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27/06/2017

O Exercício do Livre-Pensamento no Espiritismo Herivelto Carvalho


O livre-pensamento é uma perspectiva de análise dos sistemas de ideias que consiste em aplicar critérios racionais e críticos sobre seus princípios, rejeitando posicionamentos dogmáticos ou sustentados simplesmente pelo argumento de autoridade. Esta é, portanto, a característica fundamental dos sistemas abertos, que não advogam para si o domínio de verdades absolutas.

O que caracteriza um sistema de ideias como aberto ou fechado é a forma como este reage aos dados empíricos que se relacionam aos seus princípios, bem como a sua contestação externa. Os sistemas que limitam o intercâmbio com o mundo exterior, que tomam seus princípios como irrefutáveis através de um processo que seleciona apenas os dados que confirmem suas proposições, são considerados fechados. Por outro lado os sistemas abertos trabalham com a possibilidade da modificação quando esta se mostra necessária diante dos fatos, interagindo com os dados que a contradizem.

O Espiritismo foi concebido, originalmente, como um sistema de ideias aberto, pois Kardec aventou essa possibilidade doutrinária de transformação, diante da contraposição de fatos ou evidências, ao declarar que:

Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará (A Gênese, cap. I, item 55)

Na edição de janeiro de 1867, da Revista Espírita, Kardec ainda esclareceu que essa natureza contingente do conhecimento espírita deve ser garantida pelo exercício do livre-pensar de seus adeptos:

“Toda crença eclética pertence ao livre pensamento; todo homem que não se guia na fé cega é, por isto mesmo, livre-pensador; a esse título, os Espíritas são também livres-pensadores”.

O exercício do livre-pensar no Espiritismo foi também de forma semelhante destacada por Gabriel Delanne:

“Se lhes demonstrarem amanhã que estão em erro, abandonarão imediatamente sua maneira atual de ver, para se colocarem ao lado da verdade, porque o seu método é, antes de tudo, o racionalismo. (…) Não temos dogmas nem pontos de doutrina inabaláveis; fora das comunicações dos mortos e da reencarnação, que estão absolutamente demonstradas, admitimos todas as teorias que se ligam à origem da alma e ao seu futuro. Em uma palavra, somos positivistas espirituais, o que nos dá incontestável superioridade sobre as outras filosofias, cujos adeptos estão encerrados em estreitos limites.” (O Espiritismo perante a Ciência).

Na edição de fevereiro de 1867, da Revista Espírita, Kardec defende um conceito amplo de livre-pensamento, diferente do que alguns grupos sustentavam como sendo uma anarquia de ideias, ou uma rejeição total de um determinado sistema. A proposta kardequiana é a de uma postura racional que deve ser utilizada no âmbito de um sistema constituído:

“Em sua concepção mais larga, o livre pensamento significa: livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada. Simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física. Não quer mais escravos do pensamento, quanto não os quer do corpo, porque o que caracteriza o livre pensador é que pensa por si mesmo e não pelos outros; em outros termos, sua opinião lhe é própria. Assim, pode haver livres pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre pensamento eleva a dignidade do homem fazendo dele um ser ativo, inteligente, em vez de uma “máquina de crer””.

No parágrafo seguinte ao supracitado, o ilustre mestre lionês critica a postura dos que concebem o livre-pensamento de forma restrita, num reducionismo que o coloca como quase um sinônimo de ceticismo ou de materialismo:

“No sentido exclusivo que alguns dão ao livre pensamento, em lugar de emancipar o espírito, ele restringe a sua atividade, faz dele escravo da matéria, os fanáticos da incredulidade fazem, num sentido, o que os fanáticos da fé cega fazem num outro”.

A relação entre o Espiritismo e o livre-pensamento foi explorada, com muita profusão, pelos espíritas espanhóis no final do séc. XIX. Esse movimento desenvolveu grande unidade e atuação na sociedade espanhola, tendo cultivadas, de maneira significativa, as dimensões filosófica e científica do Espiritismo, sendo uma de suas bandeiras o incremento de sua natureza livre-pensadora.

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Amália Domingo Soler e Antônio Torres-Solanot foram pensadores espíritas que muito contribuíram para a ampliação do conceito de livre-pensamento no Espiritismo

Expoentes espíritas da Espanha como Amália Domingo Soler e Antônio Torres Solanot defendiam uma concepção de Espiritismo cuja proposta filosófica se apresentava como a superação das religiões positivas. Esta forma moderna de espiritualismo rechaçava os elementos de dogmatismo existente nas religiões do passado e pretendia desenvolver uma nova espiritualidade racional, capaz de se relacionar com a filosofia e a ciência. Essa relação, portanto, somente seria possível com o exercício do livre-pensar sobre os princípios doutrinários.

O papel do divulgador do Espiritismo, em sua postura livre-pensadora, segundo Amália Domingo Soler, deveria ter uma relação de honestidade intelectual e compromisso com os princípios espíritas:

“O livre-pensador espírita que escreve em público, tem a obrigação de fazê-lo com a viseira alçada e a consciência na pluma, à clara luz do dia e perante a face de quem quer que seja” (Sus más hermosos escritos).

Nas últimas décadas do séc. XIX, emergiu na Espanha um forte movimento político-ideológico que defendia uma maior presença do livre-pensamento e da secularização na sociedade daquele país. Esse movimento acolheu em sua base pessoas que militavam em diversas correntes de pensamento, contando com forte presença dos espíritas, que por considerarem sua doutrina como amplamente ligada a razão, ao bom senso e ao livre exame dos fatos, percebiam grande afinidade entre as propostas sociais de ambos.

Uma das vozes do movimento livre-pensador era o semanário Las Dominicales del Libre pensamiento. Artigos abordando as características livre-pensadoras espíritas eram, vez ou outra, publicadas neste periódico, como por exemplo Espiritismo e Libre Pensamiento, publicado na edição de 23 de fevereiro de 1889, de autoria de Torres-Solanot. Este artigo teve grande repercussão entre os espíritas espanhóis ao reafirmar o Espiritismo como uma filosofia aberta e livre-pensadora.

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Las Dominicales del Librepensamiento. Edição de 23/02/1889, página 01.

Durante o Congresso Internacional Espírita de Barcelona, em 1888, o escritor espírita Manuel Navarro Murillo, em um contundente discurso, destacou a característica do Espiritismo como uma forma de espiritualidade livre-pensadora:

“A religião laica*, não-sacerdotal, ou anticlerical e anti-sectária, baseia-se em todas as leis morais, e principalmente para o atual período histórico, nas leis do livre-pensamento e da igualdade.”

Na atualidade, a confusão sobre a acepção correta de livre-pensamento permanece em alguns setores do movimento espírita, pois alguns autores seguem alegando não ser possível, nos dias de hoje, que um espírita seja um livre-pensador. Essa atitude consiste em classificar o livre-pensamento como uma prática que visa aplicar o ceticismo e a dúvida sobre os princípios básicos do Espiritismo, ou então, como a postura individual de se negar a adesão a qualquer sistema de ideias. Esse equívoco consiste em entender o livre-pensamento numa acepção reducionista, tal como faziam os “radicais do livre-pensamento”, criticados por Kardec na Revista Espírita. A real acepção de livre-pensamento não é nem uma coisa nem outra, como se pode observar na definição do filósofo Bertrand Russell:

“O que faz um livre pensador não são suas crenças, mas a maneira pela qual ele as mantém. Se ele as mantém porque os mais velhos lhe disseram que era verdade quando jovem, ou se ele as mantém porque, caso contrário, estaria infeliz, seu pensamento não é livre, mas se ele as mantém porque, após uma cuidadosa reflexão, ele encontra um equilíbrio de evidências em seu favor, então o seu pensamento é livre, por mais estranha que suas conclusões possas parecer.” (O Valor do Livre-Pensamento).

De maneira semelhante ao conceito de Russell, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1927, Ferdinand Buisson, apresentou, em 1904, sua definição de livre-pensamento na declaração de princípios da Associação Nacional dos Livre-pensadores da França, num congresso em Roma:

“O Livre-pensamento não é uma doutrina, mas um método; não depende do que se afirma ou do que se nega, mas unicamente do modo como se afirma ou se nega. O Livre-pensamento não impõe nem exclui nenhuma opinião, nenhum sistema; exige que cada um tome empenho em formar as suas convicções, após exame pessoal, a partir da sua consciência e da sua razão.”

O livre-pensamento, portanto, não precisa ser a rejeição pela adesão a um sistema de ideias, mas sim, pode ser aplicado dentro de um sistema aderido pelo livre-pensador, ou seja não se trata de uma total independência de se adotar uma referência ideológica. Como bem esclareceu Russell, o livre-pensar consiste na forma como um indivíduo analisa suas crenças e as mantém. É entender que o sistema de ideias ao qual se vincula não consiste numa expressão da verdade absoluta e que este forma um conhecimento contingente, não definitivo, mas em constante aperfeiçoamento. Em sua essência, é a rejeição de qualquer postura dogmática sobre suas próprias crenças.

A mesma concepção de livre-pensamento foi defendida por Soler:

“O livre-pensador legítimo, verdadeiro, não é aquele que sepulta em sua alma suas convicções e sua fé, é aquele outro que as divulga e publica para que a crítica as contraste e circulem no civilizador comércio das ideias.” (Sus más hermosos escritos).

A prática de um livre-pensar espírita seria a condição essencial para que o aspecto progressivo do Espiritismo seja mantido, pois sua execução depende de critérios racionais que evitem o imobilismo. Esse princípio Kardec o declara como fator de sobrevivência doutrinária ante as transformações sociais e culturais ao longo da história:

“O princípio progressivo, que ela inscreve no seu código, será a salvaguarda da sua perenidade e a sua unidade se manterá, exatamente porque ela não assenta no princípio da imobilidade” (Obras Póstumas, II Dos Cismas, cap. XXXVII).

O temor de alguns espíritas de que o livre-pensamento poderia levar à degeneração doutrinária, promovendo a perda de unidade dos princípios ou inserindo teorias estranhas e incoerentes com os fundamentos do Espiritismo, só tem alguma razão de ser se esta prática for realizada sem critérios fortes. O filósofo francês Edgar Morin esclarece que critérios de resistência devem ser utilizados mesmo em sistemas contingentes para evitar o desgaste de seus elementos e sua total ruína.

O primeiro critério que se deve aplicar no livre-pensar espírita é que, havendo necessidade de revisão ou acréscimo de novas teorias ou princípios, este processo deverá ser coerente com os princípios fundamentais, que não podem ser alterados, sob pena de total descaracterização. Sobre os fundamentos doutrinários é possível ampliar o entendimento sobre os mesmos, mas não alterá-los, cabendo a revisão aos princípios secundários. De acordo com Morin, sistemas abertos se caracterizam pela flexibilidade interna e pela capacidade de adaptação e modificação de suas variáveis mas nunca de seus parâmetros, evitando a perda de sua própria identidade. O segundo critério estabelece que os novos elementos, candidatos a integrar o corpo doutrinário, devem ser coerentes com o conhecimento estabelecido, mantendo cautela na análise de novas teorias, evitando a associação com conceitos pseudocientíficos, objetos de controvérsia, ou seja, não serem, no dizer de Kardec “princípios que possam ser considerados quiméricos e que seriam rejeitados pelos homens positivos” (Obras Póstumas, II Dos Cismas, cap. XXXVII). Esta cautela racional e sistemática deverá ser amparada principalmente na força dos fatos positivos:

“Toda teoria em contradição manifesta com o bom senso, com uma lógica rigorosa, com os dados positivos que possuímos, por mais respeitável que seja o nome que o assine, deve ser rejeitada.”

Um terceiro critério seria específico para analisar novidades oriundas do exterior doutrinário, que para serem assimilados pelo Espiritismo, não poderiam mais ser consideradas utopias, mas sim, ter chegado ao status de teoria consolidada, conforme é destacado em A Gênese:

“O Espiritismo, pois, não estabelece como princípio absoluto senão o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. […] assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria”.

Este mesmo critério foi ressaltado por Herculano Pires:

“Todos os princípios da doutrina estão sujeitos à crítica e à reformulação, desde que uma prova científica, prova comprovada, seja reconhecida como tal pelo consenso universal dos sábios.” (A Evolução Espiritual do Homem).

Até mesmo no conhecimento científico o exercício do livre-pensamento é realizado com critérios. De acordo com Morin, a aceitação de novos elementos é um processo bastante rígido, mesmo em sistemas abertos como a ciência, pois somente é realizada quando as variáveis de uma teoria científica são contraditadas pelos dados empíricos e necessitam de revisão. Assim, sob a tutela de seus parâmetros fundamentais e organizadores, a teoria sobrevive produzindo novas variáveis melhor adaptadas que as precedentes. Neste caso, o emprego do livre-pensamento permite a teoria responder às críticas e contradições que lhes são objetadas, seja através da refutação ou da integração de modificações, de maneira que se aperfeiçoa. Um sistema dogmática, ao contrário, se fecharia e a este diálogo correndo o risco de tornar obsoleto.

Da mesma forma que o livre-pensamento, corretamente empregado, garante o processo de aperfeiçoamento das teorias científicas, ele torna possível o desenvolvimento do caráter progressivo do Espiritismo, responsável pela sua perpetuidade frente aos desafios do mundo moderno. Deolindo Amorim, grande pensador espírita, exemplificou, em 1984, como os espíritas poderiam aplicar a postura livre-pensadora no desenvolvimento deste caráter:

“Estará a Doutrina Espírita com suficiente aparelhamento conceituai para uma análise da conjuntura histórica e social do mundo? Terá ela, ainda hoje, elementos de elucidação para um diálogo sério com a crítica moderna? Estarão os seus princípios superados com as novas descobertas científicas? (…)
Terão ainda as proposições básicas do Espiritismo a necessária solidez para resistir às transformações por que passa o mundo, atualmente?
Terão apenas valor histórico? É uma questão muito séria, mas inevitável, porque a realidade social nos afronta de vários modos, como se estivéssemos fazendo um teste de tudo quanto aprendemos até agora ou de tudo aquilo em que acreditamos. Precisamos saber, mas saber criteriosamente, se as nossas convicções ainda estão intactas e se podem ou não enfrentar os desafios do mundo exterior. É o ponto de partida para uma tomada de posição.” (O Espiritismo e os Problemas Humanos).

A redescoberta do exercício do livre-pensamento no Espiritismo desvenda um processo que é natural no âmbito doutrinário, pensado desde sua sistematização. Sua aplicação na doutrina estará, além de abonando o prosseguimento do projeto aberto e progressista de Allan Kardec, evitando que o Espiritismo fique à margem do desenvolvimento cultural da sociedade sem conseguir cumprir seu papel de auxiliar na renovação social.

Nota:

*Religião laica foi um epíteto muito usado pelos espíritas espanhóis, no séc. XIX, para qualificar o Espiritismo. O termo foi cunhado pelo espírita francês Charles Fauvety e se tornou popular entre os espíritas da Espanha por influência de Torres-Solanot.


Por Herivelto Carvalho

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