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18/08/2017

Segunda Parte – Capítulo III – Espíritos em condições medianas


Joseph Bré

(Falecido em 1840 e evocado em Bordéus, por sua neta em 1862)

O Homem Honesto Segundo Deus ou Segundo os Homens

1.Caro avô, o Sr. pode dizer-me como vos encontrais no mundo dos Espíritos e dar-me quaisquer pormenores úteis ao nosso progresso?

R. Tudo o que quiser, querida filha. Eu expio a minha descrença, porém grande é a bondade de Deus, que atende às circunstâncias. Sofro, mas não como V. poderia imaginar; é o desgosto de não ter melhor aproveitado o tempo aí na Terra.

2.Como o não empregou? Pois o Sr. não viveu sempre honestamente?

R. Sim, no juízo dos homens; mas há um abismo a honestidade perante os homens e entre honestidade perante Deus. E uma vez que desejas instruir-te procurarei demonstrar-lhe a diferença.

Aí entre vós, é reputado honesto a quele que respeita as leis do seu país, respeito arbitrário para muitos. Honesto é aquele que não prejudica o próximo ostensivamente, embora lhe arranque muitas vezes a felicidade e a honra, visto o código penal e a opinião pública não atingirem o culpado hipócrita. Em podendo fazer gravar na pedra do túmulo um epitáfio de virtude, julgam muitos terem pago sua dívida à Humanidade! Erro! Não basta, para ser honesto perante Deus, ter respeitado as leis dos homens; é preciso antes de tudo não haver transgredido as leis divinas.

Honesto aos olhos de Deus será aquele que, possuído de abnegação e amor, consagre a existência ao bem, ao progresso dos semelhantes; aquele que, animado de um zelo sem limites, for ativo no cumprimento dos deveres materiais, ensinando e exemplificando aos outros o amor ao trabalho; ativo nas boas ações sem esquecer a condição do servo ao qual o Senhor pedirá contas um dia do emprego do seu tempo; ativo finalmente na prática do amor de Deus e do próximo. Assim, o homem honesto, perante Deus, deve evitar cuidadosamente as palavras mordazes, veneno escondido nas flores, que destrói reputações e acabrunha o homem, muitas vezes cobrindo-o de ridículo. O homem honesto, segundo Deus, deve ter sempre cerrado o coração a quaisquer germes de orgulho, de inveja, de ambição; deve ser paciente e benévolo para com aqueles que o agredirem; deve perdoar do fundo d’alma, sem esforços e sobretudo sem ostentação, a quem quer que o ofenda; deve, enfim, praticar o preceito conciso e grandioso que se resume “no amor de Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

Eis aí mais ou menos, querida filha, o que deve ser o homem honesto perante Deus. Pois bem: tê-lo-ia eu sido? Não. Confesso sem corar que faltei a muitos desses deveres; que não tive a atividade necessária; que o esquecimento de Deus me impeliu a outras faltas, as quais, por não serem passíveis às leis humanas, nem por isso deixam de ser atentatórias à lei de Deus. Compreendo-o, muito sofri e assim é que hoje espero mais consolado a misericórdia desse Deus de bondade, que perscruta o meu arrependimento. Transmite, minha cara filha, repita tudo o que aí fica a quantos tiverem a consciência onerada, para que reparem suas faltas à força de boas obras, a fim de que a misericórdia de Deus se estenda por sobre eles. Seus olhos paternais lhes calcularão as provações e a Sua mão potente lhes apagará as faltas.

Senhora Helena Michel

Moça de 25 anos, falecida subitamente no lar, sem sofrimentos, sem causa previamente conhecida. Rica e um tanto frívola, a leviandade de caráter a predispunha mais para as futilidades da vida do que para as coisas sérias. Não obstante, possuía um coração bondoso e era dócil, afetuosa e caritativa.

Evocada por pessoas conhecidas, três dias após o falecimento, assim se exprimia:

“Não sei onde estou… que turbação me cerca! Chamou -me e eu vim. Não compreendo porque não estou em minha casa; choram a minha ausência quando presente estou, sem poder fazer – me contudo reconhecida. Meu corpo não mais me pertence e no entanto eu l he sinto a frigidez…

Quero deixá-lo e mais a ele me atenho sempre… Sou como que duas personalidades… Oh! quando chegarei a compreender o que comigo se passa? É necessário que vá lá ainda… meu outro “eu”, que lhe sucederá na minha ausência? Adeus.”

É evidente aqui que o sentimento de dualidade não está destruído por completa separação. Caráter volúvel, permitindo-lhe a posição e a fortuna a satisfação de todos os caprichos, deveria igualmente favorecer as tendências de leviandade. Não admira pois tenha sido lento o seu desprendimento, a ponto de, três dias após a morte, sentir -se ainda ligada ao invólucro corporal. Mas como não possuísse vícios sérios e fosse de boa índole, essa situação nada tinha de penosa e não deveria prolongar -se por muito tempo. Evocada novamente depois de alguns dias, as suas ideias estavam já muito modificadas. Eis o que disse:

“Obrigada por haverdes orado por mim. Reconheço a bondade de Deus, que me subtraiu aos sofrimentos e apreensões consequentes ao desligamento do meu Espírito. A minha pobre mãe será dificílimo resignar-se; entretanto será confortada e o que a seus olhos constitui sensível desgraça, era fatal e indispensável para que as coisas do Céu se lhe tornassem no que devem ser: tudo. Estarei ao seu lado até o fim da sua provação terrestre, e a ajudarei a suportá-la.”

“Não sou infeliz, porém muito tenho ainda que fazer para aproximar -me da situação dos bem- aventurados. Pedirei a Deus me conceda voltar a essa Terra para reparação do tempo que aí perdi nesta última existência.”

“A fé vos ampare, meus amigos; confiai na eficácia da prece, mormente quando partida do coração. Deus é bom.”

P. Levou muito tempo reconhecer -se?

R. Compreendi a morte no mesmo dia que por mim orastes.

P. Era doloroso o estado de perturbação ?

R. Não, eu não sofria, acreditava sonhar e aguardava o despertar. Minha vida não foi isenta de dores, porque todo ser encarnado nesse mundo deve sofrer. Resignando -se à vontade de Deus, a minha resignação foi por Ele levada em conta. Grata vos sou pelas preces que me auxiliaram no reconhecimento de mim mesma. Obrigada; voltarei sempre com prazer. Adeus.

Helena.

O Marquês de Saint Paul

(Falecido em 1860 e evocado, a pedido de sua irmã, confreira da Sociedade de Paris, em 16 de maio de 1861)

1.Evocação:

— R. Eis-me aqui.

2.A sua irmã pediu-nos para evocá-lo, pois que, apesar de ser médium, não está ainda bastante desenvolvida.

R. Responder-lhe-ei da melhor forma possível.

3.Em primeiro lugar ela deseja saber se o Sr. é feliz.

R. Estou na erraticidade, estado transitório que não proporciona nem felicidade, nem castigo absolutos.

4. Permaneceu por muito tempo inconsciente do seu estado?

R. Estive muito tempo perturbado e só voltei a mim para bendizer a piedade daqueles que, lembrando-se de mim, por mim oraram.

5.E pode precisar o tempo dessa perturbação?

R. Não.

6.Quais os parentes que reconheceu primeiro?

R. Minha mãe e meu pai, os quais me receberam ao despertar, iniciando -me à nova vida.

7.A que atribuir o fato de parecer que nos últimos extrem os da moléstia confabulam com as pessoas caras da Terra?

R. Ao conhecimento antecipado pela revelação do mundo que viria habitar. Vidente antes da morte, meus olhos só se turvaram no momento da separação do corpo, porque os laços carnais eram ainda muito vigorosos.

8.Como explicar as recordações da infância que de preferência lhe ocorriam?

R. Ao fato de o princípio se identificar mais com o fim, que com o meio da vida.

P. Como explicar isso?

R. Importa dizer que os moribundos lembram e vêem como miragem consoladora, a pureza infantil dos primeiros anos.

É provavelmente por motivo providencial semelhante que os velhos, à proporção que se aproximam do termo da vida, têm, por vezes, insignificantes episódios da infância.

9. Por que, referindo-se ao corpo, falava o Sr. sempre na terceira pessoa?

R. Porque era evidente como lhe disse, e sentia claramente as diferenças entre o físico, e o moral; essas diferenças, muito religadas entre si pelo fluido vital, tornam -se distintíssimas aos olhos dos moribundos clarividentes.

Eis aí uma particularidade singular da morte desse senhor. Nos seus últimos momentos dizia sempre: ele tem sede, é preciso dar-lhe de beber; tem frio, é preciso aquecê -lo; sofre nessa ou naquela região etc. Quando lhe diziam: Mas é o Sr. que tem sede? — respondia: “Não, é ele”. Aqui ressaltam perfeitamente as duas existências; o eu Pensante estava no Espírito, não no corpo; o Espírito, em parte desprendido, considerava o corpo outra individualidade, que a bem dizer não lhe pertencia; era portanto ao seu corpo que se fazia mister dessedentar, e não a ele, Espírito. O fenômeno nota -se também em alguns sonâmbulos.

10. O que o Sr. disse da erraticidade do seu espírito e sua respectiva perturbação levar -nos-ia a duvidar da sua felicidade, ao contrári o do que se poderia inferir das suas qualidades. Demais, há Espíritos errantes felizes e infelizes.

R. Estou num estado transitório; aqui as virtudes humanas passam a ter o seu justo valor. Certamente este estado é mil vezes preferível ao da minha encarnaç ão terrestre; mas porque alimentei sempre aspirações ao verdadeiramente bom e belo, minha alma não ficará satisfeita senão quando e colocar aos pés do Criador.

Cardon, médico

Passara uma parte da sua vida na marinha mercante, como médico de navio baleeir o, adquirindo naquele ambiente ideias um tanto materialistas; recolhido à cidade de J…, exerceu aí a modesta profissão de médico de roça. Havia algum tempo, adquirira a certeza de estar tomado de uma hipertrofia do coração; sabendo que a moléstia era inc urável, deixava abater- se pela perspectiva da morte, num estado de melancolia inconsolável. Predisse o dia certo do falecimento, com antecipação de cerca de dois meses, e, chegando o momento, reuniu a família para dizer-lhe o último adeus. Estando abeirados do seu leito a esposa, a mãe, os três filhos e outros parentes, quando a primeira tentava erguê-lo, tornou-se de um roxo lívido, fechando os olhos pelo que foi julgado morto. A esposa colocou -se então de permeio, para ocultar aos filhos o espetáculo. Minutos depois, o doente reabriu os olhos; sua fisionomia, por assim dizer iluminada, tomou radiante expressão de beatitude, e ele exclamou:

“Oh! meus filhos, belo e sublime! Oh! A morte, que benefício, que coisa suave! Morto, senti minha alma elevar-se bem alta, porém Deus me permitiu voltasse para poder dizer -lhes: não lamentem a minha morte, que é a libertação. Ah! que eu não posso descrever -lhes a magnificência de tudo quanto vi, as impressões que experimentei! Mas vocês não poderiam compreendê-las… Oh! meus filhos, comportem-se sempre de modo a merecer esta inefável felicidade reservada aos homens de bem; vivam, de conformidade com os preceitos da caridade; daquilo que tiverem, deem sempre uma parte aos necessitados. Minha querida mulher, deixo-a numa posição pouco lisonjeira; temos dívidas a receber, mas eu a conjuro a não atormentar os nossos devedores; se estiverem em apuros, espera que possam pagar; e aos que não o puderam fazer, perdoe -lhes, Deus a recompensará. Você, meu filho, trabalhe para manter a mãe; seja honesto sempre e evite fazer alguma coisa que possa manchar a nossa família. Tome esta cruz, herança de minha mãe; não a deixe nunca e oxalá lhe lembre ela sempre os meus derradeiros conselhos. Meus filhos, ajudem -se, os meus apoiem-se reciprocamente para que a boa harmonia reine entre vocês, não sejam vaidosos nem orgulhosos; perdoem os seus inimigos se quiserem que Deus lhes perdoe…”

Depois fazendo-os chegar a si, tornou-lhe as mãos, acrescentando:

“Meus filhos, eu os abençoo”.

E seus olhos cerraram-se, desta vez para sempre; seu rosto, porém, conservou uma expressão tão imponente que, até o momento de ser amortalhado, numerosa mole humana veio contemplá-lo, tomada de admiração.

Tendo-nos um amigo da família fornecido estes pormenore s assaz interessantes, lembramo – nos que a evocação podia tornar -se instrutiva a todos nós e útil ao próprio Espírito.

1. Evocação:

— R. Estou perto de vós.

2.Relataram-nos as circunstâncias em que se deu a vossa passagem e ficamos cheios de admiração. Quereis ter a bondade de nos descrever ainda mais minuciosamente o que vistes no intervalo do que poderíamos denominar as vossas duas mortes?

R. O que vi… E podereis compreendê -lo? Não sei, visto como não encontraria expressões apropriadas à compreensão do que pude ver durante os instantes em que me foi possível deixar o envoltório mortal.

3.E sabeis em que lugar estivestes? Seria longe da Terra, em outro planeta, ou no Espaço?

R. O Espírito não mede distâncias, nem lhes conhece o valor como a vós aconte ce. Arrebatado por não sei que agente maravilhoso, eu vi os esplendores de um céu, desses que só em sonho podemos imaginar. Esse percurso, através do infinito, fazia -se com celeridade tamanha que eu não pude precisar os instantes nele empregados pelo meu E spírito.

4. E fruís atualmente a felicidade que entrevistes?

R. Não; bem desejaria poder frui -la, mas Deus não deveria recompensar -me assim. Revoltei- me muitas vezes contra os pensamentos abençoados que o coração me ditava e a morte parecia-me uma injustiça. Médico incrédulo, eu havia assimilado na arte de curar uma aversão profunda à segunda natureza, que é o nosso impulso inteligente, divino; para mim a imortalidade da alma não passava de ficção própria para seduzir as naturezas pouco instruídas, embora o nada me espantasse, maldizendo o misterioso agente que atua perenemente. A Filosofia desviara -me, sem que eu desse por isto, da compreensão da grandeza do Eterno, que sabe distribuir a dor e a alegria para ensino da Humanidade.

5. Logo após o definitivo desprendimento reconheceste o vosso estado?

R. Não; eu só me reconheci durante a transição que o meu Espírito experimentou para percorrer a etérea região. Isto, porém, não ocorreu imediatamente, sendo -me necessários alguns dias para o meu despertar. Deus concedera-me uma graça, em razão do que vou explicar-vos: a minha primitiva descrença não mais existia; tornara -me crente antes da morte, depois de haver cientificamente sondado com gravidade a matéria que me atormentava, de não haver encontrado ao fim das razões terrestres senão a razão divina, que me inspirou e consolou, dando-me coragem mais forte que a dor. Assim bendizia aquilo que amaldiçoara, encarava a morte como uma libertação. A ideia de Deus é grande como o mundo! Oh! Que supremo consolo na prece, que nos enternece e comove: ela é o elemento mais positivo da nossa natureza imaterial; foi por ela que compreendi, que cri firme, soberanamente, e por isso, Deus, levando em conta os meus atos, houve por bem recompensar -me antes do termo da minha encarnação.

6. Poder-se-ia dizer que estivesses morto nessa primeira crise?

R. Sim e não: tendo o Espírito abandonado o corpo, naturalmente a carne extinguia -se; entretanto retomando posse da morada terrena, a vida voltou ao corpo, que passou por uma transição, por um sono.

7. E sentíeis então os laços que vos prendiam ao corpo?

R. Sem dúvida; o Espírito tem um grilhão fortíssimo que o prende e não entra na vida natural antes que dê o último estremecimento da carne.

8.Como pois, na vossa morte aparente e dura nte alguns minutos, pode o vosso Espírito desprender-se súbita e imperturbavelmente, ao passo que o desprendimento efetivo se fez acompanhar da perturbação por alguns dias? Parece -nos que no primeiro caso, os laços entre corpo e Espírito subsistindo mais q ue no segundo, o desprendimento deveria ser mais lento, ao contrário justamente do que se deu.

R. Tendes muitas vezes evocado um Espírito encarnado, recebendo respostas exa tas; eu estava nas condições desses Espíritos, porque Deus me chamava e os seus serv idores me diziam: — “Vem…” Obedeci, agradecendo-lhe o favor especial que houve por bem conceder – me para que pudesse entrever, compreendendo -a, a Sua infinita grandeza. Obrigado a vós, que antes da morte real me permitistes doutrinar os meus, para que faç am boas e justas encarnações.

9.Donde provinham as belas palavras que após o despertar dirigistes à vossa família?

R. Eram o reflexo do que tinha visto e ouvido; os bons Espíritos inspiravam -me a linguagem e davam fulgor à minha fisionomia.

10. Que impressão julgais ter a vossa revelação produzido nos assistentes, notadamente nos vossos filhos?

R. Surpreendente, profunda; uma morte não é mentirosa; os filhos, por mais ingratos que possam ser, se curvam sempre à encarnação que termina. Se pudéssemos penet rar o coração dos filhos, junto de um túmulo entreaberto, vê-lo-íamos apenas palpitar de sentimentos verdadeiros, sinceros, tocados pela mão secreta dos Espíritos, que dizem em todos os pensamentos: tremei se duvidais; a morte é a reparação, a justiça de D eus, e eu vos asseguro, em que pese aos incrédulos, que a minha família e os amigos creram nas palavras por mim pronunciadas antes da morte. Eu era, ao demais, intérprete de um outro mundo.

11. Dizendo não gozardes da felicidade entrevista, podemos daí co ncluir que sejais infeliz?

R. Não, uma vez que me tornei crente antes da morte, e isto de coração e consciência. A dor acabrunha nesse mundo, mas fortalece sob o ponto de vista do futuro espiritual. Notai que Deus teve em conta as minhas preces e a crença n’Ele depositada em absoluto; estou firme no caminho da perfeição e chegarei ao fim que me foi permitido lobrigar. Orai, meus amigos, por este mundo invisível que preside aos vossos destinos; esta permuta fraternal é, de caridade; é a alavanca que põe em comunhão os Espíritos de todos os mundos.

12. Acaso quereríeis dirigir algumas palavras à vossa mulher e filhos?

R. Peço a todos os meus que acreditem no Deus poderoso, justo, imutável; na prece que consola e alivia; na caridade que é a mais pura prática d a encarnação humana; peco -lhes que se lembrem que do pouco também se pode dar, pois o óbolo do pobre é o mais meritório aos olhos de Deus, desse Deus que sabe que muito dá um pobre, mesmo que dê pouco. O rico precisa dar muito, e repetidamente, para merece r outro tanto.

O futuro é a caridade, a benevolência em todos os atos; é considerar que todos os Espíritos são irmãos, nunca preocupar-se com as mil pueris vaidades da Terra.

Tereis rudes provações, querida, amada família; aceitai -as, porém, corajosamente, lembrando- vos de que Deus as vê.

Repeti amiúde esta prece:

— “Deus de amor e bondade, que tudo e sempre faculta, dá -nos força superior a todas as vicissitudes, torna-nos bons, humildes e caridosos, pequenos pela fortuna e grandes de coração. Permite seja espírita o nosso Espírito na Terra, a fim de melhor Te compreendermos e Te amarmos.

Seja Teu Nome emblema da Liberdade, oh! meu Deus! — O Consolador de todos os oprimidos, de todos os que necessitam amar, perdoar e crer.

Cardon.

Eric Stanísias

(Comunicação espontânea: Sociedade de Paris: agosto de 1863)

“Que ventura nos proporcionam as emoções vivamente sentidas por valorosos corações! Oh! Suaves pensamentos que vindes abrir o caminho da salvação a tudo que vive, que respira material e espiritualmente. Não deixe nunca o bálsamo consolador de derramar-se profusamente sobre vós e sobre nós! De que expressões nos servimos, que traduzam a felicidade dos irmãos, desencarnados, ao perscrutarem o amor que une a todos?

Ah! irmãos, quanto bem por toda pa rte, quantos elementos suaves, elevados e simples como vós, como a vossa Doutrina, sois chamados a implantar ao longo da estrada a percorrer; mas, também, quanto vos será outorgado antes mesmo de terdes adquirido direitos!

Assisti a tudo quanto se passou esta noite; ouvi, compreendi e vou procurar por minha vez cumprir o meu dever e instruir a classe dos Espíritos imperfeitos.

Ouvi, eu estava longe de ser feliz; abismado na imensidade, no infinito, os meus padecimentos eram tanto mais intensos, quanto di fícil me era os compreendê-los. Bendito seja Deus, que me permitiu vir a um santuário, que não pode ser franqueado impunemente pelos maus. Amigos, quanto vos agradeço, quanto de forças entre vós recobrei!

Oh! Homens de bem, reuni -vos constantemente; estudai, uma vez que não podeis duvidar dos frutos das reuniões sérias; os Espíritos que têm muito ainda a aprender, os que ficam voluntariamente inativos, preguiçosos e esquecidos dos seus deveres, podem encontrar -se, em virtude de circunstâncias fortuitas ou não, aí entre vós; e então, fortemente tocados, quantas vezes lhes é dado, reconhecendo -se, entreverem o fim, o objetivo cobiçado, ao mesmo tempo que procurarem, fortes pelo exemplo que lhes dais, os meios de fugir ao penoso estado que os avassala. Com grande satisfação me constituo intérprete das almas sofredoras, porquanto é ao homem de coração que me dirijo, na certeza de não ser repelido.

Ainda uma vez aceitai, pois, homens generosos, a expressão do meu reconhecimento em particular, e em geral de todos a quem tanto bem tendes feito, talvez sem o saberdes.

Eric Stanislas.

O guia do médium:Meus filhos, este é um Espírito que sofreu muito tempo, tresmalhado do bom caminho. Agora compreendeu os seus erros, arrependeu -se e voltou os olhos para o Deus que negara. A sua posição não é a de um feliz, porém ele aspira à felicidade e não mais sofre. Deus permitiu-lhe esta audição para que desça depois a uma esfera inferior, a fim de instruir e estimular o progresso de Espíritos que, como ele, transgrediram a lei. É a reparação que lhe compete. Afinal, ele conquistará a felicidade, porque tem força de vontade.

Senhora Atina Belleville

Mulher falecida ainda moça aos trinta e cinco anos de idade, após cruel enfermidade. Vivaz, espiritual, dotada de inteligência rara, de meticuloso critério e eminentes qualidades morais; esposa e mãe de família devotada, ela possuía, ao demais, uma integridade de caráter pouco comum e uma fecundidade de recursos que a trazia sempre a coberto das mais críticas eventualidades da existência.

Sem guardar ressentimentos das pessoas de quem poderia queixar -se, estava sempre pronta a prestar-lhes oportuno serviço. Intimamente ligados à sua pessoa desde longos anos, pudemos acompanhar-lhe todas as fases da existência, bem como todas as peripécias do seu fim. Proveio de um acidente a moléstia que havia de levá -la, depois de a reter três anos na cama, presa dos mais cruéis sofrimentos, aliás suportados até o fim com uma coragem heroica e a despeito dos quais a graça natural do seu Espírito jamais a abandonou. Ela acreditava firmemente na existência da alma e na vida futura, mas pouco se preocupava com isso; todos os seus pensamentos se relacionavam com o presente, que muito lhe importava, posto não tivesse medo da morte e fosse indiferente aos gozos materiais. A sua vida era simples e sem sacrifício; abria mão do que não podia obter; mas possuía inato o sentimento do bem e do belo, que apreciava até nas coisas mínimas. Queria viver menos para si que para os filhos, avaliando a falta que lhes faria, e era isso que a prendia à vida. Conhecia o Espiritismo sem o ter estudado a fundo; interessava -se por ele, mas nunca pode fixar as ideias sobre o futuro; este era para ela uma realidade, mas não lhe deixava no Espírito uma impressão profunda. O que praticava de bom era o resultado de um impulso natural, espontâneo, sem ideia de recompensas ou de penas futuras.

Havia muito era desesperador o seu estado e iminente o desenlace, circunstância que ela própria ignorava. Um dia, achando -se ausente o marido, sentiu-se desfalecer e compreendeu que a hora era chegada; embaciando -se-lhe a vista, a perturbação a invadia, sentindo todas as angústias da separação. Custava-lhe, contudo, a morte antes da volta do esposo. Fazendo supremo esforço sobre si mesma, mur murou: “Não, não quero morrer!” Então sentiu renascer- lhe a vida e recobrou o uso pleno das faculdades. Quando o marido chegou, disse -lhe: “Eu ia morrer, mas quis aguardar a sua vinda, pois tinha algumas recomendações a fazer -lhe.”Assim se prolongou a luta entre a vida e a morte por três meses ainda, tempo que mais não foi que dolorosa agonia.

Evocação no dia seguinte ao da morte: — Meus bons amigos, obrigada pelo interesse que vos mereço; demais, fostes para mim como bons parentes. Pois bem, regozijai -vos porque sou feliz. Confortai meu pobre marido e velai por meus filhos. Eu segui logo para junto deles, depois que desencarnei.

P. Podemos supor que a vossa perturbação não foi longa, uma vez que nos respondes com lucidez.

R. Ah! meus amigos, eu sofri tanto… e vós bem sabeis que sofria com resignação. Pois bem, a minha provação está concluída. Não direi que esteja completamente libertada, não; mas o certo é que não sofro mais e isso para mim é um grande alívio! Desta feita estou radicalmente curada, porém, preciso ainda do auxílio das vossas preces para vir mais tarde colaborar convosco.

P. Qual poderia ser a causa dos vossos longos sofrimentos?

R. Um passado horrível, meu amigo.

P. Podeis revelar-nos esse passado?

R. Oh! deixai que o esqueça um pouco… paguei-o tão caro…

Um mês depois da morte:

P. Agora que deveis estar completamente desprendida e que melhor nos reconheceis, muito estimaríamos ter convosco uma palestra mais concludente. Poderia, por exemplo, dizer -nos qual a causa da vossa prolongada agonia? Estivestes durante três meses entre a vida e a morte…

R. Obrigada, meus amigos, pela vossa lembrança como pelas vossas preces! Quão salutares me foram estas e como concorreram para a minha libertação! Tenho ainda necessidade de ser confortada; continuai a orar por mim. Vós compreendeis o valor da prece. Aquelas que dizeis não são de modo algum fórmulas triviais, como as murmuradas por tantos outros que lhes não medem o alcance, o fruto de uma boa prece.

Sofri muito, porém os meus sofrimentos f oram largamente compensados, sendo -me permitido estar muitas vezes perto dos queridos filhos, que deixei com tanto pesar!

Prolonguei por mim mesma esses sofrimentos; o desejo ardente de viver, por amor dos filhos, fazia com que me agarrasse de alguma sort e à matéria, e, ao contrário dos outros, eu não queria abandonar o desgraçado corpo com o qual era forçoso romper, se bem que ele fosse para mim o instrumento de tantas torturas. Eis aí a razão da minha longa agonia.

Quanto à moléstia e aos padecimentos decorrentes, eram expiação do passado — uma dívida a mais, que paguei.

Ah! meus bons amigos, se vos tivesse ouvido, quanta mudança na minha vida atual! Que alívio experimentaria nos últimos momentos e como teria sido fácil a separação, se em vez de a contrariar eu me tivesse abandonado confiadamente à vontade de Deus, à corrente que me arrastava! Mas em lugar de volver os olhos ao futuro que me aguardava, eu apenas via o presente que ia deixar!

Quando houver de voltar à Terra serei espírita, v ô-lo afirmo. Que ciência sublime! Assisto constantemente às vossas reuniões e aos conselhos que vos são transmitidos. Se eu, quando na Terra, pudesse compreendê -los, os meus sofrimentos teriam sido atenuados. A ocasião não tinha chegado. Hoje compreendo a bondade e a justiça de Deus, conquanto me não encontre suficientemente adiantada para despreocupar -me das coisas da vida; meus filhos principalmente me atraem, não mais para mimá -los, porém para velar por eles e inculcar neles o caminho que o Espírito traça ao presen te na Terra. Sim meus bons amigos, eu tenho ainda graves preocupações, entre as quais avulta aquela da qual depende o futuro dos meus filhos.

P. Podeis ministrar-nos quaisquer informações sobre o passado que deplorais?

R. Ah! meus bons amigos, estou pront a a confessar-me. Eu tinha desprezado o sofrimento alheio, vendo indiferente os sofrimentos da minha mãe, a quem chamava doente imaginária. Por não vê-la de cama, supunha que não sofresse e zombava dos seus queixumes. Eis como Deus castiga.

Seis meses depois da morte:

P. Agora que um tempo mais longo se passou desde que deixaste o invólucro material, tende a bondade de descrever-nos a vossa posição no mundo espiritual.

R. Na vida terrestre, eu era o que vulgarmente se chama uma boa pessoa; antes de tudo, porém, prezava o meu bem-estar: compassiva por índole, talvez não fosse capaz de penoso sacrifício para minorar um infortúnio. Hoje, tudo mudou, e posto seja sempre a mesma, o eu de outrora modificou-se. Ganhei com a modificação e vejo que não há nem categ orias nem condições além do mérito pessoal, no mundo dos invisíveis, onde um pobre caridoso e bom se sobreleva ao rico que o humilhava com a sua esmola. Velo especialmente pelos que se afligem com tormentos familiares, com a perda de parentes ou de fortuna . A minha missão é reanimá- los e consolá-los e com isso me sinto feliz.

Anna.

Importante questão decorre dos fatos supra mencionados. Ei-la:

Poderá uma pessoa, por esforço da própria vontade, retardar o momento de separação da alma do corpo?

Resposta do Espírito de S. Luís: Resolvida afirmativamente, sem restrições, esta questão poderia dar lugar a consequências falsas. Certamente, em dadas condições, pode um Espírito encarnado prolongar a existência corporal a fim de terminar instruções indispensáveis, ou, ao menos, por ele assim julgadas — é uma concessão que se lhe pode fazer, como no caso vertente, além de muitos outros exemplos. Esta dilação de vida não pode, porém, deixar de ser breve, visto como é defeso ao homem inverter a ordem das leis naturais , bem como retornar por vontade própria à vida, desde que ela tenha atingido o seu fim. É uma situação momentânea apenas. Preciso é no entanto que da possibilidade do fato não se conclua a sua generalidade, nem tampouco que dependa de cada qual prolongar p or este modo a existência. Como provação para o Espírito ou no interesse de missão a concluir, os órgãos depauperados podem receber um suplemento de fluido vital que lhes permita prolongar por instantes a manifestação material do pensamento. Tais casos são excepcionais e não fazem regra. Tampouco se deve ver nesse fato uma derrogação de Deus à imutabilidade das suas leis, mas apenas uma consequência do livre -arbítrio da alma que, no momento extremo, tem consciência de sua missão e quer, a despeito da morte, concluir o que não pode até então. Às vezes pode ser também uma espécie de castigo infligido ao Espírito duvidoso do futuro esse prolongamento de vitalidade com o qual tem necessariamente de sofrer.

São Luís.

Poderíamos ainda admirar a rapidez relativa com que se desprendeu este Espírito, dado o seu apego à vida corporal; cumpre, porém, considerar que esse apego nada tinha de material nem sensual, antes possuindo mesmo a sua face moral, motivada como era pelas necessidades dos filhos ainda tenros. Enfim, era um Espírito adiantado em inteligência, um dos Espíritos dos mais felizes. Não havia, portanto, nos laços perispirituais a tenacidade resultante da identificação material; pode dizer -se que a vida, debilitada por longa enfermidade, apenas se prendia p or ténues fios, que ele desejava impedir se rompessem. Contudo, a sua resistência foi punida com a dilação dos sofrimentos concernentes à própria moléstia e não com a dificuldade do desprendimento. Assim, realizado este, eis porque a perturbação foi breve.

Um outro fato igualmente importante decorre desta como da maior parte das evocações feitas em épocas gradativas ao tempo cujo progresso se traduz, não por melhores sentimentos, mas por uma apreciação mais justa das coisas. O progresso da alma na vida es piritual é, portanto, um fato demonstrado pela experiência. A vida corporal é a prática desse progresso, a demonstração das suas resoluções, o cadinho em que ele se depura.

Desde que a alma progride depois da morte, a sua sorte não pode ser irrevogavelme nte fixada, porquanto a fixação definitiva da sorte é, como já o dissemos, a negação do progresso. Não podendo coexistir simultaneamente as duas coisas, resta aquela que tem por si a sanção dos fatos e da razão.

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