Go to ...

Jornal de Ciência Espírita on YouTubeRSS Feed

22/08/2017

História do Maravilhoso


pelo Sr. Louis Figuier.

(Segundo artigo; ver a Revista de Setembro de 1860.)

Falando do Sr. Louis Figuier, em nosso primeiro artigo, procuramos, antes de tudo, qual fora o seu ponto de partida, e demonstramos, citando textualmente as suas palavras, que ele se apoia sobre a negação de todo poder fora da humanidade corpórea; as suas premissas devem fazer pressentir a sua conclusão. Ó seu quarto volume, aquele que deveria tratar especialmente a questão das mesas girantes e dos médiuns, não aparecera ainda, e nós o esperamos para ver se daria, desses fenômenos, uma explicação mais satisfatória do que aquela do Sr. Jobert (de Lambale). Nós o lemos com cuidado, e o que dele ressalta mais claro para nós, é que o autor tratou de uma questão que ele não conhecia de modo nenhum; para isso não queremos outra prova senão as duas primeiras linhas assim concebidas: Antes de abordar a história das mesas girantes e dos médiuns, cujas manifestações são todas modernas, etc. Como o Sr. Figuier não sabe que Tertuliano fala em termos explícitos das mesas girantes e falantes; que os Chineses conhecem esse fenômeno de tempos imemoriais; que é praticada entre os Tártaros e os Siberianos; que há médiuns entre os Tibetanos; que os havia entre os Assírios, os Gregos e os Egípcios; que todos os princípios fundamentais do Espiritismo se encontram nos filósofos sânscritos? É falso, pois, avançar que essas manifestações sãotodas modernas; os modernos nada inventaram a esse respeito, e os Espíritas se apoiam sobre a antigüidade e a universalidade de sua doutrina, o que o Sr. Figuier deveria saber antes de ter a pretensão de fazer-lhe um tratado ex professo. Sua obra não teve menos as honras da imprensa, que se apressou em render homenagem a esse campeão das idéias materialistas.

Aqui se apresenta uma reflexão, cuja importância não escapará a ninguém. Nada, diz-se, é brutal como um fato: ora, eis aqui um que tem bem o seu valor, é p progresso inaudito das idéias espíritas, às quais certamente a imprensa, nem pequena e nem grande, não prestou o seu concurso. Quando ela se dignou falar desses pobres imbecis que crêem ter uma alma, e que essa alma, depois da morte, se ocupa ainda dos vivos, não foi senão para gritar alto lá! sobre eles, e os enviar aos manicômios, perspectiva pouco encorajadora para o público ignorante da coisa. Portanto, o Espiritismo não entoou a trombeta da publicidade; não encheu os jornais de faustosos anúncios; como ocorre, pois, que, sem ruído, sem estrondo, sem o apoio daqueles que se colocam como árbitros da opinião, ele se infiltra nas massas, e que depois de ter, segundo a graciosa expressão de um crítico, do qual não nos lembramos o nome, infestado as classes esclarecidas,penetra, agora, nas classes trabalhadoras? Que nos digam como, sem o emprego dos meios comuns de propaganda, a segunda edição deO Livro dos Espíritos se esgotou em quatro meses? Apaixona-se, diz-se, das coisas mais ridículas; seja, mas apaixona-se com o que diverte, de uma história, de um romance; ora, O Livro dos Espíritos, de nenhum modo tem a pretensão de ser divertido. Não seria que a opinião encontra, nessas crenças, alguma coisa que desafia a crítica?

O Sr. Figuier encontrou a solução desse problema: é, disse, o amor do maravilhoso, e ele tem razão; tomemos a palavra maravilhoso na acepção que ele lhe dá, e seremos da sua opinião. Segundo ele, toda a Natureza estando na matéria, todo fenômeno extra-material é do maravilhoso: fora da matéria não há salvação; consequentemente, a alma, depois de tudo o que se lhe atribui, seu estado depois da morte, tudo isso é do maravilhoso; chamemo-lo, pois, como ele do maravilhoso. A questão é de saber se o maravilhoso existe ou não existe. O Sr. Figuier, que não gosta do maravilhoso, e não o admite senão nos contos de Barba-Azul, diz que não. Mas se o Sr. Figuier não deseja sobreviver ao seu corpo; se despreza a sua alma e a vida futura, nem todo o mundo partilha os seus gostos, e não é preciso que, com isso, desgoste os outros; há muitas pessoas para as quais a perspectiva do nada tem muito poucos encantos, e que muito esperam reencontrar, lá em cima ou lá embaixo, seu pai, sua mãe, seus filhos ou seus amigos; o Sr. Figuier não o deseja; não se podem disputar os gostos.

Instintivamente, o homem tem horror à morte, e o desejo de não morrer inteiramente é bastante natural, com isso se convirá; pode-se mesmo dizer que essa fraqueza é geral; ora, como sobreviver ao corpo se não se possui esse maravilhoso que se chama alma? Se temos uma alma, ela tem algumas propriedades, porque sem propriedades ela não poderia ser alguma coisa; estas não são, infelizmente para certas pessoas, as propriedades químicas; não se pode colocá-la num frasco para conservá-la num museu anatômico, como se conserva um crânio; nisso, a grande Causa, verdadeiramente errou em não fazê-la mais agarrável: é que, provavelmente, não pensou no Sr. Figuier.

Qualquer que ela seja, de suas coisas uma: essa alma, se alma há, vive ou não vive depois da morte; é alguma coisa ou é o nada, não há meio termo. Ela vive para sempre ou por um tempo? Se ela deve desaparecer em um tempo dado, antes valeria que o fosse logo em seguida; um pouco mais cedo, ou um pouco mais tarde, com isso o homem não seria mais adiantado. Se ela vive, faz alguma coisa ou não faz nada; mas como admitir um ser inteligente que não faça nada, e isso durante a eternidade? Sem ocupação, a existência futura seria muito monótona. O Sr. Figuier, não admitindo que uma coisa inapreciável aos sentidos possa produzir quaisquer efeitos, é conduzido, em razão de seu ponto de partida, a esta conclusão, de que todo efeito deve ter uma causa material; por isso ele classifica no domínio do maravilhoso, quer dizer, da imaginação, todos os efeitos atribuídos à alma, e, por conseqüência, a própria alma, ela mesma, as suas propriedades, os seus fatos e os seus gestos de além-túmulo. Os simples, que têm a tolice de querer viver depois da morte, amam naturalmente tudo o que agrada aos seus desejos e vêm confirmar as suas esperanças; por isso, amam o maravilhoso. Até o presente se estava contente em dizer: “Tudo não morre com o corpo, ficai tranqüilos, disso vos damos a nossa palavra de honra.” Era muito confortador, sem dúvida, mas uma pequena prova nada teria de perturbadora para o assunto; ora, eis que o Espiritismo, com os seus fenômenos, veio dar-lhes esta prova, a aceitam com alegria; eis todo o segredo da sua rápida propagação; ele dá a realidade a uma esperança: a de viver, e melhor do que isso, a de viver mais feliz; ao passo que vós, Sr. Figuier, vos esforçais para lhes provar que tudo isso não é senão quimera e ilusão; ele eleva a coragem, e vós a abateis; credes que, entre os dois, a escolha será duvidosa?

O desejo de reviver depois da morte é, pois, no homem, a fonte de seu amor pelo maravilhoso, quer dizer, por tudo o que se liga à vida de além-túmulo. Se alguns homens, seduzidos petos sofismas, puderam duvidar do futuro, não crede que isso seja deliberadamente; não, essa idéia lhes inspira pavor, e é com esse terror que sondam as profundezas do nada; o Espiritismo acalma as suas inquietações, dissipa as suas dúvidas; o que é vago, indeciso, incerto, toma uma forma, torna-se uma realidade consoladora; eis porque, em alguns anos, deu a volta ao mundo, porque todos querem viver, e o homem preferirá sempre as doutrinas que o confortam àquelas que o apavoram.

Voltemos à obra do Sr. Figuier, e digamos primeiro que o seu quarto volume, dedicado às mesas girantes e aos médiuns, tem as três quartas partes cheias de histórias que não lhe têm nenhuma relação, tão bem que o principal ali se torne o acessório. Cagliostro,

o negócio do colar, que ali figura não se sabe porquê, a moça elétrica, os caracóis simpáticos, nele ocupam treze capítulos em dezoito; é verdade que essas histórias ali são tratadas com um verdadeiro luxo de detalhes e de erudição, que as fará lidas com interesse, toda opinião espírita à parte. Sendo o seu objetivo provar o amor do homem pelo maravilhoso, procura ele todos os contos que o bom senso, de todos os tempos, tem tomado pelo que eles valem, e se esforça por provar que são absurdos, o que ninguém contesta, e exclama: “Eis o Espiritismo fulminado!” Ao ouvi-to, crê-se que as proezas de Cagliostro e os contos de Hoffmann são, para os espíritas, artigos de fé, e que os caracóis simpáticos têm todas as suas simpatias.

O Sr. Figuier não rejeita todos os fatos, muito longe disso; ao contrário de outros críticos que negam tudo sem cerimônia, o que é mais cômodo, porque isso dispensa de toda explicação, ele admite perfeitamente as mesas girantes e os médiuns, tudo fazendo uma larga parte à velhacaria; as Senhoritas Fox, por exemplo, são insignes escamoteadoras, porque elas foram achincalhadas por jornais americanos pouco galantes; ele admite mesmo o magnetismo, como agente material, bem entendido, a força fascinadora da vontade e do olhar, o sonambulismo, a catalepsia, o hipnotismo, todos os fenômenos de biologia; que disso se guarde! vai passar por um iluminado aos olhos de seus confrades. Mas, conseqüente consigo mesmo, ele quer reconduzir tudo às leis da física e da fisiologia. Ele cita, é verdade, alguns testemunhos autênticos e dos mais honrosos em apoio dos fenômenos espíritas, mas se estende com complacência sobre todas as opiniões contrárias, sobretudo as dos sábios que, como o Sr. Chevreul e outros, procuraram as provas na matéria; ele tem em grande estima a teoria do músculo mentiroso dos Srs. Jobert e participantes. A sua teoria, como a lanterna mágica da fábula, peca por um ponto capital, e é que se perde numa complicação de explicações que pedem, elas mesmas, explicações para serem compreendidas. Um outro defeito, é que é, a cada passo, contraditada petos fatos dos quais não pode dar conta e que o autor passa em silêncio, por uma razão muito simples, é que não os conhece; ele nada viu, ou pouco viu, por si mesmo; em uma palavra, ele nada aprofundou, de visu, com a sagacidade, a paciência e a independência de idéias do observador consciencioso; contenta-se com relatos mais ou menos fantásticos que encontrou em certas obras que não brilham pela imparcialidade; não tem em nenhuma conta os progressos da ciência em alguns anos; toma-a em seu início, quando caminhava tateante, e cada um lhe trazia uma opinião incerta e prematura, e quando ela estava longe de conhecer todos os fatos; absolutamente como se se quisesse julgar a química de hoje peto que ela era ao tempo de Nicolas Flamel. Em nossa opinião, por sábio que ele seja, ressente-se, pois, da primeira qualidade de um crítico, a de conhecer a fundo a coisa da qual fala, condição ainda mais necessária quando se quer explicá-la.

Não o seguiremos em todos os seus raciocínios; preferimos remeter à sua obra que todo espírita pode ler sem o menor perigo para as suas convicções; não citaremos senão a passagem onde ele explica a sua teoria das mesas girantes, que quase resume a de todos os outros fenômenos.

“Vem em seguida a teoria que explica os movimentos da mesa pelos Espíritos. Se a mesa gira depois de um quarto de hora de recolhimento e de atenção da parte dos experimentadores, é, diz-se, que os Espíritos, bons ou maus, anjos ou demônios, entraram na mesa e a puseram em oscilação. O leitor deseja que discutamos esta hipótese? Não p pensamos. Se empreendêssemos provar, à força de argumentos lógicos, que o diabo não entra nos móveis para fazê-los dançar, nos seria preciso igualmente empreender demonstrar que não são os Espíritos que, introduzidos no nosso corpo, nos fazem agir, falar, sentir, etc. (1-(1) Não são os Espíritos que nos fazem agir e pensar, mas um Espirito que é a nossa alma. Negar este Espirito, é negar a alma; negar a alma é proclamar o materialismo puro. Parece que o Sr. Figuier pensa que, como ele. ninguém crê ter uma alma imortal, ou que ele crô ser todo o mundo. ). Todos esses fatos são da mesma ordem, e aquele que admite a intervenção do demônio para fazer girar uma mesa, deve recorrer à mesma influência sobrenatural para explicar os atos que não ocorrem senão em virtude da nossa vontade e pelo socorro dos nossos órgãos. Ninguém nunca quis atribuir seriamente os efeitos da vontade sobre os nossos órgãos, por misteriosa que seja a essência desse fenômeno, à ação de um anjo ou de um demônio. Todavia, é a essa conseqüência que são conduzidos aqueles que querem informar a rotação das mesas a uma causa sobre-humana.

“Dizemos, para terminar esta discussão, que a razão proíbe recorrer a uma causa sobrenatural, em toda parte onde uma causa natural pode bastar. Uma causa natural, normal, fisiológica, pode ser invocada para a explicação do giro das mesas? Aí está toda a questão.

“Eis, pois, que somos conduzidos a expor o que nos parece dar conta do fenômeno estudado nesta última parte do nosso livro.

“A explicação do fato das mesas girantes, considerado em sua maior simplicidade, nos parece ser fornecida por esses fenômenos cujo nome variou muito até aqui, mas cuja natureza é, no fundo, idêntico, quer dizer, porque alternativamente se chamou hipnotismo, com o doutor Braid, biologismo com o Sr. Philips, sugestão como Sr. Carpenter. Lembremos que, em conseqüência da forte tensão cerebral resultante da contemplação, muito tempo mantida, de um objeto imóvel, o cérebro cai num estado particular, que recebeu, sucessivamente, os nomes de estado magnético, de sono nervoso e de estado biológico, nomes diferentes que designam certas variantes particulares de um estado geralmente idêntico.

“Uma vez levado a este estado, seja pelos passes de um magnetizador, como se faz desde Mesmer, seja pela contemplação de um corpo brilhante, como operava Braid, imitado depois pelo Sr. Philips, e como operam ainda os os feiticeiros árabes e egípcios, seja simplesmente, enfim, por uma forte contenção moral, como disso citamos mais de um exemplo, o indivíduo cai nessa passividade automática que constitui o sono nervoso. Ele perdeu o poder de dirigir e de controlar a sua própria vontade, e está em poder de uma vontade estranha. Se lhe apresenta um copo de água afirmando, com autoridade, que é uma deliciosa bebida, ele a bebe crendo beber vinho, um licor ou leite, segundo a vontade daquele que se apoderou fortemente do seu ser. Assim, privado do socorro do seu próprio julgamento, o indivíduo permanece quase estranho às ações que executa, e uma vez retornado ao seu estado natural, perdeu a lembrança dos atos que realizou durante essa estranha e passageira abdicação de seu eu. Está sob a influência de sugestões, quer dizer que, aceitando sem poder repeli-la, uma idéia fixa que lhe é imposta por uma vontade exterior, ele age, e é forçado a agir sem idéia e sem vontade própria, por conseqüência, sem consciência. Esse sistema levanta uma grave questão de psicologia, porque o homem, assim influenciado, perdeu seu livre arbítrio, e não tem mais a responsabilidade pelas ações que executa. Ele age, determinado por imagens intrusas que obsidiam seu cérebro, análogas a essas visões que Cuviers supôs fixadas no sensorium da abelha, e que lhe representam a forma e as proporções da célula que um instinto a impele construir. O princípio das sugestões dá perfeitamente conta dos fenômenos, tão variados e às vezes tão terríveis da alucinação, e mostra, ao mesmo tempo, o pouco de intervalo que separa a alucinação da monomania. Não será necessário mais espantar-se se, num número bastante grande de giradores de mesas, a alucinação sobreviveu à experiência e se transformou em loucura definitiva.

“Esse princípio das sugestões, sob a influência do sono nervoso, nos parece fornecer a explicação do fenômeno da rotação das mesas, tomado em sua maior simplicidade. Consideremos o que se passa numa cadeia de pessoas que se entregam a uma experiência desse gênero. Essas pessoas estão atentas, preocupadas, fortemente emocionadas pela espera do fenômeno que se deve produzir. Uma grande atenção, um recolhimento completo de Espírito é recomendado. À medida que essa tensão se prolonga, e que a contenção moral permanece muito tempo mantida entre os experimentadores, seu cérebro se fatiga cada vez mais, suas idéias sentem uma ligeira perturbação. Quando assistimos, durante o inverno do ano 1860, às experiências feitas em Paris pelo Sr. Philips; quando vimos as dez ou doze pessoas às quais ele confiava um disco metálico, com a injunção de considerar fixa e unicamente esse disco colocado no côncavo da mão durante uma meia hora, não pudemos nos negar de encontrar, nessas condições reconhecidas indispensáveis para a manifestação do estado hipnótico, a fiel imagem do estado em que se encontram as pessoas formando silenciosa cadeia, para obter a rotação da mesa. Num e noutro caso, há uma forte contenção do Espírito, uma idéia exclusivamente perseguida durante um tempo considerável. O cérebro humano não pode resistir, por muito tempo, a essa excessiva tensão, a essa acumulação anormal do influxo nervoso. Sobre as dez ou doze pessoas que se entregaram a essa alteração, a maioria abandona a experiência, forçada em renunciá-la pela fatiga nervosa que sentem. Somente alguns, um ou dois, que nela perseveram, caem vítimas do estado hipnótico ou biológico, e dão, então, lugar aos fenômenos diversos que examinamos falando no curso desta obra, do hipnotismo e do estado biológico.

“Nessa reunião de pessoas fixamente ligadas, durante vinte minutos ou meia hora, para formarem a cadeia, as mãos postas espalmadas sobre uma mesa sem terem a liberdade de distrair um instante a sua atenção da operação da qual tomam parte, o maior número não sente nenhum efeito particular. Mas é muito difícil que uma delas, uma só se se quer, não caia, por um momento, vítima do estado hipnótico biológico. Não seria preciso talvez senão um segundo de duração desse estado, para que o fenômeno esperado se realize. O membro da cadeia caído nesse semi-sono nervoso, não tendo mais consciência de seus atos, e não tendo outro pensamento senão a idéia fixa da rotação da mesa, imprime, com o seu desconhecimento o movimento ao móvel; ele pode, nesse momento, desdobrar uma força muscular relativamente considerável e a mesa se arremessa. Dado esse impulso, realizado esse ato inconsciente, nada lhe é mais necessário. O indivíduo, assim passageiramente biotogizado, pode em seguida retornar ao seu estado ordinário; porque apenas esse movimento de deslocamento mecânico se manifestou na mesa que logo todas as pessoas compondo a cadeia se levantam e seguem os seus movimentos, de outro modo dito, fazem a mesa caminhar crendo somente segui-la. Quanto ao indivíduo, causa involuntária, inconsciente, do fenômeno como não conserva nenhuma lembrança dos atos que realizou no estado de sono nervoso, ele mesmo ignora o que fez e se indigna, de muito boa fé, sendo acusado de ter empurrado a mesa. Supõe mesmo os outros membros da cadeia não terem agido com a má fé de que são acusados. Daí essas freqüentes discussões e mesmo essas disputas sérias às quais, muito freqüentemente, deram lugar a distração das mesas girantes.

“Tal é a explicação que cremos poder apresentar no que concerne ao fato da rotação das mesas, tomado em sua maior simplicidade. Quanto aos movimentos da mesa respondendo a perguntas: os pés que se erguem aos comandos, e que, pelo número de golpes, respondem às perguntas feitas, o mesmo sistema disso dá conta, admitindo-se que, entre os membros da cadeia, há um cujo estado nervoso conserva uma certa duração. Esse indivíduo, hipnotizado com seu desconhecimento, responde às perguntas e às ordens que lhes são dadas, inclinando a mesa, ou fazendo-a bater pancadas, de conformidade com as perguntas. Retornado em seguida ao seu estado natural, esqueceu todos os atos assim realizados, do mesmo modo que todo indivíduo magnetizado, hipnotizado, perdeu as lembranças dos atos que executou nesse estado. Ó indivíduo que desempenha esse papel com o seu desconhecimento, é, pois, uma espécie de dorminhoco desperto; ele não está sui compôs, está num estado mental que participa do sonambulismo e da fascinação. Ele não dorme, está encantado ou fascinado em conseqüência da forte concentração moral que se impôs: é um médium. Como esse último exercício é de uma ordem superior ao primeiro, não pode ser obtido em todos os grupos. Para que a mesa responda às perguntas feitas, é necessário que os indivíduos que operam hajam praticado com continuidade o fenômeno da mesa girante, e que, entre eles, se encontre um sujeito particularmente apto a cair nesse estado, que nele cai mais depressa pelo hábito e nele persevera por mais tempo: é preciso, em uma palavra, um médium experimentado.

“Mas, dir-se-á, vinte minutos ou meia hora não são necessários para obter a rotação de uma mesinha redonda de pé único ou de uma mesa. Freqüentemente, ao cabo de quatro ou cinco minutos, a mesa se coloca em movimento. A esse respeito, respondemos que um magnetizador, quando opera com seu sujeito habitual ou com um sonâmbulo de profissão, faz esse cair em sonambulismo em um minuto ou dois, sem passes, sem aparelhos, e unicamente com a imposição fixa de seu olhar. Aqui, foi o hábito que tornou o fenômeno fácil e rápido. Do mesmo modo, os médiuns exercitados podem, em muito pouco tempo, chegar a esse estado de semi-sono nervoso, que deve tornar inevitável o fato da rotação da mesa ou o movimento impresso por ele a esse móvel, de conformidade com a pergunta feita.”

Não sabemos como o Sr. Figuier aplicaria sua teoria aos movimentos que ocorre, aos ruídos que se fazem ouvir, ao deslocamento dos objetos, sem o contato do médium, sem a participação da vontade, contra a sua vontade; mas há muitas outras coisas que ele não explica. De resto, mesmo aceitando a sua teoria, ela revelaria um fenômeno fisiológico dos mais extraordinários e bem digno da atenção dos sábios; porque, pois, o desdenharam?

O Sr. Figuier termina seu Tratado do Maravilhoso por uma curta notícia sobre O Livro dos Espíritos. Ele o julga naturalmente sob o seu ponto de vista: “A filosofia, disse ele, nele está fora de moda, e a moral dormente.” Teria, sem dúvida gostado de uma moral galhofeira e despertante; mas que fazer dela? É uma moral para uso da alma; de resto sempre terá tido uma vantagem: a de fazê-lo dormir; é para ele uma receita em caso de insônia.

Por favor, avalie este artigo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

More Stories From Edições de 1860