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19/08/2017

O complexo de vira-lata espírita e a polêmica útil Lucas Berlanza Corrêa


Desde que a Internet e as mídias sociais estabeleceram a grande transformação que produziram no encurtamento das distâncias e na proliferação das informações e das opiniões, uma mesma receita se tem repetido. Volta e meia, um adepto de alguma religião tradicional, notadamente o Catolicismo ou o Protestantismo, faz uso de seu espaço e sua liberdade na Internet para tecer críticas ao Espiritismo. Diz que somos vítimas incautas de Satã, que estamos navegando no engano ou, ainda, que não somos cristãos.

Algumas das impropriedades argumentativas desse tipo de crítico de Facebook – sem nenhum demérito a críticos de Facebook, que este que ora escreve também, de certo modo, por vezes é um – já foram examinadas por diversos autores espíritas, com maior ou menor profundidade. Não é este o meu ponto aqui. O que realmente me angustia são as reações afobadas de alguns navegantes espíritas que, velejando pelos mares da Internet pelas bordas dos perfis desses religiosos, resolvem se manifestar para rebater seus argumentos. Vê-se então um desfilar de mares de Caps Lock “SOMOS CRISTÃOS SIM”, “VÁ ESTUDAR”, “VOCÊ NÃO SABE DE NADA”. Ou indicações de leitura que passam bem longe de Allan Kardec: “Por que perder tempo nos atacando? Seja menos fundamentalista, leia Zibia Gasparetto e aprenda o que é Espiritismo”.

O escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, ao descrever o brasileiro, falava de nosso “complexo de vira-latas”, que nos levaria a espezinhar todas as características e elementos da nossa nacionalidade, julgados inferiores aos das demais. O mesmo complexo, contudo, nos levaria a eventualmente agir com fanfarronice perante a mais sutil crítica, o mais leve ataque, que nos feriria o ego. Complexado, o brasileiro reagiria à crítica de maneira estouvada, sem pensar.

Não é, naturalmente, a identidade nacional que pretendo apontar aqui; mas fenômeno similar parece ocorrer com os espíritas brasileiros, em sua maneira de se relacionarem com a própria doutrina. Revelando pouca penetração no conteúdo das obras fundamentais e apegados a certos lugares-comuns superficiais ou frases feitas – “cadê seu amor e caridade”, “não critique o que não conhece”, ou até “você está obsidiado” -, reagem aos referidos comentários de quem professa outras correntes de pensar com uma presunção que só pode passar por infantil.

Muitos desses adeptos de outras religiões contestam os poucos frutos ainda produzidos pelo Espiritismo como movimento social, o que se dá, temos convicção disso, pela complexidade da materialização de sua proposta sintética de conhecimento – mascarada pela sua linguagem didática –, pela sua juventude – um movimento que nasce em 1857 não pode receber a mesma cobrança que outros que já contam mais de um ou dois milênios – e pelos ERROS HISTÓRICOS DOS ESPÍRITAS. Todos esses fatos são realidades que precisamos combater com mergulho sério e dedicado nas páginas kardecianas, e não com demonstrações lamentáveis de fanfarronice. Essa pequenez social, que em nada reflete a grandeza de nossa doutrina, parece ser sentida no âmago pelos adeptos empolgados, a ponto de darem vazão a esse tipo de reação precipitada às investidas dos polemistas de outros credos.

A despeito de não ter conhecido a Internet, ainda aqui Allan Kardec é nossa bússola. O notável texto da Revista Espírita de 1858, “Polêmica espírita”, deve aí servir de freio aos precipitados. “Perguntaram-nos muitas vezes por que não respondíamos, em nossa revista, aos ataques de certas folhas contra o Espiritismo em geral, contra os seus partidários e por vezes mesmo contra nós. Cremos que em certos casos é o silêncio a melhor resposta.” E ainda: “Jamais daremos satisfação aos amantes de escândalos”. Se a única intenção e o único aprofundamento que se pode obter com a diatribe é censurar a moral ou as qualidades daquele que nos ataca e ataca a nossa doutrina; se a crítica é demonstrativa de falta de aprofundamento no assunto, emitida por ignorância e leviandade; e/ou se, além do mais, o próprio espírita não tem embasamento doutrinário ou filosófico para refutar o veneno do “post” que o tirou do sério, melhor seria que se contivesse.

Qual é a polêmica que devemos aceitar travar, então, se há alguma? Quando devemos reagir aos que criticam o Espiritismo? Quando nos for possível fazer “a discussão séria dos princípios que professamos. Contudo, aqui também deve ser feita uma distinção. Se se trata apenas de ataques gerais, dirigidos contra a doutrina, sem um fim determinado, além do de criticar, e se partem de pessoas que rejeitam sistematicamente tudo quanto não compreendem, não merecem a nossa atenção.” Mais para o final do artigo, Kardec comenta que essa polêmica será útil por “ocorrer entre gente séria, que se respeita o bastante para não perder o decoro. Podemos pensar de modo diverso sem diminuirmos a estima recíproca”. Essa polêmica o próprio Kardec diz sustentar “diariamente” na Revista, “através das respostas ou das refutações coletivas que publicamos a propósito deste ou daquele artigo”. Perguntas e objeções podem constituir “outros tantos assuntos de estudo, de que nos aproveitamos pessoalmente”.

Não é, portanto, que os espíritas nos devamos calar quando as mais violentas imprecações são feitas à doutrina que tanto nos consola e esclarece. É que precisamos saber como e quando responder. Frases berradas em linguagem virtual, exigências de que o “crítico ignorante” vá estudar ou insinuações de que está sob a influência dos maus Espíritos – quem não está? – são invariavelmente inúteis e contraproducentes. Já me manifestei e continuarei me manifestando em favor da organização de uma “apologética” espírita, ou seja, da articulação de argumentos e informações para rebater ataques mais generalizados ou fundamentados dos adversários “ideológicos” do Espiritismo. Kardec fazia isso, não há por que não fazermos, e mais que isso, aproveitarmos tal exercício para estudarmos por nós mesmos e qualificarmos a nossa imersão na dimensão conceitual e cultural do Espiritismo. Parece-me, inclusive, que isso é fundamental para o êxito da missão doutrinária na Terra.
Ocorre que precisa ser assim, não na base da irracionalidade, que nos faz passar por indignos de atenção – e não devemos querer isso, não por querermos ser obcecados pela adesão de prosélitos em massa, mas porque queremos mobilizar socialmente o Espiritismo com o mínimo da seriedade com que ele foi originalmente apresentado. Isso não se fará com chilique de rede social.

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