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24/08/2017

Espiritismo, Política e a nota da ABPE Lucas Berlanza Corrêa


Nos dias que correm, chamou minha atenção um texto intitulado “Manifesto Espíritas em defesa da Democracia”, publicado pela Associação Brasileira de Pedagogia Espírita. Trata-se de um abaixo-assinado pontuando que “integrantes do movimento espírita brasileiro, aqui representados institucionalmente” pela ABPE, decidiram deixar claro seu “posicionamento diante das graves circunstâncias históricas”. O objetivo supostamente é defender os valores democráticos e as instituições “contra retrocessos”, embora reconheçam que a democracia “funciona impulsionada por interesses econômicos, por jogos de poder, manipulada pela mídia corporativa”, e que a Lei é “quase sempre vinculada à subjetividade dos que a praticam, muitas vezes também comprometida com interesses econômicos e sociais”. Apressando-se em negar que o texto esteja encampando a bandeira “desse ou daquele partido específico”, porém, os abaixo-assinados identificam como grande problema no cenário atual, praticamente o único que destacam e que julgam valer a pena mencionar, a necessidade de que “os trabalhadores da Justiça tenham isenção e misericórdia, não se pensando que a Justiça possa ser alcançada por linchamentos midiáticos, que favorecem o ódio, nem pela aberta exceção legal”. Não é difícil para alguém que conheça a crise política vivida pelo Brasil hoje – se formos maduros o bastante para admitir que todo texto possui camadas e existe uma razão subjetiva para a preferência por ênfases e alinhamentos dessa ou daquela espécie – perceber com clareza que a Justiça (sob a forma do trabalho do juiz Sérgio Moro e dos procuradores da Operação Lava Jato) e a imprensa, que divulga as informações, são os grandes motivos de preocupação dos membros da associação. Seria um insulto à inteligência de qualquer cidadão bem informado cogitar que não notaríamos que a falsa polidez do discurso é um pretexto dos abaixo assinados para introduzir todo o gênero de sutilezas que têm sido usadas pelos petistas e por opositores à ideia do impeachment da presidente Dilma Rousseff – que sugerem haver um governo “popular” no poder por mais de uma década, de súbito ameaçado por uma atuação supostamente indevida do Poder Judiciário, merecedora de advertências sub-reptícias. Isso torna o manifesto, sem sombra de dúvidas, um panfleto extremamente mal disfarçado.

É lamentável, em espaço destinado à difusão e reflexão sobre o pensamento espírita em si mesmo, ter-se que falar em política concreta e dilemas partidários; a atitude desagradável dos autores do manifesto nos obrigou a isso, conquanto eles tenham o direito de tomá-la. A posição de Allan Kardec em recomendar a separação das questões de controvérsia política do âmbito das lides doutrinárias é claríssima no regulamento das atividades da Sociedade Parisiense; na Revista Espírita de setembro de 1866, em artigo sobre os irmãos Davenport, o mestre deixou muito claro também que o Espiritismo, conquanto toque em todos os ramos do conhecimento humano, tem seu campo próprio, e “não constitui um culto novo, como não é um sistema particular de política, de legislação ou de economia social”. Pela sua natureza mesma, o Espiritismo penetrou na filosofia social e assumiu posições definidas sobre alguns tópicos, tais como o aborto, a escravidão, a origem e finalidade das legislações, a pena de morte, a desigualdade das riquezas e os direitos da mulher – ainda que muitas entre essas posturas não sejam do agrado de certos ativistas radicais do nosso tempo. Nas páginas dos doze anos da Revista, ele também nos apresentou comunicações mediúnicas variadas com assinaturas que remetem a personalidades de diferentes posições políticas e sociais na história humana, bem como artigos que apreciam obras de autores de distintas correntes, desde socialistas utópicos como Fourier até Adam Smith ou um tradicionalista como De Maistre. Jamais, porém, a despeito de viver na França pós-revolucionária, em meio a toda sorte de caos e disputa política, Kardec encampou a investigação e a filosofia espiritual e moral do Espiritismo sob alguma rotulação partidária, e insistiu em que espíritas devessem forçosamente ser anarquistas, socialistas, sociais democratas, liberais ou conservadores, em matéria de política (embora algumas posturas extremistas e ditatoriais restem inviáveis diante dos nossos princípios). Isso não quer dizer, e nesse ponto divirjo de alguns confrades que opinam na matéria, que ao espírita esteja vedado ter sua preferência político-ideológica ou partidária, ou até participar da política; eu mesmo tenho minhas posições, e para alguns elas podem soar bastante fortes. O espírita deve apenas adotar os valores morais preconizados pela doutrina por paradigma e procurar embasar neles sua atuação social, mas eles não o obrigam a ter essa ou aquela preferência em economia política, assim como, comparando a algo menos relevante, não é o Espiritismo quem define se devo torcer para esse ou aquele clube de futebol. Tudo na vida apresenta seus departamentos.

Isso posto, se nos afigura vergonhoso que os membros da referida associação e os abaixo assinados do referido manifesto, qualquer que seja a realidade brasileira, tenham associado sua posição de espíritas e de integrantes de uma instituição espírita a uma postura política que não tem qualquer vinculação legítima com os princípios sociais gerais que o Espiritismo adota – não estão em jogo, por exemplo, a legalização do aborto ou a aprovação da pena de morte, temas em que o espírita poderia invocar posições do Espiritismo a seu favor, mas sim investigações criminais que afetam a classe política e o processo de impeachment de uma presidente da República, questões sobre as quais qualquer um pode ter suas opiniões, mas que nada dizem respeito com os interesses diretos do Espiritismo. Pior ainda: fazem-no sem admitir que o estão fazendo, dizem nas entrelinhas o que seria preferível dizer com franqueza, o que é o tipo de postura covarde e hipócrita que Allan Kardec jamais adotaria. Não o homem que disse haver “sempre fraqueza em recuar diante das consequências da sustentação das opiniões, mas há casos em que isso equivale a uma covardia tão grande quanto a de fugir no momento da batalha”. Que pelo menos registrassem com todas as letras o que pensam!

Em adendo, depois de criticados, os abaixo assinados publicaram nova nota, após excluírem todos os comentários de contrariedade, alegando que o “analfabetismo funcional” que leva as pessoas à incapacidade de “interpretar um texto” é um grave problema no país, e que, além de precisarmos aprender a travar o debate político com civilidade, devemos reconhecer que os abaixo assinados são “educadores, juristas, escritores, representantes de diversas áreas do conhecimento, alguns são lideranças respeitáveis do movimento espírita, com vários livros publicados, com reconhecimento público de seu trabalho, outros têm representatividade fora do movimento espírita, com titulações e trabalhos reconhecidos até internacionalmente”. Uma lista pomposa de adornos superficiais que não nos dizem nada, afinal, tal como Allan Kardec, de quem eles se apresentam como seguidores, não me importo nem um pouco com seus títulos ou suas comendas quando se trata de defender princípios. Quero dizer que, como espírita que sou, não me sinto representado por esse Manifesto e repudio com todas as minhas forças qualquer manipulação da doutrina que professo com vistas a uma prostituição desavergonhada ao discurso que interessa ao governo petista, no caso em questão, mas, em termos genéricos, a qualquer partido ou liderança temporal.

Os espíritas devem atuar na sociedade, como cidadãos; devem pensar, refletir e tomar posições, se assim o desejarem. Também temos nossa parte no progresso e melhor funcionamento das instituições terrenas. Não lhes é lícito, porém, misturar alhos com bugalhos e subordinar a missão do Espiritismo a pautas transitórias, o que não causa efeito algum além de estimular a cizânia, e correr o grave risco de rebaixar o movimento espírita (ou parte dele) ao posto de cúmplice do lado errado da História – o que caberá a esta última, ao fim, julgar.

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Nota da direção do Jornal de Ciência Espírita

A Doutrina Espírita paira acima de qualquer ideologia social e política. Bem sabemos, que as mudanças de cunho social que desejamos que ocorram na sociedade só irão se materializar, quando concomitantemente, se processarem nos indivíduos que a compõem, uma mudança de ordem moral e espiritual. Não há como existir uma sociedade fraterna e justa, constituída de seres humanos carentes de predicados morais. Com efeito, a doutrina nos ensina, que a conscientização moral e intelectual da humanidade só tende a elevar-se. A evolução é constante e ininterrupta. Amigos, desejamos todos o advento de uma aristocracia intelecto-moral preconizada por Kardec, para a gestão da sociedade humana. Logo, os fins que compartilhamos conjuntamente, os meios que julgamos mais eficazes para atingirmos este desiderato, é que temos como distintos. É verdade, o Espiritismo não tem ideologia política, e muito menos, não se pode apequenar filiando-se a partido político. Contudo, não podemos impedir que os espíritas tenham suas preferencias de qualquer natureza. Assim, se espíritas que compartilham de determinada posição política venham a se expressar em conjunto, não vemos, qualquer demérito nesta atitude. Agora, que fique bem claro, que está é uma posição pessoal de cada um, e não, uma posição do Espiritismo. Como bem asseverado, é um erro que deve ser combatido vincular a Doutrina Espírita a manifestações à favor ou contra este ou aquele governo.

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2 Responses “Espiritismo, Política e a nota da ABPE Lucas Berlanza Corrêa

  1. Dener dos Santos Coelho
    11/05/2016 at 13:46

    Com relação a matéria: “Espiritismo, Política e a nota da ABPE”, escrita por Lucas Berlanza Corrêa venho opinar da seguinte forma:
    Concordo com o articulista na crítica a utilização de uma instituição espírita na difusão de manifestos políticos. Admito, no entanto, a minha concordância com a opinião veiculada, na certeza de que algo muito maior esteja em andamento, não sendo este o espaço adequado para discussão. A História se encarregará, no momento oportuno, de esclarecer os erros e os acertos de determinadas escolhas que as sociedades optam por seguir. Olhando um pouco para trás, pergunto: de que forma os espíritas se posicionaram (ou deveriam se posicionar) frente aos governos autoritários do passado em nosso país? Frente a comprovação de crimes cometidos pelo Estado, de forma institucional, tais como tortura, estupros, assassinatos etc, não seria de se esperar alguma reação da nossa parte? Há de se admitir e reconhecer a possibilidade de haver (ou ter havido) entre nós aqueles que apoiaram ou fizeram parte destes governos. Seria lícito que, em nome da unidade do movimento, nos eximíssemos de nos manifestar frente ao arbítrio?

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    • Joao Fausto Souza
      05/07/2016 at 10:46

      Parece que leu mas não entendeu…O que o autor do texto propõe é não vincular uma doutrina ou filosofia à defesa de um determinado grupo que se coloca como o maior defensor dos fracos e oprimidos, quando sabemos que a ditadura da esquerda é tão igual ou pior que a da direita, justamente por vir em pele de cordeiro. A defesa do texto é pelos princípios do espiritismo, como: caridade, solidariedade, respeito às diferenças e principalmente senso de justiça, assim prega a defesa de todo ser que tem estes princípios como meio de vida, seja ele de esquerda, de direita ou de centro!

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