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24/06/2017

Flammarion e outros Cientistas Espíritas João Donha


As Memórias do Camille Flammarion são deveras interessantes. Mereciam uma tradução completa para o português. Mostram uma alma inquieta; alguém que deseja ardentemente o conhecimento do nosso destino após a morte, mas mantém-se suficientemente lúcido para não abandonar o critério estritamente científico e não cair em certezas precipitadas, mesmo tendo que pagar o preço da angústia permanente da dúvida.

Espiritismo ou animismo? Animismo ou espiritismo? É a gangorra onde ele balança sua angústia por toda a vida.

No Capítulo XIII ele aborda suas experiências espíritas. Faz, também, um breve relato e uma análise dos três cadernos resultantes das experiências realizadas sob a direção do Victor Hugo, quando na ilha de Jersey. Chega a elaborar a hipótese de que a soma dos presentes cria as personalidades comunicantes sob o domínio da mente prodigiosa de Hugo.
Vamos a alguns trechos desse capítulo:

“Ação inconsciente da alma. Mas como?
Existem espíritas de uma fé cega, que têm certeza de estarem em comunicação com os espíritos. Não há como chamá-los à razão. Eles não me perdoam de não compartilhar suas certezas, que se tornaram entre eles crenças religiosas. Mas há outros que compreendem que apenas o método científico pode nos conduzir ao conhecimento verdadeiro. Esses continuam meus amigos. Eu acabei de encontrar numa coletânea de correspondências a carta seguinte que me permito reproduzir, e que parece ter seu lugar aqui. Ela é datada de Bordeaux, 29 de março de 1904:

‘Caro mestre,

Há cerca de quarenta anos, ouvi, em Bordeaux, um velho fazer o elogio de um jovem, por volta dos dezoito anos, portador de condições de fato excepcionais. Segundo ele, esse jovem seria um prodígio, que deveria remexer o mundo.
O jovem, era o senhor.
O velho, era Allan Kardec.’ (…) (J.Bayard).

A carta continua, tecendo elogios ao espírito científico do Flammarion.

Ao final, ele ajunta:

“Publico esta carta, dentre várias, para mostrar que nem todos os espíritas me guardam ressentimento em função do meu método científico. Pode-se repelir o espiritismo, pode-se repelir o cristianismo, sem deixar-se de ser espiritualista. São doutrinas claramente distintas.”

A informação desta carta, a análise na Revue à sua obra, e outras manifestações de Kardec deixam clara a predileção e o carinho que o fundador do Espiritismo nutria por ele; e compartilhava com a Amelie que, ao herdar seu espólio, tudo fez para que o jovem astrônomo se tornasse o continuador da obra. Certamente, viam nele o filho que desejariam ter tido. Por mais independente que fosse, ante tanta consideração seus sentimentos não lhe permitiriam apartar-se totalmente da hipótese espírita, e, é bem provável, condicionaram sua abordagem delicada e suas críticas amenas à “obra de feição pessoal”, ou à “religião” do amigo, externadas no discurso do sepultamento.
Mas, ainda que sutil, tal abordagem serve como evidência histórica de que os homens de ciência contemporâneos do surgimento do espiritismo criticavam e denunciavam o encaminhamento religioso que Kardec dera ao assunto. Ou seja, para os cientistas, o espiritismo kardecista já nascia religioso.
Comprova isso a manifestação mais dura de Aksakoff, livre de qualquer laço de amizade, conhecida pela recente divulgação de algumas cartas onde critica o aspecto religioso do kardecismo. Também o comprova a introdução de Richet ao seu Tratado de Metapsíquica, onde, apesar de prestar homenagem a Kardec, critica sua vocação religiosa.
René Sudre, em sua Introdução à Metapsíquica Humana, após expor sua tese da prosopopese-metagnomia, primeira edição da hiperestesia indireta do inconsciente do Quevedo, e inventariar as últimas descobertas da psicologia sugerindo sempre o animismo como motor dos fenômenos, finaliza: “Assim o Espiritismo dito “científico”, inaugurado por Delanne, parece haver entrado em falência, nada mais sobrando para a grande massa do que o velho Espiritismo moral de Allan Kardec que, em si, não é, de todo, mau, e que serve para levar aos aflitos ilusões consoladoras”.
Tudo isso indica que havia, no final do século XIX e começo do XX, duas veredas espíritas: o Espiritismo científico e o Espiritismo religioso. O primeiro, representado por Delanne, Lombroso, Bozzano, Aksakoff, Crookes, Zollner, Geley e outros, reúne os pesquisadores que adotam a hipótese espírita para explicar os fenômenos. O segundo, representado pelos seguidores de Allan kardec (Leymarie, Dennis, Meyer e outros), reúne os que, além, claro, de adotarem a hipótese dos espíritos provocando os fenômenos, têm a certeza de sua identidade e de sua superioridade moral, absorvem respeitosamente seus ensinamentos, e crêem que o Espiritismo é uma revelação divina, consolador prometido, ressuscitador do cristianismo, destinado a inaugurar uma nova era da humanidade. Enfim, se não religião, algo bem parecido.
Como eu já disse em postagem de 01.07.2009, o segmento religioso sobreviveu por uma questão de seleção natural. Vale repetir:

A morte do espiritismo científico e a sobrevivência do espiritismo religioso deveu-se, simplesmente, a uma lei de seleção natural (no caso, na epistemologia, porém equivalente àquela da biologia: é só fazer as necessárias analogias – assim, se não for verdade, ao menos rima, ou seja, se non è vero è piu trovato).
E qual foi a mudança no ambiente (ambiente intelectual, claro) que provocou o desaparecimento do espíritismo científico?
Emergiram, no oceano do conhecimento humano, as pesquisas do inconsciente, trazendo para o meio científico explicações muito mais convincentes para os fenômenos mediúnicos, do que as explicações espíritas. Ante a aceitação de uma nova teoria e prática albergada sob o nome de psicologia — palavra até então utilizada para a designação de uma disciplina filosófica, e que passa a designar uma ciência –, o espiritismo foi perdendo todas as esperanças de ser aceito como ciência. Consequentemente, sua vertente científica extinguiu-se. Já a vertente religiosa, conseguindo não só aparar como revidar os golpes dados na área do conhecimento em que transitava (a religião), sobreviveu e multiplicou-se.
Hoje, o espiritismo apreendido e praticado como religião é claramente hegemônico em todo o mundo.

VOLTANDO AO FLAMMARION…

Alguns dizem que Camille Flammarion oscilava entre explicações espiríticas e explicações pelo inconsciente. Na verdade, ele vivia e valorizava a dúvida. Por isso, se irritava com todos os que têm certeza absoluta das coisas. Criticava a postura não científica dos espíritas que têm certeza de que foi realmente Sócrates, Platão e companhia a trazer-lhes a doutrina. Mas, criticava principalmente a postura anti-científica dos próprios cientistas, que negam a priori, ou com pouquíssimos elementos para tal.

São suas palavras nas sombras da dúvida:
“Não encontro nada do que procuro, o Espiritismo não me satisfaz, e eu sou tentado a dizer com Dante: A floresta que me envolve é obscura, áspera e selvagem“.

Para logo se erguer na dúvida construtiva:
“Devemos compreender que não podemos tudo compreender”.

FLAMMARION ESPÍRITA?

“Em 31 de março de 1869, o chefe da escola espírita, Allan Kardec, morreu subitamente, aos 65 anos, e em 2 de abril seria sepultado no cemitério do Norte. Relatei mais acima como havia entrado em relações com ele no mês de novembro de 1861. Embora meu trabalho não me permitisse nenhuma assiduidade às reuniões da sociedade espírita da qual ele era o presidente-fundador, o comitê dessa sociedade convidou-me, em seu nome e no de Madame Allan Kardec, para presidir as exéquias civis e pronunciar um discurso. Eu estava me mantendo à distância desde algum tempo sobretudo, não admitindo que o espiritismo pudesse ser a base de uma religião antes que os fenômenos fossem cientificamente demonstrados e explicados. Contudo, rendi-me a tão honorável convite… (…) O Comitê me propôs suceder Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Recusei, sabendo que nove entre dez de seus discípulos continuariam a ver ali, durante ainda muito tempo, uma religião, em vez de uma ciência, além do que a identidade dos “espíritos” está longe de ser provada. Quarenta anos se passaram desde então. Os seguidores de Allan Kardec pouco mudaram sua fé; a maior parte recusa ainda a análise científica, única que poderia nos esclarecer exatamente”.
(Camille Flammarion
Memórias biográficas e filosóficas de um astrônomo
Ernest Flammarion Editeur, Paris, 1911 — Em facsímile da Gallica.bnf.fr).

Flammarion era um geniozinho de 19 anos quando encontrou-se com Kardec e começou a frequentar a sociedade espírita de Paris. Aos 27 já o vemos afastado do espiritismo, e recusando convites da própria Amelie Boudet para retornar em posição de destaque. Ele morreu aos 83. Seu afastamento precoce se deu por não concordar com os rumos que o presidente-fundador dava ao movimento: sem ter ainda construído uma metodologia que identificasse os espíritos de forma rigorosamente cientifica, ele não só os aceitava como tais, como os recebia na condição de sábios, enviados por Deus para procederem a uma nova grande revelação para a humanidade. Uma humanidade que, àquela altura, já prescindia de revelações divinas, pois adquirira maturidade suficiente para desvendar os segredos da natureza por si mesma. Aliás, poucos anos depois aposentaria o próprio Deus.
É incrivel como ainda hoje, no século XXI, encontramos pessoas que dizem ser científico sentar-se à frente de uma jovem em transe e acreditar-se estar recebendo de um Galileu ou Leonardo, profundas revelações ou soluções de problemas que temos condições e obrigação de buscar pela filosofia e pela ciência.
Agora, como religião, é outra coisa. Como religião, aceitamos de bom grado, principalmente se mantém nossa auto-estima, nossa felicidade e nossa saúde, até a revelação de um mendigo.
Daí porque Kardec, ao fim da vida, entregou os pontos e admitiu que era presidente-fundador de uma religião, ainda que, relutava, “em sentido filosófico”.
Mas, o mais incrível de tudo é a teimosia cega com que os intelectuais espíritas repetem o lugar-comum de que o espiritismo era científico na Europa e foi transformado em religião no Brasil, ante toda essa evidência histórica em contrário!

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