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EM FOCO

24/05/2017

Do latim ao português – historicidade da língua


A LINGUA PORTUGUESA E AS “LINGUAS”

A língua portuguesa é uma das cinco línguas mais faladas no mundo – cerca de 180 milhões de indivíduos utilizam-na como língua mãe. É a língua nacional de Portugal (incluindo Açores e Madeira ) e do Brasil, a língua oficial de vários países africanos – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe – onde convive com múltiplas línguas nacionais, e ainda sobrevive na Ásia — Macau e Goa – e na Oceania – Timor – como língua de grupos minoritários.
A língua portuguesa pertence ao grupo das línguas românicas, ou neolatinas, e teve a sua origem no latim falado, levado para a Península Ibérica por volta do século II a.C., como consequência das conquistas políticas do Império Romano. Originado no Lácio, na Itália Antiga, o latim expandiu-se por quase todo o mundo conhecido devido ao espírito de organização e domínio bélico e político-cultural de Roma.

Após esses comentários passemos a nosso “papo”: – Temos notado, com enorme interesse, a inventiva de nossos irmãos espíritas. De certo modo, algumas destas invenções nos chegam aos ouvidos e quando assomam ao cérebro e sobre elas raciocinamos, por vezes não podemos segurar boas gargalhadas.

Temos nós, os espíritas brasileiros, não sei se num afã de imitarmos Kardec, grande trabalho no invento de “neologismos”, alias não propriamente neologismos, mas simplesmente modismos, e estes mais das vezes, não têm nenhuma correlação com a língua portuguesa quer em sua origem latina, quer no português pátrio.

De todos os que já escutamos, resolvemos, hoje, falar da muito usada expressão “Estar espírita”. Ora, se os que a falam se prendessem mais à língua do que a modismos, errariam menos, certamente.

No intuito de ajudar, conversando com o confrade e amigo Carlos de Brito Imbassahy, conhecedor do Latim e do Português, concluí por escrever este artigo a duas mãos, para isso pedi a ajuda dele no quesito Latim, posto que minha lembrança desta língua diste de muitos anos, desde o antigo ginásio, que hoje é conhecido como Ensino Fundamental. Vejam o que encontramos:

Fala Carlos Imbassahy:

“Embora em alguns idiomas, mesmo latinos como o francês, os verbos “ser” e “estar” sejam representados pelo mesmo vocábulo, no latim são dois verbos distintos: sum, es, fui esse – ser; sto, stas, steti, statum, stare – estar; o primeiro é defectivo e não tem o supino, enquanto que o segundo é completo. Em latim, sem dúvida, têm sentidos devidamente distintos.

São ditos predicativos, em nosso idioma, verbos como ser, tornar, parecer, ficar, ou seja, verbos que, em vez de admitirem objetos como complemento, encerram em seu lugar uma definição, um estado ou uma qualificação de um ente; e o verbo é definido como nominal.

Todavia, esses verbos têm sentido diferente e são usados segundo sua conveniência, portanto, é prudente que saibamos o sentido de cada um, não só para seu emprego devido como ainda para não cometer nenhum barbarismo lingüístico.

O caso vem à baila porque, recentemente, os pedantes do idioma resolveram admitir que “não são espíritas”, estão espíritas, como se fosse possível vernaculamente afirmar tal coisa.

De fato, pode-se, sem dúvida usar os verbos predicativos mudando o sentido da frase; senão vejamos:

1 – tornei-me espírita: – significa dizer que antes não o era.

2 – pareço espírita: – porque meu comportamento é de um deles.

3 – fiquei espírita: – não o era, mas acabei sendo.

4 – achei-me espírita: – ou seja, julguei que pudesse sê-lo.

5 – permaneço espírita: – continuo sendo.

6 – sou espírita: – adotei esta doutrina como sendo o fundamento dos princípios de vida que sigo.

7 – estou espírita: – no caso, não estou sentado, não estou em pé, não tenho nenhuma posição específica… como exige o verbo. Quem está é porque define uma determinada maneira.

Evidentemente, estão tentando criar este novo estar predicativo para espírita, mas, infelizmente, consultando os clássicos vamos encontrar, para o verbo estar, os seguintes estados:

Segundo Cícero – estar direito, em pé, firme, imóvel, permanecer no mesmo lugar, não fugir.

Terêncio – estar firme, imóvel, parado.

Lucílio – sobrepujar, estar eminente.

Ovídio – estar pregado.

Lívio – firmar-se, sustentar-se.

Vigílio – steteruntque coma – não pode estar quieto.

Cícero – Non adhuc stat – ainda não está deliberado.

Plauto – Quid stas – ainda não está determinado.

E poderíamos sair citando exemplos de todas as naturezas, usando o verbo estar no sentido até de permanecer e de ficar, só que o de ser e o de tornar são incompatíveis com o seu uso, segundo os autores da velha Roma colecionados pelo Magnum Lexicon, o mais tradicional e correto dicionário deste idioma.

De fato, a pessoa está doente, está numa posição qualquer, está na ativa, está fazendo alguma coisa, está dotada de predicados, mas, daí a dizer que ela esteja espírita, ou o que quer seja, no sentido de possuir um conceito de vida, ou doutrinário, ou mesmo puramente filosófico não tem apoio em nosso idioma.

Por que estar espírita? Ou será que não quer assumir uma condição que, de fato, não possua?

Nem no sentido figurado parece que tenha apoio dizer-se tal coisa, afinal, uma doutrina não é uma posição adotada, mas um conceito adquirido como fundamento ou princípio de vida. E nem como neologismo, porque não se podem usar termos já devidamente integrados ao idioma para definir o sentido que não lhe seja correlato. Não se está filósofo, não se está matemático, não se está religioso, como se estivesse são ou doente, em pé ou deitado, rico ou falido, triste ou alegre, enfim, algo que, de fato, defina um estado com o qual a pessoa partilhe, nunca um conceito, em geral.

São modismos injustificáveis, afinal, perde o sentido do que se queira definir.

Seria muito melhor que tais pessoas, em vez de se dizerem espíritas como se estivessem usando uma roupa – estar vestido – eles, realmente, se dedicassem com carinho ao estudo doutrinário e se aprofundassem em sua filosofia cuja única base é a codificação de Kardec e o que não se pode abrir mão.

Ou, então, julgam-se devidamente afetados por uma faceta doutrinária, mas, incapazes de seguir a codificação como verdadeira é, porém, assim mesmo, não se está espírita, tenta-se ser.

E o importante de tudo é que o verbo estar, nos idiomas, como inglês, francês e outras, na hora de se traduzir, vai ser configurado pelo verbo ser, mostrando que o conceito de estar não é peculiar a tais idiomas. Se ainda fosse o inverso, ou seja, o verbo “ser” sendo usado com estar, talvez, até, pudéssemos admitir que, em nosso idioma, alguém não fosse, mas estivesse filósofo, ou cientista, ou religioso…”

Falo Eu:

Depois dessa leitura que passou pela língua da qual a nossa se origina, não há, pois, que se entender como querem alguns, o verbo Estar como dando sentido a uma ação, diferentemente da idéia que querem estes nos passar, tal verbo, vem por indicar uma estado de imobilidade, o que representa contrariedade à própria propositura da doutrina que é eminentemente progressista, e progresso gente, indica movimento constante, não inatividade.

Deixemos, pois de invencionices, distantes da língua e da doutrina, e façamos, pelo menos por imitação ao codificador, “O Bom Senso Encarnado”, como ele e tantos espíritos já nos indicaram fazer: Passemos tudo, mas TUDO mesmo, pelo “cadinho da razão”, assim agiremos pautados nas máximas codificadas, dentro do CUEE e dentro da norma culta, esta ilustre desconhecida.

 

Rio de Janeiro, 01 de outubro de 2004.

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