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18/08/2017

Primeira Parte – Capítulo VIII – Os Anjos

Os anjos segundo a Igreja

1 — Todas as religiões têm os seus anjos, com diferentes nomes, ou seja, seres superiores à Humanidade, intermediários entre Deus e os homens. O materialismo, negando qualquer existência espiritual além da vida orgânica, naturalmente colocou os anjos entre as ficções e as alegorias. A crença nos anjos faz parte essencial dos dogmas da Igreja. Eis como ela os define (34):

2 — Cremos firmemente, proclamou um concílio geral e ecumênico (35), que só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo dos tempos tirou juntamente do nada as duas criaturas: a espiritual e a corporal, a angélica e a mundana, e em seguida formou, como intermediária dessas duas, a natureza humana composta de corpo e Espírito.

É esse, segundo a fé, o plano divino na obra da criação. Plano majestoso e completo, como convém à sabedoria eterna. Assim concebido, ele nos apresenta ao pensamento o ser em todos os graus e em todas as condições. Na esfera mais elevada aparecem a existência e a vida puramente espirituais. No último plano, a existência e a vida puramente materiais. E no meio que separa a ambos, uma maravilhosa união das duas substâncias, uma vida comum ao mesmo tempo ao espírito inteligente e ao corpo organizado.

Nossa alma é de uma natureza simples e indivisível, mas é limitada nas suas faculdades. A ideia que temos da perfeição nos faz compreender que podem existir outros seres simples como ela e superiores pelas suas qualidades e os seus privilégios. Ela é grande e nobre, mas está ligada à matéria, servida de órgãos frágeis, limitada na sua atividade e na sua potência. Porque não haveria outras naturezas ainda mais nobres, distanciadas dessa escravidão e desses entraves, dotadas de uma força maior e de uma atividade incomparável?

Antes que Deus tivesse posto o homem na Terra para o conhecer, amar e servir, já não devia ter chamado outras criaturas para comporem a sua corte celeste e adorá-lo no esplendor da sua glória? Deus, enfim, recebe das mãos do homem os tributos de honra e a homenagem deste universo. Seria de estranhar que recebesse das mãos do anjo o incenso e a prece do homem? Se, pois, os anjos não existissem, a grandiosa obra do criador não teria o seu coroamento na perfeição de que era susceptível. Esse mundo que atesta a sua onipotência não seria mais a obra prima da sua sabedoria. Nossa razão, por mais impotente que seja, poderia facilmente concebê-lo mais completo e melhor acabado.

Em cada página dos livros sagrados do Antigo e Novo Testamento são mencionadas essas inteligências sublimes, nas invocações piedosas ou nos relatos históricos. Sua intervenção aparece manifestamente na vida dos patriarcas e dos profetas. Deus se serve do seu ministério, ora para impor os seus desígnios, ora para anunciar acontecimentos futuros. Ele os faz quase sempre instrumentos da sua justiça ou da sua misericórdia. Sua presença é constante nas diversas circunstâncias do nascimento, da vida e da paixão do Salvador. Sua lembrança é inseparável da lembrança dos grandes homens e dos mais importantes acontecimentos da antiguidade religiosa. Podemos mesmo encontra-los no meio do politeísmo e entre as fábulas da mitologia, porque a crença a seu respeito é tão antiga e tão universal como o próprio mundo. O culto que os pagãos rendiam aos bons e aos maus gênios era apenas uma falsa aplicação da verdade, um resíduo deteriorado do dogma primitivo.

As palavras do santo Concílio de Latrão contém uma distinção fundamental entre os homens e os anjos; elas nos ensinam que os anjos são Espíritos puros, enquanto os homens se constituem de alma e corpo, o que quer dizer que a natureza angélica subsiste por si mesma, não somente sem mistura, mas ainda sem nenhuma associação real possível com a matéria, por ligeira e sutil que se pudesse supô-la. Enquanto isso a nossa alma, igualmente espiritual, está associada ao corpo de maneira a formarem ambos uma única e mesma pessoa e essa é essencialmente a sua destinação .

Enquanto dura essa união tão íntima de alma e corpo, essas duas substâncias têm uma vida comum e exercem, uma sobre a outra, influência recíproca. A alma não pode se afastar inteiramente da condição imperfeita que resulta para ela dessa situação: suas ideias lhe chegam através dos sentidos, por comparação dos objetos exteriores e sempre sob imagens mais ou menos aparentes. Disso resulta que ela não pode se contemplar a si mesma e não pode fazer a si mesma a representação de Deus e dos anjos sem os considerar de qualquer maneira em forma visível e palpável. Eis porque os anjos, para se fazerem visíveis aos santos e aos profetas, tiveram de recorrer a figuras corpóreas. Mas essas figuras eram apenas os corpos aéreos que eles movimentavam sem se identificarem com eles, ou os atributos simbólicos relacionados com a missão de que estavam encarregados.

O ser e os movimentos dos anjos não estão localizados e circunscritos num ponto fixo e limitado do espaço. Não estando ligados a nenhum corpo, eles não podem estar parados nem ser limitados, como acontece conosco, por outros corpos. Eles não ocupam nenhum lugar e não preenchem nenhum vazio. Mas, da mesma maneira em que a nossa alma está inteira no nosso corpo e em cada uma de suas partes, eles se encontram inteiros e quase simultaneamente em todos os pontos e em todas as partes do mundo. Mais rápidos do que o pensamento, podem estar por toda a parte no mesmo instante e agir diretamente, sem nenhum obstáculo aos seus desígnios, a não ser a vontade de Deus e a resistência da liberdade humana.

Enquanto estamos reduzidos a ver aos poucos, de maneira limitada, as coisas que estão fora de nós, e que as verdades da ordem sobrenatural nos aparecem de maneira enigmática, como num espelho, segundo a expressão do apóstolo São Paulo, eles vêem sem esforço o que desejam saber e estão em relação direta com o objeto de seu pensamento. Seus conhecimentos não resultam da indução e do raciocínio, mas dessa intuição clara e profunda que abrange os princípios e as consequências que destes decorrem.

A diversidade dos tempos, a diferença dos lugares, a multiplicidade dos objetos não podem produzir nenhuma confusão no seu Espírito.

A essência divina, sendo infinita, é para nós incompreensível. Possui mistérios e profundezas que não podem ser penetradas. Os desígnios mais íntimos da Providência ficam ocultos, mas ela lhes desvenda o seu segredo quando os encarrega, em determinadas circunstâncias, e de os anunciar aos homens.

As comunicações de Deus aos anjos e dos anjos entre si não se fazem, como entre nós, por meio de sons articulados e de outros signos sensíveis. As inteligências puras não precisam de olhos para ver nem de ouvidos para ouvir. Elas não possuem também os órgãos vocais para manifestar os seus pensamentos, pois esses intermediários habituais de que nos servimos são para eles inúteis. Comunicam, porém, os seus sentimentos de maneira que lhe s é própria e inteiramente espiritual. Para se fazerem compreender, basta -lhes a vontade.

Somente Deus conhece o número dos anjos. Esse número, sem dúvida, não poderia ser infinito e não o é, mas segundo os autores sagrados e os santos doutores, é muito considerável e verdadeiramente prodigioso. Se é natural que considere -os na devida proporção o número de habitantes de uma cidade em relação à sua grandeza, e a Terra sendo apenas um átomo em comparação com o firmamento e as imensas regiões do espaço, temos de concluir que o número dos habitantes do céu e do ar é muito maior que o dos homens.

Desde que a majestade dos reis se reflete no número de seus súditos, de seus oficiais e de seus servidores, que haveria de mais apropriado para darmos uma ideia da majestade do Rei dos Reis que essa multidão inumerável de anjos que povoam o céu e a Terra, o mar e os abismos, e a dignidade dos que permanecem incessantemente prosternados ou em pé diante do seu trono?

Os Pais da Igreja e os teólogos geralmente ensinam que os anjos se distribuem em três grandes hierarquias ou principados, e cada hierarquia em três companhias ou coros.

Os da primeira e mais elevada hierarquia são designados por nomes que decorrem das funções de desempenho no céu. Uns são chamados Serafins porque são como que chamejantes perante Deus pelos ardores da caridade; outros se chamam Querubins porque são um reflexo luminoso da divina sabedoria; e outros ainda se chamam Tronos porque proclamam a grandeza de Deus e a fazem resplandecer.

Os da segunda hierarquia recebem os seus nomes em virtude das operações que lhes são confiadas no governo geral do Universo. São as Dominações que determinam aos anjos das ordens inferiores as suas missões e os seus encargos; as Virtudes que atendem aos prodígios exigidos pelos grandes interesses da Igreja e do gênero humano; as Potências que protegem pelo seu poder e a sua vigilância as leis que regem o mundo físico e moral.

Os da terceira hierarquia exercem em partilha a direção das sociedades e das pessoas. São os Principados, propostos dos reinos, das províncias e das dioceses; os Arcanjos, que transmitem as mensagens de elevada importância, os Anjos Guardiães que acompanham a cada um de nós velando pela nossa segurança e pela nossa santificação.

REFUTAÇÃO

3 — O princípio geral que ressalta dessa doutrina é o de que os anjos são seres puramente espirituais, anteriores e superiores à humanidade, criaturas privilegiadas, votadas à felicidade suprema e perpétua desde a sua formação , dotadas, por sua própria natureza, de todas as virtudes e de todo o saber, sem nada ter feito para os adquirir. Estão no primeiro plano da obra da criação. No último plano, a vida puramente material, e entre os dois a humanidade formada de almas, seres espirituais inferiores aos anjos e uni dos a corpos materiais.

Muitas dificuldades insolúveis resultam desse sistema. Qual é, para começar, essa vida puramente material? Trata-se da matéria bruta? Mas a matéria bruta é inanimada, não tendo vida por si mesma. Trata-se das plantas e dos animais? Essa seria então uma quarta ordem da criação, pois não se pode negar a superioridade do animal que é inteligente em relação à planta, e desta em relação à pedra. Quanto à alma humana, que representa a transição, está diretamente unida a um corpo formado d e matéria bruta, porque sem alma esse corpo não teria vida e seria como um punhado de terra.

Essa divisão peca evidentemente por falta de clareza e não está de acordo com a observação. Assemelha-se à teoria dos quatro elementos que caiu ante o progresso d a ciência. Admitamos, portanto, esses três termos: a criatura espiritual, a criatura humana e a criatura corpórea. Esse é, dizem, o plano divino, plano majestoso e perfeito como convém à eterna sabedoria. Observemos primeiro que entre esses três termos não há nenhuma ligação necessária. São três criações distintas, formadas sucessivamente. De uma para outra existe solução de continuidade, enquanto na Natureza tudo se encadeia, tudo nos mostra uma admirável lei de unidade em que todos os elementos, nada mais do que transformações uns dos outros, estão ligados entre si. Essa teoria é verdadeira no tocante à existência evidente desses três termos, mas é incompleta: faltam nela os pontos de contato, como é fácil de se demonstrar.

4 — Esses três pontos culminantes da criação, segundo a Igreja, são necessários à harmonia do conjunto, e se houvesse a falta de um só a obra estaria incompleta, não correspondendo à eterna sabedoria. Entretanto, um dos dogmas fundamentais da religião diz que a Terra, os animais, as plantas, o sol, as estrelas, a própria luz foram criadas e portanto tiradas do nada há seis mil anos. Antes dessa época não havia, pois, nem criatura humana, nem qualquer criatura corpórea. Durante toda a eternidade anterior, a obra divina permanecia então imperfeita. A criação do Universo remontando há seis mil anos constitui um artigo de fé de tal maneira fundamental, que há poucos anos ainda a ciência foi anatematizada porque vinha destruir a cronologia bíblica, provando por suas investigações a elevada antiguidade da Terra e dos seus habitantes.

Não obstante o Concílio de Latrão, o Concílio Ecuménico, que dita a lei em matéria de doutrina, afirma: “Cremos firmemente que só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, o qual, no começo dos tempos tirou conjunta mente do nada as duas criaturas, a espiritual e a corporal.”

O começo dos tempos só pode ser a eternidade anterior, porque o tempo é infinito como o espaço, não tem começo nem fim. Essa expressão: o começo dos tempos é uma figura que implica a ideia de uma anterioridade ilimitada. O Concílio de Latrão crê, pois,firmemente que as criaturas espirituais e as criaturas corporais foram formadas ao mesmo tempo e tiradas juntamente do nada numa época indeterminada do passado. O que resta, pois, do texto bíblico que fixou essa criação em seis mil anos dos nossos dias? Admitindo-se que o começo do Universo visível pudesse estar nessa época, não se trataria seguramente do começo dos tempos. Em qual devemos crer, no Concílio ou na Bíblia?

5 — O mesmo Concílio formula ainda uma estranha proposição: “Nossa alma, igualmente espiritual, está associada ao corpo de maneira a formarem ambos uma só e mesma pessoa, e essa é essencialmente a sua destinação.” Se a finalidade essencial da alma é estar ligada ao corpo, essa constitui o seu estado normal, é o seu objetivo, o seu fim, desde que é essa a sua destinação. Entretanto, a alma é imortal, sua união com o corpo só se realiza uma vez, segundo a Igreja, e mesmo que fosse por um século o que seria isso ante a eternidade? Par a um grande número de criaturas essa união é apenas de algumas horas. Que utilidade teria para a alma essa união efémera? Quando, em relação à eternidade, a sua maior duração não seria mais do que um minuto imperceptível, seria exato dizer que a sua destinação é essencialmente estar ligada ao corpo? Essa união, na verdade, não é mais do que um incidente, um ponto na vida da alma e não o seu estado essencial.

Se a destinação essencial da alma é estar unida a um corpo material; se por sua natureza e segundo o fim providencial da sua criação essa união é necessária às manifestações de suas faculdades, temos de concluir que sem o corpo a alma humana é um ser incompleto. Sendo assim para permanecer o que ela é pela sua destinação após haver deixado um corpo, é necessário que tome outro, o que nos leva forçosamente à pluralidade das existências, ou seja: à reencarnação eternizada. É verdadeiramente estranho que um Concílio considerado como uma das luminárias da Igreja tenha identificado nesse ponto o ser espiritual com o ser material, de maneira a não poderem existir um sem o outro, desde que a condição essencial de sua criação é o de permanecerem unidos.

6 — O quadro hierárquico dos anjos nos mostra que muitas ordens têm, nas suas atribuições, o governo do mundo físico e da humanidade, sendo que foram criados para esse fim. Mas, segundo a Génese, o mundo físico e a humanidade só existem há seis mil anos. O que faziam esses anjos antes desta criação, durante a eternidade, se os objetos das suas ocupações não existiam? Os anjos foram criados desde toda a eternidade? Assim deve ser, pois se destinam à glorificação do Altíssimo. Se Deus os criou em alguma época determinada, então ele esteve até essa época, quer dizer, durante uma eternidade, sem adoradores.

7 — Logo mais, está escrito: “Enquanto durar essa união tão íntima da alma com o corpo.”

Haverá então um momento em que essa união, não existirá mais? Essa proposição contradiz aquela que faz da união a destinação essencial da alma.

Está escrito ainda: “As ideias lhe chegam pelos sentidos, por uma comparação dos objetos exteriores.” Essa é uma doutrina filosófica em parte verdadeira, mas não em sentido absoluto. Segundo o eminente teólogo, é condição inerente à natureza da alma só receber ideias por meio dos sentidos. Ele se esquece das ideias inatas, das faculdades às vezes bastante transcendentes, da intuição das coisas que a criança traz ao nascer e que não deve a nenhuma forma de instrução. Por meio de quais sentidos esses jovens pastores, calculadores naturais que espantaram os sábios, adquiriram as ideias necessárias à solução quase instantânea dos mais complicados problemas? O mesmo podemos dizer de certos músicos, pintores e linguistas precoces.

“Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do raciocínio.” Eles sabem, porque são anjos sem terem necessidade de aprender. Deus os criou assim. A alma, pelo contrário, deve aprender. Se a alma só recebe as ideias através dos órgãos corporais (que ideias pode ter a alma de uma criança que morreu poucos dias depois de nascer,admitindo-se com a Igreja que ela não renasce mais?)

8 — Aqui se apresenta uma questão vital. A alma adquire conhecimentos e ideias após a morte do corpo? Se uma vez desligada do corpo ela nada mais pode adquirir, a alma da criança, do selvagem, do cretino, do idiota, do ignorante permanecerão para sempre o que eram por ocasião da morte, e assim estarão votadas a uma eterna inutilidade.

Se a alma adquire novos conhecimentos após a vida atual, é porque ela pode progredir. Sem o progresso posterior da alma chegamos a consequências absurdas. Com o progresso chegamos à negação de todos os dogmas fundados na sua natureza estacionária: o destino irrevogável, as penas eternas e assim por diante. Se ela progride, qual o limite desse progresso? Não há nenhuma razão para que ela não atinja o grau dos anjos ou dos Espíritos puros.

Se a alma pode chegar a esse plano, não havia nenhuma necessidade de criação de seres especiais e privilegiados, isentos de qualquer trabalho, gozando da felicidade eterna sem nada haver feito para conquistá-la, enquanto outros seres desfavorecidos só conseguiriam a suprema felicidade ao preço de longos e cruéis sofrimentos e das mais rudes provas. Deus pode fazê-lo, sem dúvida, mas se admitimos a infinitude de suas perfeições, sem a qual não haveria Deus, é forçoso admitir também que ele nada faz de inútil, nada que possa desmentir a sua soberana justiça e a sua soberana bondade.

9 — “Desde que a majestade dos reis se reflete no número de seus súditos, de seus oficiais e de seus servidores, que há de mais próprio para nos dar uma ideia da majestade do Rei dos Reis do que essa multidão inumerável dos anjos que povoam o céu e a Terra, o mar e os abismos, e a dignidade dos que permanecem incessantemente prosternados ou em pé di ante do seu trono?”

Não seria rebaixar a Divindade, assimilá-la na sua glória ao fausto dos soberanos da Terra? Essa ideia, inculcada no Espírito das massas ignorantes transformou -se numa falsa opinião da sua verdadeira grandeza. É sempre Deus reduzido às mesquinhas proporções da humanidade. Supô-lo sempre necessitado de ter milhões de adoradores incessantemente prosternados ou em pé diante d’Ele é emprestar -lhe as fraquezas dos monarcas despóticos e orgulhosos do Oriente.

O que torna os soberanos verdadeiramente grandes? É o número e o brilho dos seus cortezões? Não. É a sua bondade e a sua justiça, é o título merecido de pais dos súditos.Pergunta-se se há alguma coisa mais apropriada a nos dar uma ideia da majestade de Deus que a multidão dos anjos que compõem a sua corte? Sim, certamente há alguma coisa melhor do que isso: é representá-lo soberanamente bom, justo e misericordioso para todas as suas criaturas, e não como um Deus colérico, ciumento, vingativo, inexorável, exterminador, parcial e criando para a sua própria glória esses seres privilegiados, favorecidos com todos os dons, nascidos para a eterna felicidade, enquanto aos outros condena a conquistar penosamente a felicidade e os pune, por um momento de erro, com uma eternidade de suplícios.

10 — O Espiritismo professa, a respeito da união da alma e do corpo, uma doutrina infinitamente mais espiritualista, para não dizer menos materialista, e que , além disso, está de acordo com a observação e com o destino da alma. Segundo ele nos ensina, a alma é independente do corpo, que constitui apenas um envoltório temporário; sua essência é a espiritualidade; sua vida normal é a vida espiritual. O corpo é somente um instrumento para o exercício de suas faculdades, nas suas relações com o mundo material. Mas , separada do corpo, ela goza de suas faculdades com maior liberdade e em maior amplitude.

11 — Sua união com o corpo, necessária aos seus primeiros desenvolvimentos, realiza -seno período que se pode chamar de infância e adolescência. Quando ela atinge u m certo grau de perfeição e desmaterialização, essa união não é mais necessária e a alma continua a progredir na vida espiritual. Por mais numerosas que sejam, de resto, as existências corpóreas, elas são necessariamente limitadas pela própria vida dos corpos e a sua soma total não compreende, em todos os casos, mais do que uma parcela imperceptível da vida espiritual que é infinita.

Os Anjos segundo o Espiritismo

12 — Não há dúvida de que existem seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos. A revelação espírita confirma, nesse ponto, a crença de todos os povos. Mas ao mesmo tempo nos dá a conhecer a natureza e a origem desses seres.

As Almas ou Espíritos são criados simples, ou ignorantes, quer dizer: sem conhecimentos e sem a consciência do bem e do mal, mas aptos a adquirir tudo isso que lhes falta. Eles o adquirem pelo trabalho. O alvo, que é a perfeição, é o mesmo para todos e eles o atingem com maior ou menor rapidez, de acordo com o uso que fizerem do seu livre -arbítrio e na razão dos seus esforços. Todos têm que percorrer os mesmos graus, com o mesmo trabalho a cumprir.

Deus não dá uma obrigação mais pesada nem mais leve a uns do que a outros, porque todos são seus filhos e sendo Ele justo não tem preferência por nenhum. Deus lhes diz :“Eis a Lei que deve guiar a vossa conduta. Só ela vos pode conduzir ao alvo. Tudo o que estiver de acordo com essa Lei pertence ao bem, tudo o que a contrariar pertence ao mal. Sois livres de a observar ou de a infringir, de maneira que sereis os árbitro s da vossa própria sorte.”

Deus, portanto, não criou o mal. Todas as suas Leis conduzem ao bem. Foi o próprio homem quem criou o mal infringindo as Leis de Deus. Se ele as observasse escrupulosamente jamais se afastaria do bom caminho.

13 — Mas a alma, nas primeiras fases da sua existência, da mesma maneira que a criança, não tem experiência e por isso é falível. Deus não lhe dá a experiência, mas lhe concede os meios de adquiri-la. Cada passo falso no caminho do mal representa um atraso para a alma. Ela sofre as consequências de erro e aprende à própria custa o que deve evitar. É assim que pouco a pouco ela se desenvolve, se aperfeiçoa e avança na hierarquia espiritual até

chegar ao estado de Espírito puro ou anjo.

Os anjos são, pois, as almas dos homens que atingiram o grau de perfeição acessível à criatura e gozam da felicidade prometida. Antes de haver atingido o grau supremo, gozam de uma felicidade relativa ao seu adiantamento, mas essa felicidade não é a do prazer ocioso. É, pelo contrário, a das funções que Deus lhes confia, a seu pedido, sentindo -sefelizes de desempenhá-las, porque estas ocupações são para elas um meio de progredir. (Ver Cap. Ill, O Céu.)

14 — A Humanidade não está limitada à Terra. Ocupa inumeráveis mundos que circulam no espaço. Ocupou os mundos que já desapareceram e ocupará os que ainda se formarão. Deus criou desde toda a eternidade e cria sem cessar. Muito tempo antes que a Terra existisse, por maior ancianidade que lhe atribuamos, já havia em outros mundos Espíritos encarnados que percorreram as mesmas etapas que nós , Espíritos de formação mais recente, que estamos percorrendo agora o mesmo caminho que eles percorreram, chegando ao seu destino antes mesmo que nós houvéssemos saído das mãos do Criador. Por toda a eternidade sempre houve anjos ou Espíritos puros, mas como a sua existência humana se perde no infinito do passado, temos a impressão, de que eles sempre foram anjos.

15 — É assim que se nos revela a grande Lei de unidade da Criação. Deus nunca esteve inativo e sempre teve Espíritos puros, experientes e esclarecidos para transmitirem as suas ordens e para dirigirem todo o mecanismo do Universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos pormenores. Não houve pois necessidade da criação de seres privilegiados, isentos de encargos. Todos, antigos ou novos, conquistaram a sua elevação através da luta e pelos próprios méritos. Todos, enfim, são filhos de suas próprias obras. Assim se cumpre igualmente a soberana justiça de Deus.


NOTAS:

(34) Tiramos este resumo da pastoral de Monsenhor Goussett, cardeal-arcebispo de Reims, para a quaresma de 1864. Pode-se pois considerá-la, como aquela referente aos demônios, proveniente da mesma fonte citada no capítulo seguinte, como a última expressão do dogma da Igreja sobre esse as sunto. (N. de Kardec.)

(35) Concílio de Latrão.