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24/06/2017

As duas edições de O Livro dos Espíritos: Análise e comentários Moura Rêgo


A maioria de nós, confrades espíritas, trás consigo dúvidas ainda mal paradas sobre alguns temas da doutrina. Não só sobre isso, mas uma grande parte dos Espíritas vem de repetir um grave erro de informação, quando afirmam que com a chegada às livrarias da segunda edição de O Livro dos Espíritos, estaria em desuso, ou seja, perderia o valor, estaria em desuso, ou ainda, não se necessitaria mais de estudar, o constante da primeira edição.

Esta afirmação é totalmente fundada no desconhecimento doutrinário, e na história da própria Doutrina dos Espíritos.

Aliás, dessa bobagem, muitos outros erros, que no cômputo dos erros atribuídos ao movimento espírita, têm, das palavras de alguns expositores, a sua nascente.
Em Direito, por exemplo, quando uma lei nova é sancionada, a antiga a abraça no todo ou em parte, logo, não há porque, em matéria de Doutrina Espírita, dizer-se que a segunda edição substitua a primeira.

A segunda edição, com se vai verificar, por vezes trás um maior contingente de explicação e a explicação para tal fato é simples: Ao tempo da primeira edição, como demonstra a introdução da obra, quer na primeira, quer na segunda edição, a psicografia ainda não era conhecida totalmente. O que havia era, no dizer de Kardec, “rudimentos de uma nova forma de comunicação espiritual”, todavia, já ao tempo da fornada que nos trouxe a segunda edição, a psicografia já era experimentada em muitos locais e o seu conhecimento e estudo já estavam aprofundados.

Como vemos, não há mágicas, nem “estorinhas pra boi dormir”, o que há é, das duas uma: Ou o desconhecimento da história da doutrina ou a vontade em mistificar ou engodar, para que, fique mais fácil a crença de alguns passar como verdade cristalina.

Mais abaixo, excerto das duas versões alguns momentos, e o faço em coluna dupla, para facilitar a confrontação, destes trechos da doutrina, contidos na primeira e na segunda edições, como vamos ver, em alguns casos, a primeira é até superior à explicação dada na segunda edição, malgrado o maior número de palavras e frases ditas na explicação dada pela segunda edição. Outras vezes veremos o fato se repetir, mas dando maior valia para a segunda edição. Ora, o que temos então senão o estabelecimento da verdade, sim, isso mesmo, tal fato prova sem deixar margem a dúvida, que Espíritos Superiores nunca se contradizem, podem mesmo, usar até de palavras diferenciadas, já que o conhecimento de todos não é távola rasa, não podem, a bem da compreensão geral, os Espíritos, dizerem as coisas com as mesmas palavras a todos quantos queiram conhecer da verdade.
A primeira edição, oriunda dos cadernos ofertados a Kardec, para o ofício de colocá-los em ordem de entendimento geral, é um repositório de ensinos que não deve e não pode ser deixado cair no vácuo do esquecimento: Sob pena de terem os alunos da doutrina, um ensino parcial e mesmo, diria eu, incompleto, tanto da parte histórica, quanto da parte filosófica.

Assim, sem mais demora, comparemos as duas edições, nestes poucos mais importantes trechos que fiz por separá-los, em coluna dupla, sendo a primeira coluna, o repositório dos ensinos da primeira edição e a segunda coluna, conseqüentemente, a consagração dos critérios expostos na segunda edição de O Livro dos Espíritos.

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Primeira Edição do Livro dos Espíritos
Temas — Perguntas
Capítulo VII, Diferentes encarnações

142 — O arrepender-se ocorre no estado corporal ou no estado espiritual?
— No estado espiritual, mas pode, também, ter lugar no estado corporal, quando vós compreenderdes bem a diferença entre o bem e o mal.

Qual é a conseqüência do arrependimento no estado espiritual?
— O desejo de uma nova encarnação para se purificar.

O arrependimento sempre acontece no estado corporal?
— Mais vezes do que se crê, mas muitas vezes ele ocorre excessivamente tarde.

Qual é a conseqüência do arrependimento no estado corporal?
— De avançar, a partir da vida presente, se houver tempo de reparar suas faltas.

Como se nota, há na primeira edição, sobre o mesmo tema, uma pergunta a mais, esta nos trás mais firmeza no considerar a conclusão que vamos retirar do estudo que fizemos. Kardec, um pedagogo laureado duas vezes pela Academia Real de Arras, não iria se dar ao trabalho de formular perguntas redundantes, a natureza de suas reflexões, sempre graves e acertadas, denotando o Espírito avançado que era, via a necessidade que se deixasse bem aclaro o tema, para que não restassem dúvidas, ou se desse margem a interpretações dúbias ou desviadas do caminho que a resposta dos Espíritos indicava. – (comentário meu)

165­ — Que diferença há entre o extático e o sonâmbulo?
— É um sonambulismo mais apurado; a alma está mais independente.

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Segunda Edição de O Livro dos Espíritos
Temas — Perguntas
Livro quarto, capítulo II, item VI

990 — O arrependimento se verifica no estado corpóreo ou no estado espiritual?
— No estado espiritual. Mas pode também verificar-se no estado corpóreo, quando bem compreendeis a distinção entre o bem e o mal.

991 — Qual é a conseqüência do arrependimento no estado espiritual?
— O desejo de uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o impedem de ser feliz e aspira a uma nova existência, onde possa expiar suas faltas. (Ver 332 – 975)

992 — Qual é a conseqüência do arrependimento no estado corpóreo?
— Adiantar-se ainda na vida presente se houver tempo para a reparação das faltas. Quando a consciência reprova e mostra uma imperfeição, sempre se pode melhorar.

A resposta que vemos encimada pelo número 990, nesta segunda edição, me parece dar um sentido mais específico conquanto sua redação. Não há, contudo, uma diferença de sentido em qualquer das duas respostas. O que se lê, chega-nos aos escaninhos do raciocínio, sob a mesma compreensão. – (comentário meu)

440 — O espírito do extático penetra realmente nos mundos superiores?
— Sim, ele os vê e compreende a felicidade dos que os habitam: é por isso que desejaria permanecer neles. Mas há mundos inacessíveis aos Espíritos que não estão bastante depurados.

Ele pode penetrar em todos os mundos, sem exceção?
— “Não, pois há os que são inacessíveis para os Espíritos que não são suficientemente apurados.”

Existe, no entanto, coisas que o extático pretende ver e que são, evidentemente, o produto de uma imaginação influenciada pelas crenças e prejulgamentos terrestres. (grifo meu)

Tudo isso que ele vê, portanto, é real?
— Tudo o que ele vê é verdadeiro; mas, como seu Espírito está sempre sob a influência das idéias terrestres, ele pode ver à sua maneira, ou para melhor dizer, o exprimir em uma linguagem apropriada a seus prejulgamentos e às idéias com as quais ele foi influenciado, ou às vossas, a fim de melhor se fazer compreender.

Nota-se a confluência das respostas, reportando-se até mesmo, para as palavras usadas e utilizadas pela plêiade, na propagação de suas idéias. Isso denota que a afirmativa assinalada pelos Espíritos é de todo verdadeira: “Os Espíritos Superiores nunca se contradizem”. – (comentário meu)

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Nada tenho contra os escritos de André Luiz ou de Emmanuel, para me fixar apenas nesses baluartes da mensagem espiritualista, porém, nunca é tarde para que se demonstre que eles, dizendo apenas o produto de suas opiniões pessoais, apresentam o arrazoado que suas crenças, como indica a resposta sob o crivo do consenso dos Espíritos Superiores, (CUEE), os faz ditar aos médiuns que as recebem.

Tal fato, aliado ao que diz e ensina o item dois da introdução ao Evangelho Segundo o Espiritismo, ou mesmo à Introdução de O Livro dos Espíritos, ou ainda, ao capítulo primeiro de A Gênese, todas estas, obras básicas e, portanto, contendo a chancela do CUEE, não podem ser taxadas de doutrina dos Espíritos, são sim, palavras ditadas por Espíritos, só isso.

443 — Há coisas que o extático pretende ver e que são evidentemente o produto de uma imaginação excitada pelas crenças e preconceitos terrenos. Tudo o que ele vê não é então real?
— O que ele vê é real para ele¸ mas como seu Espírito está sempre sob a influência das idéias terrenas, ele pode ver à sua maneira, ou, melhor dito, exprimir-se numa linguagem de acordo com os seus preconceitos e com as idéias em que foi criado, ou com as vossas, a fim de melhor se fazer compreender. É sobretudo nesse sentido que ele pode errar.

Como já anotei, há uma confluência de respostas. Na segunda edição, esta haurida sob o condão da psicografia, quando na primeira edição sabemos, que o conjunto das respostas foi recebido do trabalho das três moças, que se utilizavam das mesas girantes. – (comentário meu)

A edição segunda trás além de uma melhor adequação à compreensão de todos, desde os idos de 1857, uma específica entonação que não dá para ser destoada ou desalinhavada da verdade que disseram os Espíritos Superiores. Qualquer remontagem dessa resposta, seja, pela compreensão que queiram lhe dar certos confrades, também virá ladeada por suas crenças, não constando, portanto, dos ditames doutrinários codificados por Allan Kardec e por conseguinte, não podendo ser entendida como Doutrina Espírita.

Remontando ainda à primeira edição de O Livro dos Espíritos, vou trazer-lhes uma questão que, nunca a vi ser comentada por nenhum orador ou palestrante que fizesse excursão pela edição que aqui confrontamos com a segunda edição da supra citada obra básica de Doutrina Espírita. Trata-se da questão de numeral vinte e seis (26), encontrada na primeira edição de O Livro dos Espíritos.

Vamos a ela:

26 — Os Espíritos Superiores são absolutamente inimigos de toda alegria?
— “Não; eles querem, muitas vezes, condescender com vossa fraqueza e compactuar com vossas puerilidades, quando nelas vêem, sobretudo, um meio de atingir um fim mais sério.”

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Notem bem, já ouvi muitas coisas na Internet, mas a que me deixou mais intrigado foi a afirmação de que Espírito Superior e Espírito sério “é aquele que não ri”. Ora, com se depreende facilmente da resposta da plêiade, não é esta a visão que eles dão ao tema, aliás a notícia que eles relatam é bem diversa da afirmação feita por “conhecedor” que instruía numa das salas Espíritas pelas quais já passei.

Mais ainda, a resposta dos Espíritos demonstra que quando os Espíritos vêem um fim mais sério, por vezes podem até compactuar com as nossas puerilidades. Logo, não são eles casmurros, ou de “maus bofes”, como fazia crer aquele senhor.

Quanta falácia se ouve, e que muitos acabam elegendo como verdade verdadeira, sem um único olhar na obra básica… Todas estas são ditas com o cenho fechado e com aparente gravidade, mas tanto a gravidade quanto a aparente verdade propugnada, decaem da pretensa luz que nunca tiveram, quando se abre uma das obras básicas.

A alegria é um dos elementos dos quais se nutrem os Espíritos elevados. Não esta estapafúrdia alegria, urdida nas raias da bagunça ou da futilidade, mas sim a alegria do servir desinteressadamente, a profunda alegria de ver uma obra terminada com mérito. É esta a alegria que compraz e que ampara aos Espíritos que conseguiram e que conseguem chegar à condição de pureza.

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Muita paz.
Rio de Janeiro, 04 de maio de 2008.

2.5/5 (2)

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2 Responses “As duas edições de O Livro dos Espíritos: Análise e comentários Moura Rêgo

  1. Etiene
    02/02/2016 at 20:00

    Muito boa matéria, porém ainda gostaria de apreciar comentários sobre essas duas obras no que diz respeito ao acoplamento do espírito ao corpo, já que há uma ampla distância de conceitos entre uma edição e a outra.
    Fico grata pela atenção e já parabenizando o esforço realizado para nos trazer o conhecimento adequado com palavras precisas.

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  2. Marina
    04/04/2017 at 12:13

    Falam que a segunda edição não muda o conceito da primeira. Mas fica a minha dúvida, porque Kardec tirou a pergunta de número 138 da segunda edição?
    138 ( primeira edicao) – O perispirito é parte integrante e inseparável do Espírito?
    Resposta: Nao; o Espírito pode privar-se dele.

    Eu sei que pode ter havido varios motivos; tirou talvez porque não estava de acordo, ou os espíritos não entenderam o que era exatamente perispirito ( nome criado por Kardec) ;

    Mas fica a minha dúvida, será que tem mais perguntas como essa é foi retirada na segunda edição?

    Você saberia me exclarecer sobre isso ?

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