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30/05/2017

Filosofia Espiritualista João Donha


O termo “espiritualismo” foi colocado no jargão filosófico no século XIX, por Victor Cousin, quando elaborou o programa dessa filosofia no prefácio de sua obra “Du vrai, du beau e du bien”. Ele assim se expressou: “A nossa verdadeira doutrina, a nossa verdadeira bandeira é o Espiritualismo, essa filosofia tão sólida como generosa, que começou em Sócrates e Platão, que o Evangelho difundiu no mundo, que Descartes colocou nas formas severas do gênio moderno, … que no princípio deste século (XIX) Royer Collard veio reabilitar no ensino público ao passo que Chateaubriand e Madame de Staël a transportaram para a literatura e para a arte … Essa filosofia ensina a espiritualidade da alma, a liberdade e a responsabilidade das ações humanas, as obrigações morais, a virtude desinteressada, a dignidade da justiça, a beleza da caridade; e além dos limites desse mundo, ela mostra um Deus, autor e modelo da humanidade … Essa filosofia é a aliada natural de todas as causas justas”. (1)

Victor Cousin nasceu em Paris em 1792. Foi sucessor de Royer Collard na cátedra de história da filosofia na faculdade de letras de sua cidade e exerceu enorme influência na filosofia francesa da primeira metade do século XIX. Foi considerado durante muito tempo o filósofo ditador do pensamento francês, até que bateu de frente com um ditador de verdade, o Napoleão III, e retirou-se para Cannes, onde morreu em 1867. Em sua juventude foi um entusiasta do idealismo alemão, tornando-se bom divulgador de Kant, Fichte, Schlling e Hegel na França. Mas o cerne de sua filosofia é o ecletismo. Ele acreditava que nenhum dos sistemas filosóficos detém toda a verdade, assim como, nenhum deles pode ser descartado como falso. São verdades incompletas. Trata-se pois, de se buscar uma conciliação, aproveitando-se o que há de certo em cada um deles. (2)

A filosofia espiritualista francesa do século XIX surgiu como reação ao exagerado materialismo pós-revolucionário, que no momento se manifestava no cientificismo positivista. Teve representantes em vários países, começando por Maine de Biran (1766-1824), na própria França, passando pelos italianos Mazzini, Gioberti e outros, pelo alemão Lotze, entrando pelo século XX com Henry Bérgson (1859-1941). Na França vamos encontrar, ainda, em uma vertente tradicionalista católica do espiritualismo, Joseph De Maistre e Felicité De Lamennais.

De Maistre, nascido na Sabóia em 1753 e falecido em Turim em 1821, teve enorme projeção filosófica na França, mas sua vida política foi ligada à Itália. A idéia central de sua filosofia era a existência da providência divina manifestando-se na história e provocando a evolução da humanidade. Tal como Lamennais (1782-1854), De Maistre acredita que a razão individual é incapaz de conhecer a verdade plena, necessitando da fé e da razão universal. Por suas posições religiosas chegou a ser chamado de “profeta do passado”. Mas, ao menos em um de seus discursos, em sua obra“Soirées de Saint-Petersbourg”, de quando era embaixador do rei Vitor Emanuel I na Rússia, publicada em 1821, faz profecias futuristas. E Kardec as transcreve na Revista Espírita de abril de 1867. Vejamos alguns trechos de De Maistre: “Várias profecias contidas no Apocalipse se referiam a nossos tempos modernos. Um desses escritores, até chegou a dizer que o acontecimento estava começando, e que a mão francesa deveria ser o grande instrumento da maior das revelações… Deus fala uma primeira vez aos homens no Monte Sinai e esta revelação foi concentrada, por motivos que ignoramos, nos estreitos limites de um só povo e de um só país. Após quinze séculos, uma segunda revelação se dirigiu a todos os homens sem distinção, e é a que desfrutamos… juntai a espera dos homens escolhidos e vereis se os iluminados estão errados ao encarar como mais ou menos próxima uma terceira explosão da onipotente bondade em favor do gênero humano…”

Logo após a leitura desse discurso, em sessão da Sociedade de Paris de 22 de março de 1867, Kardec invocou o espírito De Maistre, que confirmou sua previsão sobre a terceira revelação e disse participar ativamente dela, ainda que anônimo, do plano espiritual.

O outro expoente do espiritualismo já citado, Lammenais, é o campeão de comunicações mediúnicas em toda a história kardequiana da Revista Espírita, quase sempre pela mediunidade do Sr. Didier. Enquanto que Madame de Staël é, também, uma das entidades que mais se comunicam, e Chateaubriand faz ali sua aparição em 1860.

Quanto a Cousin, não o encontramos citado na Revista Espírita, mas não podemos negar que Kardec professe um ecletismo semelhante ao dele pois adota na ciência, encarada como vestíbulo da filosofia, um rigoroso positivismo, e na própria filosofia, um espiritualismo aliado a todas as justas causas da humanidade.

Em outro discurso, inserido na mesma edição da Revista em que aborda De Maistre, Kardec diz: “Moisés e o Cristo tiveram sua função moralizadora. A gênios de uma outra ordem são deferidas as missões científicas. Ora, como as leis morais e as leis da ciência são leis divinas, a religião e a filosofia não podem ser verdadeiras senão pela aliança destas leis”. E, a seguir, faz um brilhante resumo do espiritualismo espírita: “O Espiritismo é baseado na existência do princípio espiritual, como elemento constitutivo do universo; repousa sobre a universalidade e a perpetuidade dos seres inteligentes, sobre seu progresso indefinido, através dos mundos e das gerações; sobre a pluralidade das existências corporais, necessárias ao seu progresso individual; sobre sua cooperação relativa, como incarnados e desencarnados, na obra geral, na medida do progresso realizado; na solidariedade que une todos os seres de um mesmo mundo e dos mundos entre si”.

Uma manifestação mais explícita do ecletismo de Cousin está na Revista Espírita de março de 1862, onde o pintor seiscentista Nicolas Poussin, através da psicografia do mesmo Sr. Didier, propõe uma aliança entre o realismo e o idealismo para salvar a pintura do século XIX.

Talvez por todas estas conexões Kardec tenha colocado no frontispício das edições atualizadas do Livro dos Espíritos a expressão “Filosofia Espiritualista”.

(1) Nicola Abbagnano; Dicionário de Filosofia; verbete “espiritualismo”; Editora Mestre Jou.
(2) Luís Castagnola; História da Filosofia; 5a. parte, Cap. III; Edições Melhoramentos.

(Publicado em fevereiro 2005 no site http://www.carlosparchen.net)

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