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29/03/2020

Escutemos os Mortos – Considerações de M. Vassallo


Quando três espíritas se sentam em torno de uma mesa, apenas a mesa tem espírito. – Vassallo

Antes de expor nossas pesquisas experimentais, detenhamo-nos, a princípio, sobre uma curiosa manifestação da qual foi objeto, há alguns anos, o cético diretor do jornal Il Secolo XIX, M. Vassallo.

Ele tinha começado zombando o espiritismo e não deixava passar nenhuma oportunidade de lançar flechas afiadas sobre ele. Foi ele que lançou a reflexão humorística que prefacia este artigo.

Gozação pouco elaborada e, diga-se a nosso turno, gozação sem espírito. Não demorou a reconhecer seu erro e a reformar seu primeiro julgamento; depois de ter estudado a questão, coisa que nossos opositores quase nunca fazem, ele concluiu o seguinte: « Não há maior interesse que o de poder dizer à alma humana, pela voz da Ciência: você existe e existirá depois da dissolução da matéria. Tenho a firme convicção de que os estudos mediúnicos podem, por si só, levar a esse resultado e que é preciso impor aos intelectuais o desvelamento desse grande problema: a descoberta absoluta da Verdade».

De onde vem essa mudança radical? Das provas de identidade que lhe foram dadas por Eusápia, nas seguintes circunstâncias:

Depois de ter se familiarizado com os fatos pelos estudos seguintes, na sessão de 18 de dezembro de 1901, no Circolo Minerva, Vassallo se sentiu agarrado por trás por dois braços que o enlaçavam afetuosamente, enquanto duas mãos de dedos longos e afilados de uma pessoa jovem lhe tomavam a cabeça, acariciando-a. Durante esse tempo, uma jovem cabeça o beijava repetidamente; todos ouviam o barulho dos beijos. Vassallo pergunta o nome da entidade que lhe manifestava sentimentos tão ternos e, pelos movimentos da mesa, obtêm-se o nome Romano; era um dos nomes de seu filho falecido, ignorado até por seus parentes mais próximos, pois sempre o chamaram Naldino.

Tendo solicitado uma prova de identidade, um dedo atravessa a abertura do paletó e vai se colocar contra o bolso interior no qual, diz Vassallo, se encontrava um porta retrato contendo a foto de seu filho.

O cuidado tomado pela entidade em escolher o nome que era ignorado por todos indica sua vontade de ser reconhecido sem que se possa invocar a transmissão de pensamento, pois Vassallo declarou em seguida que não esperava por esse nome, que jamais era empregado. Vamos constatar que o fantasma deu outras provas, ainda mais convincentes.

Vassallo pediu uma prova mais completa e a mesa lhe respondeu afirmativamente, solicitando menos luz. Obedece-se a ela colocando uma vela acesa sobre o assoalho de uma outra sala. Dessa maneira, a luz estava fraca, porém suficiente para que se pudesse distinguir a visão de Eusapia e a dos outros observadores.

De repente, o doutor Venzano vê subir entre a senhora Ramorino e Eusapia uma massa vaporosa de forma longa, que se condensa gradualmente no alto e que toma o aspecto de uma cabeça humana sobre a qual sucessivamente aparecem em relevo uma cabeleira muito abundante, olhos, um nariz e uma boca. Nesse momento, o professor Porro e o Cavaleiro (1) Erba exclamam ao mesmo tempo: “Uma silhueta! Uma silhueta!” Vassalo, que observa de fora, volta-se a tempo de ver a cabeça que avança repetidamente acima da mesa em sua direção, depois se dissolvendo.

Observemos agora o episodio que segue; ele prova que Vassallo não foi o joguete de uma ilusão ao reconhecer seu filho. Quanto a alucinação, ela não teve como ter sido invocada, a forma tendo sido vista por quatro assistentes, como se fosse uma figura comum.

O doutor Venzano traça a lápis sobre uma folha de papel um croqui representando a forma percebida e, ao mesmo tempo, Vassalo, muito hábil desenhista, reproduz com bastante cuidado o perfil de seu filho. Constata-se, então, as feições de semelhança entre a figura aparente, os croquis desenhados e o retrato que Vassallo possuía. De fato, as linhas de contorno da cabeça e o aspecto piriforme desta última se correspondem maravilhosamente.

Se se quisesse explicar a aparição por uma transfiguração do médium, como se explicaria que este, não sabendo nem desenhar nem modelar, fosse capaz de dar à aparição uma semelhança tão forte de modo que o pai, que é artista, e o doutor Venzano fizessem um croqui maravilhosamente fidedigno? Poder-se-ia bem dizer, sem outras provas, que ela toma a imagem no subconsciente de Vassallo. Isso não é suficiente pois mesmo que se tratasse de um pintor ou um escultor muito hábil, não seria possível reproduzir instantaneamente qualquer figura. Se se quer imaginar que o perispírito toma automaticamente a forma de uma imagem mental muito intensa, por que não se obteriam sempre semelhanças ao invés de fantasmas que, no mais das vezes, não representam ninguém conhecido? E, depois, se a alma humana possuísse poderes tão prodigiosos, não é evidente que ela seria independente do corpo? Ela teria uma autonomia própria, uma existência suis generis que o organismo corpóreo não poderia engendrar, ele que muda perpetuamente, de modo que o desaparecimento total desse corpo não entravaria mais as manifestações anímicas, que ela não as dificulta durante as sessões. Desejando escapar da prova direta da vida após a morte pelas aparições de defuntos, os adversários do espiritismo lhe fornecem outros argumentos que conduzem às mesmas conclusões.

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Na sessão de 26 de dezembro, na penumbra, uma mão, a de Naldino, acaricia Vassallo; este solicita que seu filho encontre sobre sua pessoa um objeto que, quando estava em vida, lhe foi caro. Logo ele sente destacar de sua gravata um alfinete que tinha sido dado a seu filho e que ele tinha colocado lá justamente naquela noite, para constatar se ele lhe seria retirado pela aparição.

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Tendo pedido ainda mais uma prova, Vassallo se sente logo em seguida preso sob as axilas por duas mãos que o suspendem, obrigando-o a se levantar e o puxam por dois passos mais ou menos, para trás de sua própria cadeira, ou seja, a uma distância de mais de um metro do médium.

Ele sente, então, um corpo humano se apoiar sobre seu ombro e um rosto que, a seu ver, tem as características do falecido Naldino, fica algum tempo junto a ele. Ele recebe em seguida muitos beijos dos quais todos ouvem o barulho e, nesse tempo, percebem-se frases interrompidas, pronunciadas por uma voz fraca que responde às questões reiteradas por Vassallo. Doutor Venzano, sem perder o controle, avança e consegue dizer muitas palavras em dialeto genovês, entre os quais se encontram as palavras caro papa. O diálogo entre a entidade e Vassallo continua por algum tempo, até o momento em que, depois do som de um beijo, doutor Venzano consegue captar essa frase inteira: questo è per la mamma (isso é para mamãe).

Quase de repente a forma se esvai e a mesa pede tiptologicamente que se acenda a luz. Quando a luz elétrica é acesa, vê-se avançar em direção a Vassallo, que está de pé, uma forma humana envolvida nas cortinas da sala, que o abraça enquanto uma mão, sempre coberta da cortina, toma a de Vassallo e a retém por algum tempo. O médium está em sua cadeira, as mãos em contato com as dos controladores.

Venzano enfatiza que as palavras pronunciadas, mesmo por ventriloquismo, não poderiam vir do médium, a princípio por conta da direção da voz e depois porque era o puro dialeto genovês que tinha sido empregado, sem nenhum traço desse sotaque napolitano do qual Eusapia jamais poderia se desfazer.

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Se aproximarmos a essas experiências já antigas, porém não ultrapassadas, outras experiências mais recentes feitas no Instituto Metafísico, veremos que o médium polonês Franek Kluski pôde reproduzir em Paris fenômenos idênticos àqueles produzidos em Gênova pelo médium italiano Eusapia e isso nas condições de controle mais severas que somente as pessoas de má fé ainda sonhariam contestar.

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 Eis o relato de uma cena impressionante, publicado pelo principal interessado, o conde Potocki, na Revista Metafísica de julho-agosto 1921, página 297:

(Sessão de 20 de novembro de 1920)

“O médium está sentado diante da mesa, fora da cabine escura. Dr. Geley segura a mão esquerda do médium. Potocki segura a mão direita. Os assistentes formam a cadeia. O médium logo cai em transe, o que se percebe por sua respiração característica. Aparição de luzes fosforescentes acima e ao lado do médium. Eu sinto carícias e sinto que há alguém entre mim e Franek. À minha esquerda, os véus da cabine escura começam a se movimentar e a inflar, como se um vento os empurrasse. Eu sinto que alguém se cobre com um véu, se inclina sobre mim e muito discretamente me diz ao ouvido o nome “Thomasch” (Tomas, em polonês). Ele soletra em seguida o nome tiptologicamente. Eu pergunto: É Thomas Potocki? (um primo com o qual eu era muito ligado, falecido há oito anos). Eu recebo pancadas bastante fortes e muito repetidas sobre o ombro para confirmar a resposta à minha pergunta. (Meu primo era entusiasta e exuberante. Tratava-se de pancadas que ressoavam estrondosamente sobre meu ombro e que todos os assistentes ouviam.)

“Eu agradeço a ele por ter vindo e pergunto se ele vê, no astral, minha irmã morta há três anos. Resposta: sim. E ao mesmo tempo, eu sinto uma mão de mulher pousar docemente sobre minha testa fazendo o símbolo da cruz dentro de um círculo, como o fazia sempre minha irmã quando viva, quando se despedia de mim. Eu reconheci sua mão, ligeiramente clara pela borda da tela iluminada colocada sobre a mesa que estava a minha frente. A mão passa várias vezes diante de meus olhos e cada vez mais eu tenho a impressão de reconhecê- la. Ela aperta minha mão, bate ligeiramente em meu rosto, acariciando. Eu não tenho mais como duvidar, é certamente de sua mão que eu reconheço o contato. Pouco tempo depois forma-se uma bola luminosa diante de meu rosto. Essa bola se afasta, depois se aproxima bastante de minha face e eu percebo, para minha grande surpresa e alegria, os traços perfeitamente reconhecíveis de minha irmã que me sorri como quando era viva. Ela me parece muito mais jovem, tal como era quando tinha vinte e cinco anos. (Ela morreu com cinquenta e quatro anos!). O topo da cabeça está rodeado por véus de nuvens. A aparição do rosto dura apenas alguns segundos. Eu tive tempo de exclamar: “É ela!”, depois tudo desaparece. A mão traça ainda várias vezes o sinal da cruz sobre minha testa; um beijo sonoro, ainda algumas batidinhas no rosto e toda manifestação cessa. – J. Potocki.”

Essas duas citações selecionadas de uma quantidade hoje bastante importante de manifestações metafísicas suspende todas as dúvidas que se poderia conservar a princípio sobre a realidade dos próprios fatos e depois sobre sua interpretação.

Nos dois casos, uma cabeça aparece, é reconhecida, dá beijos que são ouvidos por todos que assistem, assim como uma voz que não provinha de nenhuma das pessoas presentes. O controle do médium era feito por experimentadores qualificados, habituados a esse tipo de pesquisas. Nada permite supor que eles pudessem ser vítimas de uma fraude vindo de fora, ou que eles mesmos tivessem se dado o estúpido prazer de elaborar uma boa farsa.

Além disso, em outras sessões do Instituto Metafísico as formas materializadas eram tão pouco alucinatórias que elas deixaram modelagens de seus membros temporariamente objetivadas; todas precauções foram tomadas secretamente para que se pudesse reconhecer, por um processo químico especial, se houve substituição da parafina empregada. No mais, essas modelagens, submetidas a experts, foram declaradas inimitáveis por quaisquer procedimentos técnicos atualmente conhecidos.

Eis aqui fatos contra os quais todas as negações vêm se dissipar, pois, enfim, essas modelagens são testemunhas irrecusáveis; são os próprios negadores a estabelecerem prova contrária ao fazerem coisas semelhantes nas mesmas condições.

Essas novas experiências não fazem mais que confirmar aquelas numerosas então obtidas há mais de 30 anos pelo professor Denton, na América, e pelo Sr. M Reymers e Oxley, na Inglaterra.

Quanto aos insucessos constatados, seja na ocasião de pesquisas da Sorbonne seja aquelas para as quais o Matin organizou um concurso, eles não provam nada contra os resultados dos quais falamos. É um princípio elementar o de que cem experiências negativas não revertem um fato positivo quanto este é bem controlado; é até bastante lógico para alguns.

Também nós assistimos a uma formidável campanha jornalística onde tudo que é considerado nulo, inaceitável, pôde trazer seu ponto de vista. E isso naturalmente produziu ponderações diplomadas. Felizmente o bom senso público se encarregou de colocar as coisas no lugar.

Os dois exemplos que demos são suficientes para o estabelecimento da realidade dos fatos, sem que nós sejamos obrigados a colocar sob os olhos dos leitores os inúmeros atestados e minutas publicadas no mesmo sentido, sobre todos os pontos do globo, desde o começo desse tipo de manifestação.

Eis, então, um ponto conquistado: a vida após a morte é provada pelos fenômenos da mediunidade objetiva. Poderia ela ser assim também para os fenômenos subjetivos?

É precisamente esta a questão que nós nos propomos a resolver nos próximos artigos

NOTAS:

(1) N. do T.: O termo cavaleiro refere-se ao termo empregado pelo autor, chevalier. No entanto, chevalier – originalmente destinado aos membros da ordem da cavalaria da Idade Média – parece indicar, neste texto, o sentido de título honorífico de uma dada Ordem.

Por favor, avalie este artigo.

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