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28/05/2017

O mito das traduções do Herculano João Donha


Lá pelos anos 70, quando se desenrolava aquele entrevero entre o Herculano Pires e a FEESP – Federação Espírita do Estado de São Paulo (mais o Paulo Alves Godoy,) por conta da esdrúxula tradução do O Evangelho Segundo o Espiritismo, um amigo meu, por sinal sujeito humilde e trabalhador acostumado a concretizar em ações o tão decantado amor ao próximo, disse-me que o Herculano plagiava as traduções do Guillon Ribeiro, alterando algumas palavrinhas aqui e ali para disfarçar.

Fiquei escandalizado e atribui o dito ao seu exagerado e ingênuo federativismo. Afinal, como todos os espíritas progressistas, eu admirava e admiro o Herculano como o nosso filósofo maior. Essa admiração, todos nós projetamos em suas traduções: são as melhores, as mais fiéis, as únicas confiáveis… Isto tudo, somando-se à rejeição intelectual à FEB e suas traduções, ultimamente acusadas de tudo o que consideram ruim no movimento espirita: religiosismo, pieguismo, roustainguismo, etc., criam uma certa auréola mitológica em torno das traduções do Herculano.
Mas, é impossível plagiar uma tradução sem deixar pistas.

Dias atrás, um jovem navegador do orkut, querendo talvez exercitar sua auto-imputada ortodoxia, questionou a utilização do termo oxalá na “codificação”. Tratava-se de uma intervenção do espírito São Luis, na comunicação da rainha de Oude, no Capítulo VII, Segunda Parte, do livroO Céu e O Inferno, assim traduzida pelo Guillon:

S. Luís. — Deixai-a, a pobre perturbada. Tende compaixão
da sua cegueira e oxalá vos sirva de exemplo. Não
sabeis quanto padece o seu orgulho.

(site da FEB)

Fui conferir no original francês:

Saint Louis. Laissez-la, la pauvre égarée ; ayez pitié de son
aveuglement ; qu’elle vous serve d’exemple, vous ne savez pas combien
souffre son orgueil.”

Uái, cadê o oxalá?

Vamos ver como o Herculano, o mais fiel, traduziu. Encontrei uma reprodução de sua tradução:

S.Luís — Deixai-a, a pobre perturbada. Tende compaixão da sua cegueira e oxalá vos sirva ela de exemplo. Não sabeis quanto padece o seu orgulho.

Viram? A opção literária que Guillon fez, acrescentando oxalá (poderia ser tomara), coincidentemente também ocorreu ao Herculano.

E mais. A palavra egarée poderia ser traduzida por extraviada, perdida, doida, alucinada, enlouquecida. No entanto, a opção de Guillon por perturbada ocorreu a ambos, de novo numa tremenda coincidência.

Coincidência que também ocorreu na escolha de padecer por souffre; assim como, na transformação do que era uma frase só (“que ela vos sirva de exemplo, não sabeis quanto sofre seu orgulho”), em dois períodos.

Continuo admirando a acuidade intelectual e o tino filosófico do Herculano. Mas, quanto às traduções, sem aderir àquela aceitação quase unânime que se observa.

Para quem se interessar, eis a ficha do fac-símile original francês que encontrei:

Título: Le ciel et l’enfer ou La justice divine selon le spiritisme : contenant l’examen comparé des doctrines sur le passage de la vie corporelle et la vie spirituelle, les peines et les récompenses futures / Allan Kardec
Autor : Allan Kardec (1804-1869)
Editor : P. Leymarie (Paris)
Data de publicação : 1913
Língua : Françês
Formato : application/pdf
Direitos : domaine public
Senha : {LINK}
Fonte : Bibliothèque nationale de France, département Philosophie, histoire, sciences de l’homme, 8-R-29855
Relação : {LINK}
Procedência : bnf.fr

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3 Responses “O mito das traduções do Herculano João Donha

  1. Marcel Ignacius
    08/08/2016 at 18:32

    Olá! Bom. Este artigo foi muito esclarecedor para nos fazer refletir, porém, não se pode crer (seria um atentado ao bom senso) que tais POSSÍVEIS plágios seriam de origem maléfica, pois isso não corresponderia a caráter e importância doutrinária de Herculano Pires. Observando melhor toda esta questão, podemos chegar a conclusão que Herculano julgou útil a utilização de tais trechos (dentre vários outros que imagino que existem) para expressar devidamente o que era passado, mesmo que para isso tivesse usado como base as traduções de outro autor. Enfim, essa é minha opinião e sei que o autor do texto não desmereceu o Sr. Pires e muito menos o ofendeu, afinal, isso é um detalhe num mar de benefícios e reflexões que o nosso querido José Herculano Pires nos proporcionou em vida. Espero uma opinião do jornal acerca deste artigo.

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    • 09/08/2016 at 14:18

      Olá Marcel. As traduções de Herculano são as melhores de fato, pois um quadro comparativo poderá ser feito e pela precisão de linguagem estreitamente em sintonia com a kardequiana, evidenciará o zêlo que JHP teve pela empreitada. Os termos e palavras não possuem um dono, e são escolhidas de acordo com a corrente da uma época, hoje a exemplo, termos utilizados por JHP para exprimir expressões do francês meio arcaico de Rivail, podem causar estranheza em quem possui (infelizmente) como a maioria, uma linguagem tacanha e “moderninha”, escoimada pela preguiça intelectual, e o abuso das gírias e termos dúbios. No entanto, a linguagem sofre uma revolução tanto quanto as demais ciências, para se aperfeiçoar e se compatibilizar, e eis que temos uma nova e excelente tradução de O Livro dos Espíritos feita por Renata Barbosa da Silva e. Simone T. Nakamura Bele da Silva, há aproximadamente uma década, que sem distorcer o pensamento de Rivail, atualiza as expressões, e seguramente posso afirmar que ela é tão leal e clara quanto a de JHP, talvez até melhor.
      Obrigado, até.

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  2. 13/08/2016 at 14:58

    Falo na qualidade de um português de Portugal, muito interessado na cultura espírita de uma perspetiva independente e grande admirador da nossa língua, por ser uma extraordinária ferramenta de comunicação para quase trezentos milhões de pessoas.
    As minhas sinceras homenagens à magnífica literatura brasileira, que gostaria de conhecer muito melhor mas, quem sabe, talvez na minha próxima encarnação…
    Sem desprimor para os valiosíssimos escritores e estudiosos espíritas brasileiros, tenho a dizer que as primeiras vezes que li “O Livro dos Espíritos” em traduções brasileiras, senti um enorme desconforto intelectual, que não conseguiria resumir facilmente num breve comentário.
    Há muito que pensei que deveria fazer uma tradução direta do francês de obras de Allan Kardec, para português de Portugal dos nossos dias.
    Essa grande empresa já foi iniciada com a tradução de “O Livro dos Espíritos” e prometo dar notícias em breve a respeito dos resultados já alcançados. Estou a conversar com amigos espíritas interessados em concretizar esse desiderato, havendo que congregar boas vontades.
    Como se sabe, publicar livros não é tarefa fácil (não basta imprimi-los…). O nosso país tem uma população muito reduzida, os espíritas constituem uma minoria sub-estatística, a situação económica não é brilhante e, mesmo pensando nos interessados espíritas, os centros estão saturados de livros magrinhos de feitura “mediunística” e muito “fáceis de ler”, mas que não desempenham papel nenhum no sentido que nos interessa.
    Realizámos, pois, uma tradução especialmente destinada a pessoas não espíritas, habituadas à língua como ela é na atualidade, procurando poupar-lhes o sentimento de desconforto já acima referido na abordagem inicial das obras de Allan Kardec.
    Se um primeiro passo resultar bem, o propósito é continuar…
    Gostaríamos de alargar o leque dos interessados na doutrina espírita, mediante um texto não desprovido de fibra e sentimento, mas claro e transparente, que não obrigue o leitor à busca elaborada ou à conjetura.
    A nossa tarefa já leva mais de um ano (incluindo as conversações…) a qual se revelou muitíssimo proveitosa para mim e para minha mulher – atenta, ativa e indispensável colaboradora desse projeto e que, muito felizmente para mim, também pertenceu às gerações que tiveram em Portugal o francês como segunda língua.

    Quanto a este artigo do professor João Donha, cujo trabalho intelectual venho observando com todo o interesse, estou de acordo com a abertura urgente de uma visão crítica da tradução das obras de Kardec para português legítimo e atual, seja na sua vertente portuguesa ou brasileira.
    Tenho o ponto de vista de que o tradutor também é autor, e muito importante papel pode desempenhar.
    A adoção de uma linguagem pessimista, arcaica, sombria, estremada e retórica, pode transformar uma cultura emancipadora, moderna e universalista, em qualquer outra coisa menos empolgante.
    E também há que fazer uma inevitável e urgente contextualização cultural de coisas inevitavelmente obsoletas pela vertiginosa passagem de século e meio…
    Parabéns ao professor João Donha, pelo exemplo estimulante e pelo sentido de pesquisa, numa área onde a espessura do silêncio é ferramenta da indesejável cristalização que, em muitos sectores, já se tornou sacralizante.
    Não vamos querer competir com ele, evidentemente. Porém, com o demorado trabalho de análise lexical, com a desmontagem da teia de ideomatismos de meados de novecentos, com os particularismos retóricos da especiosa língua francesa e com outras coisitas pequenas, já enchemos um caderno de apontamentos que daria para fazer um blogue bem grande…
    Por outro lado, nas versões de traduções feitas por aproximação, há vestígios que não dão para enganar ninguém!… É quando o tradutor, não contente com trabalhar “sobre” os textos traduzidos por outros, também repete modismos, cromatismos e… até uns erritos por aqui e por ali!…
    Quem não acreditar, coloque mãos à obra. Comece já a analisar os textos originais!… Esse passo é fundamental.
    Se não conseguir comprovar ou refutar aquilo que sugiro, pelo menos já começou a dar frutos o breve começo desta troca de impressões…
    O bravíssimo e muito estimado professor Hipólito Leão bem merece que se coloque a sua preciosa obra no centro das atenções da cultura de que foi tão fundamental iniciador.
    E há que declarar todo o seu vasto legado como obra ABERTA, isto é – como OBRA VIVA!…
    José da Costa Brites
    Lousã/Coimbra/Portugal

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