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24/11/2017

Dos animais


(Dissertações espontâneas feitas pelo espírito de Chartet, em várias sessões da Sociedade

I

Há uma coisa entre vós que sempre excita a vossa atenção e a vossa curiosidade; esse mistério, uma vez que o é bem grande para vós, é a ligação, ou antes, a distância que existe entre a vossa alma e a dos animais, mistério que, apesar de toda a sua ciência, Buffon, o mais poético dos naturalistas, e Cuvier, o mais profundo, nunca puderam penetrar, não mais que o bisturi não vos detalha a anatomia do coração. Ora, sabeis, os animais vivem e tudo o que vive pensa. Não se pode, pois, viver sem pensar.

Estabelecido isto, resta demonstrar-vos que quanto mais o homem avança, não segundo o tempo, mas segundo a perfeição, tanto mais penetrará a ciência espiritual, aquela que se aplica não somente a vós, mas ainda aos outros seres que estão abaixo de vós: os animais. Oh! Exclamarão alguns homens persuadidos de que a palavra homem signifique todo o aperfeiçoamento, mas há um paralelo possível entre o homem e o animal? Podeis chamar inteligência o que não é senão instinto? Sentimento que não é senão sensação? Podeis, em uma palavra, rebaixai a imagem de Deus? Responderemos: Foi-se um tempo em que a metade do gênero humano era considerada como uma classe dos animais, onde o bicho não era considerado como nada; um tempo, que agora é o vosso, onde a metade do gênero humano é considerada como inferior e o animal como besta. Pois bem! Do ponto de vista do mundo, assim o era, é verdade; do ponto de vista espiritual, o é de outro modo. O que diriam os Espíritos superiores do homem terrestre, dizem os homens dos animais.

Tudo é finto na Natureza: o material como o espiritual; ocupemo-nos, pois, um pouco dessas pobres bestas, espiritualmente falando, e vereis que o animal vive verdadeiramente, uma vez que pensa.

Isto serve de prefácio a um pequeno curso que vos darei a este respeito. De resto, quando vivo, disse que a melhor parte do homem, é o cão.

Continua no próximo número.

CHARLET.

II

O mundo é uma escala imensa, cuja elevação é infinita, mas cuja base repousa num horrível caos; quero dizer que o mundo não é senão um progresso constante de seres; estais bem baixo, sempre; mas os há bem abaixo de vós; porque, entendei-o bem, não falo somente de vosso planeta, mas ainda de todos os mundos de todo o Universo. Mas tendes medo, limitar-nos-emos à Terra.

Entretanto, antes disso falar, duas palavras sobre um mundo chamado Júpiter, e do qu ai o engenhoso e imortal Palissy vos deu alguns resumos estranhos e sobrenaturais para a vossa imaginação. Lembrai-vos de que, num desses encantadores desenhos, ele vos representou alguns animais de Júpiter; não há progresso evidente e podereis não lhes conceder um grau de superioridade sobre os animais terrestres? E ainda não vedes ali senão um progresso de forma e não de inteligência, embora, entretanto, o jogo com o qual se ocupam não possa ser executado por animais terrestres. Não vos cito esse exemplo senão para vos indicar já a sua superioridade de seres que estão bem abaixo de vós. Que seria se vos enumerasse todos os mundos que conheço, quer dizer, cinco ou seis? Mas nada senão sobre essa Terra, vedes a diferença que existe entre eles. Pois bem! Se a forma é tão variada, tão progressiva, uma vez mesmo que há progresso na matéria, podeis não admitir o progresso espiritual nesses seres? Ora, sabei-o, se a matéria progride, mesmo a mais baixa, com mais forte razão o Espírito que a anima.

Na próxima vez continuarei.

CHARLET.

Nota. – Publicamos, com o número do mês de agosto de 1858, uma prancha desenhada e gravada pelo Espírito de Bemard Palissy, representando a casa de Mozart em Júpiter, com uma descrição desse planeta, que sempre foi designado como um dos mundos mais avançados do nosso turbilhão solar, moral e fisicamente. O mesmo Espírito deu um grande número de desenhos sobre o mesmo assunto, há um entre outros que representa uma cena de animais jogando, na parte que lhes é reservada na habitação de Zoroastro; sem contradita, é um dos mais curiosos da coleção. Entre os animais que aí estão figurados, os há cuja forma se aproxima muito da forma humana terrestre e que se prende, ao mesmo tempo ao macaco e ao sátiro; sua ação denota inteligência e compreende-se que a sua estrutura possa prestar-se aos trabalhos manuais, que executam por conta dos homens; são, disse ele, servidores e operários, os homens não se ocupam senão dos trabalhos de inteligência. Foi a esse desenho, feito há mais de três anos, que Charlet aludiu na comunicação acima.

III

Nos mundos avançados, os animais são de tal modo superiores que para eles, a mais rigorosa ordem se faz com a palavra, e entre vós, muito freqüentemente, com o bastão. Em Júpiter, por exemplo, uma palavra basta, e entre vós muitos golpes de chicote não bastam. Entretanto, há um progresso sensível sobre a vossa Terra e que não se explicou nunca, é que mesmo o animal se aperfeiçoa. Assim, outrora, o animal era muito mais rebelde ao homem. Há também progresso de vossa parte por compreender instintivamente esse aperfeiçoamento dos animais, uma vez que proibis de bater neles. Eu disse que há um progresso moral para o animal; há também progresso de condição. Assim, um infeliz cavalo batido, ferido por um charreteiro mais bruto que ele, está comparativamente numa condição muito mais tranqüila, mais feliz que a de seu carrasco. Não é toda justiça e deve-se admirar que um animal que sofre, que chora, “que é reconhecido ou vingativo segundo a doçura ou a crueldade de seus senhores, tenha a recompensa por suportar pacientemente uma vida cheia de torturas? Deus é justo, antes de tudo, e todas as suas criaturas estão sob suas leis, e as suas leis dizem: “Todo ser fraco que sofrer, será indenizado.” Eu entendo, sempre comparativamente ao homem, e ouso acrescentar, para terminar, que o animal, freqüentemente, tem mais alma, mais coração que o homem, em muitas circunstâncias.

CHARLET.

IV

A superioridade do homem se manifesta sobre o vosso globo por essa elevação de inteligência que dele faz o rei da Terra. Ao lado do homem o animal é bem fraco, bem medíocre, e pobre sujeito dessa Terra de prova, e tem freqüentemente que suportar os cruéis caprichos de seu tirano: o homem! A metempsicose antiga era uma lembrança bem confusa da reencarnação, e entretanto, essa mesma doutrina não é outra senão uma crença popular. Os grandes Espíritos admitiam a reencarnação progressiva; a massa ignorante não penetrando como eles, o Universo, dizia-se naturalmente: Uma vez que o homem se reencarna, isso não pode ser senão sobre a Terra; portanto, a sua punição, seu tártaro, sua prova, é a vida no corpo de um animal; absolutamente como na idade média os cristãos diziam: Será no grande vale que ocorrerá o julgamento, após o que os condenados irão sob a Terra queimar em suas entranhas.

Os Antigos, crentes da metempsicose, acreditavam, pois, alguns se entendiam no Espírito das bestas, uma vez que admitiam a passagem da alma humana para o corpo do animal. Pitágoras, lembrou de sua antiga existência, e reconheceu o escudo que carregava no tribunal de Tróia. Sócrates morreu predizendo a sua nova vida.

Uma vez que, como vos disse, tudo é progresso no Universo, uma vez que as leis de Deus não são e não podem ser senão leis do progresso, no ponto em que estais, no ponto do vista de vossas tendências espiritualistas, não admitir o progresso daquilo que há abaixo do homem seria um contra-senso, uma prova de ignorância e de completa indiferença.

O animal tem, igual ao homem, o que chamais consciência, que não é outra coisa senão a sensação da alma quando ela tenha feito o bem ou mal? Observai, e vede se o animal não dá prova de consciência, sempre relativamente ao homem. Credes que o cão não sabe quando ele faz o bem ou o mal? Se não o sentisse, ele não viveria. Como já vos disse, a sensação moral, a consciência, em uma palavra, existe nele como no homem, sem isso é necessário retirar ao animal o reconhecimento, o sofrimento, os lamentos, enfim, todos os caracteres de uma inteligência, caráter que todo homem sério é levado a observar em todos os animais, segundo seus graus diferentes, porque mesmo entre eles, há diversidades estranhas.

CHARLEI.

V

O homem, rei da Terra pela inteligência, é um ser superior também sob o aspecto material; suas formas são harmoniosas, e seu Espírito tem para se fazer obedecer um organismo admirável: o corpo. A cabeça do homem é alta e olha o céu, diz o Gênese; o animal olha a Terra, e, pela estrutura de seu corpo, a ela parece estar mais ligado que o homem. Além disso, a harmonia magnífica do corpo humano não existe no animal. Vede a variedade infinita que os distingue uns dos outros, variedade infinita que, entretanto, não corresponde ao seu Espírito, porque os animais, eu entendo a sua imensa maioria, têm, quase todos, o mesmo grau de inteligência. Assim, no animal, variedade na forma; no homem, ao contrário, variedade no Espírito. Encontrai dois homens que sejam semelhantes de gostos, de aptidões, de inteligência; e tomai um cão, um cavalo, um gato, em uma palavra, um milhar de animais, com dificuldade percebereis diferença em sua inteligência. O Espírito dorme, pois, no animal; no homem, ele brilha em todos os sentidos; seu Espírito adivinha Deus e compreende a razão de ser da perfeição.

Assim, pois, no homem, harmonia simples na forma, começo do infinito, no Espírito; e vede agora a superioridade do homem que domina o animal, materialmente pela sua estrutura admirável e intelectualmente pelas suas faculdades imensas. Parece que Deus, nos animais, preferiu variar mais a forma encerrando o Espírito; no homem, ao contrário, a fazer do próprio corpo humano a manifestação material do Espírito.

Igualmente admirável nessas duas criações, a Providência é infinita no mundo material como no mundo espiritual. O homem está para o animal o que a flor e todo o reino vegetal estão para a matéria bruta.

Eu quis estabelecer, nestas poucas linhas, a posição que o animal deve ocupar na escala da perfeição; veremos como pode chegar, comparativamente ao homem.

CHARLET.

VI

Como o Espírito se eleva? Pelo abaixamento, pela humildade. O que perde o homem é razão orgulhosa que o impele a desprezar todo subalterno, e a invejar todo superior. A inveja é a expressão mais viva do orgulho; não é o prazer do orgulho, é esse desejo doentio, incessante, de poder desfrutá-lo; os invejosos são os mais orgulhosos quando se tomam poderosos. Considerai vosso senhor em tudo, Cristo, o homem por excelência, mas na mais alta fase da sublimidade; Cristo, digo eu, em lugar de vir com a audácia e a insolência para derrubar o mundo antigo, veio sobre a Terra se encarnar numa família pobre, e nascer entre os animais; porque os encontrais por toda a parte, esse pobres animais, em todos os instantes em que o homem vive simplesmente com a Natureza, em uma palavra, em pensando em Deus. Nasce entre os animais, e esses exaltam o seu poder na sua linguagem tão expressiva, tão natural e tão simples. Vede que assunto de reflexão! O Espírito ainda baixo que os anima pressente o Cristo, quer dizer, o Espírito em toda a sua essência de perfeição. Balaão, o falso profeta, o orgulho humano em toda a sua corrupção, blasfemou contra Deus, e bateu na sua criatura; súbito o Espírito ilumina o Espírito ainda bem vago do asno, e ele fala; torna-se, por um instante, o igual de um homem, e, pela sua palavra, ele é o que será em vários milhares de anos. Poder-se-ia citar muitos outros fatos, mas aquele me parece bastante evidente a propósito do que avancei sobre o orgulho do homem, que nega até a sua alma, porque não pode compreendê-la, e que vai até negar o sentimento nos seres inferiores, entre* os quais o Cristo preferiu nascer.

CHARLET.

VII

Conversei convosco, durante algum tempo, sobre o que vos prometera. Como vos disse, em começando, não falei sob o ponto de vista anatômico ou médico, mas unicamente da essência espiritual que existe nos animais. Teria ainda que vos falar sobre vários outros pontos que, em sendo diferentes, não são menos úteis para a Doutrina. Permiti-me uma última recomendação, é de refletirem um pouco sobre o que vos disse; isso não é nem demorado nem pedante, e, crede-me, não é por isso menos útil. Que um dia, quando o bom Pastor dividir as suas ovelhas, eu possa vos contar entre os pobres e excelentes diabos que terão melhor seguido os seus preceitos. Perdoai-me esta imagem um pouco viva. Ainda uma vez, vos é necessário refletir sobre o que vos disse; de resto, eu continuarei a vos falar enquanto o desejardes. Teria a vos dizer outra coisa, na próxima vez, para definir o meu pensamento sobre a inteligência dos animais.

Todo vosso,

CHARLET.

VIII

Tudo o que posso vos dizer, amigos, neste momento, é que vejo com prazer a linha de conduta que seguis. Que a caridade, esta virtude das almas verdadeiramente francas e nobres, seja sempre o vosso guia, porque aí está o sinal da verdadeira superioridade. Perseverai neste caminho que deve, necessariamente, vos conduzir todos, apesar dos esforços dos quais não supondes a força, à verdade e à unidade.

A modéstia é também um dom bastante difícil de adquirir, não é, senhores? É uma virtude bastante rara entre os homens. Pensai que, para avançar no caminho do bem, no caminho do progresso, não tendes a opor senão a modéstia; sem Deus, sem seus divinos preceitos, que serieis? Um pouco menos que esses pobres animais dos quais já vos falei, e sobre os quais tenho a intenção de vos entreter ainda. Cingi vossos rins e preparai-vos para lutar de novo, mas não fraquejeis; pensai que não é contra Deus que lutais, como Jacó, mas bem contra o Espírito do mal, que invade tudo e vós mesmos a cada instante.

O que tenho a vos dizer seria muito longo para esta noite. Tenho a intenção de vos explicar a queda moral dos animais, depois da queda moral do homem. Para terminar, darei título ao que já vos disse sobre os animais: O primeiro homem feroz e o primeiro animal que se tornou feroz.

Desconfiai dos Espíritos maus; não supondes a sua força, eu vos disse ainda há pouco, e embora esta última frase não esteja em relação com a que precede, não é menos muito verdadeira e muito a propósito; agora, refleti.

CHARLET.

Nota. O Espírito acreditou dever interromper naquele dia o assunto principal de que trata, para fazer este ditado incidente, motivado por uma circunstância particular, de que se quis aproveitar.

Nós a damos, apesar disso, porque ela não encerra menos de úteis instruções.

IX

Quando o primeiro homem foi criado, tudo era harmonia na Natureza. A onipotência do Criador pusera, em cada ser, uma palavra de bondade, de generosidade e de amor. O homem estava radiante; os animais desejavam o seu olhar celeste, e seus carinhos eram os mesmos para ele e sua celeste companhia. A vegetação era luxuriante; o Sol dourava e iluminava toda a Natureza, como o sol misterioso da alma, centelha de Deus, iluminava interiormente a inteligência do homem; numa palavra, todos os reinos da Natureza apresentavam essa calma infinita que parecia compreender Deus; tudo parecia ter bastante inteligência para exaltar a onipotência do Criador. O céu sem nuvens era como o coração do homem, e a água límpida e azul tinha reflexos infinitos, como a alma do homem tinha os reflexos de Deus.

Bem muito tempo depois, tudo parece mudar subitamente; a Natureza oprimida suspira fundo, e, pela primeira vez, a voz de Deus se fez ouvir; terrível dia de infelicidade em que o homem, que não tinha ouvido, até então, senão a grande voz de Deus que lhe dizia em tudo: “Tu és imortal,” amedrontou-se com estas terríveis palavras: “Caim, por que mataste teu irmão?” Tudo muda togo: o sangue de Abel se derrama sobre toda a Terra; as árvores mudaram de cor; a vegetação, tão rica, tão colorida, se descora; o céu se torna negro.

Por que o animal se tornou feroz? Magnetismo todo-poderoso, invencível, que tomou então cada ser, a sede de sangue, o desejo de carnagem, brilharam em seus olhos, outrora tão doces, e o animal se tornou feroz como o homem. Uma vez que o homem fora orei da Terra, não tinha mostrado o exemplo? O animal seguiu o seu exemplo, e a morte, desde então, pairou sobre a Terra, morte que se tornou hedionda, em lugar de uma transformação doce e espiritual; o corpo do homem deveria se dispersar no ar como o corpo do Cristo se dispersou sobre a terra, nessa terra irrigada do sangue de Abel, e o homem trabalha, e o animal trabalha.

CHARLET.

Exame crítico das dissertações de Charlet sobre os animais

SOBRE O Parágrafo l

1. Dissestes: Tudo o que vive pensa; não se pode, pois, viver sem pensar; essa proposição parece-nos um pouco absoluta, porque a planta vive e não pensa; admitis isso em princípio? – R. Sem dúvida, não falo senão da vida animal, e não da vida vegetal; deveis bem compreendê-lo.

2. Mais adiante dissestes: Vereis que o animal vive verdadeiramente, uma vez que pensa; não há interversão na frase? Parece-nos que a proposição seja esta: Vereis que o animal pensa verdadeiramente, uma vez que vive. – R. Isto é evidente.

SOBRE O Parágrafo II

3. Lembrai-vos dos desenhos que foram feitos sobre os animais de Júpiter; nota-se que têm uma analogia marcante com os sátiros da fábula; essa idéia de sátiros seria uma intuição da existência desses seres em outros mundos, e, nesse caso, não seria, então, uma criação puramente fantástica? -R. Quanto mais o mundo seja novo, tanto mais se recorda; o homem tinha a intuição de uma ordem de seres intermediários, seja mais baixo que ele, seja mais elevado; é o que chamais os deuses.

4. Admitis, então, que as divindades mitológicas não eram outras senão o que chamamos Espíritos? – R. Sim.

5. Foi-nos dito que, em Júpiter, pode-se compreender somente pela transmissão do pensamento; quando os habitantes desse planeta se dirigem aos animais, que são os seus servidores e seus operários, têm o recurso de uma linguagem particular? Teriam, para os animais, uma linguagem articulada e entre eles uma linguagem de pensamento? – R. Não, não há linguagem articulada, mas uma espécie de magnetismo de ferro que faz o animal curvar e fá-lo executar os menores desejos e as ordens de seus senhores; o Espírito, todo-poderoso, não pode se rebaixar.

6. Entre nós, os animais têm, evidentemente, uma linguagem, uma vez que se compreendem, mas muito limitada; os de Júpiter têm uma linguagem mais precisa, mais positiva que os nossos, em uma palavra, têm uma linguagem articulada? – R. Sim.

7. Os habitantes de Júpiter compreendem melhor que nós a linguagem dos animais? -R. Eles vêem neles e compreendem-nos perfeitamente.

8. Examinando-se a série dos seres vivos, acha-se uma corrente interrompida desde a madrépora, a planta mesmo, até o animal mais inteligente; mas entre o animal mais inteligente e o homem, há uma lacuna evidente, que deve ser preenchida em alguma parte, porque a Natureza não deixa nenhum degrau vago; de onde vem essa lacuna? – R. Essa lacuna dos seres não é senão aparente, porque ela não existe realmente; provém das raças desaparecidas. (São Luís).

9. Essa lacuna pode existir sobre a Terra, mas, seguramente não existe no conjunto do Universo e deve estar preenchendo alguma parte; não o seria ela senão para certos animais de mundos superiores que, como os de Júpiter, por exemplo, parecem se aproximar muito do homem terrestre pela forma, a linguagem e outros sinais? – R. Nas esferas superiores, o germe eclode sobre a terra e, desenvolvido, não se perde nunca. Encontrareis, em vos tornando Espíritos, todos os seres criados ou desaparecidos nos cataclismas de vosso globo. (São Luís.)

Nota. Uma vez que essas raças intermediárias existiram sobre a Terra, e dela desapareceram, isso justifica o que Charlet disse ainda há pouco, que quanto mais o mundo era novo, tanto mais se recorda. Se ela não existira senão nos mundos superiores, o homem da Terra, menos avançado, não poderia guardá-la na memória.

SOBRE O PARÁGRAFO III

10. Dissestes que tudo se aperfeiçoa, e como prova de progresso no animal, dissestes que outrora ele era mais rebelde ao homem. O animal se aperfeiçoa, isto é evidente; mas, sobre a Terra pelo menos, não se aperfeiçoa senão pelos cuidados do homem; abandonado a si mesmo ele retoma a sua natureza selvagem, mesmo o cão. – R. E o homem, pelos cuidados de que ser se aperfeiçoa? Não é pelos cuidados de Deus? Tudo é escala na Natureza.

11. Falais de recompensas para os animais que sofrem maus tratos, e dizeis que é de toda justiça que haja compensação para eles. Pareceria, segundo isso, que admitis no animal a consciência do seu eu depois da morte, com a lembrança de seu passado; isto é contrário ao que nos foi dito. Se as coisas se passam tal como dizeis, disso resultaria que, no mundo dos Espíritos, haveria animais; então não haveria razão para que não houvesse Espíritos de ostras. Quereis, pois, dizer-nos se vedes ao vosso redor Espíritos de cães, de gatos, de cavalos ou de elefantes como vedes Espíritos humanos? – R. A alma do animal, tendes perfeitamente razão, não se conhece na morte do corpo; é um conjunto confuso de germes que podem passar no corpo de tal ou tal animal, segundo o desenvolvimento que adquiriu; ela não é individualizada. Dir-vos-ei, entretanto, que em certos animais, em muitos mesmo, há individualidade.

12. Essa teoria, de resto, não justifica de nenhum modo os maus tratos dos animais; o homem é sempre culpado por fazer sofrer um ser sensível qualquer, e a doutrina nos diz que, por isso, será punido, mas daí, a colocar o animal numa condição superior à dele há uma grande distância; que pensais disso? – R. Sim, mas estabeleceis sempre, todavia, uma escala entre os animais; pensai que há mundos entre certas raças. O homem é tanto mais culpado quanto seja mais poderoso.

13. Como explicais este fato, que mesmo no estado de selvagem o homem se faz obedecer pelo animal mais inteligente? É a Natureza que age, sobretudo, nisto; o homem selvagem é o homem da Natureza, conhece o animal familiarmente; o homem civilizado estuda, e o animal se curva diante dele; o homem é sempre o homem diante do animal, quer seja selvagem ou civilizado.

SOBRE O Parágrafo V

14. (A Charlet). Nada temos a dizer sobre este parágrafo que nos parece racional; tendes alguma coisa a acrescentar-lhe? – R. Não tenho outra coisa a acrescentar que isto: os animais têm todas as faculdades que indiquei, mas neles o progresso se realiza pela educação que recebem do homem, e não por eles mesmos, o animal, abandonado ao estado selvagem, retoma o tipo que tinha ao sair das mãos do Criador, submisso ao homem ele se aperfeiçoa, eis tudo.

15. Isto é perfeitamente verdadeiro para os indivíduos e as espécies; mas considerando-se o conjunto da escala dos seres, há uma marca ascendente evidente, que não se detém nos animais da Terra, uma vez que os de Júpiter são superiores aos nossos, física e intelectualmente. – R. Cada raça é perfeita em si mesma, e não emigra nas raças estranhas; em Júpiter são os mesmos tipos formando raças distintas, mas não são os Espíritos de animais defuntos.

16. Em que se torna, então, o princípio inteligente dos animais defuntos? – R. Retorna à massa onde cada novo animal haure a sua porção de inteligência que lhe é necessária. Ora, está aí precisamente o que distingue o homem do animal; é que nele o Espírito está individualizado e progride por si mesmo, e é também o que lhe dá a superioridade sobre todos os animais; eis porque o homem, mesmo selvagem, como fizestes notar, se faz obedecer mesmo petos animais mais inteligentes.

SOBRE O Parágrafo VI

17. Dais a história de Balaão como um fato positivo; pensais nisso seriamente? – R. É uma pura alegoria, ou antes, uma ficção para flagelar o orgulho; fez-se falar o asno de Balaão como La Fontaine fez falar muitos outros animais.

SOBRE O Parágrafo XI

18. Nesta passagem, Charlet parece se deixar arrastar por sua imaginação, porque o quadro que ele faz da degradação moral do animal é mais fantástico que científico. Com efeito, o animal não é feroz senão por necessidade, e foi para satisfazer essa necessidade que a Natureza lhe deu uma organização especial. Se uns querem se nutrir de carne, foi por um objetivo providencial, e porque era útil à harmonia geral que certos elementos fossem absorvidos. O animal é, pois, feroz pela sua constituição, e não se conceberia que a queda moral do homem pudesse fazer brotar dentes caninos no tigre e encurtar seus intestinos, porque então não haveria razão para que não tivesse o mesmo resultado sobre o carneiro. Dizemos antes que o homem, sobre a Terra, estando pouco avançado, aí se encontra com seres inferiores sob todos os aspectos, e cujo contato é, para ele, uma causa de inquietação, de sofrimentos, e, por conseqüência, uma fonte de provas que o ajudam em seu adiantamento futuro.

Que pensa Charlet destas reflexões?

R. Não posso senão aprová-las. Eu era um pintor, e não um literato ou um sábio: eis porque me deixo, de vez em quando, ao prazer, novo para mim, de escrever belas frases, mesmo às expensas da verdade; mas o que dissestes aí está muito justo e bem inspirado. No quadro que tracei, bordei sobre certas idéias concebidas para não machucar nenhuma convicção. A verdade é que as primeiras idades eram idades de ferro, bem distantes dessas pretendidas dores; a civilização, descobrindo cada dia, novos tesouros acumulados sobre a bondade de Deus, no espaço tão bem quanto na Terra, faz o homem conquistar a verdadeira terra prometida, aquela que Deus concederá à inteligência e ao trabalho, e que não entregará toda enfeitada nas mãos de homens crianças, que deveriam descobri-la pela sua própria inteligência. De resto, esse erro que cometi não podia ser nocivo aos olhos de pessoas esclarecidas, que deveriam facilmente reconhecê-lo; para os ignorantes, passariam despercebidos. Entretanto, eu errei, nisto convenho; agi levianamente, e isto vos prova em que ponto deveis controlar as comunicações que recebeis.

Nota geral.

Um ensinamento importante, do ponto de vista da ciência espírita, ressalta dessas comunicações. A primeira coisa que toca, em as lendo, é uma misturado idéias justas, profundas, e trazendo a marca do observador, ao lado de outras evidentemente falsas, e fundadas sobre a imaginação mais que sobre a realidade. Charlet era, sem contradita, um homem acima do vulgo, mas, como Espírito, não é mais universal do que o era quando vivo, e pode se enganar porque, não sendo ainda bastante elevado, não encara as coisas senão sob o seu ponto de vista; não há, de resto, senão os Espíritos chegados ao último grau de perfeição que estão isentos de erros; os outros, por alguns dons que tenham, não sabem tudo e podem se enganar; mas, então, quando são verdadeiramente bons, fazem-no de boa fé e nisso convém francamente, ao passo que há os que o fazem conscientemente e se obstinam nas idéias mais absurdas. Por isso, é necessário guardar-se de aceitar o que vem do mundo invisível sem tê-lo submetido ao controle da lógica; os bons Espíritos o recomendam sem cessar, e não se melindram nunca com a crítica, porque de duas coisas uma, ou estão seguros do que dizem, e então não temem, ou não estão seguros e, se têm a consciência de sua insuficiência, procuram, eles mesmos, a verdade; ora, se os homens podem se instruir com os Espíritos, certos Espíritos também podem se instruir com os homens. Os outros, ao contrário, querem dominar, esperando que aceitem as suas utopias com o favor de seu título de Espíritos; então, seja presunção de sua parte, seja má intenção, não sofrem a contradição; querem ser acreditados sob palavra, porque sabem bem que eles não podem senão perder ao exame; se desagradam com a menor dúvida sobre a sua infalibilidade, e ameaçam soberbamente de vos abandonar como indignos de ouvi-los; também não gostam senão daqueles que se põem de joelhos diante deles. Não há homens assim feitos, e deve-se espantar de encontrá-los com os seus defeitos no mundo dos Espíritos? Entre os homens, um tal caráter é sempre, aos olhos de pessoas sensatas, um indício de orgulho, de vã suficiência, de tola vaidade, e partindo da pequenez nas idéias e de um falso julgamento; o que é um sinal de inferioridade moral entre eles não poderia ser um sinal de superioridade nos Espíritos.

Charlet, como se acaba de ver, se presta de bom grado à controvérsia; escuta e admite as objeções, e responde-as com benevolência; desenvolve o que estava obscuro e reconhece lealmente o que não está exato; em uma palavra, não quer se fazer passar por mais sábio do que é, e, nisto, prova mais elevação que se obstinasse nas idéias falsas, a exemplo de certos Espíritos que se escandalizam tão-só com o anúncio de que as suas comunicações parecem suscetíveis de comentários.

O que é ainda próprio desses Espíritos orgulhosos é a espécie de fascinação que exercem sobre seus médiuns, com a ajuda da qual, algumas vezes, chegam a fazê-los partilhar os mesmos sentimentos. Dissemos de propósito seus médiuns porque eles se apoderam deles e querem ter, neles, os instrumentos que agem de olhos fechados; não se acomodariam de nenhum modo com um médium escrutador ou que visse muito claro; não é assim ainda entre os homens? Quando o encontraram, temem que se lhes escape, inspiram-lhe o afastamento de quem poderia esclarecê-lo; isolam-no de alguma sorte, a fim de que gozem de inteira liberdade, ou não o aproximam senão daqueles dos quais nada têm a temer; e, para melhor captar a sua confiança, se fazem bons apóstolos usurpando os nomes de Espíritos venerados, dos quais procuram imitar a linguagem; mas agem inutilmente, a ignorância nunca poderá arremedar o verdadeiro saber, nem uma natureza má a verdadeira virtude; sempre o orgulho surgirá sob o manto de uma fingida humildade, e é porque temem ser desmascarados que evitam a discussão e dela desviam os seus médiuns.

Não há pessoa, julgando friamente e sem prevenção, que não reconheça como má uma tal influência, porque cai sob o mais vulgar bom senso que um Espírito, verdadeiramente bom e esclarecido, não procuraria nunca exercê-la. Pode-se, pois, dizer que todo médium que lhes cede está sob o império de uma obsessão, da qual deve procurar se desembaraçar o mais cedo. O que se quer, antes de tudo, não são quando mesmo comunicações, mas comunicações boas e verdadeiras; ora, para ter boas comunicações são necessários bons Espíritos, e para ter bons Espíritos é necessário ter médiuns livres de toda má influência. A natureza dos Espíritos que assistem habitualmente um médium é, pois, uma das primeiras coisas a considerar; para conhecê-la, exatamente, há um critério infalível, e isso não está nem nos sinais materiais nem nas fórmulas de evocação ou de conjuração que são encontradas; esse critério está nos sentimentos que o Espírito inspira ao médium; pela maneira de agir deste último, pode-se julgar da natureza dos Espíritos que o dirigem e, por conseguinte, do grau de confiança que as suas comunicações merecem.

Isto não é uma opinião pessoal, um sistema, mas um princípio deduzido da mais rigorosa lógica, se se admitem estas premissas que um mau pensamento não pode ser sugerido por um bom Espírito. Tanto que não se prove que um bom Espírito pode inspirar o mal, diremos que todo ato que se afaste da benevolência, da caridade e da humildade, onde penetre o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho ferido ou a simples acrimônia, não pode ser inspirado senão por um mau Espírito, então mesmo que este pregasse hipocritamente as mais belas máximas, porque, se fora verdadeiramente bom, prová-lo-ia pondo seus atos em harmonia com as suas palavras. A prática do Espiritismo está cercada de tantas dificuldades, os Espíritos enganadores são tão velhacos, astuciosos, e ao mesmo tempo tão numerosos, que não se saberia cercar-se de muitas precauções para frustrá-los; importa, pois, procurar com o maior cuidado todos os indícios pelos quais podem se trair; ora, esses indícios estão, ao mesmo tempo, em sua linguagem e nos atos que solicitam.

Tendo submetido estas reflexões ao Espírito de Charlet, eis o que nos disse: “Não posso senão aprovar o que acabais de dizer, e convidar todos aqueles que se ocupam do Espiritismo para seguirem tão sábios conselhos, evidentemente ditados pelos bons Espíritos, mas que não estão de todo, podeis bem crê-lo, ao gosto dos maus, porque eles sabem muito bem que é o meio mais eficaz de combater a sua influência: também fazem tudo o que podem para desviarem aqueles que querem colocar em suas fileiras.”

Charlet disse que se deixa ir ao prazer novo, para ele, de escrever belas frases, mesmo às expensas da verdade. Que teria advindo se tivéssemos publicado o seu trabalho sem comentários? Acusou-se o Espiritismo de acreditar em idéias ridículas, e nós mesmos de não sabermos distinguir o verdadeiro do falso. Muitos Espíritos estão no mesmo caso; procuram uma satisfação do amor-próprio ao darem a luz, por intermédio de médiuns, não podendo fazê-lo por si mesmos, obras literárias, científicas, filosóficas ou dogmáticas de grande fôlego; mas quando esses Espíritos não têm senão um falso saber, escrevem coisas absurdas tão bem como o fariam os homens. é sobretudo nessas obras continuadas que se pode julgá-los, porque a sua ignorância toma-os incapazes de sustentar seu papel por muito tempo, e que eles mesmos revelam a sua insuficiência ferindo, a cada passo, a lógica e a razão. Através de uma multidão de idéias falsas, às vezes, se encontram muitas boas, sobre as quais contam para fazerem passar as outras. Só esta incoerência prova a sua incapacidade; são pedreiros que sabem bem alinhar as pedras de um edifício, mas que seriam incapazes de levantar um palácio. Algumas vezes, é uma coisa curiosa de ver o dédalo inextricável de combinação e de raciocínio no qual se empenham, e do qual não podem sair senão à força de sofisma e de utopias. Vimos os que, à custa de expedientes, deixaram aí seu trabalho: mas outros não se dão por vencidos e querem impeli-lo até o objetivo, de fazer rir às custas daqueles que os tomam a sério.

Estas reflexões nos são sugeridas como princípio geral, e estar-se-ia errado não vendo nelas uma aplicação qualquer. Entre os numerosos escritos que foram publicados sobre o Espiritismo, os há, sem dúvida, os que poderiam dar lugar à crítica fundada; mas nos guardamos de colocar tudo na mesma linha; indicamos um meio de apreciá-los, cabe a cada um fazê-lo como entenda. Se ainda não empreendemos deles fazer um exame na nossa Revista, foi pelo temor de que não se menospreze sobre o motivo da crítica que poderíamos fazer; preferimos, pois, esperar que o Espiritismo fosse melhor conhecido e, sobretudo, melhor compreendido; então a nossa opinião, apoiando-se sobre uma base geralmente admitida, não poderia ser suspeita de parcialidade. O que esperamos se produza cada dia, porque vemos que, em muitas circunstâncias, o julgamento da opinião precede o nosso; também nos aplaudimos pela nossa reserva. Empreenderemos este exame quando crermos o momento oportuno; mas já se pode ver qual será a nossa base de apreciação: esta base é lógica, da qual cada um pode fazer uso por si mesmo, porque não temos a tola pretensão de possuí-la por privilégio. A lógica, com efeito, é o grande critério de toda comunicação espírita, como o é de todos os trabalhos humanos. Sabemos bem que aquele que raciocina em falso crê ser lógico; o é à sua maneira, mas não o é senão para ele, e não para os outros; quando uma lógica é rigorosa como a de dois e dois são quatro, é que as conseqüências são deduzidas de axiomas evidentes, o bom senso geral, cedo ou tarde, faz justiça a todos esses sofismas. Cremos que as proposições seguintes têm esse caráter:

1º Os bons Espíritos não podem ensinar e inspirar senão o bem; portanto, tudo o que não é rigorosamente bem não pode vir de um bom Espírito;

2º Os Espíritos esclarecidos e verdadeiramente superiores não podem ensinar coisas absurdas; portanto, toda comunicação manchada por erros manifestos, ou contrários aos dados mais vulgares da ciência e da observação, atesta, só por isso, a inferioridade de sua origem;

3º A superioridade de um escrito qualquer está na justeza e na profundidade das idéias, e não na inchação e na redundância do estilo; portanto, toda comunicação espírita onde haja mais de palavras e de frases brilhantes que de pensamentos sólidos, não pode vir de um Espírito verdadeiramente superior;

4° A ignorância não pode contradizer o verdadeiro saber, nem o mal contrafazer o bem de maneira absoluta; portanto, todo Espírito que, sob um nome venerado, diz coisas incompatíveis com o título que se dá, está convicto de fraude;

5º É da essência de um Espírito elevado se ligar mais ao pensamento que à forma e à matéria, de onde se segue que a elevação do Espírito está em razão da elevação das idéias; portanto, todo Espírito meticuloso nos detalhes da forma, que prescreve puerilidades, em uma palavra, que liga importância aos sinais e às coisas materiais, acusa, por isso mesmo, uma pequenez de idéias, e não pode ser verdadeiramente superior;

6a Um Espírito verdadeiramente superior não pode se contradizer; portanto, se duas comunicações contraditórias são dadas, sob o mesmo nome respeitável, uma das duas é necessariamente apócrifa; se uma é verdadeira, esta não pode ser senão aquela que não desmente em nada a superioridade do Espírito cujo nome foi posto em frente.

A conseqüência a se tirar destes princípios é que fora das questões morais não é necessário acolher senão com reserva o que vem dos Espíritos, e que, em todos os casos, nunca é necessário aceitá-lo sem exame. Daí decorre a necessidade de pôr a maior circunspeção na publicação dos escritos emanados dessa fonte, quando, sobretudo pela estranheza das doutrinas que contêm, ou a incoerência das idéias, podem se prestar ao ridículo. É preciso desconfiar da tendência de certos Espíritos para as idéias sistemáticas, e do amor-próprio que colocam e propagam-nas; é, pois, sobretudo nas teorias científicas que é necessário colocar uma extrema prudência, e se guardar de dar precipitadamente como verdades sistemas freqüentemente mais sedutores que reais, e que, cedo ou tarde, podem receber um desmentido oficial. Que sejam apresentados como probabilidades, se são lógicos, e como podendo servir de base a observações ulteriores, seja; mas haveria imprudência em dá-los, prematuramente, como artigos de fé. Um provérbio diz: Nada é mais perigoso do que um imprudente amigo. Ora, é o caso daqueles que, no Espiritismo, se deixam levar por um zelo mais ardente que refletido.

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