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27/04/2017

As várias moradas ou os mundos espirituais Maria Ribeiro


A afirmação de Jesus de que há várias moradas na casa do Pai faz entender que ele fala de uma pluralidade de lugares que acolhe a todos os seus filhos, não ficando ninguém desprovido de abrigo, antes, durante ou após a vida física. E, tomando o universo por propriedade divina, esta afirmação se expande a todos os planetas ou astros que se possa catalogar, bem como a todo o espaço infinito. A Codificação dedica extenso estudo sobre a teoria de vida em outros planetas, incluindo narrações de habitantes desencarnados (RE – 1859) e também de já encarnados (1863) através da mediunidade. Porém até o presente momento não há confirmações da Astronomia sobre a vida extra terrestre.

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Mas a reflexão diz respeito por enquanto à vida aqui no planeta Terra. As publicações feitas por alguns Espíritos descrevendo o novo mundo no qual se viram após o desencarne deram ensejo a divagações muito perigosas, visto que foram aceitas sem análises mais frias. Não foram levadas em consideração, por exemplo, que o estado moral destes Espíritos que os conduziu àquele ambiente também os fez permanecerem lá.

Analisando as anotações de André Luiz, por exemplo, vê-se que primeiro ele está no que chama Umbral: um lugar lamacento, sujo, escuro, onde se ouvia gemidos e gritos de impropérios… Lá não tinha água, tanto que ele se diz sedento e, aliás, também faminto. Este quadro define bem a carência física e moral, mesmo de um encarnado que perambula pelas ruas em busca de água, comida, abrigo, diálogo, afeto. Então, a hostilidade de muitos que se encontram na mesma situação, embora sem o perceberem, faz deste Ser alguém ainda mais miserável, porque faz findar qualquer boa expectativa. A questão é: até quando permanecer assim. E ele, depois de muito reclamar, lembrou da mãe quando lhe ensinou a orar; resolveu repetir as palavras do Pai Nosso. E o cenário mudou. Surge um personagem cujo nome — Clarêncio — faz que se remeta à claridade/ claridão / luz; parece um nome bem conveniente para o momento — que o leva dali para ser tratado num hospital perfeitamente organizado aos moldes das instituições concretas, físicas. Ora, mas ele estava desencarnado…

Segundo André o Umbral circunda o planeta e é onde se situa a cidade de Nosso Lar. Todas as descrições são feitas de forma a mostrar analogia com o cotidiano humano.

Não seria esse umbral a representação de uma consciência culpada? E, em se pensando tais localidades como camadas espirituais na atmosfera, não seria o caso de se perguntar quais seriam os limites entre uma e outra? Admitindo-se as camadas espirituais habitadas, cada qual, por seres afins, não se poderia perguntar o que nos seus limites impede que os maus tenham acesso aos bons? Ora, os dardos magnéticos descritos pelo autor de Nosso Lar, que eram lançados contra os Espíritos malfazejos que queriam invadir a Casa Transitória*, nada mais podem ser do que uma natural condição das criaturas, que se aproximam ou se afastam segundo os interesses e as aptidões.

Qual a necessidade de lançar mão de um recurso tão material e grosseiro para falar de naturais emanações perispiríticas contrárias àquelas dos invasores? Como é natural, surgiram críticas sobre estas questões ao mesmo tempo em que também foram validadas por outros Espíritos.

Em Violetas na Janela o Espírito Patrícia descreve semelhantemente, inclusive sobre o evento da menstruação e da necessidade de ir ao banheiro. É bom ressaltar que estes Espíritos nunca afirmaram que estes lugares se tratavam de planos espirituais elevados. Não se deve tê-los como mentirosos, mas analisar as questões propostas seguindo o método kardequiano. Mais de um Espírito narrou histórias semelhantes, e, levando-se em conta a boa índole dos medianerios, não há razão para desmenti-los sem antes verificar a possibilidade de todos incorrerem na mesma ilusão.

Que dizer das narrações de Ranieri em seu “O abismo”, onde os seres fazem que seus perispíritos tomem formas de outros seres da natureza, como de animais e até mesmo de árvores, contrariando a questão 612? Neste abismo há a afirmação de que seus habitantes não são necessariamente ignorantes quanto ao seu estado intelectual, mas criaturas decididas a não mais prosseguirem na existência: escolheram não mais reencarnarem e para isso transmutam seus perispíritos, assim acreditam impossível voltar a habitar um corpo.

Tentar adivinhar até onde vai a imaginação de um médium, ou qual o grau em que ele se deixa persuadir por uma mente desencarnada, é arriscado pela impropriedade de julgar uma situação sem um devido conhecimento mais profundo da causa. Aqui tanto médiuns quanto Espíritos são julgados como sofredores de influências maliciosas dos Espíritos brincalhões ou mesmo cuja perversidade se encontra oculta na falsa simpatia e benevolência.

Há, todos sabem, Espíritos zombeteiros e irresponsáveis sempre à espreita aguardando o melhor momento para por seu plano em prática. Isto deveria ter sido entendido como o primeiro dever de casa pós Kardec, atendendo-lhe às sábias orientações, bem como as de Jesus, e de mais inúmeros outros que alertaram sobre os falsos profetas.

Porém, desde Léon Denis que a coisa degringolou. Se alguém tivesse revisto, por exemplo, a sua teoria das almas gêmeas, teria-se evitado que outros Espíritos dela se utilizassem para continuar propagando algo tão anti-doutrinário.

No item 15 de A Gênese, Kardec se expressa assim sobre esta questão:

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Citemos um exemplo: no mundo dos espíritos ocorre um fato muito singular, do qual ninguém seguramente suspeitara, é o de existirem espíritos que não se julgam mortos. Pois bem, os espíritos superiores, que conhecem perfeitamente esse fato, não vieram antecipadamente dizer:Há espíritos que creem ainda viver a vida terrestre, que conservam seus gostos, hábitos e instintos,” mas eles provocaram a manifestação de espíritos dessa categoria para que os observássemos.

Vendo-se espíritos em dúvida quanto à sua situação, ou afirmando que ainda eram deste mundo, julgando-se envolvidos com suas ocupações ordinárias, do exemplo deduziu-se a regra. A repetição de fatos análogos demonstrou que isso não era uma exceção, mas uma das fases da vida espírita. Ela permitiu estudar todas as variedades e as causas dessa singular ilusão; reconhecer que tal situação é sobretudo própria de espíritos pouco adiantados moralmente, e que é particular a certos gêneros de morte; que ela é temporária, mas pode durar semanas, meses e até anos…

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Kardec diz que eles “não se julgam mortos”, ou seja, eles não tomaram consciência do próprio desencarne. Situação diferente das narrações feitas por André e outros. Atente-se para a questão 234 de O Livro dos Espíritos:

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Existem, como foi dito, mundos que servem de estações ou de lugares de repouso aos Espíritos errantes?Sim, há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que eles podem habitar temporariamente, espécie de acampamentos, de lugares em que possam repousar de erraticidades muito longas, que são sempre um pouco penosas. São posições intermediárias entre os mundos, graduados de acordo com a natureza dos Espíritos que podem atingi-los, e que neles gozam de maior ou menor bem-estar.

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Nesta fala os Espíritos esclarecem que estes lugares para estadas de Espíritos durante a erraticidade é algo perfeitamente real, eles dizem: mundos destinados aos seres errantes. E, se as cidades espirituais citadas, por exemplo, são uma construção psíquica conforme descrição dos autores espirituais pós Kardec, então pode-se entendê-las como uma criação “clandestina”, puramente ilusória de Espíritos imperfeitos e demasiadamente materializados que se afinizam entre si e com a materialidade. E mais, que pretendem mantê-las tal como são. Porém uma ressalva sobre Nosso Lar é necessária: a determinada altura o autor espiritual reproduz a fala de Lísias que afirma a colônia como um lugar de transição; ou seja, não há necessidade de se permanecer ali por tanto tempo, como trabalhadores que estavam lá à época da publicação, há 140 anos… Que o período de perturbação possa durar séculos para alguns, é compreensível, mas não para aqueles que se mostram tão afeitos ao trabalho, à consciência de renovação íntima.

A lei de liberdade explica tal anomalia: por vontade própria aqueles Espíritos estão dispostos a “lá” permanecerem, retornando sempre após cada desencarne — são, portanto, Espíritos estacionários. Ora, a questão anterior de número 227 diz:

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De que maneira se instruem os Espíritos errantes; pois certamente não o fazem da maneira que nós?Estudam o seu passado e procuram o meio de se elevarem. Vêem, observam o que se passa nos lugares que percorrem; escutam os discursos dos homens esclarecidos e os conselhos dos Espíritos mais elevados que eles, e isso lhes proporciona idéias que não possuíam.

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Ou seja, estes mundos transitórios são destinados aos seres errantes para lhes proporcionar meios de se instruírem, se assim quiserem. Mas estes Espíritos errantes que se aportam nestes mundos ditos transitórios, não parecem ter o perfil dos mesmos Espíritos imperfeitos habitantes das cidades espirituais em análise, ao contrário, o texto dá a ideia de Espíritos de várias categorias (Kardec diz: neles gozam de maior ou menor bem-estar) Mas, o trecho: estes mundos são estéreis porque seus habitantes de nada precisam, conforme explicita a questão 236, faz inferir que qualquer criação “material” fica por conta de cada um.

Sendo livre o Espírito, ele goza da capacidade de estar onde queira, neste ou em outros mundos, em qualquer plano que seus desejos e interesses coadunem, mesmo que seja no seu íntimo universo onde a culpa e o remorso permanecem.

Nas colônias descritas pelos Espíritos pós-Codificação há de tudo: trabalho de 8 horas diárias, e trabalho braçal, material; meio de transporte; alimentação; convenções como horário para fazer prece; namoros e mais uma infinidade de coisas que justificam a crença de que as histórias são uma ficção. Seria o caso de se questionar, por exemplo, se há um aeróbus pronto para conduzir o Espírito do plano físico ao espiritual no momento do seu desencarne…

Mas, em nossas divagações questionamos: o corpo físico não seria o único elemento de divisão dos planos visível e invisível, corpóreo e incorpóreo? Uma vez fechados os olhos pela morte, não se depara automaticamente com o mundo dos Espíritos? As Letras Espíritas não defendem que, durante o sono físico está o homem no estado em que estará após a morte? Porque fizeram um plano espiritual tão distante? Estudar o passado, ver, observar e escutar os discursos dos homens esclarecidos e conselhos dos Espíritos mais elevados é diferente das ocupações descritas por esses moradores do além, que limpam chão e fazem curativos. Outro ponto conflituoso é que os Espíritos esclarecem a Kardec que esta condição de mundos transitórios é passageira, daí o nome (236 a, b, c, d, e), e, sabendo-se que a Terra já esteve nesta condição, infere-se que as colônias citadas por André e outros alcançarão o status de planetas habitáveis por encarnados um dia. Porém daí surge uma dificuldade geográfica, e também geológica, pois não se tratam de planetas em formação, mas de cidades “fluídicas” na atmosfera terrestre…

Analise-se a questão 234:

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Os Espíritos que habitam esses mundos podem deixá-los à vontade? — Sim, os Espíritos que se encontram nesses mundos podem deixá-los, para seguir o seu destino. Figurai-os como aves de arribação descendo numa ilha, para recuperarem suas forças e seguirem avante.

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São inconciliáveis as duas ideias, já que as normas apresentadas da organização de Nosso Lar, por exemplo, não parecem tão democráticas. Porquanto a palavra mundo pode ser compreendida como um termo subjetivo, pois que na verdade fala da subjetividade individual que se torna coletiva devido aos processos do magnetismo. Em “O céu e o inferno”, no item 5 da primeira parte.

Kardec pontua:

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Existem, portanto, dois mundos: o corporal, composto de Espíritos encarnados; e o espiritual, formado dos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corporal, devido mesmo à materialidade do seu envoltório, estão ligados à Terra ou a qualquer globo; o mundo espiritual ostenta-se por toda parte, em redor de nós omo no Espaço sem limite algum designado. Em razão mesmo da natureza fluídica do seu envoltório os seres que o compõem, em lugar de se locomoverem penosamente sobre o solo, transpõem as distâncias com a rapidez do pensamento.

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Que se deve entender por rapidez do pensamento? Por transpor deve-se entender deslocamento? Sabe-se que os Espíritos deslizam pelo espaço quando nas aparições. Compreende-se assim, já que se encontram em contato mais direto com a matéria mais grosseira. Mas não parece lógico que também no plano espiritual assim procedam, uma vez que este plano, por mais grosseiro que seja, é, em comparação com o plano físico, muito sutil, constituído de fluidos imponderáveis. Se assim não fosse, seriam gerais as visões dos Espíritos imperfeitos e endurecidos. Ou, em outras palavras, não se pode entender por plano espiritual, por mais material que o descrevam seus habitantes, algo análogo ao plano físico sob nenhum aspecto, a não ser sob a ótica da obstinada ignorância na qual vivem estas Mentes. As Letras Espíritas afirmam que, pensando o Espírito numa anterior existência, assim ele se mostra com trajes típicos e as características físicas que possuíam à época. Se lembra de um lugar, lá está. Conceito mais racional sobre velocidade do pensamento e transpor as distâncias. A informação sugere uma instantaneidade — velocidade do pensamento, e somente em termos quânticos seria possível mensurar tempo gasto entre um local e outro.

Agora, faça-se observar a questão 278:

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Os Espíritos de diferentes ordens estão misturados? — Sim e não; quer dizer, eles se vêem, mas se distinguem uns dos outros. Afastam-se ou se aproximam segundo a semelhança ou divergência de seus sentimentos, como acontece entre vós. E todo um mundo, do qual o vosso é o reflexo obscuro. Os da mesma ordem se reúnem por uma espécie de afinidade, e formam grupos ou famílias de Espíritos unidos pela simpatia e pelos propósitos; os bons, pelo desejo de fazer o bem; os maus, pelo desejo de fazer o mal, pela vergonha de suas faltas e pela necessidade de se encontrarem entre os seres semelhantes a eles.

Comentário de Kardec: Igual a uma grande cidade, onde os homens de todas as classes e de todas as condições se vêem e se encontram, sem se confundirem, onde as sociedades se formam pela similitude de gostos, onde o vicio e a virtude se acotovelam, sem se falarem.

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O texto é claro e se encaixa perfeitamente nas impressões de alguns Espíritos em O Céu e o Inferno, em seu depoimento. Comparem-se as palavras das três transcrições seguintes, a primeira de um médico russo, Senhor P., a segunda do Senhor Sanson, a terceira do Senhor Jobard, classificados como Espíritos felizes:

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1) P. Que região habitais? Estais em um planeta? R. Tudo o que não é um planeta é o que chamais o espaço, e é nele que estou. Mas quantas gradações nessa imensidade da qual o homem não pode fazer uma ideia! Quantos degraus nessa escada de Jacó que vai da Terra ao céu, quer dizer, do envilecimento da encarnação em um mundo inferior como o vosso até a depuração completa da alma! Lá onde estou, só se chega depois de muitas provas, o que significa após muitas encarnações.

2) 5. Estais bem certo de não pertencer mais a este mundo? Como o verificastes? R. Oh! certamente, não sou mais do vosso mundo; mas estarei sempre perto de vós para vos proteger e sustentar, para pregar a caridade e a abnegação que foram os guias da minha vida; depois, ensinarei a verdadeira fé, a fé espírita, que deve exaltar a crença do justo e do bom; estou forte, muito forte, em uma palavra:transformado; não reconhecereis mais o velho enfermo que tudo devia esquecer deixando longe de si todo prazer, toda alegria. Eu sou espírito: minha pátria é o espaço, meu futuro é Deus, que resplandece na imensidade.

3) 9. Vedes os Espíritos que estão aqui conosco? R. Vejo, principalmente Lázaro e Erasto; mais afastado, o Espírito de Verdade planando no espaço; depois, uma multidão de espíritos amigos que nos cercam, apressados e benevolentes. Sede felizes, amigos, porque boas influências vos disputam às calamidades do erro.

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A palavra espaço aparece sem necessariamente significar algo perfeitamente limitado, circunscrito, apreciável, ocupável ou mensurável. Parece, antes, uma forma de descrever uma condição subjetiva, íntima, intrínseca individualmente falando. Porém, acompanhem-se os relatos dos Espíritos em penúria moral:

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Depoimento de Ferdinand Bertin — Capítulo IV:

Estou em um terrível abismo! Ajudem-me… Ó meu Deus! quem me tirará deste sorvedouro?… Quem estenderá uma caridosa mão ao infeliz que o mar engoliu? A noite é tão negra que eu tenho medo… Por toda a parte o rugido das ondas, e nenhuma palavra amiga para me consolar e ajudar neste momento supremo; pois que esta noite profunda é a morte em todo o seu horror, e eu não quero morrer!… Ó meu Deus! isto não é a morte futura, é a morte passada!… Estou separado para sempre daqueles que amo… Vejo o meu corpo, e o que há alguns instantes eu sofria era apenas a lembrança da terrível angústia da separação… Tende piedade de mim, vós que conheceis meus sofrimentos; rogai por mim, porque não quero tornar a sentir, assim como tem ocorrido desde aquela noite fatal, todos os sofrimentos da agonia! Essa, porém, é minha punição, eu a pressinto… Orai… vos suplico!… Oh! o mar… o frio… vou ser engolido… Socorro!… tende piedade! não me empurreis! Nós nos salvaremos melhor com os dois sobre estes destroços!… Oh! eu sufoco!… As ondas vão me engolir, e os meus não terão nem mesmo a triste consolação de me rever. Mas, não!… Vejo que meu corpo não é mais sacudido pelas ondas… As preces de minha mãe serão ouvidas… minha pobre mãe, se ela pudesse imaginar seu filho tão miserável quanto o é na realidade, iria orar mais; porém, ela crê que a causa da minha morte santificou o passado; ela chora por mim como mártir e não como infeliz e castigado. Oh! vós que sabeis, sereis impiedosos? Não… vós rogareis por mim.

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(Estudo sobre as comunicações de Claire – OCI, Cap. IV)

“Essas pessoas não têm, no mundo dos espíritos, castigos excepcionais cuja descrição faça estremecer, mas uma situação simples, natural, resultante da sua maneira de viver e do estado da sua alma. O isolamento, o desprezo, o abandono, eis a punição daquele que viveu apenas para si. … Esses espíritos, quando estão desencarnados, não podem adquirir instantaneamente a delicadeza do sentimento e, durante um tempo mais ou menos longo, ocuparão as zonas mais inferiores do mundo espiritual como ocuparam as do mundo corporal; eles ali ficarão enquanto forem rebeldes ao progresso; mas com o passar do tempo, com a experiência, as tribulações, as misérias das encarnações sucessivas, chegará o momento em que eles imaginam alguma coisa de melhor do que o que têm; suas aspirações se elevam, começam a compreender o que lhes falta, e é então que fazem esforços para consegui-lo e se elevarem(…)

(Claire) “Eis-me aqui. Também eu posso responder à pergunta relativa às trevas, pois vaguei e sofri, por muito tempo nesses limbos onde tudo é soluço e misérias. Sim, existem as trevas visíveis de que fala a Escritura, e os desgraçados que deixam a vida, ignorantes ou culpados, depois das provações terrenas são impelidos a fria região, inconscientes de si mesmos e do seu destino. Acreditando na perenidade dessa situação, a sua linguagem é ainda a da vida que os seduziu, e admiram-se e espantam-se da profunda solidão, trevas são pois, esses lugares povoados e ao mesmo tempo desertos, espaços em que erram obscuros Espíritos lastimosos, sem consolo, sem afeições, sem socorro de espécie alguma. A quem se dirigirem… se sentem a eternidade, esmagadora, sobre eles?… Tremem e lamentam os interesses mesquinhos que lhes mediam as horas; deploram a ausência das noites que, muitas vezes, lhe traziam, num sonho feliz, o esquecimento dos pesares. As trevas para o Espírito são: a ignorância, o vácuo, o horror ao desconhecido… Não posso continuar.”

“Venho procurar-te, a ti, que por tanto tempo me deixas no esquecimento. Tenho, porém, adquirido paciência e não mais me desespero. Queres saber qual a situação do pobre Félix? Erra nas trevas entregue à profunda nudez de sua alma. Superficial e leviano, aviltado pelo sensualismo, nunca soube o que eram o amor e a amizade. Nem mesmo a paixão esclareceu suas sombrias luzes. Seu estado presente é comparável ao da criança inapta para as funções da vida e privada de todo o amparo. Félix vaga aterrorizado nesse mundo estranho onde tudo fulgura ao brilho desse Deus por ele negado.”

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(Kardec, sobre o Espírito Claire)

As perguntas seguintes foram feitas na Sociedade de Paris, a propósito da última comunicação de Claire: O espírito de Claire fala das trevas em que se encontra o espírito de seu marido. Muitos espíritos já falaram dessas trevas que cercam certas almas sofredoras. Seriam essas as trevas das quais tão freqüentemente se fala nas Escrituras, quando é dito: “Os maus serão lançados nas trevas, no negro abismo” Como são produzidas essas trevas, já que no mundo dos espíritos, não existem as mesmas causas de alternativa de luz e de claridade que existem na Terra?

Esse castigo é destinado a certas faltas mais especialmente que a outras, e quais são essas faltas? R. “As trevas a que se referem, na realidade, são aquelas designadas por Jesus e pelos profetas, falando do castigo dos maus. Mas isso ainda é apenas uma figura destinada a impressionar vivamente os sentidos materiais dos seus contemporâneos que não teriam podido compreender a punição de uma forma espiritual. Certos espíritos são lançados nas trevas, mas é preciso compreender essas palavras como uma verdadeira noite da alma, comparável à obscuridade que atinge a inteligência do idiota. Não é uma loucura da alma, mas uma inconsciência de si mesma e do que a cerca que se produz tanto diante como na ausência da luz material. É principalmente a punição daqueles que duvidaram do destino do seu ser; acreditaram no nada, e a aparência desse nada faz o seu suplício, até que essa alma, fazendo um retorno sobre si mesma, possa romper com energia a rede de abatimento moral que a prendeu, da mesma forma que um homem, oprimido por um sonho penoso, luta em um certo momento, com toda a força de suas faculdades, contra os terrores pelos quais inicialmente se deixou dominar. Essa momentânea redução da alma a um nada fictício, com a consciência da sua existência, é um sofrimento mais cruel do que se poderia imaginar, em razão dessa aparência de repouso pela qual é atingida; é esse repouso forçado, essa nulidade do seu ser e essa incerteza que são o seu suplício. O tédio, de que está sobrecarregada, é o castigo mais terrível, porque Claire não percebe nada em torno de si, nem coisas nem seres, e isso, para ela, são verdadeiras trevas.”

Eis uma explicação sobre luz e trevas mas que não consta da 1ª edição (NT):

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O perispírito, por sua natureza, possui uma propriedade luminosa que se desenvolve sob a influência da atividade e das qualidades da alma. Poderíamos dizer que essas qualidades são para o fluido perispiritual o que a fricção é para o fósforo. O brilho da luz está em razão da pureza do espírito; as menores imperfeições morais a obscurecem e a enfraquecem. Assim sendo, a luz que irradia de um espírito é tanto mais viva quanto mais ele for adiantado. Sendo o espírito, de alguma forma, o seu farol, ele vê mais ou vê menos, de acordo com a intensidade da luz que produz; de onde resulta que aqueles que não a produzem estão na obscuridade. Essa teoria é perfeitamente legítima quanto à irradiação do fluido luminoso pelos espíritos superiores, o que é confirmado pela observação; mas essa não parece ser a causa verdadeira ou, pelo menos, a única desse fenômeno, visto que:

1) nem todos os espíritos inferiores estão em trevas;

2) o mesmo espírito pode se encontrar alternadamente na luz e na obscuridade;

3) a luz é um castigo para certos espíritos muito imperfeitos.

Se a obscuridade em que são lançados certos espíritos fosse inerente à sua personalidade, ela seria permanente e geral para todos os maus espíritos, o que não acontece, pois que espíritos de extrema perversidade vêem perfeitamente, enquanto que outros, que não se pode qualificar de perversos, estão temporariamente em profundas trevas. Portanto, tudo prova que, além daquela que lhes é própria, os espíritos recebem igualmente uma luz exterior que lhes falta segundo as circunstâncias, de onde é preciso concluir que essa obscuridade depende de uma causa ou vontade estranha, e que ela constitui uma punição especial para casos determinados pela soberana justiça.

Eles descrevem sofrimentos inteiramente materiais, ambientes cujo sentido devem se aproximar da ideia que tinham quando encarnados. Ao ler-se a Obra Magna, pode ser que a limitação da nossa inteligência se depare com um ou outro ponto que transpareça certa ambiguidade ou ofereça margem a uma má interpretação. Tudo isto por conta da escassez de termos mais adequados para revestir o pensamento, como dizem os Espíritos. Mas sabendo-se que falam segundo sua elevação intelecto-moral, mas, principalmente, segundo os termos dos quais dispomos, não se deve dar vazões a conjecturas que possam comprometer-lhe o real sentido.

Temos visto médiuns, justamente ciosos de conservar suas boas relações de além-túmulo, recusarem-se a servir de intérpretes dos Espíritos inferiores que podem ser chamados. É de sua parte uma suscetibilidade mal entendida. Pelo fato de evocarmos um Espírito vulgar, e mesmo mau, não ficaremos sob a dependência dele. Longe disso, e ao contrário, nós é que o dominaremos. Não é ele que vem impor-se, contra a nossa vontade, como nas obsessões. Somos nós que nos impomos. Ele não ordena, obedece. Nós somos o seu juiz, e não a sua presa. Além disso, podemos ser-lhes úteis por nossos conselhos e por nossas preces e eles nos ficam reconhecidos pelo interesse que lhes demonstramos. Estender-lhe a mão em socorro é praticar uma boa ação. Recusá-la é falta de caridade; ainda mais, é orgulho e egoísmo. Esses seres inferiores, aliás, são para nós um grande ensinamento. Foi por seu intermédio que pudemos conhecer as camadas inferiores do mundo espírita e a sorte que aguarda aqueles que aqui fazem mau emprego de sua vida.

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A última frase diz que através de Espíritos inferiores tomou-se conhecimento do que Kardec chama de camadas inferiores do mundo espírita. Ora, como ouviu a todas as entidades, pode traçar um paralelo relacionando as situações felizes/não felizes vivenciadas pelos seus interlocutores do além. E, apesar de serem conhecidos o fogo do inferno pregado pelo cristianismo e outros locais de sofrimento para as almas pecadoras, nestes depoimentos a ideia se amplia: cada qual vive sua própria realidade segundo as suas obras. Por camadas inferiores ou zonas inferiores do mundo espírita, deve-se entender o aspecto moral no qual se encontra o Espírito. Assim não fosse não teria dito: ocuparão as zonas mais inferiores do mundo espiritual como ocuparam as do mundo corporal. Há uma teoria para a proposta que vige no movimento espírita desde seu nascedouro: há Espíritos espertalhões e muito instruídos intelectualmente, que dominam através da empatia que despertam, envolvendo emocionalmente outros menos adiantados, fazendo que prolonguem o que é um estado passageiro e natural da perturbação pós-morte, a fim de semearem suas ideias e manter na escravidão da ignorância outros tantos que as assimilem. E isto certamente ocorre tanto no plano físico quanto no espiritual, pois que empreendem uma obsessão generalizada, acometendo os incautos, os entusiastas, os ignorantes.

Seja pela vaidade ou orgulho mantém seu status de tutores, de protetores, de instrutores, de orientadores, quando não passam de enganadores e vigaristas do além. Eles só não são desmascarados devido ao excesso de pudores e do errado conceito de caridade que eles mesmos cuidaram de incutir nas mentes de seus “tutelados”.

O que se pode concluir, entretanto, é que não se pode negar a existência de uma realidade psíquica que, para os Espíritos atrasados, dá ensejo a aglomerações citadinas com todos os requintes da materialidade que deveriam ter deixado ao desencarnarem. As habitações que estes descrevem, a despeito das boas maneiras que demonstram, das boas intenções que transmitem, até mesmo das mensagens benevolentes, não devem ser acreditadas como os únicos ou os melhores lugares do invisível, pois, conforme Kardec diz, não se julga os moradores de uma cidade apenas pelos moradores da periferia.

É preciso refletir que estes informes dão conta apenas do que tomo a liberdade de chamar “realidade psíquica alternativa” e coletiva de Espíritos em condições de arraigadas imperfeições intelecto-morais; pois o mundo espiritual é, antes de tudo, individual, devido às construções morais adquiridas. Mas a dificuldade está em se querer localizar a morada dos Espíritos, como se esta morada fosse realmente um ambiente físico, objetivo; enquanto a Codificação dá conta de que não há lugares circunscritos no espaço. Seria o caso de se pensar que tais Espíritos vagam ainda no plano físico, material dos encarnados, e confundem a realidade da nova condição de desencarnados com a realidade material da qual já não fazem parte, a não ser psiquicamente.

É necessário analisar as coisas sem criar novos sistemas, do contrário as dificuldades de compreensão de duplicarão. Talvez a solução seja buscar o sentido de cada afirmação das sábias orientações espíritas e lançar mão do raciocínio lógico, evitando novos cismas. Os tempos são chegados para que a verdade se manifeste plena e arrebatadoramente.

* Obreiros da vida eterna – FCX/ André Luiz.

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Artigo publicado originalmente no blog Crítica Espírita

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One Response “As várias moradas ou os mundos espirituais Maria Ribeiro

  1. Luiza Gomes da Silva
    24/04/2017 at 16:25

    Matéria muito importante pra todos nos. Porém muito complexo .Mas talvez seja porque estou apenas começando o estudo.

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