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25/05/2017

Bibliografia A condessa Mathilde de Canossa.


Tal é o título de um romance legendário, publicado em Roma em 858, pelo R.P. Bresciani da Companhia de Jesus (1(1) Um vol. in-8, traduzido do italiano; casa J. B. Pélagaud, e Cie, rua de Saints-pères, 57, em Paris. Preço 3 fr. 50 c.), autor do Judeu de Verona. O assunto da obra é a História, no gênero de Walter Scott, da antiga família de Canossa: por isso o autor a dedica ao descendente atual dessa ilustre família, o marquês Octave de Canossa: podestade de Verona e camarista de sua majestade o imperador da Áustria. A ação se passa na idade média, os feiticeiros e os mágicos nele têm um grande papel, e as cenas de sortilégios nele são descritas com uma precisão que faria inveja ao romancista escocês. O autor nos parece menos feliz em sua apreciação dos fenômenos Espíritas modernos, das mesas falantes, do magnetismo, do sonambulismo; ora, eis o que lemos a este respeito no capítulo X, página 170:

“Mais de um de meus leitores, e talvez não seja o menor número, poderia bem admirar-se vendo estender-se, nos capítulos que precedem, tudo o que combina feitiços, conjurações, sortilégios, alucinações, erupções fantásticas que não se parecem mal e aos relatos de velhas e de amas de leite. – Quem crê ainda, em nossos dias, em necromantes, em feiticeiros, em encantadores, em encantos, em filtros, no comércio com o diabo? Quereis nos conduzir aos contos de fadas de Martin dei Rio (1 Del Rio, sábio jesuíta, nascido em Anvers em 1551, morreu em 1608. O autor alude aqui à sua obra intitulada: Disquisitiones magicae.),  às tolas superstições do povo, às comadres das encruzilhadas, por lendas de arrepiar os camponeses bochechudos que têm medo do lobisomem, e impedir de dormir, os garotos trementes, em nome de Bicho-papão? Verdadeiramente, o amigo, o momento está bem escolhido para nos debitar estas futilidades! -Tal é, mais ou menos, a linguagem que eu creio, estou de acordo em recorrer.

“Eu responderei que antes de desprezar as crenças antigas, seria necessário que cada um colocasse a mão em sua consciência e se perguntasse, muito francamente, se pelo menos não é tão crédulo quanto algum de seus antepassados. Vejamos um pouco: Que significa essa obra de magnetizadores e de médiuns, de mesas girantes, falantes, profetizantes; de sonâmbulos que vêem através das paredes, que lêem pelo cotovelo, que têm presente, diante de si, o que se diz e se faz a vinte, trinta, quarenta milhas dali; que lêem e escrevem sem saberem nem A nem B; que, sem conhecerem uma palavra de medicina, assinalam, determinam todos os casos patológicos, indicando-lhes as causas, e prescrevem o remédio com as doses da receita, em todos os termos greco-árabes do vocabulário científico? O que são esses interrogatórios de Espíritos, essas respostas de pessoas mortas e enterradas, suas profecias de acontecimentos futuros? Quem evoca essas sombras? Quem fá-las falar? Quem fá-las ver um futuro que não existe? Quem fá-las proferir estas blasfêmias contra Deus, contra os santos do Céu, contra os sacramentos da Igreja?

“Vejamos, bravas gentes, falai! Por que essas contorções e esses olhares assustadiços? – Oh! Acabareis me dizendo, quem sabe! Mistérios da natureza, leis desconhecidas, força de lucidez, sentido oculto no organismo humano! Sutilidade do fluido magnético, do influxo nervoso, das ondulações óticas, e acústicas; virtudes secretas que a eletricidade e o magnetismo estimulam no cérebro, no sangue, nas fibras, em todas as partes vitais; poderes de forças supremas, da vontade da imaginação.

“Meus amigos, aí estão as futilidades, as palavras vazias de sentido, as frases ocas, os subterfúgios ambíguos, os enigmas que vós mesmos não compreendeis. Toda diferença que há entre nós e os nossos ancestrais é que, para negar um mistério, nós forjamos cem outros deles; enquanto essas pessoas boas chamavam um gato um gato, e o diabo o diabo, tínhamos a pretensão de gratificar a natureza com forças que ela não tem e não pode ter; nossos velhos, mais sábios e mais francos, diziam, sem tanto rodeios, que existiam operações sobrenaturais, e, as tratavam, ingenuamente, de maquinação.

“Menos versados que nós, todavia, no conhecimentos dos fenômenos naturais, ocorria-lhes, sem dúvida, tomarem algumas vezes por um efeito prodigioso coisas que não saem da ordem natural, ao passo que os modernos, muito mais esclarecidos, não deixam senão de olhar, grande número de fraudes dos magnetizadores, como o efeito misterioso de leis secretas da Natureza, e as operações verdadeiramente diabólicas como agilidade de prestidigitadores mais ou menos sutis. Mas os homens mais cristãos, do bom e velho tempo, sabiam muito bem que os maus Espíritos, evocados por meio de certos sinais, de certas conjurações, de certos pactos, apareciam, respondiam, alucinavam a imaginação impressionando de mil maneiras e, sobretudo, fazendo-lhe o maior mal que podiam àqueles que conversavam com eles. Reconheçamos, pois, de boa fé que, mesmo em nossos dias, nós temos, e em maior número que os antigos, nossos necromantes, nossos mágicos e nossos feiticeiros, com essa diferença que nossos pobres pais tinham horror desses malefícios, que os praticavam em segredo, nas trevas, nas cavernas, nas florestas, e que muitos disso se arrependiam, se confessavam e em seguida faziam penitências; em lugar que, em nossos dias, são realizados nos salões de douraduras e de luzes, em presença de curiosos, diante de jovens, de crianças, de mães, sem disso fazer o menor escrúpulo, e alegrando-se, freqüentemente, com superstições da idade média.

“Crede-me, em todas as épocas, os homens quiseram ter negocios com  o demônio, e esse espírito velhaco, por pouco que os homens não o devolvam aos seus abismos e participem de seu comércio, sujeita-se a todas as transformações. Nos séculos de idolatrias, ele vivia com os oráculos e as pitonisas; mostrava-se sob a forma de pomba, de pega, de galo, de serpente, e cantava versos fatídicos. Na idade média, fazia o pedante em presença desses povos  bárbaros,   e  lhes  aparecia  sob  formas  terríveis,    em monstruosas   conjurações. Se, às vezes, se diminuía e   se sutilizava a ponto de se alojar nos cabelos, nas garrafinhas, nos filtros, que os feiticeiros faziam os enamorados tragarem, isso não o era sem inspirar ainda um grande terror. Hoje, em compensação, ele se presta à civilização do século; e se compraz    no   mundo bonito, nas  noitadas brilhantes; alternativamente, dormindo com os sonâmbulos, dançando com as mesas, escrevendo com os curadores. Não é muito gentil, em verdade? Guarda-se bem para não assustar ninguém! Ele se veste   à americana, à inglesa, à parisiense, ao alemão; é verdadeiramente amável, sob a barba e o fino bigode dos Italianos; é a coqueluche dos salões, e seria necessário ser bem grosseiro para não achá-lo de uma irrepreensível distinção. Portanto, vede! Ele se tornou tão bom apóstolo que se entretém, o mais cortesmente do mundo, com tal senhora que ainda vai à missa, e que, se vós lhe disserdes:- Tomai cuidado! Há coisas que não são naturais, e que não poderiam sê-lo: Estão tramando alguma intriga; os bons cristãos não se ocupam de tudo isso, – caçoarão de vós e respondereis com um pequeno ar picante: – Que diabo! Tudo isso é muito natural: Eu sou cristão também, eu; mas não sou um imbecil.

“À espera disso, se a ocasião se apresentar, fará magnetizar sua filha de vinte anos, para que leia, na intuição magnética, os fatos afastados ou secretos do futuro.

“Deixo-vos a pensar se esse belo diabo de luvas amarelas deve rir em sua barba e da boa cristã!”

Deixamos aos nossos leitores o cuidado de apreciarem o julgamento do P. Bresciani: nele, sem dúvida, procurarão em vão, como nós, argumentos peremptórios contra as idéias Espíritas, uma demonstração qualquer da falsidade dessas idéias; ele pensa, sem dúvida, que elas não valem o trabalho de uma refutação séria e que basta soprar por cima para dissipá-las. Mas nos parece que, a exemplo da maioria dos adversários, ele chega a uma conseqüência contrária à que esperava, desde que não prova, por A mais B, que isso não é e não PODE ser. Como o P. Bresciani é um homem de um talento incontestável e de uma instrução superior, pensamos que, uma vez que seu objetivo era combater os Espíritos, deve reunir contra eles suas armas mais temíveis; de onde concluímos que se não disse mais, é que nada mais tem a dizer; que se não dá outras provas, é que não tem melhores para opor; de outro modo, evitaria com todo cuidado deixá-las no fundo do saco. Os mais ridicularizados, em toda esta argumentação, não são os Espíritos, mas o próprio diabo, que é tratado um pouco bruscamente, e não como uma coisa tomada a sério. Estar-se-ia tentado a pensar, nesse estilo engraçado, que o autor não crê mais no diabo do que nos Espíritos. Se, todavia, como ele o pretende, é o agente único de todas as manifestações, convir-se-á que o faz desempenhar um papel mais divertido do que terrível, e bem mais capaz de excitar a curiosidade que de amedrontar. Tal é, de resto, até o presente, o resultado de tudo o que se disse e escreveu contra o Espiritismo; e bem mais serviu-o do que o prejudicou.

Segundo a maioria dos críticos, o fato das manifestações é sem importância; é um entusiasmo passageiro, um brinquedo de salão, e o autor não nos parece tê-lo encarado sob um lado mais sério; se assim é, para que com isso atormentar-se? Deixai à moda o cuidado de trazer amanhã um outro passatempo e o Espiritismo viverá o que viveu a mania do potiche: o espaço de duas estações. Atirando-Ihe pedras, faz-se crer que dele se tem medo, porque não se procura abater senão àquilo que se teme; se for uma quimera, uma utopia, por que bater-se contra os moinhos de vento? É verdade que se diz que o diabo mistura-se com eles algumas vezes; mas não seria necessário muitos autores como este, pintando o diabo sob cores róseas, para dar a todas as mulheres a idéia de conhecê-lo.

O P. Bresciani examinou bem a questão? Pesou bem a importância de todas as suas palavras? Ele nos permitirá duvidar disso. Quando disse: Que são essas respostas de pessoas mortas e enterradas? Quem lhes faz ver um futuro QUE NÃO EXISTE? Per-guntamo-nos se foi um cristão ou um materialista que escreveu semelhantes coisas; e ainda o materialista falaria dos mortos com mais respeito. – Quem lhes fez proferir essas blasfêmias contra Deus? Onde estão esses blasfemos? O autor, que coloca tudo na conta do diabo, sem dúvida, a supõe, de outro modo saberia que a mais ilimitada confiança na bondade infinita de Deus é a própria base do Espiritismo, que nele se faz tudo em nome de Deus; que os Espíritos perversos dele não falam senão com temor e respeito, e os bons senão com amor. O que há aí de blasfematório? – Mas que pensar destas palavras: Temos a pretensão de gratificar a natureza das forças que ela não tem e não PODE ter; nossos VELHOS, mais sábios os trataram, ingenuamente, de maquinação. Assim, é mais sábio atribuir os fenômenos da Natureza ao diabo do que a Deus. Ao passo que nós proclamamos o poder infinito do Criador, o P. Bresciani põe-lhe limites; a Natureza, que resume a obra divina, não é, e não PODE ter outras forças que aquelas que nós conhecemos; quanto àquelas que se poderia descobrir, é mais sábio homenagear o diabo por elas, que seria, assim, mais poderoso que Deus. É necessário perguntar de qual lado está a blasfêmia, ou o maior respeito para o Ser Supremo? – Enfim, o diabo toma todas as formas: Não é muito gentil, em verdade ele se veste à americana, à inglesa, à parisiense; ele é verdadeiramente amável sob a barba e o fino bigode dos Italianos, e seria necessário ser bem grosseiro para não achá-lo de uma distinção irrepreensível. Não sabemos se os senhores Italianos estarão muito lisonjeados por serem tomados por diabos de luvas amarelas. Quem são estas belas senhoras, que fazem sua coquelucheestes gentis demônios, e que, ao aviso caridoso de que estão tramando alguma intriga a temer, vos riam diante do nariz em vos lançando um: Que droga! Eu não sou um imbecil! Se a Natureza surpreende, perguntamos em qual mundo, o inteiro ou a metade, ela se serve de tão lindas expressões. Lamentamos que o autor não tenha haurido seus conhecimentos em Espiritismo numa fonte mais séria, sem o que não falaria dele assim tão levianamente. Enquanto não se lhe opuserem argumentos mais peremptórios, seus partidários poderão dormir muito tranqüilos.

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