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22/09/2020

Do poder da prece Carlos de Brito Imbassahy


As virtudes teologais

O termo latino virtus que, do seu genitivo virtutis nos deu a palavra idiomática virtude, também se traduz como o valor. Segundo Cícero, ainda define a preeminência, a perfeição do homem tanto no corpo como no ânimo. É também propriedade específica de qualquer coisa. Plauto usou a expressão virtute Deum – com a ajuda de Deus – e César empregou a palavra para definir a ideia de ser mais valente ou esforçado do que outro.

Para o sentido idiomático, a virtude será a disposição constante para praticar o bem e evitar o mal. Uma pessoa cheia de virtudes é aquela que possua inúmeros predicados bons, só que não a critério de julgadores humanos, costumeiramente falhos. De todas as prováveis virtudes, a Teologia separou três delas como essenciais à vida e ao respeito religioso: a fé, a esperança e a caridade que dispensam definição por serem demasiadamente conhecidas.

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A caridade que salva

Do latim erudito charitas que se vulgarizou no popular como cáritas, atis, a carestia, mas que, na acepção anterior, define a caridade.

Allan Kardec sedimentou sua doutrina codificada na máxima fora da caridade não há salvação, com intuito de fazer com que as pessoas entendessem que o progresso espiritual não se prendia a crenças nem a Igrejas para que elas fossem o caminho da aludida “salvação”.

O Espiritismo também não salva ninguém: dá -lhe conhecimento para que a própria pessoa procure seu rumo e conheça a verdade libertadora. E aquele que se libertar do erro conhecerá o caminho da sua salvação, ou seja, da evolução espiritual.

Parece, contudo, que o mestre lionês foi incompreendido: há alguns espíritas que, por causa deste lema, se tornaram ávidos na prática de ações, principalmente a aparente, que se possam considerar caritativas, e, se possível, com o maior número de testemunhas de que disponha e que deponha a seu favor, para que, à semelhança dos costumes legais, possa angariar o beneplácito do Alto e fazer jus às benesses divinas. Como se o ato em si se comprovasse pelas testemunhas, esquecendo-se de que, perante o tribunal de sua própria consciência, só ele próprio testemunhará.

Dessa maneira, a caridade passou ser a mera formalidade, mais que uma ânsia, no afã de se postar ao lado de Jesus, com o mérito de uma prática que nem sempre será caridosa.

Deve-se isto, também, à falta de leitura das obras codificadas porque Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo é suficientemente claro nas exemplificações e peremptório ao afirmar que a caridade é a que se pratica sem intuito de sê -lo e que, o que já tenha tido a glória terrena pelo seu ato pratica do não mais terá direito a nenhum outro reconhecimento em seu benefício.

A caridade, portanto, como virtude, só o será se praticada sem que vise a recompensas, que seja um desejo inato da criatura de ajudar ao semelhante, praticando o bem involuntário no s ocorro aos necessitados. Confunde-se o dar esmolas e o prestar socorro a quem não queira se esforçar para nada com caridade: ao contrário, estes são apenas atos de alimentar o vício do ocioso que quer ganhar a vida às custas do semelhante, sem fazer por onde.

A esmola que dignifica é a que se dá a quem precise e não a quem pede ao acaso, explorando o sentimento alheio, por vezes, usando recursos de aparência subumana. Esta caridade, além de não salvar ninguém, ainda acarreta responsabilidades. No terceiro livro da codificação há páginas belíssimas exemplificando o fato.

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A esperança que alenta

Do latim, sperans, sperantis – o que espera, provavelmente tenha entrado no rol das virtudes teologais por mero formalismo, já que estaria ligada à consolação, ato pro metido por Jesus, segundo as Escrituras, àqueles que o seguissem. E como, nem sempre ocorre isso na vida da pessoa que se sagra ao sofrimento da cruz, a sacra recomendação é que se espere por ela.

Evidentemente, esperança nunca foi virtude, embora de suma importância para o que queira ser vitorioso; basta que vejamos seu conceito etimológico: espera do bem que se deseja.

A Enciclopédia, até, chega a admitir, como avaliação, que seja um aumento onde é susceptível o bem de alguma herança possível. E isso, indubitavelmente, nada tem que ver com virtude, senão com interesses deveras fortuitos e até, em certos casos, condenáveis, pela ganância, e capazes de levar o esperançoso a atitudes nada dignas.

Dessarte, o Espiritismo não considera a esperança como virtude da salvação na pura crença em Jesus, no seu sangue derramado, ou na sua dor, porque ele mesmo foi categórico ao dizer que faça por onde que te ajudarei. O suficiente para saber que, sem mérito, nem com esperança.

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A fé que remove montanha

Esta sim, tem grande valor, porque define um sentimento de confiança que todos devem ter no que façam, principalmente, na conduta de vida.

Vem do latim, Fides, ei – a Fé, uma divindade fabulosa que tinha o poder de dotar a criatura de condições tais que fosse capaz de superar qualquer adversidade. (*) Vide nota no rodapé

A fé ou confiança é um dos grandes atributos que possa ter a criatura, não apenas envolvendo a ideia de que sua crença ajudará a salvar-se, mas, para lhe dar o ânimo essencial à vida, à luta pela vida, a certeza de que essa luta, inda que insana, representa um ideal. Sempre o ideal. E a fé se aplica teonomicamente.

Ligados à fé estão a obtemperança, a confiança nos poderes superiores da Justiça e da Criação, a convicção do que se faça e, principalmente, acima de tudo, o motivo principal da vida: a fé em viver e progredir. A obtemperança é um galicismo tirado do nome de uma das filhas de Fides e não tem nenhum verbete idiomático correspondente.

Neste início de ano de 1998 os cientistas descobriram a região cerebral que reage ao sentimento de fé da criatura e ainda, foram capazes de perceber que ela produz uma série de estímulos que, provavelmente, sejam os capazes de realizar o tão propalado milagre da fé.

A fé sugere o último dos fundamentos teonômicos:

a-prece-em-recolhimento

 

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O poder da prece

Todas as religiões, sem exceção, têm sua parte relativa a rezas, orações e louvores a Deus; representa a comunhão do pensamento da criatura humana com a Criação. Na maioria dos casos, resume-se à conjuração ou honrarias prestadas a uma divindade – e válida para o politeísmo – com palavras, louvores e ações através do que expressem suas necessidades ou seu respeito. Orar é rogar a Deus, segundo opinião generalizada.

Prece ou reza são termos praticamente sinônimos; rezar vem do verbo latino recitare, ler ou dizer em voz alta e prece vem do verbo precor, precari, (defectivo) que deu simultaneamente pregar, rogar, ou ainda, como Cícero, precari veniam alicui, pedir perdão a alguém. Por outro lado, inclui a conotação de “rogar pragas” – male alicui – ou desejar o bem – alicui bene.

A reza, portanto, nada mais é do que uma prece em voz alta.

O espírita dispensa as rezas e os oratórios que se transformem em rogatórios a Deus, onde muitos se confundem e há, até, os que, na “inspiração” do momento, acabam por dizer o que Deus deva fazer, num vocativo misto de abduções incompatíveis, com o desejo de se colocar diante dos guias, em submissão.

A prece, combatida por muitos que querem afastar a parte religiosa do Espiritismo em detrimento do seu tríplice aspecto, tem sido, sem dúvida, motivo de grandes controvérsias: há os exagerados, que passam sessões inteiras num falatório absurdo e desconcertante, há os que sequer admitem que se tenha um momento de recolhimento, como se esse fosse ritualístico.

Todavia, os fatos têm mostrado que aqueles que elevam seu pensamento ao Alto, em prece, sem rituais, sem pantomimas, sem exibicionismo, simplórios e com fé – aí entra o capítulo da fé –, têm conseguido verdadeiros milagres na acepção configurada da palavra.

Ela, portanto, tem, de fato, quando sincera, um grande poder. Explicar? É difícil.

A prece ideal é a íntima e silenciosa, feita no recôndito dos sentimentos.

Deolindo Amorim adotou esta prece silenciosa na abertura dos trabalhos do ICEB que presidia, sugerindo o recolhimento a cada um, para que se concentrasse.

É comum, em reuniões, destacar-se alguém para fazer uma prece na abertura e outra no seu encerramento, que é feita em voz alta a fim de que os demais participantes a ouçam. Isto é mera tradição de costumes. O responsável pela reunião poderá dispensar esse aparato e convocar os presentes para que cada qual faça a sua oração introspectiva, mantendo um espaço de silêncio que permita a concentração das pessoas. Essa é uma prece verdadeira, sem falação.

A outra, em voz alta, nem sempre representa a concentração ideal, primeiro porque muitos são os que acabam se envolvendo no que o orador esteja dizendo, depois, porque é mais fácil nos concentrarmos em silêncio. A coisa se agrava em alguns recintos, quando, para se orar, todo mundo se levanta o que, por si, já é um motivo de desconcentração e não deixa de ser um ritual.

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Prece demais também não funciona

A terapia também recomenda comedimento medicamentoso; as orações devem se restringir à sinceridade e de nada adianta ficar rezando o tempo inteiro sem corrigir seus erros, porque o alívio não é dado ao renitente. Mesmo em sessões mediúnicas de tratamento, sob alegação de que se torna necessário manter os presentes concentrados, o abuso oratório cansa e massifica, sem resultados; o fervor não está na quantidade, mas, na qualidade.

Os Espíritos Superiores a quem são dirigidas as rogações, não estão preocupados com formalidades, muito menos com ladainhas.

Para concluir, não se pode negar que são muitos os casos dos que, em aflição, elevam seu pensamento ao Alto, em preces, e são atendidos, ou, pelo menos, aliviados, melhoram as angústias e reconfortam o sofredor; não se trata de sugestão nem de condicionamento, pois, por vezes, o beneficiado nem chega a ser o que roga.

O que daí se pode deduzir é que, do mesmo modo que o encarnado socorre aquele que lhe peça ajuda, também o desencarnado se volta para os aflitos, onde o pedido é a prece. Admite-se, com certa justeza, que a fé com que a pessoa faz sua prece seja uma energia psíquica auxiliar que permita que as Entidades socorristas entrem em sintonia com o necessitado, facilitando a ajuda.

Esse ponto de vista aumenta com as novas descobertas cerebrais do centro da fé.

E como não são as formalidades que ditam a fé, o que se recomenda é que haja sinceridade ao lado do fervor e simplicidade na oração.

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O poder da prece existe

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NOTA:

(*) Não se deve confundir com fides, um instrumento de corda, nem com fides, is – o mesmo –, ambos escritos com minúscula e que não definem nenhuma divindade. A constelação de Lyra é conhecida como Fides, ou mais comumente, Fidis; esta sim representaria a divindade latina, como várias outras ligadas à mitologia romana, na nomenclatura.

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Capítulo da Obra: E Deus, Existe? – Por Carlos de Brito Imbasshy

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