar sobre a questão do Espiritismo: não lhe cabe ocupar-se do assunto e seu pronunciamento a respeito, qualquer que seja, favorável ou não, nenhum peso teria. – Introdução item 8 de OLE

Depois de me recuperar do susto, tomar uma água e fazer uma prece, resolvi, além de esculhambar teoricamente e questionar o mestre Kardec (muito folgado eu…), resolvi questionar os tradutores da FEB. E o que encontrei no original em francês de A Gênese? A VERDADE! Vamos ao trecho em Frances:

Original em Francês

…que le Spiritisme sans la science manquerait d’appui et de contrôle, et pourrait se bercer d’illusions. La Genèse les miracles et les prédictions selon le Spiritisme.

Destaco: “contrôle” (controle)

Agora sim! Esse é o Kardec que a gente conhece. As outras Ciências apenas apoiam e controlam, nunca, jamais e em tempo alguém “COMPROVAM” algo sobre o espiritismo. Esta ai Kardec de volta a coerência com ele mesmo, com o espiritismo e com a filosofia da ciência.

Escrevo isso no intuito de evidenciar a clareza, objetividade, coerência, atualidade e visão profunda de Kardec sobre o espiritismo, suas relações com o mundo e com a realidade. Seja essa realidade encarada pela ótica da ciência ou da filosofia.

Fica claro também os desserviço feito pelos tradutores da FEB que alteraram e desfiguraram as obras de Kardec com suas ideologias e tendências, seja lá qual for o móvel da ação deles nesse sentido.

Para não dizer que tenho marcação com a FEB, a tradução da LAKE está nesse ponto correta em relação com o original francês. A do CELD também está errada como a da FEB.
Abraços!

4.38/5 (4)

Por favor, avalie este artigo.

Tags: , , , , ,

10 Responses “Outro Erro de Tradução? Tadeu Sabóia

  1. 02/02/2016 at 11:39

    NOTA:
    Artigo republicado em 02/02/2016 para correção de bug no sistema de comentários, nova diagramação sem alteração ou correção de conteúdo.

    0

    0
  2. Simon Baush
    02/02/2016 at 22:54

    Sem querer defender a FEB, ambas as traduções de Guillon Ribeiro e Evandro Noleto Bezerra estão corretas nos trechos citados, variando apenas pelo uso de uma virgula. Não houve alteração na forma ou essência do original em Francês (1a ed. 1868). (Francês é minha língua mãe)

    O trecho usado como ‘Original em Francês’ no artigo deveria aparecer conforme em La Genèse:

    “Le Spiritisme et la science se complètent l’un par l’autre : la science sans le Spiritisme se trouve dans l’impuissance d’expliquer certains phénomènes par les seules lois de la matière ; le Spiritisme sans la science manquerait d’appui et de contrôle.”

    Se Kardec esta em contradição com um principio fundamental da ciência, eu não sei dizer, mas não há erro de tradução aqui.

    0

    0
  3. Tadeu Saboia
    06/02/2016 at 16:03

    Simon Baush o português é a nossa língua mãe, desta forma te pergunto se controle (
    controle em francês) tem o mesmo significado de comprovação (preuve em francês)? Peço que releia o que é dito no artigo e se for possível procure entender e enxergar a diferença entre as traduções do Guillon Ribeiro e Evandro Noleto Bezerra com o original em francês.

    0

    0
    • Simon Baush
      02/05/2016 at 17:41

      Em Francês, ‘contrôle’ tem um significado muito semelhante ao do Português. Embora ambos os tradutores usaram a palavra ‘comprovação’, no contexto cientifico, esta palavra poderia ser substituída por inspeção, supervisão, auditoria ou verificação. Em relação às citações incluídas no artigo, elas apenas variam no uso da pontuação.

      0

      0
      • Tadeu Saboia
        03/05/2016 at 08:34

        Simon a questão é: Dentre as várias possibilidades de tradução da palavra “contrôle”, é uma pena observar que os tradutores da FEB não só escolheram um termo que desfigura o sentido claro e objetivo do argumento de Kardec, como escolhem um termo em português que é menos intuitivo (já que “controle” é bem mais próximo de “contrôle”, do que “comprovação”) e ainda por cima um repete 50 anos depois o mesmo erro do outro. Levanto apenas a questão do que pode levar um tradutor de em vez de usar um termo equivalente e que não alteraria o sentido do argumento, usa, em vez disso, um termo completamente diferente e que adultera o sentido do que quer ser dito.

        0

        0
  4. Tonho
    02/05/2016 at 09:57

    Amigo, então qual tradução das obras de Kardec vc recomenda? Grato.

    0

    0
    • Tadeu Sabóia
      02/05/2016 at 11:26

      Estimado Tonho já dizia um professor kantiano que tive: “Se quiser realmente entender uma obra, estude-a na linguá em que foi escrita.” Na impossibilidade de aprendermos francês para estudar as obras de Kardec a melhor tradução para mim é da editora LAKE. José Herculano Pires é o tradutor mais fiel. Porém mesmo o Herculano comete alguns erros também. Por isso é sempre bom ter uma cópia dos originais em francês. Em filosofia temos uma regra que usamos: Se ao ler um grande autor da cultura mundial encontrarmos uma incoerência e um erro grosseiro de lógica, devemos antes de culpar o autor procurar em nós ou na tradução o erro observado.

      0

      0
  5. Simon Baush
    02/05/2016 at 17:58

    “…que le Spiritisme sans la science manquerait d’appui et de contrôle, et pourrait se bercer d’illusions.” Destacando a ultima parte, que não figura na primeira edição de 1868, podemos ler “e poderia iludir-se” ou “e poderia balançar-se com ilusões”.

    0

    0
  6. Rafael C. Bandeira
    25/05/2016 at 12:10

    Amigo o título do texto é “Outro erro de tradução” qual é o outro erro, seria a situação do número de perguntas que foi aumentado na tradução? Ou algum outro?

    0

    0
    • Tadeu Sabóia
      26/05/2016 at 12:09

      Estimado Rafael o termo Outro tem duas funções: primeira chamar a atenção que já foram identificados vários erros e segundo é fazer com que as pessoas prestem atenção. Vou citar um erro encontrado na revista espírita de 1865, mês de Setembro, onde o tradutor retira uma palavra inteira e desfigura o sentido do argumento. Vejamos:
      Original: 8. La médiumnité guérissante pure étant donc une exception ici­bas,….
      tradução da FEB: 8. Sendo, pois, a mediunidade curadora uma exceção aqui na Terra,….
      Forma correta: 8. Sendo, pois, a mediunidade curadora PURA uma exceção aqui na Terra,…
      Esses são apenas alguns exemplos de uma penca de erros de tradução. Alguns dizem que não são apenas erros que toda tradução sofre, e sim uma forma de manipular o entendimento das pessoas sobre a codificação para poder incutir crenças dos tradutores. A FEB não é, e nem nunca foi, um exemplo de coerência e nem de honestidade para com a codificação, por isso a desconfiança de tudo o que sai da editora da FEB, de suas reuniões e de suas orientações. Abraços.

      0

      0

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

More Stories From Colunistas