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26/11/2020

Fenômenos Hipnóticos e Histéricos



Se existiu no mundo um homem, por educação científica e quase por instinto, contrário ao Espiritismo, esse fui eu, que, da tese: Ser toda força uma propriedade da Matéria e a Alma emanação do cérebro -, havia feito a preocupação mais tenaz da vida, eu, que havia zombado por muito tempo dos Espíritos das mesinhas… e das cadeiras!

Mas se sempre nutri grande paixão pelo meu lábaro científico, tive outra ainda mais fervorosa: a adoração da verdade, a constatação do fato.

Ora, eu que era assim hostil ao Espiritismo, a ponto de não aquiescer por largo tempo em ao menos assistir a uma experiência, deveria, em 1882, presenciar, na qualidade de neuro patólogo, fenômenos psíquicos singulares, que não encontravam nenhuma explicação na Ciência, salvo a de ocorrerem em indivíduos histéricos ou hipnotizados. – Cesare Lombroso


Certa manhã daquele ano, fui chamado para a Srta. C. S. , de 14 anos de idade, filha de um dos homens mais ativos e mais inteligentes da Itália, que tinha também mãe sã, inteligente e robusta, mas dois irmãos crescidos extraordinariamente na estatura, nas proximidades da puberdade, e com alguma turbação pulmonar; e a própria C. S. , que era de gentil aspecto, altura de 1,54, com pupila um pouco midriática, tato normal e normal sensibilidade dolorífica e às cores, quando na vizinhança da época púbere cresceu subitamente 15 centímetros, e teve, nos primeiros acenos menstruais, graves fenômenos histéricos no estômago (vômitos, dispepsia), e por isso, durante um mês, só pôde ingerir alimentos sólidos, e num outro mês alimentos líquidos, apresentando, no terceiro mês, acessos de convulsões histéricas, hiperestesia incrível, pois um fio posto sobre a mão lhe parecia ter o peso de uma barra de ferro.

Em outro mês, manifestou cegueira e pontos histerogênicos no dedo mínimo e no reto, que, tocados, provocavam convulsões, bem como paralisia muscular no movimento das pernas, com reflexos exagerados, contraturas, energia muscular aumentada, sendo que o dinamômetro passava, pressionado pela mão, de 32 a 47 quilogramas.

Começaram, então, a apresentar-se nela fenômenos extraordinários.

De início, sonambulismo, durante o qual mostrava singular atividade nos labores domésticos, grande afetividade aos parentes, distinta disposição musical; mais tarde, apresentou mutação no caráter, audácia viril e imoral; mas, o fato mais estranho era que, enquanto perdia a visão com os olhos, via, com o mesmo grau de acuidade (0 7° da escala de Jager), pela ponta do nariz e lóbulo esquerdo da orelha, lendo, assim, uma carta que então me viera dos Correios, enquanto que eu lhe vendara os olhos, e pôde distinguir os números de um dinamômetro.

Curiosa era depois a nova mímica com que reagia aos estímulos levados aos que chamaremos órgãos ópticos transitórios e transpostos.

Avizinhando, por exemplo, um dedo à orelha ou ao nariz, ou fazendo menção de os tocar, ou ainda melhor, fazendo com uma lente incidir um raio de luz de lâmpada, mesmo à distância e por fração de minuto, ressentia-se vivamente e irritava-se.

– Quereis cegar-me? – gritava.

Depois, com instintiva mímica inteiramente nova tão nova quanto o fenômeno, movia o antebraço a defender o lóbulo da orelha e a extremidade do nariz, e assim permanecia por alguns minutos.

Também o olfato estava transposto: os amoníacos e a assafétida não lhe provocavam a menor reação, quando colocados sob o nariz, enquanto que uma substância ligeiramente odorífera, sob o queixo, dava lugar à viva impressão, e a mímica toda especial. Assim, se o aroma lhe era agradável, sorria, piscava os olhos e respirava com maior freqüência; se o perfume desagradava, levava rapidamente a mão à dobra do queixo, tornado este a sede do olfato, e voltava com rapidez à cabeça para o lado. Mais tarde, o olfato se transferiu ao dorso do pé, e então, quando um odor a desagradava, movia a perna para a direita e esquerda, contorcendo também todo o corpo; quando agradava, permanecia imóvel, sorridente, respirando mais freqüente.

Vieram depois fenômenos de profetismo e de lucidez, pois previa com rigor, direi matemático, com 15 ou 16 de antecedência, o dia dos acessos, a hora em que sobreviriam e o metal apto a fazê-los cessar.

Assim, a 15 de Junho predisse que a 2 de Julho teria delírio e em seguida 7 acessos catalépticos, que cessariam com ouro, e, para 25 desse mês, faringismo e dores nos membros; para 6 de julho, catalepsia à primeira gota de água que lhe fosse atirada, e calma até 12, no qual seria presa de acesso às 6 da manhã, com tendência a morder e a despedaçar, e que só se acalmaria mediante meia colherinha de quinina e três gotas de éter.

E tudo aconteceu exatìssimamente como houvera vaticinado.

No dia 14, predisse que os quatro acessos do dia 15 seriam sanados com chumbo. Em verdade, porém, este ajudou pouco, sendo mais eficaz o ouro; mas, se houve engano nisto, este não se positivou na designação da hora, preanunciada exatamente, e no número de acessos.

Mais tarde, profetizou aventuras que deviam atingir o pai e o irmão, as quais, dois anos depois, se verificaram; viu também, estando no leito, o irmão que, nesse momento, se encontrava em um teatro distante mais de um quilômetro da sua casa.

Estes fenômenos de nenhum modo são isolados ou únicos. Já em 1808, Petetin (1) estudou oito mulheres catalépticas nas quais os sentidos externos eram translocados para a região epigástrica ou para os dedos das mãos ou dos pés.

Em 1840, Carmagnola, no (Giornale dell’Accademia di Medicina), narrava um caso inteiramente análogo ao nosso.

Tratava-se de uma jovem, de 14 anos de idade, também de recente catamênio, sofrendo tosse convulsiva, cefaléia, delíquio, soluços quando bebia; espasmos, dispnéia e convulsões mímicas, durante as quais cantava; modorra que se prolongava por três dias, e verdadeiros acessos de sonambulismo, em cujo decurso via distintamente pela mão e com esta separava fitas e cores, e lia às escuras. Querendo mirar-se ao espelho, ante o qual colocava as mãos, via apenas estas; abaixava-o para ver o rosto e, não o conseguindo, enraivecia-se e fugia, sapateando no pavimento, gesto, o primeiro, espontâneo, instintivo, que reproduz aquele da nossa C. S. , escondendo o lóbulo da orelha irritado pelo imprevisto raio de luz, e que bastava por si mesmo para excluir a simulação.

Note-se ainda que, tal qual no caso de Petetin (e não se dirá mais que se trata de coisas descobertas agora), a aplicação do ouro e da prata calmava as raivas e a retornava alegre, pelo que, durante os acessos, buscava avidamente esses metais.

Certa vez, tocou em bronze, supondo-o ouro, mas, embora completa fosse a sua ilusão, não obteve alívio algum. A seda e as peliças lhe tiravam as forças. Pouco a pouco melhorou, mas reincidia a cada período lunar mensal.

Despine refere o caso de uma Stella, de Neuchâte?, de 11 anos de idade, que, parética, depois de um traumatismo no dorso e aliviada com o uso dos banhos de Aix, após práticas magnéticas apresentava a transposição da faculdade auditiva para várias partes do corpo, mão, cotovelo, espádua, e, durante a crise letárgica, para o epigástrio, juntando a isto facilidade para exercícios natatórios e de equitação, bem como, sob aplicações de ouro, força extraordinária.

Frank (Praxeos Médicae, Turim, 1821) menciona um certo Baerkmann, no qual a audição era transferida, ora para o epigastro, ora para o osso frontal, e ainda ao occipital.

O Doutor Angonoa estudava, em Carmagnola, em 1840, uma G. L. , de 14 anos de idade, tornada dispéptica e amenorreica após um desgosto. Presa de sonambulismo, mais ou menos à meia-noite, identificava moedas aproximando-as da nuca e distinguia aromas com o dorso da mão; mais tarde, em fins de Abril, vista e ouvido emigraram para a região epigástrica, de modo que, olhos vendados, lia um livro posto a poucos passos de distância do seu corpo.

O mesmo esculápio observou certa Piovano, de 22 anos de idade, com catalepsias histéricas e acessos epilépticos, a qual, no sonambulismo artificial, enxergava ora pela nuca, ora pelo epigastro, e olfatava com os pés, pretendendo, ainda, distinguir, no próprio corpo, trinta e três vermes, que, ao fim de algum tempo, expeliu.

Embora de tal não se estabelecesse analogia, o fato se ligava ao que era conhecido: sonâmbulos comuns que vêem perfeitamente quando com os olhos estáticos e insensíveis, com as pálpebras fechadas ou com o globo ocular voltado para o alto, à semelhança de quem dorme.

Evidentemente, eles enxergam por qualquer outra parte do corpo, que não pelos olhos.

Preyer e Berger, ainda que observassem, a exemplo recente de Heidenhain, fatos semelhantes, acreditaram interpretá-los recorrendo à maior sensibilidade tátil ou à maior agudeza visual, que verdadeiramente se observam amiúde em casos tais.

Mas, se essa interpretação pode explicar demais a visão em local escuro, o que não ocorre, não pode explicar a transposição neste caso em que se observam inteiramente idênticas, fora e dentro da crise, a sensibilidade tátil e a acuidade visual. Aqui, a percepção visual se revela em dois pontos da cútis; a sensibilidade é medíocre e não basta para, de qualquer modo, explicar a leitura de um manuscrito.

Se os autores mais modernos não levaram em conta estes casos (e Hasse os averbou de – ilusão), é porque, com tendência louvável, mas também excessiva, só desejavam admitir os fatos que cientificamente se pudessem explicar. Por isso, tardaram em dar crédito ao magnete e a muitos dos resultados que, empiricamente, obtiveram os magnetizadores (catalepsias, hipnoses, hisperestesias), agora veríssimos e até certo ponto explicados (Heidenhain).

A verdade é que uma explicação absolutamente científica não se pode dar destes fatos, os quais entram no vestíbulo daquele mundo que, com justiça, se deve chamar – ainda oculto – porque inexplicado (2). E assim a lucidez só em parte se pode explicar por uma espécie de sugestão, por maior agudeza daquela instintiva consciência do próprio estado, que faz ao moribundo recapitular a sua vida na derradeira hora da existência. Mais ainda melhor se nota o desenvolvimento sucessivo dos fenômenos da própria neurose porque, na excitação extraordinária do êxtase sonambúlico, adquirimos maior consciência do nosso organismo, em cujas condições, à semelhança da engrenagem dos relógios, estão inscritas em potência, em germe, as várias sucessões mórbidas.

Cabe aqui conexar a esses fatos um caso primeiramente revelado pelo nosso Salvioli (3) no sonambulismo, isto é, que o afluxo do sangue ao cérebro é maior do que em vigília, e maior é, pois, a atividade da psique, de igual modo que ocorre aumento na excitabilidade muscular.

Efetivamente, a nossa enferma, que adquiria, em sonambulismo, uma força maior de 12 quilos no dinamômetro, dizia-me que, nesse estado, não podia ficar tranqüila com o pensamento, pois necessitava estar sempre ruminando novas idéias.

Mas, esta conclusão já não serve, quando a lucidez chega a ponto de profetizar o que acontecerá, dois anos depois, ao pai e ao irmão, nem tão- pouco explicar cientificamente a transposição dos sentidos.

Emerge aqui, de modo característico, apenas o fato de que os fenômenos ocorrem em pacientes histéricos e nos acessos hipnóticos do grande histerismo.


 

NOTAS:

(1) – Eletricité animale, Lyon, 1808.

(2) – Por agora, a noção do Duplo (V, cap. Duplos) onde daremos uma tentativa de explicação.

(3) – Archivo di Psichiatria e Scienze Penali, vol. 11, página 415.

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