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29/03/2020

Observações sobre a evolução da mediunidade John Worth Edmonds


Artigo publicado no Jornal New York Tribune, no ano de 1859.

1As manifestações do poder espiritual, parecem ser geralmente conectadas com as formas de vida humanas. Eu digo geralmente, porque parece ter alguns casos onde o fenômeno não requer ou não está somente conectado com pessoas. Casas mal-assombradas são coisas do tipo. Então, há casos de objetos inanimados movendo-se na ausência de qualquer pessoa. E a criação bruta é por vezes afetada. Os demônios “entrando” em uma vara de porcos e o burro de Balaão vendo um anjo antes que seu amo veja, são exemplos disto. Sei de um caso onde um feroz cão de guarda viu um espírito no mesmo momento que seu mestre e fugiu atemorizado. E, em “A Vidente de Prevorst” (1) é dito: “um terrier negro que estava na casa, sempre consciente do espírito, rastejou uivando a seu mestre, nem iria ele dormir sozinho de noite.”

2 A existência de poderes mediúnicos é o resultado mais da organização física do que da mental ou moral.

Qual a peculiaridade do organismo, eu confesso que não sei. Uma vez pensei que o poder estava conectado com um temperamento nervoso e excitável, porém já vi acontecer com uma pessoa estúpida e impassível. Não depende de idade, sexo ou cor, nem de clima ou localidade, pois ricos ou pobres, altos ou baixos, educados ou ignorantes, casados ou solteiros, machos ou fêmeas, jovens ou velhos, pretos ou brancos podem ser desenvolvidos como médiuns.

E o maravilhoso é que homens da Ciência, ao invés de agirem como tais, como crianças chamuscadas, não olham para isso como homens racionais, e não descobrem o que é que está assim estranhamente afetando todas as classes. Certamente podem também descobrir como muitas outras coisas conectadas com o homem, que foram uma vez profundos mistérios como este o é. Sua existência em nosso meio não pode mais ser ignorada, nem pessoas intelectualizadas podem mais se satisfazer com denúncias generalizadas de sua natureza ilusória ou demoníaca. E a Ciência deve isso à humanidade, encarar a questão, não com zombaria autocomplacente, do tipo “O riso do ateu é uma troca ruim para uma divindade ofendida”, mas com uma investigação cuidadosa e sensata. Na França, ela é tratada com tal sensibilidade. Mas entre os sábios da América, com as exceções dos professores Hare e Mapes, ela foi recebida como a aparição de um cometa o era nos dias de minha infância entre crianças assustadiças, com qualquer coisa exceto calmaria filosófica.

3A mediunidade é capaz de ser aumentada pelo estudo. Sei que mediunidade física começa com fracas e quase inaudíveis batidas e terminam com sons altos, límpidos e distintos; começam com um simples movimento de uma mesa e, após um tempo, acha-se no meio de movimentos intrincados de objetos inanimados. Sei que o tipo mental começa com escritos garatujados e caracteres sem sentido, e terminam sendo distintas e legíveis; começam com a visão de uma forma fraca e ensombrada, e termina com uma visão distinta de um espírito, tanto que é capaz de identificá-lo; começa com uma percepção confusa de alguma coisa ser comunicada e progride ao ponto de receber pensamentos, clara e distintamente, desta inteligência invisível.

Assim parece ser com outras de suas atribuições – como nosso poder de ler, escrever ou decifrar – pintar ou fazer música – pertencente a nós como parte de nossa natureza e capaz de ser avaliada pela cultura.

Descobri isso em meu próprio caso. Os primeiros sinais de mediunidade em mim vieram quando eu estava sozinho em minha biblioteca e na forma de uma impressão em minha mente. Pode ser chamada de imaginação, pois é como o processo de construir castelos no ar e, ainda assim, era diferente. Era apresentada a minha consciência uma cena continua, com uma lição contada sobre a totalidade dos incidentes. O processo era novo para mim, e eu observei com grande interesse. Descobri que eu nada tinha a ver com aquilo, além de ser um passivo receptor de uma composição de pensamentos, dada a mim por uma fonte fora ou além do meu ser – isto é, os pensamentos não se originaram de minha inteligência.

Meu próximo passo foi observar uma cena, apresentada à minha visão como um panorama móvel e não meramente como uma impressão mental. Pareceu-me ver, embora eu sabia que não via com meus órgãos normais de visão. E foi incrível que a inteligência que lidava comigo apresentasse o quadro mais ou menos rápido, como se soubesse que eu havia pegado os detalhes e, após ter terminado, repentina e deliberadamente, apresentou-me uma segunda vez, ainda mais rápido, evidentemente para me impressionar a fim de que eu pudesse narrá-lo.

A seguir, foi ver um espírito, que fora meu velho amigo, morto há seis ou sete anos. Eu estava no meu escritório trabalhando, não pensando nele e de repente eu o vi sentado bem em minha frente, perto o suficiente para que o tocasse. Percebi que podia trocar pensamentos com ele, pois, em resposta a minha pergunta, ele disse-me o motivo de ter vindo.Depois, observei cenas espirituais, as quais, foi-me dito, eram as verdadeiras e vivas realidades do mundo espiritual, cenas nas quais indivíduos e grupos moviam-se, agiam, pensavam, como fariam nesta vida e deram-me uma vívida noção da vida no próximo estágio de existência.

Durante todos esses passos de progresso, eu pude conversar com espíritos que vi tão facilmente como pudesse falar com qualquer mortal vivente e mantive debates e discussões com eles como tenho com os mortais.

Minha filha, que longamente resistiu à crença, um dia requereu testemunhar uma manifestação, e eu procurei uma entrevista com sua mãe, a fim de realizá-la vantajosamente. O espírito veio a mim, e comuniquei-me com ela por meia hora. Relacionamos-nos como em vida, debatendo várias idéias e encetando um plano.

É difícil dizer que fora minha imaginação pois o plano então criado foi, após um lapso de algumas semanas, levado a cabo sem minha intervenção. Uma moça, estranha a mãe e filha, apareceu em minha casa vinda de uma cidade distante, e, através dela, enquanto em transe e inconsciente, terminou com minha filha uma injunção de partilha de sua mãe, cuja morte havia interrompido há dois anos.

Nem irá se dizer que fora um mero reflexo da mente dos vivos, pois minha filha somente sabia da partilha que tinha sido dada e nada sabia a conclusão até ela ouvi-la.

Assim minha mediunidade progrediu, de uma ensombrada impressão para uma alegoria, para ver espíritos, conversar com eles e receber pensamentos deles com clareza e distinção. Por que isso não pode ser igualmente verdadeiro para cada um?

4A mediunidade possui uma infinita variedade de fases – a mesma que é testemunhada em ações e caracteres humanos e absolutamente se opõe à idéia de conluio.

5Aparece conforme lhe apetece, e não a nosso bel-prazer. Ao observar as devidas condições, podemos auxiliar no processo. Então, podemos nos cercar de circunstâncias que retardam ou evitam sua vinda, porém não podemos fazer vir quando quisermos. Não há maior anomalia conectada ao assunto do que a extensão e a forma de nosso controle sobre ele, e nenhuma parte dele onde melhorias pelo estudo pode ser maior. Esse controle parece pertencer ao homem como parte de sua cultura, e pode ser assim adquirida, assim como evitar qualquer poder de causar dano.

6Onde quer que apareça, em qualquer parte do mundo, possui as mesmas características. Assim, entre os escravos do Sul, aprendi que vem da mesma forma que entre os libertos do Norte (2). Foi-me dito por um missionário em San Domingo que também aparecia entre os negros sem instrução de lá. Um cavalheiro francês, que esteve na Argélia, descreveu para mim a mesma coisa entre os árabes. Dois espanhóis, que nunca tinham ouvido falar do fenômeno, descobriram-no obscuro em Cádiz, com as mesmas características. Um cavalheiro inglês veio até minha casa, sem curiosidade, e, ouvindo a descrição, exclamou que era a mesma coisa que havia ocorrido na fazenda de seu pai, anos atrás, mas não sabia do que se tratava.

Essa concordância nas características em toda parte, é um argumento formidável contra a teoria de colusão e ilusão.

7Embora tenho dito que depende principalmente da organização física, não deve ser entendido que as causas mentais ou morais não a afetam. Não conheço um tipo de mediunidade que seja inteiramente livre de efeitos da mente humana, e conheço muitos casos onde, com o poder sendo abusado, foi interrompido. A mais comum causa de interrupção é a perversão para motivos egoístas. Um médico que conheci se tornou avaro e ganancioso a despeito dos avisos. Seu poder foi suspenso até que se reformasse. Uma jovem, tomada das ruas como uma trapeira, com grandes poderes, era usada por uma velha mulher para lhe dar dinheiro. Não apenas a criança foi tirada dela, como também o poder da criança. Quando é necessário para minha filha descansar de seus labores, o poder é temporariamente suspenso.

Porém, não é sempre que parará ao nosso querer. Quando o desejo de parar é puramente egoísta, eles muitas vezes não darão atenção. Conheço um caso, onde uma mulher, temendo que seu trabalho fosse prejudicado, recusou-se a ser usada. Ela foi seguida pelas manifestações até se render, e então tudo ficou bem. Minha filha e sobrinha resistiram longamente à crença, e por um ano inteiro minha casa foi assombrada por barulhos e outras performances, até que se renderam e então tudo parou. Se elas esquecerem de rezar ao ir para a cama, começam os distúrbios até que elas as façam, aí tudo fica quieto.

Posso enumerar muitos exemplos do tipo, mas devo me contentar em dizer que, como resultado de minhas experiências, onde o poder é cedido com bom senso e puros motivos, raramente machuca, mas geralmente produz o bem, contudo, quando pervertido a motivos egoístas, será, cedo ou tarde, interrompido ou dado punição, ou ambos.

8A mediunidade frequentemente muda na mesma pessoa em sua forma de manifestação e não é uma opção do aparelho. Conheço uma que, primeiramente, era médium de batidas, e depois ela escreveu mecanicamente pensamentos que não eram dela e falou em muitas línguas, cantou e tocou músicas desconhecidas, incorporou falecidos, viu espíritos, falou com eles, virou clarividente, vendo objetos distantes, profetizou e comungou livremente com os mortos, entregando suas mensagens de afeição e instrução aos amigos sobreviventes.

9Eu observei que má saúde nem sempre evita, ainda que um bom estado de saúde seja mais favorável às manifestações, e a saúde nunca é maltratada quando o poder é discretamente usado. Abuso, como outras coisas, será injuriante.

10E, finalmente, pois o espaço me compele a parar, eu observei que, em cada forma de mediunidade assumida, sempre um objetivo maior está em vista – continuamente visando o todo – e que é abrir canal de comunicação entre os mortais e o mundo invisível; e, para tal fim, a inteligência se mostra e força-se sobre a mente racional essa muito importante pergunta: DE ONDE VEM ESSA INTELIGÊNCIA? 

J. W. Edmonds
New York, 2 de abril de 1859


NOTAS:

(1) – N. do T.: Clássico do magnetismo alemão escrito pelo Dr. Justinus Kerner.
(2) – N. do T.: esse artigo foi escrito em 1859, dois anos antes da Guerra de Secessão, que foi de 1861 a 1865, então ainda vigorava a escravidão nos Estados do Sul.

N. do Editor:

O artigo, nas palavras do Juiz John Worth Edmonds, vem a confirmar categoricamente com o que Allan Kardec, publicara dois anos antes no Livro dos Espíritos, em outro continente, sem que J. W. Edmonds o conhecesse. Embora um pouco fora da linguagem e da metodologia utilizada pelo Professor Lionês, o ilustre Juiz J. W. Edmonds, residente na América do Norte, havia alcançado através de suas próprias investigações e méritos, exatamente a mesma constatação das etapas do desenvolvimento mediúnico que havia sido registrado após longos estudos no continente Europeu, pelo Professor Rivail. Este artigo mostra como é importante a aplicação da Metodologia do Controle Universal de Ensino dos Espíritos, e como as Revelações são dadas em diversos pontos do globo por diversos médiuns, e dadas as suas limitações de observação, não contradizem-se no fundo, e muito pouco nas formas.

Alguns pontos observados neste artigo são esclarecidos através da leitura de O Livro dos Espíritos e do Livro dos Médiuns, como por exemplo, a necessidade da oração antes do repouso para que cessassem as manifestações físicas na presença de sua filha, como descrito em partes no artigo, o fato tratava-se mais de uma peculiaridade de um espírito familiar, do que uma regra geral para todos os casos.

Estejamos atentos para a constatação de que a mediunidade está estreitamente relacionada à condições ainda desconhecidas no organismo físico do médium, independente da situação moral em que ele se encontre.

Por favor, avalie este artigo.

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