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22/09/2017

Druidismo ontem e hoje Andréa Guimarães


Alguns adeptos do Espiritualismo Moderno e das seitas e doutrinas da nova era, costumam fazer algumas indevidas associações entre a Doutrina Espírita e o antigo Druidismo, pelo fato de compartilharem alguns pontos como a reencarnação pela pluralidade das existências e a hierarquia espiritual (escala dos espíritos), argumentando que Allan Kardec, por ter sido um druida declarado, teria incorporado na Codificação suas ideias preconcebidas acerca da pluralidade das existências. Para um estudante da Doutrina Espírita e sua Filosofia, este é um apontamento incorreto, como o próprio corpo de ensino dos espíritos demonstra, pela clareza e objetividade, e pelo método de aferição criado para a composição segura deste corpo de ensino.  O artigo abaixo, propõe explicar de um modo imparcial e objetivo todos os pontos capitais desta antiga religião, que muito embora tenha pontos similares com várias doutrinas espiritualistas, não é a mesma Doutrina como ensinada pelos Espíritos, e organizada por Allan Kardec, como Doutrina Espírita, Ciência e Filosofia de consequências morais.

Cabe lembrar que semelhanças existem de fato, mas que não podendo ser generalizadas, suas comparações se restringem a pontos chaves; pontos estes que a maioria das religiões, seitas e doutrinas antigas compartilham; também e principalmente é necessário destacar que a Doutrina Espírita não é uma religião. Segue abaixo alguns pontos de coesão:

  • A sobrevivência do ser pensante, após a desagregação corporal.
  • A pluralidade das existências, através de múltiplas encarnações.
  • A progressão espiritual e a hierarquia dos Espíritos.

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Por Andréa Guimarães em [DRUIDISMO]

Originalmente associado às tradições dos celtas — povo de origem indo-européia que habitava extensas áreas da Europa pré-romana —, o druidismo é uma religião de natureza pagã. O termo “pagão” tem origem no vocábulo latino “paganus”, que era usado para designar alguém que nasce no “pagus” (o campo, a Natureza). Em termos espirituais, pagão é aquele que acredita na sacralidade da Natureza e de todas as formas de vida. Exemplos de povos pagãos da antiguidade são os gregos, os egípcios, os sumérios, os germânicos e os persas – todos com diversas deidades em seus panteões associadas à Natureza, com deuses e deusas que personificavam as grandes forças naturais do mundo em que vivemos.

Os druidas, sacerdotes dos celtas, portanto, também eram pagãos – como são pagãos atualmente os povos indígenas da Amazônia, os maori da Nova Zelândia, os aborígenes da Austrália, enfim, praticamente todos os povos cujas religiões tenham como foco fundamental a sacralidade da Natureza.

Praticamente tudo o que sabemos sobre os druidas antigos nos foi relatado por historiadores gregos e romanos que tiveram contato com os celtas nos séculos que antecederam a era cristã. Políbio, Amiano Marcelino, Tito Lívio, Julio Cesar e Plínio o Velho (entre muitos outros) escreveram sobre os druidas, descrevendo-os como poderosos sacerdotes, sábios e juristas, mas também como inspirados poetas, místicos e conselheiros. Além de terem sido os sacerdotes dos povos celtas, os druidas desempenhavam todas as funções acima citadas. Foi por isso que Julio Cesar afirmou em seus Comentários da Guerra na Gália que, para se tornar um druida, um jovem candidato deveria dedicar de doze a vinte anos de estudos, dada a enorme quantidade de informações que um druida precisava absorver sobre diversas disciplinas.

Um druida deveria ser tão versado nas leis de seu povo quanto hábil em contar os mitos e lendas que formaram aquele povo. Um druida deveria ser sábio o bastante para aconselhar os reis, como também deveria ser sensível o bastante para praticar a cura no sentido mais amplo dessa palavra (não apenas de curar doenças), um elemento fundamental dos deveres dos druidas, como vemos em uma tríade druídica moderna, que diz:

“Três deveres de um druida:

  • curar a si mesmo;
  • curar a comunidade;
  • curar a Terra.

Pois se assim não fizer, não poderá ser chamado de druida.”

Versos como estes eram usados pelos celtas para facilitar a memorização de diversos níveis de conhecimento – da sabedoria do dia-a-dia às suas leis mais elevadas, das regras sociais à mitologia mais profunda. Isto porque os celtas não usavam a escrita para transmitir seu conhecimento, valendo-se da tradição oral como meio de preservação de sua sabedoria. Obviamente, muito se perdeu com o passar dos séculos, mas a essência do druidismo, seus conceitos fundamentais e suas crenças, permaneceram imutáveis até os dias de hoje.

Depois das invasões romanas na Gália e Grã-Bretanha, foi somente na Irlanda e no norte do País de Gales — territórios jamais conquistados pelas legiões romanas — que o druidismo permaneceu vivo. Graças aos textos oriundos dessas duas regiões, podemos hoje contrapor as informações contidas nos textos clássicos aos usos e costumes dos druidas preservados através de diversas lendas e contos míticos.

Desses textos, percebemos que o druidismo é uma religião que nos traz respostas pontuais a questões prementes do mundo moderno, como a honra aos nossos ancestrais, e o respeito e a integração do ser humano com a Natureza.

Quando o cristianismo chegou à Irlanda, logo se fundiu ao druidismo que lá ainda existia. O resultado foi o chamado Cristianismo Celta – mais místico, mais profundo e mais filosófico do que o cristianismo de Roma (mulheres eram ordenadas e o uso da magia era freqüente). Na Idade Média, contudo, o poder e a intolerância dos papas não mais suportou as diferenças e a independência do cristianismo irlandês. Foi imposto então, através da força, o cristianismo ortodoxo romano, que sufocou quase que por completo a ancestral sabedoria dos druidas celtas.

O Druidismo Hoje

As práticas druídicas modernas parecem estar tão cheias de mistérios quanto as práticas dos druidas antigos. Muita gente confunde os druidas modernos com esotéricos e praticantes de espiritualidades da assim chamada Nova Era. Muita gente acha que os druidas modernos praticam rituais secretos e exclusivamente masculinos, ou ainda que honram um deus único solar.

Nada disso é verdadeiro. Os druidas modernos professam, basicamente, uma religião pagã, politeísta e animista, com práticas de magia natural (magia onde se usam basicamente o poder das ervas e o aconselhamento com os deuses e e ancestrais, tal como no xamanismo) e rituais voltados à celebração da Natureza e das festas celtas pré-cristãs.

Certamente muitas das práticas do druidismo moderno são diferentes das dos druidas antigos, pois vivemos em outros tempos, com outras necessidades. Essa é uma das vantagens de uma tradição oral. Os textos sagrados do druidismo são os mesmo há milhares de anos, mas eles evoluem, porque não foram escritos: os “textos” sagrados do druidismo são o passar das estações do ano, são os ritmos da Natureza, as marés, as flores, as tempestades, as trilhas do Sol e da Lua através do firmamento. É um texto “interativo”, que não deve ser memorizado ou entendido, mas sim sentido no fundo de nossas almas.

O segredo do druidismo é a integração da alma do druida com a Natureza, do druida com outra pessoa, do druida com o mundo em que vive, com seu trabalho, com seu alimento. Eis outro ponto chave do druidismo: o animismo, ou seja, a crença de que tudo tem alma (anima) ou espírito. Assim como outros caminhos pagãos de cunho xamânico, o druidismo acredita que uma pessoa tem alma, bem como todos os animais, todas as árvores, enfim, todo ser animado, que vive.

Aqui cabe um parêntese sobre os objetos inanimados e também sobre elementos da paisagem (rios, montanhas, etc). Muitos questionam se no conceito  animista os objetos e a paisagem também teriam alma/espírito. Uso as palavras do bardo Wallace William (Ramo de Carvalho) para explicar: Isso não quer dizer que TUDO seja provido de espírito. Isso quer dizer que tudo PODE ser imbuído de espírito. Não é toda espada que é imbuída de espírito, mas uma ou outra pode ser. Não é toda pedra que é imbuída de espírito, mas algumas são. Não é todo lugar que é imbuído de espirito, mas alguns lugares especiais o são. O lugar se torna imbuído de espirito devido à sua constante ligação com o sagrado. O mesmo vale para o objeto. Por isso não é uma pedra que é cultuada per se, mas sim o seu espírito, se ela for imbuída disso, que recebe a nossa comunicação.”

Fica claro porque praticamente todos os druidas modernos envolvem-se, de um modo ou de outro, com causas ambientalistas ou ainda de vida alternativa, reciclagem de lixo, consumo responsável, vida sustentável, e outras formas de promover uma vida equilibrada com os outros seres que vivem neste planeta.

Awen

Esta pequena palavra galesa é usada no druidismo em sua língua original por ser de difícil tradução. Outro motivo de mantê-la sem traduzir é devido à sua sonoridade. Seu significado é “espírito que flui”. Nas palavras de Phillip Shalcrass (druida inglês) a awen é “aquela estranha sensação de formigamento que nos domina ao contemplarmos uma bela peça de arte, ao ouvirmos uma linda canção pela primeira vez, ao vermos o rosto da pessoa que amamos”, enfim, é a sensação de vida que nos arrebata ao permitirmos que nossas sensações se manifestem através de nosso corpo. Esse fluxo de inspiração que jorra não deve ficar represado, deve se transformar em ação. Um dos desafios para o druida moderno é justamente esse: transformar inspiração em ação. Esse jorro pode brotar também de um momento de ódio e indignação. Podemos produzir um lindo quadro ou uma bela poesia depois de sermos arrebatados pela visão de um estonteante pôr-do-sol, da mesma forma que, ao vislumbrar um rio poluído, podemos nos encher de coragem para protestar e tomar alguma atitude que altere essa condição do rio.

Bardos, Vates e Druidas

Como tudo no universo celta era tripartido (3 mundos — de cima, do meio e de baixo; 3 reinos — terra, água e ar; etc) também eram tripartidas as funções do druida. Embora não fossem uma hierarquia, esses três ofícios eram aprendidos na ordem exibida no título. Depois disso, o druida tinha como opção exercer um dos ofícios em especial.

Como resumiu Estrabão (1º século a.c.): “Os bardos são cantores e poetas; os vates, filósofos naturais e divinos; os druidas, além da filosofia natural aplicam também a filosofia moral”.

Os bardos: eram especializados na absorção e transmissão do conhecimento druídico, através dos mitos, lendas, poemas e canções que transmitiam a memória ancestral. Os bardos eram os zeladores da tradição e da memória da tribo.

Os vates: palavra com a mesma origem do verbo português “vaticinar” (predizer, prenunciar, adivinhar). Eram os responsáveis pela cura e pela previsão de eventos futuros. Através de técnicas divinatórias (divinar = conversar com o divino, com os deuses) como interpretar o vôo das aves, por exemplo, os vates eram capazes de antever eventos ou endências futuras, orientando assim a comunidade. Eram xamãs por excelência, que conversavam com os ancestrais para pedir bênçãos e conselhos, que conheciam os animais e os segredos das ervas e das árvores.

Os druidas: esse nome significa “aquele que tem a sabedoria do carvalho”. Eles eram os sábios, os sacerdotes que conduziam os rituais, os conselheiros dos reis, os professores e os juristas das tribos. Seus “templos” eram as clareiras nos bosques sagrados (nemetons). Eram extremamente respeitados pelo povo e muitas vezes suas palavras tinham mais peso do que dos reis e rainhas.

Portanto, a função do bardo é conhecer sua história e suas lendas para transmiti-las aos demais. Sua matéria-prima é o passado, a experiência, a memória ancestral. Já o vate trabalha com o futuro, o potencial, o porvir. São duas facetas do mesmo conhecimento sagrado que permeia os mistérios do tempo e permite, com base na experiência do passado e das potencialidades do futuro, criar um presente melhor, que é a função do druida.

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O artigo original pode ser encontrado, clicando aqui.

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