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19/09/2017

O aborto sob a visão Espírita e sob a visão materialista Maria Ribeiro


Recentemente* o Supremo Tribunal Federal legalizou o aborto de fetos, cujos exames comprovem que sejam portadores de uma má formação encefálica denominada anencefalia.

O termo anencefalia sugere falta total do encéfalo, o que impediria que o bebê se desenvolvesse, com o comprometimento das funções orgânicas. Isto é fato, uma vez que o encéfalo é o veículo imediato de manifestação do Espírito; portanto, será deficiente tanto quanto forem a profundidade ou a gravidade da lesão. Ocorre a não formação dos hemisférios cerebrais e da calota craniana. No entanto, estas crianças não são totalmente desprovidas da massa encefálica, possuindo tronco encefálico e isso faz com que algumas funções orgânicas se manifestem, embora que precariamente.

Não se tem intenção de criticar o Tribunal por este feito, uma vez que as mentes materialistas ainda dominam a sociedade e, com a aprovação ou não da lei, abortos acontecem às mancheias, de bebês normais ou não. As leis humanas tentam se adequar ao comportamento já estabelecido. De igual forma, longe existe a crítica às mães que encontram no aborto a solução para aquilo que pensam ser o seu problema. Bem se sabe que o machismo ainda está no controle, e na maioria das vezes em que uma mulher decide abortar, é porque faltou o apoio do companheiro, da família, e, claro, do sistema vigente.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde**, ocorre um aborto a cada 24 segundos. São cerca de 46 milhões de abortos anualmente, sendo 26 milhões em países cujas leis o legalizaram. Ou seja, 20 milhões se realizam sem o aval da lei. É para grande parte destas que alguns grupos de extermínio reencarnados querem a legalização, pois, dizem, as mulheres que tem dinheiro podem pagar pelo aborto, têm assistência médica e não terão seqüelas. Lembrando que estes números são uma estimativa, podem estar bem longe da realidade, já que a mãe que aborta só procura ajuda hospitalar em casos de complicações.

Há o argumento de que a gravidez de uma criança em condição de anencefalia oferece risco para a vida da mãe, mas existem mais casos de gravidezes normais nas quais, por outras razões, algumas vezes, nos últimos momentos ou nos que decorrem após a gestação, em que a vida da mãe não pôde ser poupada, do que as mortes maternas decorrentes de gravidezes anencefalíticas. Aliás, nestes casos, ocorrem muitas vezes o aborto espontâneo. A ciência aponta que uma das causas desta má formação, bem como de outra má formação, a espinha bífida, seja a deficiência de ácido fólico, uma vitamina do complexo B, daí, advertem que alguns microgramas diários diminuiriam as chances. Os Espíritas, entretanto, compreendendo os postulados da Doutrina que abraçaram, reconhecem que a causa primária desta como todas as mazelas físicas, é espiritual.

Gravidez no caso de estupro poderia ser evitada, se, uma vez praticado o estupro a vítima recorresse à “pílula do dia seguinte”, evitando assim, que haja a fecundação; esta não ocorre logo após a ejaculação. E, em casos onde esta medida não foi possível, deveria haver a intervenção do Estado, oferecendo apoio moral e psicológico para a vítima, sem fazer novas vítimas.

O sistema deveria igualmente oferecer apoio psicológico e financeiro para os pais dos que têm sido chamados anencéfalos, pois é sabido que uma criança em tal condição é uma criança dispendiosa. Geralmente faz uso contínuo de medicamentos muito caros, a alimentação costuma ser especial. Parece ter sido mais fácil aniquilá-la antes que pudesse respirar da atmosfera individualista e vaidosa em que o mundo está mergulhado.

De acordo com a questão 354 da Magnânima obra O Livro dos Espíritos, Kardec questiona: ”Como explicar a vida intra uterina?” Ao que os Espíritos respondem:

“É aquela da planta que vegeta. A criança vive a vida animal. O homem possui em si a vida animal e a vida vegetal que ele completa, no nascimento, pela vida espiritual.”   

Os Espíritos dizem com estas palavras que toda criança tem uma vida vegetativa no interior do útero, e não somente as crianças a que chamam anencéfalas. Trata-se de uma condição humana, esta primeira fase de desenvolvimento antes que a reencarnação se complete. Não é a má formação que lhe granjeia a vida vegetativa, portanto.

Com o nascimento, o homem, no dizer dos Espíritos, se completa pela vida espiritual, ou seja, ocorre a reencarnação propriamente dita, o espírito que estava apenas ligado ao corpo em formação, toma posse do corpo que lhe foi destinado.
É possível concluir que com as crianças a que chamam anencéfalas ocorra identicamente, pois que não são aberrações da natureza, como quer o materialismo, nem criações à parte desmerecedoras da oportunidade de viver, conforme crê povos indígenas, que sacrificam os que nascem fora dos seus padrões; pois que viver é o primeiro direito natural do homem.

Muitos, entretanto argumentarão que um dito anencéfalo nunca chegará a ser um homem. Daí, seria o caso de se perguntar se ter-se-ia coragem de ceifar a vida de um feto se, por meio de uma revelação segura, ficasse evidente que ele será um terrível criminoso. Ou então, se se mataria uma criança nascida perfeita, mas que foi vitimada por um acidente que lhe deixou danos irreparáveis, e com certeza, a expectativa de vida em tal caso estaria reduzida para alguns meses.

A ciência tem seus méritos, e a Doutrina os reconhece. A tecnologia vem se desenvolvendo e garantindo bem estar físico ao homem, o que é conseguido com diagnósticos cada vez mais precoces e precisos, promovendo maior qualidade de vida: o diagnóstico por meio de imagem revela informações que tornam o diagnóstico mais seguro e rápido. Imediatamente o paciente é encaminhado para um especialista que irá estudar o caso e ver qual o melhor procedimento a ser feito. Desde uma simples radiografia para verificar possíveis fraturas ósseas até as imagens de procedimentos delicados em órgãos como o coração, a presteza tecnológica tem lugar destacado.

Mas porque se usaria esta mesma tecnologia para um gesto tão bestial?

Os exames de diagnóstico por imagem revelam se a morfologia do futuro bebê está normal, bem como o tempo aproximado da gestação. Uma ultrassonografia feita por volta da sexta semana revela membros ainda incompletos; após a décima quinta semana é possível perceber a diferenciação sexual; mais ou menos a mesma época em que se detecta a má formação em análise. Porém, é ainda na terceira semana que o coração bate pela primeira vez… Não há atividade cerebral senão a partir da décima segunda semana, e é este o argumento dos partidários do aborto, inclusive de bebês que nascerão normais.

Ora, os materialistas entendem “atividade cerebral” do ponto de vista puramente orgânico, físico, visto que não crêem na alma, ou no Espírito ou em qualquer outra coisa que não seja material. Daí, o espanto por se conhecerem adeptos do Espiritismo se sentirem divididos com relação ao aborto dos ditos anencéfalos, pela razão mesma de, não tendo uma máquina material em perfeitas condições, não podem agir por si mesmos, sequer pensar. Mas, e sentir? Será que, além de desprovidos de massa encefálica, os ditos anencéfalos também o são da sensibilidade?

Compreende-se que os casos de anencefalia não sejam absolutos, mas guardam características particulares entre um e outro. Pode-se, grosso modo, enquadrá-los em dois grupos: os casos em que, definitivamente, não há Espírito e, neste caso, recorra-se à questão 136 b e c, em que os Espíritos dizem: “A vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo privado de vida orgânica”; e mais adiante, completam que se o corpo não tivesse alma, seria ”massa de carne sem inteligência, tudo o que quiserdes menos um homem.” Neste caso, a criança não vive.  Senão, veja-se o que a Doutrina Espírita diz a respeito na questão 356:

“Existem natimortos que não foram destinados à encarnação de um Espírito?”
-“Sim, há os que jamais tiveram um Espírito designado para os seus corpos: nada deviam realizar por eles. É, então, somente pelos pais que essa criança veio.”   

Este primeiro item se completa no terceiro, ou seja, se há vida há um Espírito no comando desta. Do contrário, não seria um ser humano, palavra dos Espíritos.

O item b questiona se um ser em tal condição – não ter Espírito designado para o corpo – pode chegar ao fim da gestação; no que é respondido: ”Sim, algumas vezes, mas não vive.”

E os casos em que há, sim, um Espírito reencarnado para atender às suas próprias necessidades morais, bem como daqueles que foram chamados a servir-lhe como genitores.

“Existe, como indica a Ciência, crianças que desde o seio materno não são viáveis? Com que fim isso ocorre?”

Esta pergunta, oportuníssima, a 355, traz resposta que muitos adeptos ignoram, visto que parecem obedecer a uma tendência extremista do movimento separatista da Doutrina Espírita. Os Codificadores esclarecem: “Isso ocorre com freqüência; Deus o permite como prova, seja para os pais, seja para o Espírito destinado a reencarnar.”   

Eles dizem “Espírito destinado a reencarnar”, portanto, há Espírito, Ser inteligente, necessitado de voltar ao mundo físico para se provado ou mesmo experimentar a dor pungente de tal expiação.

O desafio está em se saber em que casos haverá ou não um Espírito para habitar o corpo em má formação…

A televisão, a despeito do sensacionalismo, mostrou alguns casos de crianças ditas anencéfalas, fato que surpreende a Ciência, visto que em inúmeros casos há óbito logo nos primeiros minutos ou dias após o nascimento.

Aos irmãos que não compartilham das mesmas aspirações filosóficas, especialmente às mentes materialistas, não se pode esperar compreensão mais profunda a respeito de um assunto tão delicado. Dos Espíritas convictos, entretanto, não se pode esperar outra coisa senão uma compreensão mais exata, um entendimento mais elevado. O pensamento de um Espírita não pode se nivelar com o senso comum, especialmente se este se caracteriza pela mais tenebrosa visão materialista: punir mortalmente uma criatura por ser portadora de uma má formação orgânica. Seria também o caso de se questionar porque não se aprova a pena de morte para os que têm má formação de caráter.

Fato é que, ao menos nos casos exibidos, os pais receberam muito bem a criança e a trataram com desvelado carinho, onde a sensibilidade e o sentimento religioso, (sim, este tem operado grandes ações de benevolência na Humanidade!) alimentam a coragem para que os envolvidos sejam capazes de suportar decentemente as provas a que se submeteram.

A lei brasileira, que aprovava o aborto nos casos de estupro e nos em que a vida da mãe estivesse em perigo, sendo esta última razão respaldada pela Doutrina Espírita, apreciável na questão 359, após a legalização do aborto aos anencéfalos, deu o segundo passo, criando a descriminalização do aborto, ou seja, quer aprová-lo em qualquer circunstância, dando amparo legal à mãe abortante, com o frágil argumento de que as mulheres carentes que recorrem ao aborto clandestino têm perdido suas vidas por causa da condição precária na qual o procedimento é feito.

Pode-se ver o quanto a sociedade moderna persiste em manter determinados costumes da barbárie, e parece em alguns momentos temer que estes se aniquilem.

Evocando a Doutrina Espírita, em análise ainda da questão 359, os Espíritos defendem que a vida da mulher seja poupada no caso em que a gravidez represente ameaça. No caso em questão, o que representa a ameaça de morte para a mulher, não é a gravidez, mas o aborto; em última estância: a própria mulher se coloca numa condição de risco ao empreender o procedimento abortivo. Portanto, seria inútil utilizar-se de qualquer fala doutrinária, como ousam alguns confrades, para defender a tal descriminalização do aborto.

A questão da ética médica será tocada em sua raiz: que profissional da saúde, médicos, enfermeiros, acostumados a trabalhar em prol da vida, terá coragem de, a partir de determinado instante, ver-se na obrigação de aniquilar uma vida? Percebe-se que em pouco tempo ter-se-á muitos destes com sérios problemas psicológicos! Cabe aqui também tentar descobrir porque o Estado, tão preocupado em amparar a mulher abortante, não dispensa o mesmo cuidado às bravas guerreiras que, ao assumirem suas gestações, num ato de reconhecimento à supremacia das leis naturais, se veem abandonadas antes e após o parto.

A única coisa que se tem a fazer é aguardar os acontecimentos. Plagiando Mário Quintana, o mundo não muda as leis; quem muda as leis são os homens, portanto, para um mundo melhor, é preciso homens melhores.

Têm-se leis compatíveis com o atual estado mental do globo; daí a razão para se lamentar, não a nova lei aprovada pelo Supremo Tribunal, já que o aborto não é menos criminoso só porque tem o seu aval da justiça humana, mas por terem-se ainda criaturas que embargam o progresso de outras. Não há nada de errado, em principio, com as leis humanas – os homens é que estão errados em seus julgamentos superficiais sobre o que não podem compreender.

É preciso, a partir do pensamento Espírita, difundir ideias que possam fazer refletir, para que, aos poucos, possa haver o início de qualquer processo de mudança.  Neste particular, é oportuno que cada adepto se questione o que tem feito para este propósito.

Texto escrito em 15/09/2012
*04/2012 **Dados da OMS de 2012.
Bibliografia:
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec.
Originalmente publicado em: Blog Crítica Espírita (Maria Ribeiro)

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