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23/07/2017

EM BUSCA DO SANTO GRAAL – A história da Revista Espírita e do Espiritismo após Kardec João Donha


“Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos. Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e do ciúme?…” (Allan Kardec; G, I, 52, N.1).

Onde está essa “amplíssima correspondência”? Onde foram parar esses “arquivos preciosos” de “documentos autênticos” com os quais a posteridade poderia “julgar os homens”?

Os documentos históricos do espiritismo sofreram as consequencias de terem sido, os negócios da doutrina, tratados sempre como algo de família, constituindo heranças e, consequentemente, dependendo de herdeiros.

Kardec pretendia criar uma sociedade impessoal, mas não deu tempo. Morreu antes de concretizar seus planos e, tudo o que era do espiritismo (sociedade, obras, revista, documentos) tornaram-se a herança de sua esposa, Amelie Boudet.

De início, ela disse que ia tudo gerir; mas, talvez pela idade ou a solidão, acabou por entregar tudo nas mãos do Pierre-Gaëtan Leymarie, que criou uma tal “sociedade para continuar a obra de Allan Kardec“.

Após a morte da herdeira, Amelie, em 1883, e como único remanescente da tal sociedade, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos documentos de Kardec. Uma parte, ele foi publicando na Revue, e acabou por usar em “Obras Póstumas“; outra parte, segundo uma lenda, ele teria enviado para a FEB, onde se encontra sepultado num cofre-forte. É bom lembrar que Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente o Rio; ele esteve exilado aqui em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.

O que sobrou na França foi herdado (novamente em família!) pelo filho dele, o Paul Leymarie. Este, após um breve intervalo de três anos em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, dono absoluto dos destinos do espiritismo até 1914, quando, em função da I Guerra Mundial, desistiu. O que não foi de todo mal, pois o Paul Leymarie vendia até bolas de cristal pela Revue.

Antes mesmo de terminar a I Guerra, em 1916, um rico empresário francês, o Jean Meyer, assumiu o movimento órfão (Denis e Delanne eram sumidades intelectuais; eram referências; mas alguém tinha que cuidar dos negócios). As pessoas malvadas, como eu, imaginamos o Meyer compensando regiamente o Paul.

Meyer criou a Casa dos Espíritas, para onde levou os documentos e objetos pessoais de Kardec. Este mesmo mecenas fundou o Instituto de Metapsíquica, sob o comando inicial do Gustave Geley, e, onde foi gerado o Tratado de Metapsíquica, no qual o Richet diz que o “espiritismo é inimigo da ciência”. Jean Meyer foi o dono do movimento até sua morte em 1931. Foi ele quem inaugurou a vocação assistencialista do espiritismo.

Bem, até aí os jacobinos; a partir daí, os xenófobos.

Assume Hubert Forestier, e torna-se tão particularmente dono que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Morre em 1971, deixando um movimento mais que anêmico, agonizante mesmo.

Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para o André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. O resto — muito pouco: o nome da Revue e da Societé –, ficou nas mãos do Dumas.

André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestigio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da Revue Spirite para “Renaitre 2000“, e a societé para uma tal “sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência“, colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o “espiritismo francês”.

Dizem que os brasileiros tentaram recuperar o nome da Revue Spirite,uma vez que o cidadão não pretendia mais publicá-la, mas o Dumas não aceitou. Alegou que o movimento no Brasil se desviara para o religiosismo e não abriu mão.

Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se comunicou no grupo dele, o Cercle Spirite Allan Kardec, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. Ele o tenta até hoje.

Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, retornando das desativadas colônias, resolveu, certamente com o patrocínio da FEB, retomar as coisas. Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela Federação Espírita Francesa e Francofônica, da qual é fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI – Conselho Espírita Internacional.

E os documentos de Kadec, suficientes para comprovar ou desmentir o famoso “controle universal” num julgamento pela posteridade, não deveriam acompanhar toda essa trajetória de mandos e poderes, acondicionados num majestoso baú?

Deveriam, mas o baú transformou-se num “cálice sagrado”, num Santo Graal, ou seja, numa lenda.

Conta Wallace Leal que quando tentava aproximação com o Forestier (aquele que foi dono de 1931 a 1971) para saber dos documentos, ele respondia friamente que a Maison tinha sido pillé pelos alemães. Dizem que os papéis de Kardec foram queimados para aquecer os soldados alemães, aquartelados na Casa dos Espíritas, por uns quatro invernos, os mais rigorosos do século.

Mas, existe outra saga. Em 1939, Canuto Abreu seria um adido na embaixada brasileira em Paris, quando foi procurado por algumas pessoas que se diziam a mando dos espíritos — que por certo realizaram escutas espirituais no gabinete do Hitler e souberam da iminente invasão alemã à Cidade Luz — e lhe entregaram valiosos documentos de Kardec, para que ele os salvasse trazendo para o Brasil. Para que não se fuja à regra lendária, tais documentos, “salvos dos alemães”, acabaram transformando-se numa herança, ora sepultada em mãos dos descendentes do Canuto.

Assim, a lenda divide os famosos documentos tão cuidadosamente arquivados e citados por Kardec em três conjuntos: um nos porões da FEB; outro com os herdeiros do Canuto; e, o que ficou na França, queimado como combustível pelos nazistas.

Consideremos perdido este último lote. O que está em poder da FEB, segundo a lenda, foi-lhe dado pelo Leymarie, na época legítimo proprietário dos mesmos, legitimando, dessa forma, sua apropriação por essa entidade. Mas, e o lote em poder dos descendentes do Canuto? Ao Wallace, Forestier teria dito que foram “pilhados”, sem se referir à história do Canuto. Teriam, aquelas misteriosas figuras, entregue ao Canuto sem o conhecimento do Forestier, seu proprietário no momento? Não teria havido, assim, uma apropriação indébita?

Por outro lado, considerando as simpatias do governo brasileiro por Hitler — o que só mudaria com as mudanças no rumo da guerra, lá por 1942 –, e os agrados despendidos pelas grandes potências no jogo político internacional, se um adido da embaixada brasileira em Paris se dirigisse à autoridade militar alemã, invasora, e solicitasse permissão para “retirar alguns documentos daquela Maison que seus soldados ocuparam”, seria prontamente atendido. Daí, a “pilhagem” não teria sido feita propriamente pelos nazistas.

Mas, e as datas? Os tais et’s teriam aparecido em 1939, e a invasão alemã ocorreu em junho de 1940. Bem, se esta for uma história dispersiva surgida duas ou três décadas após o ocorrido, um deslocamento de seis meses é bastante viável.

Neste caso — e considerando-se a moda atual de buscarem, os países, nos foros internacionais, documentos, relíquias e artefatos arqueológicos que lhes foram pilhados durantes séculos de guerras e colonizações –, o que poderia acontecer se o Roger Perez, ou o Estado Francês — ou mesmo um franco-atirador — se dessem conta de que importantes documentos franceses, pilhados durante a ocupação alemã, se encontram escondidos em São Paulo?

Porque, se esta historia for verdadeira — e, não, apenas uma lenda, como parece ser –, há uma diferença em relação às cartas de Kardec que temos visto em leilões. Uma carta, uma vez enviada e recebida, passa a integrar o acervo do destinatário. Portanto, se o Freud tivesse escrito uma carta à minha bisavó, e agora ela me coubesse por herança, eu faria dela o que quisesse.

Enfim, como em toda lenda, aqui há mais perguntas que respostas.

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