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29/06/2017

CURIOSIDADE HISTÓRICA – Os atentados aos documentos de Kardec João Donha


“Nossa expectativa não foi em vão, e a circulação foi precariamente restabelecida; os Correios ainda estão desorganizados, mas as cartas chegam de todas as partes ao nosso escritório na Rue de Lille, salvo das chamas pela vigilância inquieta de um espírita, o Senhor X., tenente de embarcação. Diga-se de passagem que o Senhor X., ocupando a área com os seus marinheiros, frustrou, por meio de um monitoramento constante, duas tentativas de incêndio contra o que ainda restava da Rue de Lille, o que teria por resultado condenar à aniquilação o que foi possível salvar desse maravilhoso ‘quartier’. Estamos felizes em fazer, nesta circunstância, junto ao Senhor X., eco aos agradecimentos do mundo espírita europeu pelo papel que ele desempenhou no salvamento dos nossos documentos.”

 

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Quem já leu os percalços pelos quais passaram os documentos de Kardec no texto “Em busca do Santo Graal”, pode acrescentar mais este aí, relatado pelo Desliens na Revista Espírita de Julho de 1871.

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Em 19 de julho de 1870, cerca de quinze meses após o decesso de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia. A batalha decisiva ocorreu em 2 de setembro, quando os franceses foram derrotados e o Imperador aprisionado pelos prussianos. Mas Bismarck estendeu a guerra até o final de janeiro do ano próximo com o fim de enfraquecer bastante a França e ficar em definitivo com a Alsácia-Lorena. Os alemães só deixarão a França em 1873, cobrando pesadas compensações de guerra (“Levando nossas riquezas, a Prússia leva uma parte dos nossos vícios; pois ao ficarmos menos ricos, por certo ficaremos mais virtuosos”, diz uma das cartas recebidas pela Revue).

Em 8 de fevereiro de 1871, a recém-instalada III República realiza eleições para a Assembléia Nacional. O interior vota nos conservadores e enrustidos monarquistas; Paris, vota nos socialistas, anarquistas, liberais e republicanos autênticos. O líder da assembléia, Thiers, instala o governo em Bordéus, depois em Versalhes. A cidade luz se revolta: é instalada a Comuna de Paris. Thiers tenta, em 18 de março, tomar os canhões da Guarda Nacional; o povo reage e fuzila os generais. Então, Bismarck liberta e arma os cem mil prisioneiros de guerra para que se unam ao pequeno exército de Thiers e reprimam a Comuna. O cerco se inicia em 21 de maio. Dada a superioridade dos conservadores, a população provoca incêndios na tentativa de conter os soldados. Paris em chamas! É a “semana sangrenta”, que dura até 28 de maio, quando a Comuna se extingue em meio a vinte mil mortos e dez mil prisioneiros ou exilados. O último reduto caiu em Menilmontant, próximo à porta por onde eu e minha esposa entramos no Père Lachaise quando lá estivemos.

É interessante como os preciosos arquivos, com os quais “a posteridade poderia julgar os homens”, correm o risco de extinção desde o começo de sua existência.

Terá valido a pena, o arriscado esforço do valoroso marinheiro espírita e seus comandados, dando uma sobrevida a este “quadro único da história do espiritismo moderno”?

Dizem que alguns anos depois, Leymarie, então todo-poderoso gerente do espólio kardeciano, enviou vários desses documentos aos seus amigos do Brasil. O restante do acervo foi novamente ameaçado quando seu filho, assustado com uma “reentrée” dos canhões germânicos e franceses ameaçou abandoná-los à própria sorte. Foram salvos, desta vez, pelo Jean Meyer, que os recolheu na Maison des Spirites, onde distribuíram suas luzes por um quarto de século, até a Maison virar quartel de tropas, novamente germânicas, e serem pilhados e sepultados impunemente nos porões dos descendentes de quem os retirou de seu devido lugar.

Seria a força do destino tentando se contrapor à força das coisas?

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