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29/03/2020

As Crenças Antigas: II – Índia


Gabriel-Delanne-Charcoal

A inda nos dias atuais, as tribos mais selvagens crêem numa certa imortalidade do ser pensante e as narrativas dos viajantes são concordes no atestar que, em todas as partes do globo, a sobrevivência é unanimemente afirmada. Remontando aos mais antigos testemunhos que possuímos, isto é, aos hinos do “Rigveda“, vemos que os homens que viviam nas faldas do Himalaia, no Sapta Sindhu (país dos sete rios), tinham Intuições claras sobre o além da morte. Baseando-se provavelmente nas aparições naturais e nas visões em sonho, foi que os sacerdotes, ao cabo de muitos séculos, lograram codificar a vida futura. Como será essa vida? Um poeta ária esboça assim, vigorosamente, o céu védico:

“Morada definitiva dos deuses imortais, sede da luz eterna, origem e base de tudo o que é, mansão de constante alegria, de prazeres infindos, onde os desejos se realizam mal surjam, onde o ária fiel viverá de eterna vida.”

Desde que o céu védico foi concebido qual morada divina habitável pelo ser humano, posta se achou a questão de saber-se como poderia o homem “elevar-se tão alto” e como, dotado de faculdades restritas, seria “capaz de viver uma vida celeste sem fim”. Fora possível que o corpo humano, tão fortemente ligado a terra, levantando vôo, tornado leve como uma nuvem, atravessasse o espaço, para ir ter, por si mesmo, à maravilhosa cidade dos deuses? Necessário seria que um milagre se produzisse. Ora, esse milagre jamais visivelmente se produziu. Dar-se-ia, então, que a morada divina ainda estivesse sem habitantes? A não ser mediante um prodígio, que corpo físico pode perder o seu próprio peso? Desse mistério, desse pensamento vago, nasceu, de certo modo, a preocupação positiva dos destinos da matéria após a morte, da sobrevivência de uma parte do ser.

Essa a mais antiga explicação que se conhece daquele misterioso além. Abatido pela morte, o corpo humano se desfaz por inteiro nos elementos que participaram da sua formação. Os raios do olhar, matéria luminosa, o Sol os reabsorve; a respiração, tomada aos ares, a estes volve; o sangue, seiva universal, vai vivificar as plantas; os músculos e os ossos, reduzidos a pó, tornam-se húmus. “O olho volta para o Sol; o respiro volta para Vayú; o céu e a terra recebem o que lhes é devido; as águas e as plantas retomam as partes do corpo humano que lhes pertencem:’ O cadáver do homem se dispersa. As matérias que compunham o corpo vivo, privadas do calor vital, restituídas ao Grande Todo, servirão à formação de outros corpos. Nada se perdeu, nada o céu tomou para si”.

Entretanto, o ária que morreu santamente receberá sua recompensa: elevar-se-á às alturas inacessíveis; gozará da sua glorificação. Como será isso? Assim: a pele nada mais é do que o invólucro do corpo e, quando Agni, o deus quente, abandona o moribundo, respeita o invólucro corpóreo, pele e músculos. As carnes, debaixo da pele, são apenas matérias espessas, grosseiras, que constituem segundo envoltório destinado ao trabalho, sujeito a funções determinadas. Sob esse duplo envoltório, da pele e do corpo, há o homem verdadeiro, o homem puro, o homem propriamente dito, emanação divina, suscetível de voltar para os deuses, como o raio de luz volta para o Sol, a respiração para o ar, a carne para a terra. Depois da morte, essa alma, revestida de um novo corpo, luminosa névoa resplandecente, de forma brilhante, “cujo próprio brilho a furta à fraca visão dos vivos”, é transportada à morada divina. Se o deus ficou satisfeito com as oferendas do ária morto, vem, elepróprio, dar-lhe “o invólucro luminoso” com que a alma será transportada. Um hino exprime sumariamente a mesma idéia, sob a forma de uma prece:

Desdobra, ó Deus, os teus esplendores e dá assim ao morto o novo corpo em que a alma será transportada, segundo a tua vontade.” Se refletirmos que esses hinos estavam escritos, há cerca de 3.500 anos, na língua mais rica e mais harmoniosa que já existiu, ficamos sem poder calcular a que épocas recuadas remontam essas noções, tão precisas e quase justas, sobre a alma e o seu envoltório. Só mesmo toda a ignorância da nossa época grosseiramente materialista seria capaz de contestar uma verdade velha como o pensamento humano e que se nos depara em todos os povos. As nossas modernas experiências sobre os Espíritos, que se deixam fotografar ou se materializam momentaneamente, como veremos mais adiante, mostram que o perispírito é uma realidade física, tão inegável como o próprio corpo material. Já era essa a crença dos antigos habitantes da margem do Nilo e constitui fato digno de nota que, no alvorecer de todas as civilizações, topamos com crenças fundamentalmente semelhantes, quando quase nenhum meio de comunicação havia entre povos tão distanciados uns dos outros.

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