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18/08/2017

Primeira Parte – Capítulo II – A preocupação com a morte

Causas da preocupação com a morte

1 — O homem, em qualquer situação social, desde o estado de selvageria, tem o pressentimento inato do futuro. Sua intuição lhe diz que a morte não é a última fase da existência e que aqueles que choramos não estão perdidos para sempre. A crença no futuro é intuitiva e infinitamente mais generalizada que a ideia do nada. Como se explica, entretanto, que entre os que acreditam na imortalidade da alma ainda se encontre tamanho apego às coisas terrenas e tão grande preocupação com a morte? (6)

2 — A preocupação com a morte é determinada pela sabedoria da Providência e uma consequência do instinto de conservação comum a todos os seres vivos. É necessária, enquanto o homem não estiver esclarecido a respeito da vida futura, como um contrapeso ao arrastamento que, sem esse freio o levaria a deixar prematuramente a vida terrena e a negligenciar o seu trabalho neste mundo, que deve servir para o seu próprio adiantamento.

É por isso que, entre os povos primitivos, o futuro aparece apenas como vaga intuição,tornando-se mais tarde uma simples esperança, e finalmente se transformando em certeza, mas ainda assim contrabalançada por um secreto apego à vida corporal.

3 — À medida em que o homem compreende melhor a vida futura a preocupação com a morte diminui. Mas, ao mesmo tempo, compreendendo melhor a sua missão na Terra ele espera o seu fim com mais calma, resignação e sem medo. A certeza da vida futura dá novo curso às suas ideias e outra finalidade aos seus trabalhos. Antes de ter essa certeza ele só trabalha com vistas à vida presente. Com essa certeza ele trabalha com vistas ao futuro sem negligenciar o presente, porque sabe que seu futuro depende da orientação mais ou menos boa que der ao presente. A certeza de reencontrar seus amigos após a morte, de continuar as relações que tinha na Terra,de não perder o fruto de nenhum de seus trabalhos , de crescer sem cessar em inteligência e perfeição, lhe dá a paciência de esperar e a coragem de suportar as fadigas passageiras da vida terrena. A solidariedade que ele descobre entre os vivos e os mortos lhe faz compreender a que deve existir entre os vivos e desde então a fraternidade revela a sua razão de ser e a caridade o seu objetivo no presente e no futuro.

4 — Para escapar às preocupações com a morte ele precisava encarar a esta no seu verdadeiro sentido, quer dizer, penetrar pelo pensamento no mundo espiritual e fazer sobre ele uma ideia tão exata quanto possível, o que denota no espírito encarnado um certo desenvolvimento e uma certa aptidão para se libertar da matéria. Para os que não estão suficientemente adiantados a vida material ainda se sobrepõe à vida espiritual.

Apegando-se ao exterior, o homem só vê a vida do corpo, quando a vida real é a da alma. O corpo estando privado de vida, tudo lhe parece perdido e ele se desespera. Se, em lugar de concentrar o seu pensamento nas vestes exteriores, ele o dirigisse para a verdadeira fonte da vida, para a alma, ser real que sobrevive a tudo, lamentaria menos o corpo, fonte de tantas misérias e dores. Mas para isso necessita de uma força que o Espírito só adquire amadurecendo.

A preocupação com a morte está ligada à insuficiência de noções sobre a vida futura. Por isso, quanto mais ela se liga à necessidade de viver, mais aumenta o temor da destruição do corpo como o fim de tudo. Ela é assim provocada pelo secreto desejo de sobrevivência da alma, ainda velada pela incerteza.

A preocupação se enfraquece à medida que se desenvolve a certeza e desaparece por completo quando esta se firma.

Eis o lado providencial da questão. Seria prudente não perturbar o homem cuja razão ainda não esteja suficientemente forte para suportar a perspectiva demasiado positiva e sedutora de um futuro que poderia levá-lo a negligenciar o presente, necessário ao seu progresso material e intelectual (7).

5 — Esta situação é mantida e prolongada por causas puramente humanas que desaparecerão com o progresso. A primeira é o aspecto sobre o qual se apresenta a vida futura, aspecto que poderia bastar para as inteligências pouco avançadas, mas não poderia satisfazer às exigências racionais de homens de reflexão. Desde que nos apresentam, dizem estes, como verdades absolutas, princípios contraditados pela lógica e pelos dados positivos da Ciência, é que não são verdadeiras. Daí resulta a incredulidade de alguns e para grande número a crença duvidosa. A vida futura é para eles uma vaga ideia, antes uma probabilidade do que uma certeza. Eles desejariam crer, quereriam que fosse verdade e malgrado isso dizem a si mesmos: “Mas se não for assim? O presente é positivo. Ocupemo-nos primeiro dele, o futuro virá por acréscimo.”

“E depois, dizem ainda, o que é na verdade a alma? Um ponto, um átomo, uma centelha, uma flama? Como ela ouve, como vê, como percebe?” A alma não é para eles uma realidade positiva. É uma abstração. Os seus seres queridos, reduzidos à condição de átomos no seu pensamento, estão por assim dizer perdidos para eles, não tendo mais aos seus olhos as qualidades que os faziam amados. Não podem compreender o amor de uma centelha, nem o que se pudesse ter por ela, e eles mesmos não se sentem satisfeitos de ser transformados em mônadas. Daí o seu retorno ao positivismo da vida terrena, que lhes oferece alguma coisa mais substancial. É considerável o número dos que são dominados por esses pensamentos.

6 — Outra razão que amarra às coisas terrena s até mesmo as pessoas que acreditam firmemente na vida futura, liga -se à impressão que conservam de ensinamentos recebidos na infância.

O quadro apresentado pela Religião, a esse respeito, temos de convir que não é muito sedutor nem consolador. De um lado vemos as contorções dos danados que expiam nas torturas e nas chamas sem fim os seus erros passageiros. Para eles os séculos sucedem aos séculos sem esperança de abrandamento nem de piedade. E o que é ainda mais impiedoso, para eles o arrependimento é ineficaz. De outro lado, as almas sofredoras e exaustas do purgatório esperando a sua libertação da boa vontade dos vivos que devem orar ou mandar orar por elas, e não dos seus próprios esforços para progredir. Essas duas categorias constituem a imensa maioria da população do outro mundo.

Acima dela paira a restrita classe dos eleitos, gozando pela eternidade de uma beatitude contemplativa. Essa inutilidade eterna, sem dúvida preferível ao nada, nem por isso é menos fastidiosa. É por isso que vemos nas pinturas que retratam os bem-aventurados, as figuras angélicas que respiram mais o tédio do que a verdadeira felicidade.

Essa situação não satisfaz às aspirações nem à ideia instintiva de progresso que é a única compatível com a felicidade absoluta. É difícil conceber que o selvagem e o ignorante de senso obtuso, somente por haverem recebido o batismo, sejam colocados no mesmo nível daquele que chegou ao mais elevado grau da sabedoria e da moral, após longos anos de trabalho. É ainda menos concebível que a criança morta em tenra idade, antes de ter consciência de si mesma e de seus atos, goze dos mesmos privilégios, somente por efeito de uma cerimônia a que foi submetida sem nenhuma participação da sua vontade. Esses pensamentos não deixariam de perturbar os mais fervorosos, por pouco que refletissem à respeito.

7 — O trabalho que os faz progredir na Terra não tendo nenhuma influência sobre a felicidade futura, a facilidade com que pensam conquistar essa felicidade por meio de algumas práticas exteriores, a possibilidade mesmo de comprá-la com dinheiro, sem uma reforma séria do caráter e dos costumes, fazem que os gozos do mundo conservem todo o seu valor. Muitos crentes dizem para si mesmos que, se o seu futuro está assegurado pelo cumprimento de certas obrigações formais ou pelas graças que os esperam após a morte, seria tolice fazerem sacrifícios ou sofrerem qualquer coisa em benefício dos outros, uma vez que se pede atingir a salvação trabalhando cada um para si mesmo.

Certamente nem todos pensam dessa maneira , pois há grandes e belas exceções. Mas não se pode negar que não seja esta a atitude da maioria, sobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a ideia que comumente se faz das condições para a felicidade no outro mundo não entretém o apego aos bens terrenos e por conseguinte o egoísmo.

8 — Acrescentemos que tudo, nos nossos costumes, concorre para fazer que lamentemos a perda da vida terrena e temamos a passagem da Terra para o Céu. A morte é cercada de cerimônias lúgubres que servem mais para aterroriza r do que para despertar a esperança. Sempre se representa a morte sob um aspecto repulsivo e jamais como um sono de transição. Todos os seus símbolos lembram a destruição do corpo, mostrando -o hediondo e descarnado. Nenhum nos apresenta a alma se desprendendo radiosa dos laços terrenos (8).

A partida para esse mundo mais feliz é acompanhada das lamentações dos que ficam, como se houvesse acontecido a maior desgraça para aqueles que partiram. Dizem-lhe adeus eterno como se jamais eles pudessem ser vistos de novo. Lamenta-se que tenham perdido os prazeres deste mundo, como se não tivessem de encontrar prazeres maiores no outro. Que infelicidade, dizem, morrer quando ainda se é jovem, rico, feliz e tendo pela frente, um futuro brilhante.

A ideia de uma situação mais feliz apenas passa pela mente, pois não tem raízes suficientes. Tudo concorre, pois, para inspirar o pavor da morte em lugar de despertar a esperança. O homem levará ainda longo tempo, sem dúvida, a se livrar desses prejuízos, mas o conseguirá na medida em que a sua fé se consolide, em que fizer uma ideia mais pura da vida espiritual.

9 — A crença vulgar, por outro lado, coloca as almas em regiões que são acessíveis apenas ao pensamento, onde elas se tornam de qualquer maneira estranhas aos que continuam vivos na Terra. A própria igreja coloca entre elas e estes últimos uma barreira intransponível: declara que toda relação está rompida e que toda comunicação é impossível (9).

Se as almas se encontram no inferno, toda esperança de revê -las está perdida para sempre, a menos que a gente também vá para lá. Se elas se encontram entre os eleitos, estão inteiramente absorvidas pela beatitude contemplativa. Tudo isso coloca entre os mortos e os vivos uma distância imensa que nos faz considerar a separação como eterna.

Eis porque preferimos ter junto a nós, sofrendo na Terra, os seres que amamos, a vê-los partir mesmo que seja para o céu. Além disso, a alma que se encontra no céu será realmente feliz ao ver, por exemplo seu filho, seu pai, sua mãe ou seus amigos queimando eternamente?

Porque os espíritas não se preocupam com a morte?

10 — A doutrina espírita muda completamente a maneira de ver -se o futuro. A vida futura não é mais uma hipótese, mas uma realidade. A situação das almas após a morte não se explica por meio de um sistema, mas com o resultado da observação. O véu é levantado. O mundo espiritual nos aparece em toda a sua realidade viva. Não foram os homens que o descobriram através de uma concepção engenhosa, mas os próprios habitantes desse mundo que nos vieram descrever a sua situação.

Vemo-los ali em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da ventura e da desgraça, assistimos a todas as peripécias da vida de além-túmulo. Está nisso a causa da seriedade com que os espíritas encara m a morte, da calma dos seus derradeiros instantes na Terra. O que os sustenta não é somente a esperança, mas a certeza. Sabem que a vida futura não é mais do que a continuação da vida presente em melhores condições, e esperam com a mesma confiança com que aguardam o nascimento do sol depois de uma noite tempestuosa. Os motivos desta confiança estão nos fatos que testemunharam e na concordância desses fatos com a lógica, com a justiça e a bondade de Deus e com as aspirações mais profundas do homem.

Para os espíritas a alma não é mais uma abstração. Ela possui um corpo etéreo que a torna um ser definido, que podemos conceber pelo pensamento. Isso é o suficiente para nos esclarecer quanto à sua individualidade, suas aptidões e suas percepções. A lembrança daqueles que nos são caros repousa, assim, sobre algo real. Não os representamos mais como chamas fugitivas que nada dizem ao nosso pensamento, mas como formas concretas que no-los apresentam melhor como seres vivos.

Além disso, em lugar de estarem perdidos nas profundezas do espaço, estão ao nosso redor: o mundo corpóreo e o mundo espiritual estão em constantes relações e mutuamente se assistem. A dúvida sobre o futuro já não tendo mais lugar, a preocupação com a morte deixa de ter razão.Esperamo-la tranquilamente, como uma libertação, como a porta da vida e não como a do nada (10).


NOTAS:

(6) A intuição inata da vida futura é um dos fatores básicos da origem das religiões. (N. do T.)

(7) A advertência de Kardec, neste pequeno trecho, exige a maior atenção do leitor. Muitas pessoas têm o anseio, justo mas imprudente, de converter todo mundo às suas crenças. O Espiritismo não tem necessidade de proselitismo. Kardec sempre acentuou que ele não veio para os que estão satisfeitos em sua crença ou descrença, mas para os que não o estão e procuram algo mais. Há pessoas que não se acham em condições de compreender os princípios espíritas. Fazê-las aceitar esses princípios pode ser prejudicial. Ao se convencerem, por exemplo, de que a vida espiritual é superior à material, elas poderão desprezar esta última e negligenciar as oportunidades que a atual encarnação lhes oferece para o progresso e a reparação do passado. E isto não se refere apenas às pessoas incultas ou de inteligência reduzida. Também pessoas inteligentes e cultas podem não estar em condições de compreender o problema, em virtude de longos estágios do passado em que insistiram no materialismo e na descrença. (N. do T.)

(8) Essa impressão negativa da morte foi intencional. O objetivo era atemorizar as criaturas a fim de se portarem bem na vida. Há uma relação evidente entre essa ameaça da morte e as ameaças de castigos nas escolas, para garantir o bom comportamento dos alunos. Mas esse recurso, que produziu resultados entre homens ignorantes e brutais, perderia o seu efeito na proporção em que a Civilização se desenvolvesse. Aconteceu com ele o que ensina uma lei da Dialética: o que hoje serve ao progresso, amanhã se torna obstáculo e deve ser removido. Mas, por outro lado, essas cerimônias lúgubres e toda essa ameaça passou para o plano dos costumes, criou raízes populares e se tornou ainda uma das fontes de renda para as organizações eclesiásticas. Tudo isso impediu, até mais da metade do século XIX, que as religiões organizadas, chamadas positivas, fizessem alguma coisa para acompanhar o progresso cultural. Ainda hoje, apesar das reformas em curso, o problema da morte continua na mesma situação analisada por Kardec. (N. do T.)

(9) “Na crença vulgar”, diz Kardec, porque a Teologia católica já no seu tempo colocava o problema em termos de estado de consciência. Não obstante, os clérigos continuavam a pregar dos púlpitos em termos de crença vulgar. A comparação que Kardec faz, mais adiante, entre o Inferno pagão e o Inferno cristão, esclarecerá bem este assunto. Quanto ao rompimento absoluto de relações entre vivos e mortos, devemos acentuar que havia e ainda subsiste uma atitude contraditória: a relação pode ser permitida por Deus, em casos excepcionais, mas somente no seio da Igreja. Assim, as comunicações espíritas são condenadas como demoníacas, mas as comunicações católicas, sejam de santos e anjos ou mesmo de almas sofredoras, são consideradas legítimas e até mesmo divulgadas em livros. (N. do T.)

(10) A ideia de que as almas dos mortos se tornam chama s fugitivas penetrou fundamente na consciência coletiva dos povos. Vemos a sua sobrevivência até mesmo em pessoas esclarecidas que se tornam espíritas. Nas atas das sessões que realizava, por ele mesmo redigidas, o escritor Monteiro Lobato refere -se constantemente aos espíritos como gases, chamas flutuantes, etc., o que levava alguns dos comunicantes a endossarem a concepção. Um deles lhe respondeu: Sou agora uma chamazinha errante . Referindo-se à sua própria morte, Lobato escreveu que iria passar do estado sólido ao gasoso. O Espiritismo nos mostra que a situação do homem após a morte é muito diferente disso. Conservando o corpo espiritual (de que tão precisamente trata o apóstolo Paulo em l Corintios) o espírito desencarnado conserva até mesmo a forma corporal, as características físicas que o distinguem na vida terrena, e pode assim identificar -se em suas manifestações pela vidência, pelos fenômenos de aparição e pelos de materialização. Isso permite, ainda — o que estranha às pessoas que desconhecem o problema — que o espírito se identifique pela sua própria voz nos fenômenos de audição mediúnica ou de comunicação por voz direta. Para melhor compreensão deste problema leia -se o livro de H. Dennis Bradiey: Rumo às Estrelas, tradução de Monteiro Lobato, reeditado pela LAKE. As teorias de Johannes são puramente pessoais e não têm valor doutrinário. O que importa nesse livro é a descrição das sessões de voz direta e a prova da sobrevivência espiritual. (N. do T.)