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18/08/2017

Segunda Parte – Capítulo IV – Espíritos sofredores

O Castigo

Exposição geral do estado dos culpados por ocasião da entrada no mundo dos Espíritos, ditada à Sociedade Espírita de Paris, em outubro de 1860.

Depois da morte, os Espíritos endurecidos, egoístas e maus são logo tomados de uma dúvida cruel a respeito do seu destino, no presente e no futuro. Olham em torno de si e nada vêem que possa aproveitar ao exercício da sua maldade — o que os desespera, visto como o insulamento e a inércia são intoleráveis aos maus Espíritos. Não levantam o olhar às moradas dos Espíritos elevados, consideram aquilo que os cerca e, então, compreendendo o abatimento dos Espíritos fracos e punidos, se agarrarão a eles como a uma presa, utilizando -se da lembrança de suas faltas passadas, que eles põem continuamente em ação pelos seu s gestos ridículos. Não lhes bastando esse motejo, atiram -se para a Terra como abutres famintos, procurando entre os homens uma alma que lhes dê fácil acesso às tentações. Encontrando -a, dela se apoderam exaltando-lhes a cobiça e procurando extinguir -lhe a fé em Deus, até que por fim, senhores de uma consciência e vendo segura a presa, estendem a tudo quanto se lhe aproxime a fatalidade do seu contágio.

O mau Espírito, no exercício da sua cólera, é quase feliz, sofrendo apenas nos momentos em que deixa de atuar, ou nos casos em que o bem triunfa do mal.

Passam no entanto os séculos e, de repente, o mau Espírito pressente que as trevas acabarão por envolvê-lo; o círculo de ação se lhe restringe e a consciência, muda até então, faz-lhe sentir os acerados espinhos do remorso. Inerte, arrastado no turbilhão, ele vagueia, como dizem as Escrituras, sentindo a pele arrepiar -se-lhe de terror. Não tarda, então, que um grande vácuo se faça nele e em torno dele: chega o momento em que deve expiar; a reencarnação aí está ameaçadora… e ele vê como num espelho as provações terríveis que o aguardam; quereria recuar, mas avança e, precipitado no abismo da vida, rola em sobressalto, até que o véu da ignorância lhe recaia nos olhos. Vive, age, é ainda culpado, sentindo em si não sei que lembrança inquietadora, pressentimentos que o fazem tremer, sem recuar, porém, da senda do mal. Por fim extenuado de forças e de crimes, vai morrer. Estendido numa enxerga (ou num leito, que importa?!), o homem culpado sente, sob aparente imobilidade, resolver-se e viver dentro de si mesmo um mundo de esquecidas sensações. Fechadas as pupilas, ele vê um clarão que desponta, ouve estranhos sons; a alma, prestes a deixar o corpo, agita -se impaciente, enquanto as mãos crispadas tentam agarrar as cobertas… Quereria falar, gritar àqueles que o cercam: — Retenham-me! eu vejo o castigo! — Impossível! a morte sela-lhe os lábios esmaecidos, enquanto os assistentes dizem: Descansa em paz!

E contudo ele ouve, flutuando em torno do corpo que não deseja abandonar. Uma força misteriosa o atrai; vê e reconhece finalmente o que já vira. Espavorido, ei-lo que se lança no Espaço onde desejaria ocultar -se, e nada de abrigo, nada de repouso. Retribuem-lhe outros Espíritos o mal que fez; castigado, confuso e escarnecido, por sua vez vagueia e vagueará até que a divina luz o penetre e esclareça, mostrando -lhe o Deus vingador, o Deus triunfante de todo o mal, e ao qual não poderá apaziguar senão à força de expiação e gemidos.

Jorge.

Nunca se traçou quadro mais horrível e verdadeiro à sorte do mau: será ainda necessária a fantasmagoria das chamas e das torturas físicas?

Novel

O Espírito dirige-se ao médium, que em vida o conhecera.

Vou contar-lhe o meu sofrimento quando morri. Meu Espírito, preso ao corpo por elos materiais, teve grande dificuldade em desembaraçar-se — o que já foi, por si, uma rude angústia. A vida que deixava aos 21 anos era ainda tão vigorosa que eu não podia crer na sua perda. Por isso procurava o corpo, estava admirado, apavorado por me ver perdido num turbilhão de sombras. Por fim, a consciência do meu estado e a revelação das faltas cometidas, em todas as minhas encarnações, feriram-me subitamente, enquanto uma luz implacável me iluminava os mais secretos recônditos da alma, que se senti a desnudada e logo possuída de vergonha acabrunhante. Procurava fugir a essa influência interessando-me pelos objetos que me cercavam, novos, mas que, no entanto, já conhecia; os Espíritos luminosos, flutuando no éter, davam-me a ideia de uma ventura a que eu não podia aspirar; formas sombrias e desoladas, mergulhadas umas em tedioso desespero; furiosas ou irônicas outras, deslizavam em torno de mim ou por sobre a terra a que me chumbava. Eu via agitarem-se os humanos cuja ignorância invejava; toda uma ordem de sensações desconhecidas, ou antes reencontradas, invadiram-me simultaneamente. Como que arrastado por força irresistível, procurando fugir à dor encarniçada, franqueava as distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as belezas naturais nem os esplendores celestes pudessem acalmar um instante a dor acerba da consciência, nem o pavor causado pela revelação da eternidade. Pode um mortal prejulgar as torturas materiais pelos arrepios da carne; mas as vossas frágeis dores, amenizadas pela esperança, atenuadas por distrações ou mortas pelo esquecimento, não vos darão nunca a ideia das angústias de uma alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem arrependimento. Decorrido um tempo cuja duração não posso precisar, invejando os eleitos cujos esplendores entrevia, detestando os maus Espíritos que me perseguiam com remoques, desprezando os humanos cujas torpezas eu via, passei de profundo abatimento a uma revolta insensata.

Chamaste-me finalmente, e pela primeira vez um sentimento suave e terno me acalmou; escutei os ensinos que te dão os teus Guias, a verdade me foi imposta, orei; Deus ouviu-me, revelou-se-me por Sua clemência, como já se me havia revelado por Sua Justiça.

Novel.

Augusto Michel

(Havre, março de 1863)

Era um moço rico, boêmio, gozando larga e exclusivamente a vida material. Conquanto inteligente, o indiferentismo pelas coisas sérias era -lhe o traço característico. Sem maldade, antes bom que mau, fazia-se estimar por seus companheiros de pândegas, sendo apontado na sociedade por suas qualidades de homem mundano. Não fez o bem, mas também não fez o mal. Faleceu em consequência de uma queda da carruagem em que passeava. Evocado alguns dias depois da morte por um médium que indiretamente o conhecia, deu sucessivamente as seguintes comunicações:

8 de março de 1860 — “Por enquanto apenas consegui desprender -me e dificilmente vos posso falar. A queda que me ocasionou a morte do corpo perturbou profundamente o meu Espírito. Inquieta-me esta incerteza cruel do meu futuro. O doloroso sofrimento corporal experimentado nada é comparativamente a esta perturbação. Orai para que Deus me perdoe. Oh! Que dor! Oh! Graças, meu Deus! Que dor! Adeus.”

18 de março — “Já vim a vós, mas apenas pude falar dificilmente. Presentemente, ainda mal me posso comunicar convosco. Sois o único médium, ao qual posso pedir preces para que a bondade de Deus me subtraia a esta perturbação. Por que sofrer ainda, quando o corpo não mais sofre? Por que existir, sempre esta dor horrenda, esta angústia terrível? Orai, oh ! orai para que Deus me conceda repouso… oh! que cruel incerteza! Ainda estou ligado ao corpo. Apenas com dificuldade posso ver onde devo encontrar -me; meu corpo lá está, e porque também lá permaneço sempre? Vinde orar sobre ele para que eu me desvencilhe dessa prisão cruel…Deus me perdoará, espero. Vejo os Espíritos que estão junto de vós e por eles posso falar-vos. Orai por mim.”

6 de abril — “Sou eu quem vem pedir que oreis por mim. Será preciso irdes ao lugar em que jaz meu corpo, a fim de implorar do Onipotente que me acalme os sofrimentos? Sofro! Oh! Se sofro! Ide a esse lugar — assim é preciso e dirigi ao Senhor uma prece para que me perdoe. Vejo que poderei ficar mais tranquilo, mas volto incessantemente ao lugar em que depositaram o que me pertencia”.

O médium, não dando importância ao pedido que lhe faziam de orar sobre o túmulo, deixara de atender. Todavia, indo aí, mais tarde, lá mesmo recebeu uma comunicação.

11 de maio — “Aqui vos esperava. Aguardava que viésseis ao lugar em que meu Espírito parece preso ao seu invólucro, a fim de implorarão Deus de misericórdia e bondade acalmar os meus sofrimentos. Podeis beneficiar -me com as vossas preces, não o esqueçais, eu vo-lo suplico. Vejo quanto a minha vida foi contrária ao que deveria ser; vejo as faltas cometidas. Fui no mundo um ser inútil; não fiz uso proveitoso das minhas faculdades; a fortuna serviu apenas à satisfação das minhas paixões, aos meus caprichos de luxo e à minha vaidade; não pensei senão nos gozos do corpo, desprezando os da alma e a própria alma. Descerá a misericórdia de Deus até mim, pobre Espírito que sofre as consequências das suas faltas terrenas? Orai para que Ele me perdoe, libertando -me das dores que ainda me pungem. Agradeço-vos o terdes vindo aqui orar por mim.”

8 de junho — “Posso falar e agradeço a Deus que faculta a oportunidade. Compreendi as minhas faltas e espero que Deus me perdoe. Trilhai sempre na vida de conformidade com a crença que vos alenta, porque ela vos reserva de futuro um repouso que eu ainda não tenho. Obrigado pelas vossas preces. Até outra vista.”

A insistência do Espírito, para que se orasse sobre o seu túmulo é uma particularidade notável, mas que tinha a sua razão de ser se levarmos em conta a tenacidade dos laços que ao corpo o prendiam, à dificuldade do desprendimento, em consequência da materialidade da sua existência. Compreende-se que, mais próxima, a prece pudesse exercer uma espécie de ação magnética mais poderosa no sentido de auxiliar o desprendimento. O costume quase geral de orar jun to aos cadáveres não provirá da intuição inconsciente de efeito, assim? Nesse caso, a eficácia da prece alcançaria um resultado simultaneamente moral e material.

Exprobrações de um Boêmio

(Bordéus, 19 de abril de 1862)

30 de julho — “Presentemente sou menos infeliz, visto não mais sentir a pesada cadeia que me jungia ao corpo. Estou livre, enfim, mas ainda não expiei e preciso é que repare o tempo perdido se eu não quiser prolongar os sofrimentos. Espero que Deus, tendo em conta a sinceridade do arrependimento, me conceda a graça do perdão. Pedi ainda por mim, eu vo-lo suplico.

Homens, meus irmãos, eu vivi só para mim e agora expio e sofro! Conceda-vos Deus a graça de evitardes os espinhos que ora me laceram. Prossegui na senda larga do Senhor e orai por mim, pois abusei dos favores que Deus faculta às criaturas!

Quem sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons sentimentos que Deus lhe dá,assemelha-se ao animal que muitas vezes se maltrata. O homem deve utilizar-se sobriamente dos bens de que é depositário, habituando-se a visar a eternidade que o espera, abrindo mão por consequência, dos gozos materiais. A sua alimentação deve ter por exclusivo fim a vitalidade; o luxo deve apenas restringir -se às necessidades da sua posição; os gostos, os pendores, mesmo os mais naturais, devem obedecer ao são raciocínio, sem o que ele se materializa em vez de se purificar. As paixões humanas são estreitos grilhões que se enroscam na carne; assim sendo, não lhes deis abrigo. Vós não sabeis o preço quando regressamos à pátria! As paixões humanas vos despem antes mesmo de vos deixarem, de modo que chegareis nus, completamente nus, ante o Senhor. Ah! cobri -vos de boas obras que vos ajudem a franquear o Espaço entre vós e a eternidade. Manto brilhante, elas escondem as vossas torpezas humanas. Envolvei-vos na caridade e no amor, vestes divinas que duram eternamente.”

Instruções do Guia do médium — Este Espírito está num bom caminho, porquanto, além do arrependimento, deduz conselhos tendentes a evitar os perigos da senda por ele trilhada. Reconhecer os erros é já um mérito e um passo efetivo para o bem; também por isso, a sua situação, sem ser venturosa, deixa de ser a de um Espírito infeliz.Arrependendo-se, resta-lhe a reparação de uma outra existência Mas ante s de lá chegar, sabeis qual a existência desses homens de vida sensual que não deram ao Espírito outra atividade além da invenção de novos prazeres? A influência da matéria segue -os além-túmulo, sem que a morte lhes ponha termo aos apetites que a sua vista, tão limitada como quando na Terra, procura em vão os meios de os saciar. Por não terem nunca procurado alimento espiritual, a alma erra no vácuo, sem norte, sem esperança, presa dessa ansiedade de quem não tem diante de si mais que um deserto sem limites, A inexistência das lucubrações espirituais acarreta naturalmente a nulidade do trabalho espiritual depois da morte; e porque não lhe restem meios de saciar o corpo, nada restará para satisfazer o Espírito. Daí, um tédio mortal cujo fim não preveem e ao qual prefeririam o nada. Mas o nada não existe… Puderam matar o corpo, mas não podem aniquilar o Espírito. Importa pois que vivam nessas torturas morais até que, vencidos pelo cansaço, se decidam a volver os olhos para Deus.

Lisbeth

(Bordéus, 13 de fevereiro de 1862)

Um Espírito sofredor inscreve-se com o nome de Lisbeth.

1.Quereis dar-nos algumas informações a respeito da vossa posição, assim como da causa dos vossos sofrimentos?

R. Sede humilde de coração, submisso a vontade de Deus, paciente na provação, caridoso para com o pobre, consolador do fraco, sensível a todos os sofrimentos e não sofrereis as torturas porque passo.

2.Pareceis sentir as faltas decorrentes de contrário procedimento… O arrependimento deverá dar-vos alívio?

R. Não. — O arrependimento é inútil quando apenas produzido pelo sofrimento. O arrependimento profícuo tem por base a mágoa de haver ofendido a Deus e importa no desejo ardente de uma reparação. Ainda não posso tanto, infelizmente. Recomendai-me às preces de quantos se interessam pelos sofrimentos alheios, porque delas tenho necessidade.

Este ensinamento é uma grande verdade; às vezes o sofrimento provoca um brado de arrependimento menos sincero, que não é a expressão de pesar pela prática do mal, visto como, se o Espírito deixasse de sofrer, não duvidaria reencetá-la. Eis porque o arrependimento nem sempre acarreta a imediata libertação de Espírito. Predispõe-no, porém, para ela — eis tudo. É-lhe preciso, além disso provar a sinceridade e firmeza da resolução, por meio de novas provações reparadoras do mal praticado. Meditando cuidadosamente sobre todos os exemplos citados, encontraremos nas palavras dos Espíritos

— mesmo dos mais inferiores — profundos ensinamentos, pondo-nos a par dos mais íntimos pormenores da vida espiritual. O homem superficial pode não ver nesses exemplos mais que pitorescas narrativas; mas o homem sério e refletido encontrará neles abundante manancial de estudos.

3. Farei o que desejais. Podereis dar -me alguns pormenores da vossa última existência corporal? Daí talvez nos advenha ensinamento útil e assim tornareis proveitoso o arrependimento. (O Espírito vacila na resposta, não só desta pergunta, como de algumas das que se seguem.)

R. Tive um nascimento de elevada condição. Possuía tudo o que os homens julgam a fonte da felicidade. Rica, tornei-me egoísta; bela, fui vaidosa, insensível, hipócrita; nobre, era ambiciosa. Calquei ao meu poderio aqueles que não se me arrojavam aos pés e oprimia ainda mais os que sob eles se colocavam, esquecida de que também a cólera do Senhor esmaga, cedo ou tarde, as mais altivas frontes.

4. Em que época vivestes?

R. Há cento e cinquenta anos, na Prússia.

5. Desde então não fizeste progresso algum como Espírito?

R. Não; a matéria revoltava-se sempre e tu não podes avaliar a influência que ela ainda exerce sobre mim, a despeito da separação do corpo. O orgulho agrilhoa-nos a brônzeas cadeias, cujos anéis mais e mais comprimem o mísero que lhe hipoteca o coração. O orgulho, hidra de cem cabeças que se renovam incessantemente, modulando silvos empeçonhados que chegam a parecer celeste harmonia! O orgulho — esse demônio multiforme que se amolda a todas as aberrações do Espírito que se oculta em todos os refolhos do coração; que penetra as veias; que absorve e arrasta às trevas da eterna geena!… Oh! sim… eterna!

Provavelmente, o Espírito diz não ter feito progresso algum, por ser a sua situação sempre penosa; a maneira pela qual descreve o orgulho e lhe deplora as consequências é, incontestavelmente, um progresso. Decerto que, quando encarnado e mesmo logo após a morte, ele não poderia raciocinar assim. Compreende o mal, o que já é alguma coisa, e a coragem e o propósito de o evitar lhe advirão mais tarde.

6.Deus é muito bom para não condenar seus filhos a penas eternas. Confiais na Sua misericórdia.

R. Dizem que isto pode ter um termo, mas onde e quando? Há muito que o procuro e só vejo sofrimento, sempre, sempre, sempre!

7.Como viestes hoje aqui?

R. Conduzida por um Espírito que me acompanha muitas vezes.

P. Desde quando o vedes, a esse Espírito?

R. Não há muito tempo.

P. É desde quando tendes consciência das faltas que cometestes?

R. (Depois de longa reflexão) Sim, tendes razão; foi daí para cá que principiei a vê -lo.

8.Compreendeis agora a relação existente entre o arrependimento e o auxílio prestado por vosso protetor? Tomai por origem desse apoio o amor de Deus, cujo fim será o seu perdão e misericórdia infinitos.

R. Oh! como desejaria que assim fosse. Creio poder prometer no nome, aliás sacratíssimo, d’Aquele que jamais foi surdo à voz dos filhos aflitos.

9.Pedi de coração e sereis ouvida.

R. Não posso; tenho medo.

P. Oremos juntos, Ele nos atenderá. (Depois da prece). Ainda estais aí?

R. Sim, Obrigada! Não me esqueçais.

10. Vinde inscrever-vos aqui todos os dias?

R. Sim, sim, virei sempre.

O Guia do médium — Nunca vos esqueçais dos ensinos que bebeis nos sofrimentos dos vossos protegidos e notadamente nas suas causas, visto serem lição que a todos aproveita no sentido de se preservarem dos mesmos perigos e de idênticos castigos. Purificai os corações, sede humildes, amai-vos e ajudai-vos sem esquecerdes jamais a fonte de todas as graças, fonte inesgotável na qual podem todos saciar -se à vontade, fonte de água viva que desaltera e alimenta igualmente, fonte de vida e ventura eterna. Ide a ela, meus amigos, e bebei com fé. Mergulhai nela as vossas vasilhas, que sairão de suas ondas, pejadas de bênçãos. Adverti vossos irmãos dos perigos em que podem incorrer. Difundi as bênçãos do Senhor, que se reproduzem incessantemente: e quanto mais as propagardes, tanto mais se multiplicarão. Está em vossas mãos a tarefa, porquanto, dizendo aos vossos irmãos — aí estão os perigos, lá os escolhidos; vinde conosco a fim de os evitar: imitai-nos a nós que damos o exemplo — assim difundireis as bênçãos do Senhor sobre aqueles que vos ouvirem.

Abençoados sejam os vossos esforços. O Senhor ama os corações puros: fazei por merecer – lhe amor.

Santo Paulino.

Príncipe Ouran

(Bordéus,1862)

Um Espírito sofredor apresentou-se dando o nome de Ouran, príncipe russo de outros tempos.

P. Quereis dar-nos alguns pormenores sobre a vossa situação?

R. Oh! Felizes os humildes de coração, porque deles é o reino do céu! Orai por mim. Felizes os humildes de coração que escolhem uma posição modesta a fim de cumprirem a provação. Vós todos, a quem devora a inveja, não sabeis o estado a que ficou reduzido um desses que na Terra são considerados felizes; não avaliais o fogo que o abrasa nem os sacrifícios impostos pela riqueza quando por ela se quer obter a salvação! Permita-me o Senhor a mim, déspota orgulhoso, expiar os crimes derivados do meu orgulho entre aqueles mesmos a quem oprimi com a tirania! Orgulho! Repita-se constantemente a palavra para que se não esqueça nunca que ele é a fonte de todos os sofrimentos que nos acabrunham. Sim, eu abusei do poderio e favores de que dispunha; fui duro e cruel para com os inferiores, os quais tiveram de curvar -se a todos os meus caprichos, satisfazer a todas as minhas depravações. Quis a nobreza, a fortuna, as honras e sucumbi ao encargo superior às próprias forças.

Os Espíritos que sucumbem são geralmente levados a alegar um compromisso superior às próprias forças — o que é ainda um resto de orgulho e um meio de se desculparem para consigo próprios, não se conformando com a própria fraqueza. Deus não dá a ninguém mais do que possa suportar, não exige da árvore nascente os frutos dados pelo tronco desenvolvido. Demais, os Espíritos têm liberdade; o que lhes falta é a vontade, e esta depende deles exclusivamente. Com força de vontade não há tendências viciosas insuperáveis; mas, quando um vício nos apraz, é natural que não façamos esforços por domá-lo. Assim, somente a nós devemos atribuirás respectivas consequências.

P. Tendes consciência das vossas faltas e isto é já um passo para a regeneração.

R. Esta consciência é ainda um sofrimento. Para muitos Espíritos o sofrimento é um efeito quase material, visto como, atendo -se à humanidade de sua última encarnação, não experimentam nem apreendem as sensações morais . Liberto da matéria, o sentimento moral aumentou-se, para mim, de tudo quanto as cruéis sensações físicas tinham de horrível.

P. Lobrigais um termo aos vossos padecimentos?

R. Sei que não serão eternos, mas não lhes entrevejo o fim, sendo -me antes preciso recomeçar a provação.

P. E esperais fazê-lo em breve?

R. Não sei nada.

P. Lembrai-vos dos vossos antecedentes? Faço -vos este pedido no intuito de me instruir.

R. Vossos Guias aí estão e sabem do que precisais. Vivi no tempo de Marco Aurélio. Poderoso então, sucumbi ao orgulho, causa de todas as quedas. Depois de uma erraticidade de séculos, quis experimentar uma existência obscura. Pobre estudante, mendiguei o pão, mas o orgulho possuía-me sempre: o Espírito ganhara em ciência, mas não em virtude. Sábio ambicioso, vendi a consciência a quem mais dava, servindo a todas as vinganças, a todos os ódios. Sentia-me culpado, mas a sede de glórias e riquezas estrangulava a voz da consciência. A expiação ainda foi longa e cruel. Eu quis enfim, na minha última encarnação, reencetar uma vida de luxo e poderio, no intuito de dominar os tropeços, sem atender a conselhos. Era ainda o orgulho levando-me a confiar mais em mim mesmo do que no conselho dos protetores amigos que sempre velam por nós. Sabeis o resultado desta última tentativa.

Hoje, enfim, compreendo e aguardo a misericórdia do Senhor. Deponho a seus pés, o meu arrasado orgulho e peco-Lhe que me sobrecarregue com o mais pesado tributo de humildade, pois com o auxílio da Sua graça o peso me parecerá leve. Orai comigo e por mim: orai também para que esse fogo diabólico não devore os instintos que vos encaminham para Deus. Irmãos de sofrimentos, o orgulho é o inimigo da felicidade. É dele que promanam todos os males que acometem a Humanidade e a perseguem até n as regiões celestes.

O Guia do médium — Concebestes dúvidas sobre a identidade deste Espírito, por vos parecer a sua linguagem em desacordo com o estado de sofrimento acusando inferioridade. Desvanecei essas dúvidas, porque recebestes uma comunicação séria. Por mais sofredor, este Espírito tem assaz culta inteligência para exprimir -se de tal maneira. O que lhe faltava era apenas a humildade, sem a qual nenhum Espírito pode chegar a Deus. Essa humildade conquistou-a agora, e nós esperamos que, com perseverança, ele sairá triunfante de uma nova provação.

Nosso Pai celestial é justíssimo na sua Sabedoria e leva em conta os esforços da criatura para dominar os maus instintos. Cada vitória sobre vós mesmos é um degrau franqueado nessa escada que tem uma extremidade na Terra e outra aos pés do Juiz supremo.Alçai-vos por esses degraus resolutamente, porque a subida é tanto mais suave quanto firme a vontade. Olhai sempre para cima a fim de vos encorajardes, porque ai daquele que para e se volta. Depressa o atinge a vertigem, espanta-se do vácuo que o cerca, desanima e diz: para que mais caminhar, se tão pouco o tenho feito e tanto me falta? Não, meus amigos, não vos volteis.

O orgulho está incorporado no homem; pois bem, aproveitai-o na força e na coragem de terminar a vossa ascensão. Empregai-o ainda em dominar as fraquezas e galgai o cume da montanha eterna.

Pascal Lavic

(Havre, 9 de agosto de 1863)

Este Espírito, sem que o médium o conhecesse em vida, mesmo de nome, comunicou-se espontaneamente.

“Creio na bondade de Deus, que, na sua misericórdia, se compadecerá do meu Espírito. Tenho sofrido muito, muito; pereci no mar. Meu Espírito, ligado ao corpo, vagou por muito tempo sobre as ondas. Deus…

(A comunicação foi interrompida, e no dia seguinte o Espírito prosseguiu.) …

“…dignou-se permitir que as preces dos que deixei na Terra me tirassem do estado de perturbação e incerteza em que estava mergulhado o meu Espirito. Esperaram -me por muito tempo e conseguiram achar meu corpo. Este repousa atualmente, ao passo que o Espírito, libertado com dificuldade, vê as faltas cometidas. Consumada a provação, Deus julga com justiça, a sua bondade estende -se aos arrependidos.

“Por muito tempo, juntos erraram o corpo e o Espírito, sendo essa a minha expiação. Segui o caminho reto, se quiserdes que Deus facilite o desprendimento de vosso Espírito. Vivei no seu amor, orai, e a morte, para tantos temerosa, vos será suavizada pelo conhecimento da vida que vos espera. Sucumbi no mar, e por muito tempo me esperaram. Não poder desligar-me do corpo era para mim uma terrível provação, eis por que necessito das preces de quem, como vós, possui a crença salvadora e pode pedir por mim ao Deus de justiça. Arrependo -me e espero ser perdoado. A 6 de agosto foi meu corpo encontrado. E u era um pobre marinheiro e há muito tempo que morri. Orai por mim.

-P. Onde foi achado o vosso corpo?

-R. Não muito longe de vós.

Nota – O Journal du Havre, de 11 de agosto de 1863, continha o seguinte tópico, do qual o médium não podia ter ciência:

“Noticiamos que a 6 do corrente se encontrara um resto de cadáver encalhado entre Bléville e La Hève. A cabeça, os braços e o busto tinham desaparecido, mas, apesar disso, pôde verificar-se a sua identidade pelos sapatos ainda presos aos pés. Foi reconhecido o corpo do pescador Lavic, que fora arrebatado a 11 de dezembro de bordo do navio L’Alerte, por uma rajada de mar. Lavic tinha 49 anos de idade e era natural da cidade de Calais. Foi a viúva quem lhe reconheceu a identidade.”

Nota – A 12 de agosto, como se tratasse desse acontecimento no Centro em que o Espírito se manifestara pela primeira vez, deu este de novo, e espontaneamente, a seguinte comunicação:

“Sou efetivamente Pascal Lavic, que tem necessidade das vossas preces. Podeis beneficiar-me, pois terrível foi a provação por mim experimentada. A separação do meu Espírito do corpo só se deu depois que reconheci as minhas faltas; e depois disso, ainda não totalmente destacado, acompanhava-o no oceano que o tragara. Orai, pois, para que Deus me perdoe e me conceda repouso. Orai, eu vo-lo suplico. Oxalá este desastrado fim de uma infeliz vida terrena vos sirva de grande ensinamento! Deveis ter sempre em vista a vida futura, não deixando jamais de implorar a Deus a sua divina misericórdia. Orai por mim; tenho necessidade que Deus de mim se compadeça.

Pascal Lavic.

Ferdinando Bertin

Um médium do Havre evocou o Espírito de pessoa dele conhecida, que respondeu: -“Quero comunicar-me, porém não posso vencer o obstáculo existente entre nós. Sou forçado a deixar que se aproximem estes infelizes sofredores.” Seguiu-se então a seguinte comunicação espontânea:

“Estou num medonho abismo! Auxilia-me… Oh! meu Deus! quem me tirará deste abismo? Quem socorrerá com mão piedosa o infeliz tragado pelas ondas? Por toda parte o marulho das vagas, e nem uma palavra amiga que me console e ajude neste momento supremo. Entretanto, esta noite profunda é bem a morte com seus horrores, quando eu não quero morrer!… Oh! meu Deus! não é a morte futura, é a passada! Estou para sempre separado dos que me são caros…

Vejo o meu corpo, e o que há pouco sentia era apenas a lembrança da angustiosa separação…

Tende piedade de mim, vós que conheceis o meu sofrimento; orai por mim, pois não quero mais sentir as lacerações da agonia, como tem acontecido desde a noite fatal!… Ê essa, no entanto, a punição, bem a pressinto… Conjuro -vos a orar!… Oh! o mar… o frio… vou ser tragado pelas ondas!… Socorro!… Tende piedade; não me repilais! Nós nos salvaremos o s dois sobre esta tábua!… Oh! afogo-me! As vagas vão tragar-me sem que aos meus reste o consolo de me tornarem a ver… Mas não! que vejo? meu corpo balouçado pelas ondas… As preces de minha mãe serão ouvidas… Pobre mãe! se ela pudesse supor seu filho tão miserável como realmente o é, decerto pediria mais; acredita, porém, que a morte santificou o passado e chora – me como mártir e não como infeliz castigado!… Oh! vós que o sabeis, sereis implacáveis? Não, certo intercedereis por mim.

François Bertin.

Desconhecido inteiramente esse nome, não sugeria sequer à memória do médium uma vaga lembrança, pelo que supôs fosse de algum desgraçado náufrago que se lhe viesse manifestar espontaneamente, como sucedia várias vezes. Mais tarde soube ser, efetivamente, o nome de uma das vítimas da grande catástrofe marítima ocorrida nessas paragens a 2 de dezembro de 1863. A continuação foi dada a 8 do mesmo mês, 6 dias, portanto, depois do sinistro. O indivíduo perecera fazendo tentativas inauditas para salvar a equipagem e no momento em que se julgava ao abrigo da morte.

Não tendo qualquer parentesco com o médium, nem mesmo conhecimento, por que se teria manifestado a este em vez de o fazer a qualquer membro da família? É que os Espíritos não encontram em todas as pessoas condições fluídicas imprescindíveis à manifestação. Este, na perturbação em que estava, nem mesmo tinha a liberdade da escolha, sendo conduzido instintiva e atrativamente para o médium, dotado, ao que parece, de aptidão essencial para as comunicações deste gênero. Também é de supor que pressentisse uma simpatia particular, como outros a encontraram em idênticas circunstâncias. A família, estranha ao Espiritismo, talvez infensa mesmo a esta crença, não teria acolhido a manifestação como esse médium.

Posto que a morte remontasse a alguns dias, o Espírito lhe experimentava ainda todas as angústias. Evidente, portanto, que não tinha consciência da situação; acreditava que estava vivo, lutando com as ondas, mas ao mesmo tempo se referindo ao corpo como se dele estivesse separado; grita por socorro, diz que não quer morrer e fala logo após da causa da sua morte, reconhecendo nela um castigo. Toda essa incoerência denota a confusão das ideias, fato comum em quase todas as mortes violentas.

Dois meses mais tarde, a 2 de fevereiro de 1864, o Espírito de novo se comunicou espontaneamente pelo mesmo médium, dizendo -lhe o seguinte:

“A piedade que tivestes dos meus tão horríveis sofrimentos aliviou -me. Compreendo a esperança, entrevejo o perdão, mas depois do castigo da falta cometida. Sofro continuamente, e, se por momentos permite Deus que eu entreveja o fim da minha desventura, devo -o às preces de caridosas almas apiedadas da minha situação. Oh! Esperança, raio celeste, quão bendita és quando te sinto despontar-me na alma!… Mas, oh! O abismo escancara-se, o terror e o sofrimento absorvem o pensamento de misericórdia… A noite, sempre a noite!… a água, o bramir das ondas que me tragaram, são apenas pálida imagem do horror, em que se envolve o meu Espírito… Fico mais calmo quando posso permanecer junto de vós, pois assim como a confidência de um segredo ao peito amigo nos alivia, assim a vossa piedade, motivada pela confidência da minha penúria, acalma o sofrimento e dá repouso ao meu Espírito… Fazem-me bem as vossas preces, não mais recuseis. Não quero reapossar -me desse horroroso sonho que se transforma em realidade quando o vejo… Tomai o lápis mais vezes. Muito me aliviará o comunicar convosco.”

Dias depois, numa reunião espírita em Paris, dirigiram -se a este Espírito as seguintes perguntas, por ele englobadas numa única comunicação e mediante outro médium, na forma abaixo. Eis as perguntas: Quem vos levou a comunicar espontaneamente pelo outro médium? De que tempo datava a vossa morte quando vos manifestasses? Quando o fizestes parecíeis duvidar ainda do vosso estado, ao mesmo tempo que externáveis angústias de uma morte horrível; tendes agora melhor compreensão dessa situação? Dissestes positivamente que a vossa morte era uma expiação: podereis dizer-nos o motivo dessa afirmativa? Isso constituirá ensinamento para nós e ser-vos-á um alívio. Por uma confissão sincera fareis jus à misericórdia de Deus, a qual solicitaremos em nossas preces.

Resposta. “Em primeiro lugar parece impossível que uma criatura humana possa sofrer tão cruelmente. Deus! Como é penoso ver -se a gente constantemente envolta nas vagas da fúria, provando incessantemente este suplício, este frio glacial que sobe ao estômago e o constringe! Mas de que serve entreter -vos com tais cenas? Não devo eu começar por obedecer às leis da gratidão, agradecendo-vos a vós todos que vos interessastes pelos meus tormentos? Perguntastes se me manifestei muito tempo depois da morte? Não posso responder facilmente. Refletindo, avaliareis em que situação horrível estou ainda. Penso que para junto do médium fui trazido por força estranha à minha vontade e coisa inexplicável — servia-me do seu braço com a mesma facilidade com que sirvo neste momento do vosso, persuadido de que ele me pertencesse. Agora experimento mesmo um grande prazer, como que um alívio particular, que… mas ah! Ei-lo que vai cessar. Mas, meu Deus! Terei forças para fazer a confissão que me cumpre?”

Depois de ser muito animado, o Espírito ajuntou:

“Eu era muito culpado e o que mais m e tortura é ser tido por mártir, quando em verdade não o fui… Na precedente existência eu mandara ensacar várias vítimas e atirá -las ao mar… Orai por mim!…”

Comentário de S. Luís — Esta confissão trará grande alívio ao Espírito, que efetivamente foi bem culpado! Honrosa, porém, foi a existência que vem de deixar: era mui to estimado dos chefes. Essa circunstância era o fruto do arrependimento e das boas resoluções que tomou antes de voltar à Terra, onde, tanto quanto fora cruel, desejara ser humano. O devotamento que demonstrou era uma reparação, sendo -lhe porém preciso resgatar as passadas faltas por uma expiação final — a da morte que teve. Ele mesmo quis purificar-se pelo sofrimento das torturas que a outros infligira e reparai que uma ideia o persegue; o pesar de ser tido como mártir. Será tomada em consideração essa humildade. Enfim, ele deixou o caminho da expiação para entrar no da reabilitação, no qual por vossas preces podereis sustentá-lo, fazendo que o trilhe a passo mais firme e resoluto.

Francisco Riquier

Era um velho celibatário, avarento e muito popular, falecido em C… em 1857, legando aos parentes colaterais considerável fortuna. Em tempo fora locador de uma inquilina, que mais tarde o esquecera completamente, ignorando até se ainda, ou não, vivia. Em 1862, seguidas de espontâneo sono magnético e também boa médium escrevente, viu, num desses sonos, o Sr. Riquier, o qual, assegurava, pretendia dirigir -se à mãe dela. Passados alguns dias, uma vez que se manifestara espontaneamente confirmando aquele intuito, entretiveram com ele a seguinte conversação:

P . Que pretendeis de nós?

R. O dinheiro do qual se apossaram, os miseráveis, a fim de o repartirem! Venderam fazendas, casas, tudo para se locupletarem! Desbarataram meus bens como se não mais me pertencessem. Fazei com que haja justiça, já que a mim não me ouvem, e não quero presenciar essas infâmias. Dizem que eu era usurário, e guardaram-me o dinheiro. Por que não me querem restituir? Acharão que foi mal ganho?

P. Mas vós estais morto, meu caro senhor, e não tendes mais necessidade alguma de dinheiro. Implorai a Deus para vos conceder uma nova existência de pobreza a fim de expiardes a usura desta última.

R. Não, eu não poderei viver na pobreza. Preciso do meu dinheiro, sem o qual não posso viver. Demais, não preciso de outra existência, porque vivo estou atualmente.

P. (Foi-lhe feita a seguinte pergunta no intuito de cham -lo à realidade) Sofreis?

R. Oh! sim. Sofro piores torturas que as da mais cruel enfermidade, pois é minha alma que mas padece. Tendo sempre em mente a iniquidade de uma vida que foi para muitos motivo de escândalos, tenho a consciência de ser um miserável indigno de piedade, mas o meu sofrimento é tão grande que mister se faz que me auxiliem a sair desta situação deplorável.

P. Oraremos por vós.

R. Obrigado! Orai para que eu esqueça os meus bens terrenos, sem o que não poderei arrepender-me. Adeus e obrigado.

Francisco Riquier, Rue de Ia Charité n° 14.

É curioso ver-se este Espírito indicar a moradia como se estivesse vivo. A senhora deu-se pressa em verificá-la e ficou muito surpreendida por ver que era justamente a última casa que Riquier habitara. Eis, como, após cinco anos, ainda ele não se considerava morto, antes experimentava a ansiedade, bem cruel para um usurário, de ver os bens partilhados pelos herdeiros. A evocação, provocada indubitavelmente por qualquer Espírito bom, teve por fim fazer-lhe compreender o seu estado e predispô-lo ao arrependimento.

Clara

(Sociedade de Paris, 1861)

O Espírito que forneceu as comunicações seguintes pertenceu a uma senhora que o médium conhecera quando na Terra. A sua conduta, como o seu caráter, justificam plenamente os tormentos que lhe sobrevieram. Além do mais, ela era dominada por um sentimento exagerado de orgulho e egoísmo pessoais, sentimento que se patenteia na terceira das mensagens, quando pretende que o médium apenas se ocupe com ela. As comunicações foram obtidas em diferentes épocas, sendo que as três últimas já denotam sensível progresso nas disposições do Espírito, graças ao cuidado do médium, que lhe empreendera a educação moral.

1. Eis-me aqui, eu, a desgraçada Clara. Que queres tu que te diga? A resignação e a esperança não passam de palavras, para os que sabem que, inumeráveis como as pedras da saraivada, os sofrimentos lhe perdurarão na sucessão interminável dos séculos. Posso suavizá-los, dizes tu… Que vagas palavras! Onde encontrar coragem e esperança para tanto? Procura, pois, inteligência obtusa, compreender o que seja um dia eterno. Um dia, um ano, um século… que sei eu? Se as horas o não dividem, as estações variam; eterno e lento como a água que o rochedo roreja, esse dia execrando, maldito, pesa sobre mim, apenas sombras silenciosas e indiferentes… Eu sofro! Contudo, sei que acima desta miséria reina o Deus Pai, para o qual tudo se encaminha. Quero pensar n’Ele, quero implorar-Lhe misericórdia.

Debato-me e vivo de rojo como o estropiado que rasteja ao longo do caminho. Não sei que poder me atrai para ti; talvez sejas a salvação. Quando te de ixo é mais calma e reanimada, como anciã enregelada que se aquecesse a um raio de sol. Gélida, minha alma se reanima à tua aproximação.

2. A minha desgraça aumenta dia -a-dia, proporcionalmente ao conhecimento da eternidade. Oh! Miséria! Malditas sejam as horas de egoísmo e inércia, nas quais, esquecida de toda a caridade, de todo o afeto, eu só pensava no meu bem -estar!Malditos interesses humanos, preocupações materiais que me cegaram e perderam! Agora o remorso do tempo perdido. Que te direi a ti, que me ouves? Olha, vela constantemente, ama os outros mais que a ti mesmo, não retardes a marcha nem engordes o corpo em detrimento da alma. Vela, conforme pregava o Salvador aos seus discípulos. Não me agradeças estes conselhos, porque se o meu Espírito os concebe, o coração nunca os ouviu. Como o cão escorraçado rastejando de medo, assim me humilho sem conhecer ainda o voluntário amor. Muito tarda a sua divina aurora a despontar! Ora por minha alma dessecada e tão miserável!

3. Porque me esqueces, até aqui venho procurar-te. Acreditas que preces isoladas e a simples pronúncia do meu nome bastarão ao apaziguamento das minhas penas? Não, cem vezes não. Eu urro de dor, errante, sem repouso, sem asilo, que se me enterra na alma revoltada. Quando ouço os vossos lamentos, rio-me, assim como quando vos vejo abatido. As vossas efémeras misérias, as lágrimas, tormentos que o sono susta, que são? Durmo eu aqui? Quero, (ouviste?) quero que, deixando as tuas lucubrações filosóficas, te ocupes de mim, além de fazeres com que outros mais também se ocupem. Não tenho expressões para definir esse tempo que se escoa, sem que as horas lhe assinalem períodos. Vejo apenas um ténue raio de esperança, foste tu que me deste: não me abandones pois.

4. O Espírito de S. Luís — Este quadro é de todo verdadeiro e em nada exagerado.Perguntar-se-á talvez o que fez essa mulher para ser assim tão miserável? Cometeu ela algum crime horrível? Roubou? Assassinou? Não; ela nada fez que afrontasse a justiça dos homens. Ao contrário, divertia-se com o que chamais felicidade terrena; beleza, gozos, adulações, tudo lhe sorria, nada lhe faltava, a ponto de dizerem aqueles que a viam: — Que mulher feliz! E invejavam-lhe a sorte. Mas quereis saber? Foi egoísta; possuía tudo, exceto um bom coração. Não violou a lei dos homens, mas a de Deus, visto como esqueceu a primeira das virtudes — a caridade. Não tendo amado senão a si mesma, agora não encontra ninguém que a ame e vê -la insulada, abandonada, ao desamparo no Espaço, onde ninguém pensa nela nem dela se ocupa. Eis o que constitui o seu tormento. Tendo apenas procurado os gozos mundanos que hoje não mais existem, o vácuo se lhe fez em volta e como vê apenas o nada, este lhe parece eterno. Ela não sofre torturas físicas; não vêm atormentá-la os demônios, o que é aliás desnecessário, uma vez que se atormenta a si mesma, e isso lhe é mais doloroso, porquanto, se tal acontecesse, os demônios seriam seres que se ocupariam dela. O egoísmo foi a sua alegria na Terra; pois bem, é ainda ele que a persegue — verme a corroer-lhe o coração, seu verdadeiro demônio. – S. Luís.

5. Falar-vos-ei da importante diferença existente entre a moral divina e a moral humana. A primeira assiste a mulher adúltera no seu abandono e diz aos pecadores: arrependei-vos e franqueado será o reino dos céus. Finalmente, a moral divina aceita todo arrependimento, todas as faltas confessadas, ao passo que a moral humana rejeita aquele e sorri aos pecados ocultos que, diz, são em parte perdoados. Cabe a uma a graça do perdão, e a outra a hipocrisia. Escolhei, espíritos ávidos da verdade! Escolhei entre os céus abertos ao arrependimento e a tolerância que admite o mal, repelindo os soluços do arrependimento francamente patenteado, só para não ferir o seu egoísmo e preconceitos. Arrependei-vos todos vós que pecais; renunciem ao mal e principalmente à hipocrisia — véu que é de torpezas, máscara risonha de recíprocas conveniências.

6. Estou mais calma e resignada à expiação das minhas faltas. O mal não está fora de mim, reside em mim, devendo ser eu que me transforme e não as coisas exteriores. Em nós e conosco trazemos o céu e o inferno; as nossas faltas, gravadas na consciência, são lidas correntemente no dia da ressurreição. E uma vez que o estado da alma nos abate ou eleva, somos nós os juízes de nós mesmos. Explico-me; um Espírito impuro e sobrecarregado de culpas não pode conceber nem anular uma elevação que lhe seria insuportável. Assim como as diferentes espécies de seres vivem, cada um, na esfera que lhes é própria, assim os Espíritos, segundo o grau de adiantamento, movem-se no meio adequado às suas faculdades e não concebem outro senão quando o progresso (instrumento da lenta transformação das almas) lhes subtrai as baixas tendências, despojando -os da crisálida do pecado, a fim de que possam adejar antes de se lançarem, rápidos como flechas, para o fim único e almejado — Deus! Ah! rastejo ainda, mas não odeio mais e concebo a indizível felicidade do amor divino. Orai, pois, sempre por mim, que espero e aguardo.

Na comunicação a seguir, Clara fala do marido, que muito a martirizara, e da posição em que ela se encontra no mundo espiritual. Esse quadro, que ela por si não pode completar, foi concluído pelo Guia espiritual do médium.

7. Venho procurar-te, a ti, que por tanto tempo me deixas no esquecimento. Tenho, porém, adquirido paciência e não mais me desespero. Queres saber qual a situação do pobre Féiix? Erra nas trevas entregue à profunda nudez de sua alma. Superficial e leviano, aviltado pelo sensualismo, nunca soube o que eram o amor e a amizade. Nem mesmo a paixão esclareceu suas sombrias luzes. Seu estado presente é comparável ao da criança inapta para as funções da vida e privada de todo o amparo. Fé lix vaga aterrorizado nesse mundo estranho onde tudo fulgura ao brilho desse Deus por ele negado.

8. O Guia do médium — Vou falar por Clara, uma vez que ela não pode continuar a análise dos sofrimentos do marido, sem compartilhá-los:

Félix — superficial nas ideias como nos sentimentos; violento por fraqueza; devasso por frivolidade — entrou no mundo espiritual tão nu relativamente à moral como quanto ao físico.

Passou pela existência terrena sem nada aproveitar e, consequentemente, tem de recomeçar toda a obra. – Georges.

Qual homem ao despertar de prolongado sonho, reconhecendo a profunda agitação dos seus nervos, esse pobre ser, saindo da perturbação, reconhecerá que viveu de quimeras, que lhe desvirtuaram a existência. Então,maldirá do materialismo que lhe dera o vácuo pela realidade;apostrofará o positivismo que lhe fizera ter por desvarios as ideia s sobre a vida futura, como por loucura a sua aspiração, como por fraqueza a crença em Deus. O desgraçado, ao despertar, verá que esses nomes por ele escarnecidos são a fórmula da verdade, e que, ao contrário da fábula, a caça da presa foi menos proveitosa que a da sombra.

Estudo Sobre as comunicações de Clara

Estas comunicações são instrutivas por nos mostrarem principalmente uma das feições mais comuns da vida — a do egoísmo. Delas não resultam esses grandes crimes que atordoam mesmo os mais perversos, mas a condição de uma turba enorme que vive neste mundo, honrada e venerada, somente por ter um certo verniz e isentar -se do opróbrio da repressão das leis sociais. Essa gente não vai encontrar castigos excepcionais no mundo espiritual, mas uma situação simples, natural e consentânea com o estado de sua alma e maneira de viver. O insulamento, o abandono, o desamparo, eis a punição daquele que só viveu para si. Clara era, como vimos, um Espírito assaz inteligente, mas de árido coração. A posição social, a fortuna, os dotes físicos que na Terra possuía, lhe atraíram homenagens gratas à sua vaidade, o que lhe bastava; hoje onde se encontra, só vê indiferença e vacuidade em torno de si. Essa punição é não somente mais mortificante do que a dor que inspira piedade e compaixão: mas é também um meio de obrigá-la a despertar o interesse de outrem a seu respeito, pela sua morte.

A sexta mensagem encerra uma ideia perfeitamente verdadeira relativa à obstinação de certos Espíritos na prática do mal. Admiramo-nos de ver como alguns deles são insensíveis à ideia e mesmo ao espetáculo da felicidade dos bons Espíritos. É exatamente a situação dos homens degradados que se deleitam na depravação como nas práticas grosseiramente sensuais. Esses homens estão, por assim dizer, no seu elemento; não concebem os prazeres delicados, preferindo farrapos andrajosos a vestes limpas e brilhantes, por se acharem naqueles mais à vontade. Daí a preferência de boas companhias por orgias báquicas e depravações. E de tal modo esses Espíritos se identificam com esse modo de vida, que ela chega a constituir -lhes uma segunda natureza, acreditando -se incapazes mesmo de se elevarem acima da sua esfera. E assim se conservam até que radical transformação do ser lhes reavive a inteligência, lhes devolva o senso moral e os torne acessíveis às mais sutis sensações.

Esses espíritos, quando desencarnados, não podem prontamente adquirir a delicadeza dos sentimentos, e, durante um tempo mais ou menos longo, ocuparão as camadas inferiores do mundo espiritual, tal como acontece na terra; assim permanecerão enquanto rebeldes ao progresso, mas, com o tempo, a experiência, as tribulações e misérias das sucessivas encarnações, chegará o momento de conceberem algo de melhor do que até então possuíam. Elevam-se-lhes por fim as aspirações, começam a compreender o que lhes falta e principiam os esforços da regeneração. Uma vez nesse caminho, a marcha é rápida, visto como compreenderam um bem superior, comparado ao qual os outros, que não passam de grosseiras sensações, acabam por inspirar -lhes repugnância.

P. (a S. Luís) Que devemos entender por trevas em que se acham mergulhadas certas almas sofredoras? Serão as referidas tantas vezes na Escritura?

R. Sim, efetivamente, as designadas por Jesus e pelos profetas em referência ao castigo dos maus. Mas isso não passava de alegoria destinada a ferir os sentidos materializados dos seus contemporâneos, os quais jamais poderiam compreender a punição de maneira espiritual. Determinados Espíritos estão imersos em treva s, mas deve-se depreender daí uma verdadeira noite da alma comparável à obscuridade intelectual do idiota. Não é uma loucura da alma, porém uma inconsciência daquele e do que o rodeia, a qual se produz quer na presença, quer na ausência da luz material. É principalmente, a punição dos que duvidaram do seu destino. Pois que acreditaram em o nada, as aparências desse nada os supliciam, até que a alma, caindo em si, quebra as malhas de enervamento que a prestava e envolvia, tal qual o homem oprimido por penoso sonhar luta em dado momento, com todo o vigor das suas faculdades, contra os terrores que do começo o dominaram. Esta momentânea redução da alma a um nada fictício e consciente de sua existência é sentimento mais cruel do que se pode imaginar, em razão da aparência de repouso que a acomete: é esse repouso forçado, essa nulidade de ser, essa incerteza que lhe fazem o suplício. O aborrecimento que a invade é o mais terrível dos castigos, uma vez que coisa alguma percebe em torno — nem coisas, nem seres. Isso tudo é para ela verdadeira treva. – S. Luís.

(Clara) — Eis-me aqui. Também eu posso responder à pergunta relativa às trevas, pois vaguei e sofri, por muito tempo nesses limbos onde tudo é soluço e misérias. Sim, existem as trevas visíveis de que fala a Escritura, e os desgraçados que deixam a vida, ignorantes ou culpados, depois das provações terrenas são impelidos a fria região, inconscientes de si mesmos e do seu destino. Acreditando na perenidade dessa situação, a sua linguagem é ainda a da vida que os seduziu, e admiram-se e espantam-se da profunda solidão, trevas são pois, esses lugares povoados e ao mesmo tempo desertos, espaços em que erram obscuros Espíritos lastimosos, sem consolo, sem afeições, sem socorro de espécie alguma. A quem se dirigirem… se sentem a eternidade, esmagadora, sobre eles?… Tremem e lamentam os interesses mesquinhos que lhes mediam as horas; deploram a ausência das noites que, muitas vezes, lhe traziam, num sonho feliz, o esquecimento dos pesares. As trevas para o Espírito são: a ignorância, o vácuo, o horror ao desconhecido… Não posso continuar… – Clara.

Ainda sobre este ponto obtivemos a seguinte explicação:

Por sua natureza, possui o perispírito uma propriedade luminosa que se desenvolve sob o influxo da atividade e das qualidades da alma. Poder-se-ia dizer que essas qualidades estão para o fluido perispiritual como o friccionamento para o fósforo. A intensidade da luz está na razão da pureza do Espírito: as menores imperfeições morais atenuam-se e enfraquecem-na. A luz irradiada por um Espírito será tanto mais viva, quanto maior o seu adiantamento. Assim sendo o Espírito, de alguma sorte, o seu próprio farol, verá proporcionalmente a luz que produz, do que resulta que os Espíritos que não a produzem se acham na obscuridade.

Esta teoria é perfeitamente exata quanto à irradiação de fluidos luminosos pelos Espíritos superiores e é confirmada pela observação, conquanto se não possa inferir seja aquela a verdadeira causa, ou pelo menos, a única causa do fenômeno; primeiro, porque nem todos os Espíritos inferiores estão em trevas; segundo, porque um mesmo Espírito pode achar -se alternadamente na luz e na obscuridade; e terceiro, finalmente, porque a luz também é castigo para os Espíritos muito imperfeitos. Se a obscuridade em que jazem certos Espíritos fosse inerente à sua personalidade, essa obscuridade seria permanente e geral para todos os maus Espíritos, o que aliás não acontece. As vezes os perversos mais requintados vêem perfeitamente, ao passo que outros, que assim n ão podem ser qualificados, jazem, temporariamente, em trevas profundas. Assim, tudo indica que, independente da luz que lhes é própria, os Espíritos recebem uma luz exterior que lhes falta segundo as circunstâncias, donde forçoso é concluir que a obscuridade depende de uma causa ou de uma vontade estranha, constituindo punição especial da soberana justiça, para casos determinados.

P. (a S. Luís). — Qual a causa da maior facilidade da educação moral dos desencarnados, do que dos encarnados? As relações pelo Espiritismo estabelecidos entre homens e Espíritos, dão caso a que estes últimos se corrijam mais rapidamente sob a influência dos conselhos salutares, mais do que acontece em relação aos encarnados, como se vê na cura das obsessões?

R. (Sociedade de Paris). — O encarnado, em virtude da própria natureza, está numa luta incessante devido aos elementos contrários de que se compõe e os quais devem conduzi-lo ao seu fim providencial, reagindo reciprocamente. A matéria facilmente sofre o predomínio de um fluido exterior; se a alma, com todo o poder moral de que é capaz, não reagir, deixar -se-á dominar pelo intermediário do seu corpo, seguindo o impulso das influências perversas que o rodeiam, e isso com facilidade tanto maior quanto os invisíveis, que a subjugavam, atacam de preferência os pontos mais vulneráveis, as tendências para a paixão dominante.

Outro tanto se não dá com o desencarnado, que, posto sob a influência, semi -material,não se compara por seu estado ao encarnado. O respeito humano, tão preponderante no homem, não existe para aquele, e só este pensamento é bastante para compeli-lo a não resistir longamente às razões que o próprio interesse lhe aponta como boas. Ele pode lutar, e o faz mesmo geralmente com mais violência do que o encarnado, visto ser mais livre. Nenhuma cogitação de interesse material, de posição social se lhe antepõe ao raciocínio. Luta por amor do mal, porém cedo adquire a convicção da sua impotência, em face da superioridade moral que o domina; a perspectiva de melhor futuro lhe é mais acessível por se reconhecer na mesma vida em que se deve completar esse futuro; e essa visão não se turva no turbilhão dos prazeres humanos. Em uma palavra, a independência da carne é que facilita a conversão, principalmente quando se tem adquirido um tal ou qual desenvolvimento pelas provações cumpridas. Um Espírito inteiramente primitivo seria pouco acessível ao raciocínio, o que aliás não se dá com o que já tem experiência da vida. Demais, no encarnado como no desencarnado, é sobre a alma, é sobre o sentimento que se faz necessário atuar. Toda ação material pode sustar momentaneamente os sofrimentos do homem vicioso, mas o que ela não pode é destruir o princípio mórbido residente na alma. Todo e qualquer ato, que não visa aperfeiçoar a alma, não poderá desviá-la do mal.

S. Luís.

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