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29/06/2017

A Mediunidade e as evocações Maria Ribeiro


Allan Kardec definiu mediunidade como sendo uma “faculdade inerente ao homem”, esclarecendo que não é privilégio exclusivo de ninguém. As palavras do nobre Codificador desfazem a antiga crença de que alguns possuíam “dons” especiais, merecendo a bajulação, a adoração e o respeito dos outros por causa disso. Médium, no dizer Kardequiano, “é toda pessoa que sente, em um grau qualquer, a influência dos Espíritos”, deixando a qualificação específica, aplicável apenas “àqueles nos quais a faculdade medianímica está nitidamente caracterizada, e se traduz por efeitos patentes de uma certa intensidade”.

 

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A mediunidade não é um dom, no sentido que se dá a esta palavra, pois que Deus é justo e imparcial. É o meio de comunicação entre os Seres, onde as palavras se fazem desnecessárias, pois é através do pensamento  que os Espíritos se aproximam ou se afastam. A Doutrina Espírita é muito clara quando diz que qualquer pessoa pode entrar em comunicação com qualquer Espírito, mesmo porque esta comunicação não é dependente das conveniências ou de regras humanas – é lei natural. Aliás, a comunicação se faz a todo o tempo pelo pensamento. Ou seja, uma vez que todos os homens são médiuns em algum grau, segue-se que pelo pensamento, podem entrar em comunicação com outro Espírito, seja encarnado ou desencarnado. Sendo o fluido universal o veículo do pensamento, e este sempre dirigido pela vontade do Espírito que determina sua direção, segue-se que quando se pensa em alguém deste ou de outro plano, faz-se uma evocação, que será ou não atendida de acordo com vários fatores observados por Kardec e esclarecidos pelos Espíritos. Na pergunta de número 5 do item 282 do capítulo XXV de O Livro dos Médiuns, os Espíritos assinalaram: “… O que vos posso dizer é que o Espíritos que evocais, por distante que esteja, recebe, por assim dizer o impacto do pensamento como uma espécie de comoção elétrica que chama sua atenção para o lado de onde vem o pensamento que se dirige a ele . Pode-se dizer que ouve o pensamento, como na Terra ouvis a voz.” Ou seja, a palavra é algo material, sendo desnecessário pronunciar o nome daquele que se quer evocar para que este responda. Parece ser este o sentido que alguns adeptos entendem por evocação, estando no momento atual proibida segundo normas ditadas por alguns que se vêem no direito de, a esta altura dos acontecimentos, tentarem castrar o que os Espíritos Codificadores libertaram, dada a naturalidade do fenômeno.

A própria obsessão é o atestado de tal veracidade: não se vê ou se ouve o obsidiado chamar pelo seu obsessor, pois é através do pensamento que ocorrem tais ligações. Neste como em todos os casos, ao contrário do que alguns adeptos pensam, o intercâmbio não se dá somente do plano espiritual para o físico, mas, inclusive, inversamente, e também do plano espiritual para espiritual e do físico para físico. (Para maiores informações leia-se o capítulo oitavo da segunda parte de O Livro dos Espíritos; bem como o item 284 de O Livro dos Médiuns).

Os dons, aliás, referidos pelo apóstolo da gentilidade na sua primeira epístola aos coríntios, ao longo dos capítulos XII e XIV, nasceram com o Homem e com ele se desenvolvem no tempo. Por isso vê-se alguma impropriedade no termo “desenvolver a mediunidade” quando se refere unicamente à freqüência do médium nas reuniões mediúnicas, pois estas podem até constituir poderoso instrumento para se desenvolver os poderes psíquicos, mas nem sempre por si mesmas farão que os médiuns direcionem estes poderes para uma ordem mais elevada de coisas, que é o que se espera.

Infelizmente, muitos grupos mediúnicos se formaram sem dispor de um conhecimento mais profundo das orientações Kardequianas, daí as confusões de obsessão com mediunidade, de mediunidade com doença; e diversos comportamentos e atitudes que negam a Doutrina Espírita sob qualquer ângulo que se analise.

Mas, voltando a Paulo, no capítulo XII da referida epístola, são apresentados alguns dos diversos tipos da faculdade; e no XIV é sugerida uma estrutura para o que hoje conhecemos por reunião mediúnica. Encontram-se ricas referências à ordem que deve permear o ambiente mediúnico, que pode estender-se além dos domínios materiais, e aí se refere à intimidade de cada participante. Vai ver que por isso o apóstolo dedica o capítulo XIII para dissertar sobre a caridade: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que eu tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria…” (Vs 1 e 2)   Buscando na Doutrina dos Espíritos o significado da palavra caridade, na questão 886 encontra-se: “ Qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? – Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas.” Os Espíritos falam de uma construção moral melhor; o que Paulo de Tarso tentou instruir ao povo de corinto, falando de caridade, colocando-a não como uma forma de aperfeiçoar os seus dons, mas a única.

A proibição mosaica das evocações e comunicações com os Espíritos se deve aos abusos do povo de então. A transfiguração de Jesus no monte Tabor, o dia de pentecostes narrado por Lucas no segundo capítulo de Atos dos Apóstolos, desfazem a proibição, que retorna com força total durante toda a idade média. Restabelecidos alguns paradigmas, “as vozes do céu” ecoam nos quatro cantos da Terra, e, por via mediúnica, a Humanidade recebe novas orientações para seguir seu curso evolutivo, desta vez, possuidora de intensa liberdade.

Kardec e as Entidades Superiores trazem estas questões de forma muito tranqüila para que os homens percebam que trata-se de ocorrências naturais e que, através dos estudos, encontrem forças para vencer os preconceitos e as superstições. Esclarecem logo no início do capítulo XXV de O Livro dos Médiuns que “essas duas maneiras de operar (evocação/comunicações espontâneas) têm cada uma suas vantagens, e o inconveniente não estaria senão na exclusão absoluta de uma das duas.”

Por isto é de se estranhar que no Movimento Espírita haja tanta restrição a respeito da evocação, ao passo que é aceita qualquer comunicação que venha espontaneamente, sem muitos critérios. No item VI da introdução de O Livro dos Espíritos, fica esclarecido que “…Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou por evocação. Podem-se evocar todos os Espíritos…e com isso obter, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre sua situação no além-túmulo, sobre seus pensamentos a nosso respeito, assim como as revelações que lhes são permitidas nos fazer.”

Questiona-se porque os Espíritos Codificadores sancionaram a evocação à época de Kardec e outros Espíritos tomaram a dianteira para proibi-la algum tempo após; se esses têm maior autoridade que aqueles; e também, como é que Espíritos tão elevados, incumbidos de trazer à Humanidade o Consolador anunciado pelo Cristo puderam se enganar tanto… Óbvio que o erro está nas mentes fracas e entusiastas de encarnados e desencarnados sistemáticos, preconceituosos e cheios de si, cujos objetivos é tentarem destruir, seja por ignorância ou inveja, o trabalho, não de Kardec, mas do Cristo. Kardec é a figura do servo fiel…

Allan Kardec na sua introdução em O Livro dos Médiuns, muito tranquilamente, esclarece:

“… Um desejo bem natural, entre as pessoas que se ocupam com o Espiritismo, é o de poderem entrar, elas mesmas, em comunicação com os Espíritos; é para lhes aplainar o caminho que esta obra está destinada, em as fazendo aproveitar o fruto dos nossos longos e laboriosos estudos, porque far-se-ia uma idéia muito falsa pensando que, para ser perito nesta matéria, basta saber colocar os dedos sobre uma mesa para fazê-la girar, ou tomar do lápis para escrever.”

“Enganar-se-se-iam, igualmente, quem cresse encontrar, nesta obra, uma receita universal e infalível para formar médiuns. Conquanto cada um encerre em si mesmo o germe das qualidades necessárias para tornar-se médium, essas qualidades não existem senão em graus muito diferentes, e seu desenvolvimento provém de causas que não dependem de ninguém fazê-las nascer à vontade. As regras da poesia, da pintura e da música não fazem nem poetas, nem pintores nem músicos daqueles que não lhes têm o gênio: elas guiam no emprego de faculdades naturais. Ocorre o mesmo com o nosso trabalho; seu objetivo é indicar os meios de desenvolver a faculdade medianímica tanto quanto o permitam as disposições de cada um, e, sobretudo, dirigir-lhe o emprego de maneira útil quando a faculdade existe. Mas nisso não está a finalidade única a que nos propomos.”

“Ao lado dos médiuns propriamente ditos, há a multidão, que aumenta todos os dias, de pessoas que se ocupam com as manifestações espíritas; guiá-las em suas observações, assinalar-lhes os escolhos que podem e devem, necessariamente, encontrar em uma coisa nova, iniciá-las na maneira de conversar com os Espíritos, indicar-lhes os meios de terem boas comunicações, tal é o círculo que devemos abranger, sob pena de fazermos uma coisa incompleta. Não será, pois, surpreendente encontrar em nosso trabalho informações que, à primeira vista, poderiam parecer-lhe estranha: a experiência mostrará sua utilidade. Depois de havê-lo estudado com cuidado, compreender-se-á melhor os fatos que se vier a testemunhar; a linguagem de certos Espíritos parecerá menos estranha. Como instrução prática, não se dirige, pois, exclusivamente, aos médiuns, mas a todos aqueles que são capazes de ver e de observar os fenômenos espíritas…”

Kardec realizou um trabalho primoroso ao longo de muitos anos avaliando, ajuizando, abonando ou descartando instruções oriundas do plano espiritual para elaborar uma obra que pudesse guiar todo aquele que tivesse o interesse em se aprofundar na ciência Espírita. Ele diz: “… é para lhes aplainar o caminho que esta obra está destinada, em as fazendo aproveitar o fruto dos nossos longos e laboriosos estudos…”, ou seja, tudo o que se tem que fazer é seguir-lhe os passos, pois ele próprio dá garantia de segurança. Adiante o mestre lionês continua: “… Não será, pois, surpreendente encontrar em nosso trabalho informações que, à primeira vista, poderiam parecer-lhe estranha: a experiência mostrará sua utilidade. Depois de havê-lo estudado com cuidado, compreender-se-á melhor os fatos que se vier a testemunhar…” Quer dizer que seu trabalho está fundamentado em bases muito firmes, em última análise, na Verdade; e que só a experiência pode fundamentar uma ideia, uma doutrina.

Falando-se dos intercâmbios devidamente estabelecidos, há que se reservar um ambiente e um horário para tal, afinal, alguma organização é necessária. Ao longo de O Livro dos Médiuns, Kardec e os Espíritos Instrutores delineiam o caminho correto para que qualquer pessoa que se interesse pelos fenômenos espíritas, obviamente com um fim útil, possa percorrer com uma maior segurança.  De forma didática, como não poderia deixar de ser, são explanadas as orientações capazes de prover os estudiosos que queiram se aprofundar nas investigações do plano espiritual. E, seguidas à risca, ter-se-á base firme, evitando-se num maior grau a mistificação e a obsessão.

Desta forma, poder-se-iam formar grupos mediúnicos, subentendendo-se cada indivíduo devidamente consciente de seu papel de inveterado estudioso da Doutrina Espírita.

Apesar de muito extensa, a bibliografia Espírita conta com um número muito menor do que se pensa de obras genuinamente doutrinárias- Espíritas. Grande parte dos erros disseminados é oriunda de obras que semearam orientações baseadas no misticismo e nas superstições; alimentaram a fantasia e a ilusão através de revelações que jamais serão comprovadas, visto que não passam da imaginação de médiuns fascinados e Espíritos pseudo-sábios ou zombeteiros.

Espera-se que o Movimento Espírita adquira maturidade para reavaliar obras há muito consagradas como subsidiárias da Doutrina, e que serão aceitas, desde que os conceitos que têm fugido aos parâmetros Kardequianos sejam devidamente revisados. Para uma parcela destas obras não haverá revisão capaz de desfazer os erros profundos que proclamam, restando-lhes apenas a exclusão sumária. Agindo assim, o Movimento Espírita provará que não perdeu de todo a sanidade.

Não há conciliação possível entre a Doutrina dos Espíritos e a grande maioria de obras que mereceram publicação e credibilidade não se sabe por quê. Fato é que, para se compreender de forma completa e mais exata qualquer que seja o assunto, os adeptos terão que dispor de algum tempo e de alguma boa vontade para dedicarem-se ao estudo continuado das obras fundamentais, com exclusão total de todas as que, seja por presunção, seja por descuido, se intitulam espíritas.

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2 Responses “A Mediunidade e as evocações Maria Ribeiro

  1. quintinomelo
    08/09/2016 at 13:02

    Muito bom o artigo. Penso, entretanto, que Movimento Espírita deve evitar criar uma espécie de index librorum prohibitorum, mas tão somente divulgar, com mais insistência e eficiência, a doutrina contida nas obras de Kardec.
    Contribuiria grandemente para isso se a FEB pusesse seu selo apenas nas obras de Kardec, deixando para outras editoras espíritas a publicação de obras de outros autores.
    Haveria perdas financeiras? Certamente, mas “assim, o Movimento Espírita provará que não perdeu de todo a sanidade.”

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  2. Ane Fernandes
    25/10/2016 at 18:54

    A FEB vive como num estado de fascinação por outras obras que se dizem espiritas. Seria viável que ela se voltasse para a obras fundamentais da doutrina espirita, mas o que parece é que ela o toma por ultrapassado, enquanto que para um observador atento as obras da codificação é tão atual como na época do mestre lionês.

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