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18/08/2017

Análise da obra: DAS ÍNDIAS AO PLANETA MARTE – Theodore Flournoy


Durante anos estive à procura do muito citado e muito raro – livro de Theodore Flournoy, “Des Indes à la Planete Mars” (“Das Índias ao Planeta Marte”), que estuda alguns episódios da mediunidade de Helène Smith.

Aqui está o livro, afinal, e vamos estudá-lo.

Theodore Flournoy foi um médico suiço, professor de Psicologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Genebra e autor de várias obras de caráter científico, publicadas entre 1878 e 1899. É mais conhecido pelo livro de que cuida este artigo, embora haja outro volume sobre Espiritismo, este com o titulo de “Genèse de quelques prétendus messages spirites” (“Gênese de Algumas Pretensas Mensagens Espiritas”).

A posição do ilustre professor diante do Espiritismo é francamente hostil. Mais do que isso, pois nem sequer leva a sério os postulados da doutrina, que parece conhecer um tanto por alto. À página 388 do seu famoso livro, faz a seguinte declaração: “Confesso logo que o Espiritismo é assunto que tem o dom de me colocar de bom humor e que me leva instintivamente à galhofa.” E mais adiante: “Seja como for, encontro ordinariamente grande dificuldade em me conservar sério diante das manifestações dos desencarnados.”

Quanto à doutrina da reencarnação, o ilustre professor liquida-a sumariamente, numa nota de roda pé, em letra miúda, à página 352, nos seguintes termos: “A doutrina das anterioridades, ou das encarnações precedentes, parece ser um legado especial de Allan Kardec ao Espiritismo do velho continente, ausente no Espiritismo do Novo Mundo, o que diminui bastante o valor dogmático da referida doutrina e me dispensa de discuti-la aqui. Seu papel na mediunidade de Mlle. Smith mostra bem a influência sugestiva do meio.”

Aliás, é preciso dizer neste preâmbulo que o Dr. Flournoy não aceita a palavra mediunidade – em francês mediumnité; prefere criar o neologismo mediumité (mediumidade), sacado à lingua alemã (mediumitat), de vez que aquele “n” ali metido, por mais inocente que pareça, está “carregado de subentendidos espíritas”. É, pelo menos, o que confessa em rodapé à página XI de seu prefácio.

Com todos esses preconceitos e os mais que veremos no decorrer desta análise, considera os espíritas convictos e praticantes – quaisquer que sejam – inteiramente desqualificados para a pesquisa psíquica, dado que os julga a todos indistintamente crédulos e despreparados …

Dos fenômenos inabituais da mente, apenas aceita a validade da telepatia. Quanto ao mais, procura tudo enquadrar na rigidez da Psicologia da época, quando Breur e Freud iniciavam suas pesquisas e experiências. Se hoje a Psicologia ainda não tem estrutura para receber o “encaixe” dos fenômenos espíritas, imagina-se há 70 anos! (o artigo é de 1972)

Pois é com esse instrumental cultural e dessa posição de irredutivel dogmatismo científico que o Dr. Theodore Flournoy se atira ao estudo dos fenômenos apresentados pela ‘mediumidade’ de Helène Smith.

E Helene, quem era? Seu verdadeiro nome – não citado no livro – era Catherine Élise Muller. Flournoy espraia-se por longas páginas no estudo minucioso da personalidade da médium, pela qual experimenta viva simpatia. “O médium em questão – diz à página 1 -, a que chamarei de Mlle. Helene Smith, era uma nobre e bela pessoa com cerca de trinta anos de idade, tez natural, cabelos e olhos quase negros, cuja face inteligente e aberta, o olhar profundo, mas nada extático, despertavam imediatamente a simpatia.” Nada do misticismo doentio, que se criou como imagem das antigas sibilas, mas “um aspecto de saúde, de robustez física e mental que davam gosto ver e que, aliás, não é raro de se encontrar nos médiuns”. Ainda bem.

Helène era de modesta condição social “e de irrepreensível moral, ganhava a vida honradamente numa casa comercial, onde seu trabalho, sua perseverança e suas capacidades fizeram-na chegar a um dos postos mais importantes” (págs. 2 e 5). Sem desprezar o ambiente em que vivia, tanto o familiar como o social – “sentia-se decididamente superior”. Possuia bom gosto apurado, “introduzindo mesmo um tom de elegância na modesta residência de seus pais”.

À página 36, ainda escrevendo sobre Helene, que parece fasciná-la um tanto, diz o professor: “De compleição sadia e vigorosa, de boa estatura, bem proporcionada, traços regulares e harmoniosos, tudo nela respira saúde. Não apresenta nenhum sinal visível de degenerescência.” No dizer do Dr. Flournoy, Helene não possui nenhuma “tara ou anomalia”, a não ser sua mediunidade! Falta só acrescentar que a bela e jovem médium exerce suas faculdades apenas nos momentos de lazer, “de maneira sempre absolutamente desinteressada” (pág. 37). Há nobreza no seu caráter. Sua cabeça é “extremamente bem organizada”, sua letra firme e traçada com grande elegância. Ela própria considera a sua mediunidade “como um raro e precioso privilégio que por nada neste mundo consentiria em perder”, detestando, porém, a idéia de, com o exercício de suas faculdades, atrair indevidamente a atenção de circunstantes, se sobre tais faculdades viesse a perder o controle.

Não faltam, pois, minúcias ao livro do ilustre professor, dado que, de um total de 418 páginas, dedica 74 ao estudo da personalidade de sua médium. Conclui o capítulo terceiro declarando que há muito ainda que dizer acerca das sessões realizadas por Helene, mas que é melhor entrar logo no exame dos exemplos relatados nos capítulos seguintes, quando são estudados os “principais ciclos da sua brilhante fantasia subliminal”.

Isso porque o autor já decidiu: todos os fenômenos apresentados pela médium são produtos de uma bem elaborada fantasia que vai emergindo do seu subconsciente. Veremos.

É preciso dizer aqui que o livro não começa bem, dado que o próprio autor parece não acreditar muito nele, como obra de divulgação. Acha-o “demasiado eriçado de termos técnicos e interpretações bárbaras que nada dizem ao homem comum e eivado de explicações elementares e banais para merecer a atenção dos entendidos, não tendo nem a forma que os primeiros devem ter, nem o fundo que os segundos estão no direito de exigir. Mesmo assim eu o publico – como um exemplo que não deve ser imitado -, a fim de não mais ter de pensar nele e me consolando à idéia de que, afinal de contas, ninguém é obrigado a comprá-lo nem a lê-lo” (págs. III e IV).

A despeito do pessimismo do autor, o livro vendeu bem, certamente pelo inusitado dos fenômenos descritos, e pelo título sugestivo: “Das Índias ao Planeta Marte”. As pesquisas foram iniciadas em dezembro de 1894 e se prolongaram até 1899. Em 1900 o livro já estava na sua terceira edição – a que hoje tenho em meu poder.

Theodore Flournoy dividiu seu estudo em três grupos principais. a que chamou de ciclos: o ciclo marciano, o ciclo hindu e o ciclo real, nessa ordem, o que parece outra incongruência, porque o livro então deveria chamar-se “Do Planeta Marte a Maria Antonieta” …

Como introdução ao estudo desses ciclos, Flournoy examina, em capitulo à parte, a colorida personalidade de Léopold que, manifestando-se através da mediunidade de Helene, ora em psicofonia, ora em psicografia, ou ainda por tiptologia, assume o papel de guia espiritual da médium, Diz ele ser o famoso José (Giuseppe) Balsamo, o Conde Cagliostro, alquimista e aventureiro tão conhecido daqueles que leram as “Memórias de um Médico” de Alexandre Dumas.

Evidentemente, a personalidade de Léopold ocupa larga faixa da atenção de Flournoy. Por isso, o autor lhe dedica um capítulo inteiro – o de número 5. Seria Léopold verdadeiramente o José Balsamo histórico? Ou, mesmo não tendo com aquela personagem senão algumas “analogias superficiais”, seria ele um indivíduo real, distinto e independente de Mlle. Smith? Ou, finalmente, não passaria de “uma espécie de modificação alotrópica (Substância alotrópica é aquela que conserva caracteristicas fisicas e quimicas em estados diversos, como o carvão e o diamante. ) da própria Helene, um produto de sua imaginação subliminal, como nossas criações oníricas e como os papéis sugeridos a uma pessoa hipnotizada”?

Flournoy opta, evidentemente, pela última hipótese: para ele, a personalidade manifestante sob o nome de Léopold é uma simples composição imaginária de Helene. No entanto, Léopold fala aos ouvidos de sua médium, adormece-a à vontade e faz mover a mesa. Às vezes, passa semanas inteiras sem se manifestar, “malgré qu’elle le désire et I’invoque”, isto é, ainda que ela o deseje e o invoque.

De outras vezes, surge imprevistamente, sem ser chamado nem pressentido, dando mostras, como diz o próprio Flournoy, de tratar-se de um “ser autônomo, dotado de livre-arbítrio, freqüentemente ocupado alhures ou ausente por força de seus próprios afazeres, que não o permitem estar constantemente à disposição de Mlle. Smith” (pág. 76). E mais adiante: “Não se poderia, em poucas palavras, conceber um ser mais independente e mais diferente de Mlle. Smith, possuindo caráter mais pessoal, individualidade mais marcante e existência real, mais certa.”

Ao escrever pela médium, apresenta uma letra bastante pessoal, algo semelhante com a do próprio Cagliostro. Quando no fenômeno de incorporação – a que Flournoy chama, impropriamente, de encarnação -, sua voz é profunda, “e a palavra surge grave, lenta, forte, uma voz de homem, possante e baixa, algo confusa, com um pronunciado sotaque estrangeiro, certamente italiano mais que outra qualquer coisa”. É, ao mesmo tempo, “pomposo, grandiloqüennte, untuoso, às vezes severo e terrível e também sentimental”. Logo que o encarna, no dizer do Dr. Flournoy, a médium “adquire, na verdade, uma certa semelhança facial com ele e há, em toda a sua atitude, algo de teatral, às vezes realmente majestoso, que corresponde bem à idéia que se pode fazer da personagem que ficou conhecida como impostora ou como um gênio maravilhoso” (página 102). Há ainda um pormenor importante, que põe em evidência as diferenças de hábito tão bem assinaladas acima. Quando Helene se prepara para psicografar mensagens de Léopold-Cagliostro, toma o lápis entre o indicador e o polegar, em vez de fazê-lo, como em estado de vigília, entre o indicador e o dedo médio. Todas as vezes que tal manifestação se realiza, há uma pequena luta entre a médium e o ser manifestante, até que este impõe a sua vontade e ela prende o lápis como ele deseja.

Nenhum desses indícios veementes de autonomia impressiona o eminente professor: ele continua afirmando que Léopold é um componente de detritos subconscientes, uma personalidade imaginária criada pela própria médium, para liberar certas complexidades obscuras de sua intimidade, sendo, portanto, produto de uma auto-sugestão hipnoidal que “o simples fato de a pessoa ocupar-se de Espiritismo e de dedicar-se a exercícios mediúnicos basta para produzir” (pág. 88). “Isto – prossegue ele com toda segurança -, não é uma hipótese ou uma afirmação sem base, é uma verdade empírica (ou seja, experimental), verificação de uma realidade, uma lei psicológica induzida de exemplos concretos e que, por conseguinte, constitui explicação suficiente e única plausivel, até prova em contrário, de outros casos particulares aos quais a fórmula é aplicável.”

Passando das especulações aos fatos, o autor aplica a sua lei ao fenômeno, informando que a personalidade de Léopold “não existia necessariamente (não há indício algum) a título de subpersonalidade distinta antes de Helene ocupar-se de Espiritismo”. Notável conclusão! E por conseguinte, “sem o Espiritismo e a autozação das sessões, Léopold não seria jamais efetivamente personalizado, mas permaneceria no estado nebuloso, difuso, incoerente dos vagos devaneios subliminais e dos fenômenos automáticos esparsos”.

Quando a médium o vê, trata-se de uma alucinação visual.

Quando o ouve, é alucinação auditiva. Na opinião do autor, trata-se de uma “cisão completa da consciência”, tese que, até hoje, muita gente boa ainda defende com entusiasmo. No fundo, Heléne e Léopold são para ele a mesma coisa, manifestando-se de modo diverso, ainda que tão diferentes entre si. Às vezes, “o organismo parece dividido entre dois seres estranhos um ao outro, Léopold falando pela boca de Heléne, com seu sotaque e suas idéias, e ela se queixando por escrito de experimentar forte dor de cabeça e de garganta, sem saber por quê” (pág. 115).

No estado de vigília, Helene não seria mais que uma forma de manifestação mais continua de Léopold, que somente emerge ocasionalmente. Mas, no fundo, no fundo, o autor mesmo não está seguro da sua tese, porque confessa à página 116 o seguinte: “Este último esquema – uma única personalidade desdobrada em duas – é seguramente mais cômodo para uma descrição clara e superficial dos fatos e não receio adotá-lo, mas não estou completamente convencido de que ele seja conforme à realidade das coisas.”

Deixemos, por enquanto, a personalidade de Léopold e a elaborada teoria de Flournoy, por ele próprio promovida a lei de psicologia e depois colocada em dúvida. Examinemos o chamado ciclo marciano.

Devo dizer de início que, a meu ver, procedem muitas das críticas de Flournoy a este episódio, que revela indícios veementes de elaboração meramente fantasista. Em outras palavras: o episódio marciano não convence, nem por suas visões interplanetárias, nem pela língua misteriosa em que se manifestam suas personagens. É por isso que o próprio Flournoy confessa ser muito mais fácil explicar o ciclo marciano que o hindu. É que este último contém elementos de uma autenticidade indiscutível difíceis de ignorar ou destruir.

Acha o autor que o ciclo marciano foi disparado por um desejo de desvendar o segredo impenetrável da vida fora da Terra. Mesmo ai, porém, não poupa o Espiritismo, fazendo crer que para este tudo é possivel e tudo tem explicação. “Sem dúvida – diz ele à página 142 – o Espiritismo pode explicar que as dificuldades materiais duma travessia interplanetária sejam suprimidas num transporte puramente mediúnico, fluidico, mas por que, então, aquelas persistentes sensações físicas do mal-estar, balanço, flutuação, etc., etc.?”

Claro que não podemos afirmar que o Espírito desprendido de Helêne Smith tenha sido levado até Marte. Pelo menos a evidência que apresenta não convence. Mas, as sensações que o Dr. Flournoy identificou na médium – mal-estar, balanço, etc. – são exatamente as que podem ocorrer num desprendimento espiritual agitado. Se o Espírito continua preso ao corpo físico, continua a sentir os incômodos que causa a este, ou, dizendo de outra maneira, reflete, sob forma de sensações, a resistência do organismo físico ao brusco deslocamento do Espírito. Não é preciso, para isso, ir a Marte.

Mas, o nosso caro professor está sempre em guarda em relação ao “perigo” que representa a possibilidade de deixar-se ele próprio levar pelas doutrinas espíritas. Ao iniciar suas pesquisas com a médium, toma as suas precauções de controle – no que faz muito bem -, mas “apela” para a ironia, achando que todos ali, no grupo para o qual foi convidado por um amigo comum, estão ínteressados em convertê-lo ao Espiritismo – “o que não sería, diz ele, um triunfo a desprezar-se para a causa espírita”. Julga-se, dessa forma, uma preciosa aquisição para o movimento espírita. Ficamos com o direito de crer que ainda sem o ciclo marciano, que, infelizmente, enfraquece a massa evidencial que Helène Smith lhe apresentou, o professor não se teria convertido – o que, mesmo em prejuízo de sua vaidade, devemos dizer, não foi uma grande perda para o Espiritismo.

Assim, em 1896 começam os primeiros sinais a que Flournoy chama, às vezes, de “romance marciano”, e que mais tarde se desdobrará em visões, desenhos, linguagem escrita e falada.

É na crítica à linguagem que o professor é mais convincente.

O “marciano” falado ou escrito através de Helene parece um arranjo mais ou menos infantil do próprio francês. A análise minuciosa desse aspecto é feita no capítulo 49, em 54 páginas.

Flournoy classifica o fenômeno no gênero da glossolalia, num caso típico de glossopoiese, que é a “fabricação completa de uma língua pela atividade subconsciente”. Se a fabricação foi subconsciente, não creio que pudéssemos afirmar; mas que a língua é suspeita de artificialismo, isto é bastante evidente. Começa que as vogais têm as mesmas nuanças da pronúncia francesa. Idêntica é a construção da frase, palavra por palavra. O feminino é, como em francês, representado por um “e” final, as palavras longas em francês são longas em “marciano” e as curtas aqui são também curtas do “lado de lá”. As formas gramaticais apresentam notáveis similitudes. Exemplo: “je, tu, il, nous, vaus, ils” (eu, tu, ele, nós, vós, eles) são representados em “marciano” como “cé, dé, hed, nini, sini, hed. Mon, ton, son, ma, ta, sa” (meu, teu, seu, minha, tua, sua) tornam-se “êzi, ché, bi, êzé, chée, bé”. E assim por diante. Chega-se ao ponto de que até o “t” que a língua francesa emprega eufonicamente, em certas construções, também aparece no “marciano”. Dessa forma, a pergunta “Quand reviendra·t·il?” fica assim: “Kévi bérimir m hed”, com o “m” encaixado no lugar do “t” francês. Há, às vezes, ressonâncias inglesas ou alemãs, como “modé” em lugar de “mere” (mãe), parecido com “mother” (inglês) ou “mutter” (alemão). Ou “gudé”, que em “marciano” seria “bom”, muito parecido com o “good” (inglês) ou “gut” (alemão). Ou “animina” (existência, vida) que denuncia origens latinas anima, alma. É conservado em “marciano” o uso francês de substituir o “e” final dos monossílabos “je”, “de”, “le”, etc., quando a palavra seguinte começa por vogal.

Isso tudo está muito certo, a crítica é perfeitamente válida e convincente, mas daí a concluir que o “marciano” é uma elaboração inconsciente de Helene, me parece algo temerário. Para isso deseja Flournoy descobrir em Heléne faculdades lingüísticas hereditárias que estariam adormecidas sob sua personalidade normal.

De qualquer forma, o episódio marciano não resiste à crítica inteligente e desapaixonada. Evidência disso ainda se encontra mais adiante, no capítulo seguinte (79), no qual o autor apresenta alguns episódios suplementares do que chama ciclo ultramarciano. É que, diante de criticas feitas, não apenas à linguagem como às “visões” marcianas, muito semelhantes às da Terra, os fenômenos se modificaram, pretendendo mostrar cenas e linguagem de outro ponto cósmico não identificado. Parece que a intenção era fazer uma revelação espetacular que superasse “todas as descobertas de M. Flammarion”. Ao que tudo indica, a personalidade que se intitulava Léopold é estranha ao episódio marciano, pois Flournoy informa, à página 246, que “não era por intermédio de Léopold que se poderia sugerir modificações ao romance marciano”. Ao que podemos supor, a médium foi vitima aqui de interferências estranhas aos seus orientadores espirituais e serviu de veículo a uma fantasia engendrada por Espíritos interessados em transviá-la. É certo, porém, que, diante das críticas feitas, os fenômenos mudaram. As casas são desenhadas de modo bastante diferente, a terra é negra, não há vegetação, os habitantes parecem mais animais do que gente e a lingua não apresenta mais as ressonâncias e as estruturas do francês.

E dessa forma encerra-se o ciclo marciano, deixando-nos o direito de crer que se trata de um equívoco entre episódios outros que trazem o cunho da autenticidade, como o ciclo hindu, por exemplo, que veremos a seguir.

O ciclo hindu impõe muito mais respeito ao ilustre professor Flournoy. Mas ele se agarra tenazmente à sua tese, ao dizer que, neste caso, “o gênio subconsciente de MIle. Smith saiu-se de maneira notável e desenvolveu um sentido verdadeiramente muito delicado das possibilidades históricas e da cor local”. No entanto, “o romance hindu, em particular, permanece para aqueles que lhe assistiram um enigma psicológico ainda não resolvido de maneira satisfatória”, de vez que “revela e implica em Helene, relativamente aos costumes e às línguas do Oriente, conhecimentos para os quais foi impossível até agora encontrar a fonte precisa”.

É claro que a psicologia não pode explicar o fenômeno, pois lhe faltam elementos essenciais, como a reencarnação e a sobrevivência do Espírito, e o Dr. Flournoy não cede um milímetro das suas posições. Segundo ele, ainda que não lhe tenha sido possível indicar as fontes, o conhecimento dos fatos revelados em transe vem do subconsciente da médium e está, por conseguinte, contido nos quadros de uma só existência.

Três são as hipóteses possíveis: aquele conhecimento teria sido veiculado hereditariamente por uma “memória atávica”, ao longo de quinze gerações. Ou, ainda, resultaria de comunicações telepáticas atuais com o cérebro de algum sábio indianista ou, finalmente, duma encarnação – isto é, incorporação – espírita.

Mas o eminente doutor não explica como é que essas recuadas memórias poderiam atravessar quase quinhentos anos, de célula em célula, hereditariamente, para emergirem numa jovem absolutamennte normal e sadia, em Genebra, no final do século XIX. Ou onde, como e por que iria ela buscar no cérebro de um sábio indianista os conhecimentos que revelou. Ele próprio reconhece honestamente, 50 páginas adiante, que os “indianistas são raros em Genebra”.

O ciclo indiano se resume da seguinte forma: Helene teria sido, no século XIV, uma jovem árabe que se tornou a décima primeira esposa de um principe hindu chamado Sivruka Nayaka. A moça chamava-se, então, Simandini e o príncipe ter-se-ia reencarnado como o próprio Dr. Flournoy. Sivruka teria reinado sobre o Kanara e construído uma fortaleza por nome Tchandraguiri, no alto de uma colina, no ano de 1401. Em torno dessas personagens principais gravitam outras de menor importância.

Devo dizer neste ponto que não ficou bem claro, para mim, se devemos tomar o ciclo hindu e o real, ou seja, as manifestações de Simandini e de Maria Antonieta, como fenômenos espíritas, quer dizer, manifestações de Espíritos desencarnados, ou revelações de vidas anteriores da própria médium. É evidente que, do ponto de vista espírita, tanto vale uma como outra alternativa, dado que ambas demonstram a sobrevivência do Espirito imortal, mas é importante que a gente se lembre, diante dessas lacunas, de que o pesquisador espírita bem esclarecido, alerta, consciente e seguro, estaria muito mais bem qualificado para o exame do problema do que um cientista igualmente bem qualificado, mas que se planta inarrredavelmente numa posição de extremo dogmatismo, interessado apenas em fazer os fatos se enquadrarem nas suas teorias e não em partir para a formulação de novas teorias que decorram dos fatos observados. Por isso, fica o ilustre professor desesperado – e ainda veremos isto em outras ocasiões – quando observa honestamente que os fenômenos não “entram” na camisa de força das suas teorias, nem pela violência à lógica e à coerência.

Assim, mesmo reconhecendo de início, com toda a honestidade de que é certamente dotado, que o ciclo hindu é um enigma, não abandona a sua teoria de que se trata de uma formulação subconsciente da médium. Provavelmente ela viu uma mulher hindu – pouco importa sua origem” -, escreve ele à página 264, e essa personagem apenas suposta “estende-se como parasita, ganha em superfície e em profundidade, como uma mancha de óleo, e invade toda a personalidade impressionável e sugestionável da médium”.

E o querido professor não se importa com o fato de que essa figura de ficção procede como pessoa autônoma, consciente, tem posturas orientais, cita fatos históricos e conhece o sânscrito. Às vezes, em impulsos de humildade, diante da extraordinária performance da moça em transe, ele escreve: “Toda essa mímica, tão diversificada, e esse falar exótico trazem tal marca de originalidade, de desembaraço, de naturalidade que a gente se pergunta com estupefação donde vem, para esta jovem das margens do Léman, sem instrução artística nem conhecimentos especiais do Oriente, uma perfeição cênica a qual a melhor atriz não alcançaria, sem dúvida, senão à custa de prolongados estudos ou de um estágio às margens do Ganges” (pág. 272).

“O problema – prossegue ele imperturbável -, já o disse, não está resolvido e estou ainda a pesquisar onde Helene Smith conseguiu suas noções acerca da índia. Parece que o mais simples seria aproveitar-se do estado hipnótico das sessões para pôr em confissão a memória subconsciente de Helene e levá-la a revelar seus segredos, mas minhas tentativas nesse sentido ainda não alcançaram êxito.”

Aliás, ele não foi bem sucedido em nenhuma de suas tentativas de destroçar o episódio hindu. “Todas as pistas – diz aí mesmo, à página 272 – que eu acreditava ter descoberto, e são numerosas, revelaram-se falsas. O leitor me dispensará de pormenorizar o meu insucesso.”

Mas ele não é homem de abandonar facilmente suas queridas hipóteses. Logo adiante, volta à idéia fixa de descobrir os “segredos” de Helene. Depois de desenvolver suas elaboradas doutrinas, conclui desanimado: “Restam, porém, dois pontos que complicam o caso do romance hindu e parecem desafiar, pelo menos até aqui, toda explicação normal, porque ultrapassam os limites dum puro jogo de imaginação.” Um desses pontos é a irrecusável historicidade de alguns fatos. Existiu mesmo um príncipe hindu chamado Sivruka Nayaka, que governou Kanara e que em 1401 ergueu a fortaleza de Tchandraguiri, no alto de uma colina. O outro ponto é a língua falada por Simandini, que encerra palavras mais ou menos reconhecíveis, cujo “sentido real se adapta à situação segundo as quais foram pronunciadas” (pág. 275).

A informação histórica, tanto pesquisou que acabou encontrando-a num raríssimo livro de um tal Marlès, com longuíssimo título:

“Histoire générale de l’Inde ancienne et moderne, depuis l’an 2000 avant J. C. jusqu’à nos jours, etc.”, publicado em Paris, em 1828. (História Geral da índia Antiga e Moderna desde o ano 2000 antes do Cristo até os nossos dias).

Procura, então, reduzir a importância de Marles como historiador: “Ce pauvre Marh!s bien arrangé”, diz ele, o pobre do Marles. Em seguida, quer descobrir, de qualquer maneira, como Helene teria tido acesso ao livro, do qual existem apenas dois exemplares em Genebra. Não encontra a mínima evidência de que Helene tenha folheado sequer o livro, dado que ambos os exemplares se achavam “soterrados” na poeira das bibliotecas. Um deles pertencia à Sociedade de Leitura, somente aberta aos sócios – e Helene não era sócia o outro estava na Biblioteca Pública, onde o próprio Flournoy admite que Helene não iria pesquisar um livro obscuro e esquecido, quando havia milhares de obras mais interessantes para ler.

“Reconheço o poder desta argumentação e que o mais sábio é, sem dúvida, deixar a coisa em suspenso” (pág. 283). Mas ele não deixa a coisa em suspenso. Parece que, esquecido da sua disposição de abandonar as tentativas de explicação, acaba oferecendo hipóteses que não cabem dentro dos seus dogmas científicos: “será que Léopold, todo poderoso que é como desencarnado, não leu o volume fechado de Marles ou não o folheou fluidicamente sem que os bibliotecários o percebessem?” Ou a informação não se transmitiu telepaticamente do cérebro de algum leitor terrestre ao de Mlle. Smith” Essas hipóteses são deixadas àqueles que acham a sua muito extravagante. Mas, qual a hipótese do professor? Ele somente ache, que ela deve ter tido acesso de alguma forma ao texto de Marlés mas não diz como, nem o prova.

E aqui, como em outros pontos, tem um momento de humildade ao concluir que sua “cabeça se embaralha entre todas essas alternativas e, com receio de não ver aí, eu também, senão extravagâncias, apresso-me em passar a outro assunto” (pág. 286).

Enfim, o professor está totalmente perdido no emaranhado das suas próprias conclusões, porque os fatos não “querem” aceitar a cangalha dos seus preconceitos científicos.

A questão é que ele não passa a outro assunto; prossegue no mesmo, porque não entende como Simandini, princesa árabe, casada com um príncipe hindu, “esqueceu totalmente o árabe”. Na verdade, ele não prova que ela esqueceu; apenas demonstra que ela jamais pronunciou ou escreveu espontaneamente árabe, o que está longe de ser a mesma coisa, limitando-se a copiar um ditado nessa língua e do qual teve a visão mediúnica.

Quanto à crítica ao hindu falado por Helène (ou pelo Espírito que nela se manifestava), a conclusão do professor é muito frágil e não convence nem mesmo a ele próprio. Busca aflitamente os lingüistas conhecidos de sua época, para ver se consegue descobrir falhas na linguagem, mas tem o desapontamento de verificar que as palavras fazem sentido e que os lingüistas se contradizem, às vezes. Há que reconhecer, porém, uma dificuldade para a época. Não havia gravadores de som e Helène não psicografa as palavras; apenas as pronuncia e elas são recolhidas, pelo som, por assistentes que não conhecem absolutamente nada da linguagem. É um prodigio que, mesmo assim, apareçam palavras perfeitamente reconhecíveis como sânscrito e que fazem sentido quando tomadas junto com o que o professor chama de pantomima, pois que Helène, em transe, vive as cenas do passado. Isso ele não consegue explicar; inclina·se a admitir a origem exclusivamente visual do sânscrito falado por Helène. E, corajosamente, oferece a hipótese de que a médium “absorveu o que sabia de sânscrito de modo essencialmente visual, folheando uma gramática ou outros documentos escritos, durante suas fases de sugestibilidade”!!! Isso para uma jovem de pouca instrução e de poucos recursos, em Genebra, no século XVIII!

Por outro lado, o autor, professor de uma Faculdade de Ciências, com acesso fácil às fontes de cultura, confessara pouco antes, à página 314, que há cerca de 25 anos, como jovem estudante, havia tomado algumas lições de sânscrito com o professor Deussen, de Kiel, e que dessas lições não lhe ficaram conhecimentos suficientes nem mesmo para reconhecer alguns caracteres sânscritos que Helène traçou inconscientemente numa carta em francês que ele reproduz à página 310! Assim não é possível argumentar …

O ciclo real nada oferece de muito especial e o próprio Flournoy, usualmente tão minucioso, lhe dedica apenas 15 páginas, no capítulo 9º. Os fenômenos são basicamente os mesmos que vimos no ciclo hindu e são idênticas as teorias do autor. Acha ele, por exemplo, que “a escolha do papel se explica naturalmente pelos gostos inatos de Mlle. Smith por tudo que é nobre, distinto, elevado, acima da vulgaridade … ” Chega mesmo a afirmar que a figura histórica escolhida – Maria Antonieta -, de preferência a muitas outras igualmente qualificadas, se prende “aos seus devaneios megalomaníacos”. No desempenho do que o professor chama de “papel”, Helene tem oportunidade de exibir toda a sua graça natural, sua elegância, sua distinção e até sua majestade. “Ela é verdadeiramente uma rainha”, diz ele visivelmente impressionado. Seu comportamento no transe, suas expressões faciais, são as de uma grande dama. “As mais delicadas nuanças de expressão, amabilidade encantadora, condescendência altiva, piedade, indiferença, desprezo esmagador, se mostram a cada passo na sua fisionomia e no seu porte, ante o desfile dos cortesãos que povoam o seu sonho.”

Alguns pontos mereceriam apreciação mais aprofundada, de observador menos apaixonado e menos dogmático, a fim de serem encontradas as suas razões e motivações. Um desses pontos é a letra das comunicações psicografadas, que realmente não confere com a da Maria Antonieta histórica. Sabemos da experiência mediúnica que isso, de fato, nem sempre acontece. Uma larga percentagem dos Espíritos que se manifestam através de Chico Xavier ou de Divaldo Franco, por exemplo, escreve com a letra do Chico ou a do Divaldo. De outras vezes, a letra é a mesma e pode ser claramente identificada com os autógrafos que o Espírito deixou quando encarnado. Que leis regulam o fenômeno? Não o sabemos. O Doutor Flournoy também não sabe, mas faz algum estardalhaço em torno do assunto.

Critica ele o fato de a rainha manifestante ignorar o rei, como também observa seus anacronismos. Às vezes, ela parece não compreender o sentido de palavras modernas como bicicleta e telefone e de outras vezes as emprega, como metro, centímetro, fotografia, etc. Qual seria a razão verdadeira dessas aparentes incongruências? Podemos formular uma hipótese. Páginas atrás, o Dr. Flournoy informa que Helene em transe tem, às vezes, lapsos de lucidez, como se estivesse entre um mundo e outro, entre uma personalidade e outra, saltando para cá e para lá por sobre o muro que separa a vigília do transe. Assim, as incongruências seriam, senão perfeitamente explicáveis, pelo menos admissíveis. Mas, Deus me livre de formular hipóteses. O Espírito do ilustre professor poderia estar por aqui e “morrer” (de novo) de rir ao verificar que os espíritas bisonhos, como eu, explicam tudo …

No decorrer das manifestações, a rainha identifica em dois dos participantes encarnados da sessão reencarnações de antigas personalidades da sua corte: o famoso Conde de Mirabeau e o não menos famoso Philippe d’Orléans, que teve por alcunha o nome de Philippe Egalité (Igualdade). Se são ou não autênticas as reencarnações não podemos atestar, mas Helene em transe lhes dedica grande atenção e conversa animadamente com eles, que se prestam gostosamente ao papel, pois, segundo Flournoy, é tudo uma comédia irresistível.

No capítulo final da obra – o 10º -, são examinados alguns fenômenos psíquicos. O título é bem revelador: “Aparências Supra-normais”. Para o professor são tudo aparências … Aqui, mais do que alhures, se concentra sua carga contra o Espiritismo. É neste ponto que busca apoio em La Bruyere para as suas críticas nada justas. O texto que cita desse antigo pensador vale a pena ser reproduzido, porque, a meu ver, resulta numa apologia do fenômeno psíquico e não na sua negação. Não podemos esquecer, para isso, que La Bruyere viveu dois séculos antes da codificação kardequiana. Vejamos: “Que pensar da magia e do sortilégio (e do Espiritismo, acrescenta logo o Dr. Flournoy)? A teoria é obscura, os princípios vagos, incertos e que raiam pela fantasia dos visionários; mas, há fatos embaraçosos, afirmados por homens sérios que os presenciaram ou que deles tomaram conhecimento por meio de pessoas do mesmo tipo: admiti-los todos ou negá·los todos parece igualmente inconveniente; ouso dizer que nisso, como em todas as coisas extraordinárias que escapam às normas comuns, há que se encontrar uma posição entre os espíritos crédulos e os espíritos fortes.”

A gente tem a impressão de que o Dr. Flournoy, de tão fascinado pelas suas próprias doutrinas, somente viu o início do texto do antigo moralista que, aliás, nem mesmo foi escrito para o Espiritismo, que naquela época não estava codificado. É claro que a magia e o sortilégio eram obscuros, vagos e incertos, mas, mesmo aí, nessa obscuridade e incerteza, o bom senso de La Bruyere testemunhava honestamente a existência de fatos autênticos, pois sabia muito bem que os fatos independem das teorias que os homens formulam sobre eles.

Mas, às vezes, como já disse, o eminente professor tem seus momentos de humildade. Lá pelas tantas – e isso já nas últimas páginas -, faz algumas concessões generosas. Diante do supranormal (não do Espiritismo, mas do supranormal) a melhor atitude “é, senão de completa suspensão de julgamento, que nem sempre é psicologicamente possível, ao menos de uma sábia probabilidade, isenta de toda obstinação dogmática” (página 350). Suas apreciações dos fenômenos observados, bem entendido, não devem ser consideradas “infalíveis ou definitivas” – poderão ser modificadas “sob a influência de fatos novos”.

Quanto aos apartes (fenômenos de transporte), acha-os extremamente indigestos – “me parecem tão penosos de digerir”, queixa-se ele. Isso porque subvertem completamente “nossas concepções usuais sobre a estabilidade da matéria ou (o que é pior) a nossa intuição geométrica”.

A questão é que os fatos existem e não pedem permissão nem mesmo ao ilustre Dr. Flournoy para acontecerem. Pouco importa que eles derrubem as concepções ordinárias da física ou as “nossas intuições geométricas”. E daí? Isso quer apenas dizer que as concepções estão incompletas, tanto quanto as ditas intuições. O que cabe ao cientista desapaixonado é descobrir que leis desconhecidas regem esses fenômenos e não recusá-las, sumariamente, porque eles não se enquadram nos seus queridos dogmas científicos e filosóficos.

Mais um exemplo do seu dogmatismo irredutível? Vejamos este aqui, à página 382. Para “explicar” o mecanismo da revelação mediúnica de certos fatos autênticos acerca das pessoas presentes, ali, esta enormidade: “É o próprio consulente que dita as respostas e regula os golpes dados na mesa: somente que ele não chegará ao ponto de bater nela pessoalmente, mas suas variações imperceptíveis e involuntárias de pressão são captadas pelas mãos do médium, que as traduz em tremores do móvel e exerce assim o papel de aparelho amplificador.”

Se assim fosse, a mediunidade não seria uma faculdade apenas notável, seria fantástica, inconcebível, de vez que o médium conseguiria captar fatos e informações autênticas na memória do consulente não pela telepatia, mas por meio de pressões imperceptíveis e involuntárias do consulente sobre a mesa!

De repente, não obstante, e sem mais aquela, o professor sai com tiradas surpreendentes. À página 394, depois de muitas variações em torno do seu tema favorito (contra o Espiritismo), sai-se com a afirmação de que ” … a priori, a hipótese dos Espiritos (destaque no original), para explicar os fenômenos dos médiuns, nada tem de impossível ou inepta. Ela não contradiz, nem mesmo necessariamente, como às vezes se imagina, o princípio diretor da psicologia fisiológica – o paralelismo psicofísico – que exige de todo o fenômeno mental um correlativo físico”.

Mais abaixo, admite, igualmente com toda a candura, que a idéia do perispírito também não é uma “noção cientificamente absurda” e, pouco depois, à página seguinte, chega a aceitar a possibiliidade de que o futuro venha a dar razão aos seus amigos espíritas. Acha apenas que a consolidação do Espiritismo podería criar o culto da mesa girante, da escrita automática, das sessões e de outros exercícios mediúnicos. Além do mais, restaria o problema da autenticidade das mensagens. Vê-se que o Dr. Flournoy subestimou largamente, porque não a estudou como deveria, a belíssima estrutura da doutrina veiculada por Kardec, que tudo isso examinou, previu, prescreveu e preveniu. Não podemos deixar de reconhecer, pois, que o livro do eminente adversário do Espiritismo termina de maneira melancólica, para dizer o mínimo, depois de se desenvolver de forma contraditória. O que ele pretendeu, evidentemente, com enorme esforço pessoal, foi enquadrar todos os fenômenos observados na rígida e pobre estrutura da psicologia da sua época.

Tomemos disso um exemplo bem típico. O famoso livro de Marlés, já citado, informa que o nome da fortaleza Tchandraguíri quer dizer “montanha da Lua”. Isso é bastante para levar o professor a concluir que essa expressão “deve ter contribuído para que ela (Heléne) colocasse a cena no alto de uma colina”. A seu ver, não se trata, por conseguinte, de uma revelação espiritual que o livro raro confirmou e autenticou, mas sim de um texto que, inexplicavelmente, chegou ao conhecimento da médium e a fez imaginar a cena no alto de uma colina …

A isto se chama pesquisa científica desapaixonada !

Esquecido de que ainda há pouco admitia a viabilidade da participação dos Espíritos nos fenômenos mediúnicos, volta a martelar a sua tese predileta, de que as manifestações atribuídas aos Espíritos não passam de pastiches subconscientes cosidos pelo próprio médium ou sacados telepaticamente da cabeça de gente viva, isto é, encarnada. “A simples análise das circunstâncias e do conteúdo das comunicações indica que, segundo toda probabilidade, elas provêm de indivíduos bem vivos e não dos desencarnados.” (pág. 400)

Como se vê, tem pelo menos 70 anos de idade a veneranda doutrina, ainda hoje explorada por certos parapsicólogos, alguns dos quais “ordenados” em religiões fundadas na premissa da sobrevivência do Espírito. Falta·lhes, a estes, até mesmo originalidade, pois ao cabo de quase um século ainda não conseguiram descobrir sequer uma doutrina nova, mais aceitável.

Mas ainda resta algo a dizer acerca do livro do Dr. Theodore Flournoy. E o que resta é muito importante, porque o último caso apresentado por ele merece atenção especial.

A coisa começou numa sessão realizada na casa do próprio Flournoy, em 12 de fevereiro de 1899. Helene, em transe, tem a visão de uma pessoa que desce por um caminho pedregoso, numa aldeia que repousa no alto de um morro coberto de vinhedo.

A médium descreve o Espírito: é um velho vestido à antiga e saudado com muita atenção e cortesia por um campônio que o encontra. Para encurtar a longa descrição, digamos logo que a paisagem acaba por desaparecer e o Espírito do velho, já em roupa brancas e brilhantes, toma-lhe a mão e assina: “Chaumontet syndc. Em seguida, retorna a imagem da aldeia e há uma natural curiosidade em saber-se que lugar é aquele. Helene então escreve mais uma palavra: “Chessenaz”, que nenhum dos presentes conhece. O Dr. Flournoy deseja saber, então, em que época o Espírito teria exercido o cargo de síndico, ou seja, prefeito. Helene ouve-o dizer que foi em 1839.

No dia seguinte, o Dr. Flournoy encontra no mapa a aldeia de Chessenaz, na Alta-Savóia, a 26 quilômetros de Genebra. A cidadezinha existia, pois, quinze dias depois, Helene tem novamente a visão do síndico Chaumontet caminhando pelo vilarejo, mas desta vez vem acompanhado de um sacerdote, que Léopold revela, com seu pesado sotaque italiano, que se trata do seu “caro amigo Bournier”. O Dr. Flournoy pergunta se o padre não pode também escrever seu nome através de Helene. Léopold informa que na próxima sessão ele o fará. Assim, na sessão de 19 de março, o Espírito do cura toma a mão de Helene e escreve: “Burnier salut”. É, pois, Burnier e não Bournier, como pronunciara Léopold com o seu sotaque.

Aí estava uma boa oportunidade de botar tudo em pratos limpos, e o Dr. Flournoy sai em campo. Escreveu à Prefeitura de Chessenaz contando a história e o Sr. Saunier, então prefeito, lhe confirma por carta que, consultando os arquivos, verificou que, realmente, durante os anos de 1831 e 1839 o síndico de Chessenaz fora um senhor Jean Chaumontet. Que lá viveu também, de novembro de 1824 até 1841, o padre André Burnier, como se podia comprovar com o livro de registros de nascimentos. Fez mais, o simpático prefeito: remeteu ao Doutor Flournoy um documento da época, em que, por sorte, apareciam as duas assinaturas, a do síndico Chaumontet e a do padre Burnier.

Não há dúvida, as assinaturas conferem e o próprio Flournoy é forçado a reconhecê·lo, falando da “similitude notável que há entre as assinaturas autênticas e as que foram automaticamente traçadas pela mão de Mlle. Smith”. Poderíamos corrigir o professor, dizendo que ambas são autênticas, mas deixemos como está.

Nesse ponto começa a procura desesperada de uma saída. Onde está a saída? Onde? A primeira idéia é a de que Helene teria visto as assinaturas e sua reprodução não seria mais do que a cópia de “clichés visuels oubliés”, ou seja, de clichês visuais esquecidos. Mas Helene nunca esteve em Chessenaz, embora tenha andado pela região.

Nesse meio tempo, aparentemente indignado com as tolas suspeitas do ilustre professor, o padre Burnier se manifesta novamente, a 21 de maio, escrevendo uma espécie de certidão, “a quem possa interessar”, que ele é mesmo o Burnier, cura de Chessenaz e mais uma vez sua letra confere magnificamente com o exemplar remetido pelo atual prefeito da vila.

Depois de algumas das suas habituais conjeturas, Flournoy prefere “deixar ao leitor o cuidado de concluir como lhe agradar” (página 411). Sente-se, porém, evidentemente frustrado, porque o caso não se enquadra nas suas teorias. Sem poder dizer mais nada contra o fenômeno, deixa escapar um resmungo de mau humor: “Como e por que os defuntos que voltam ao cabo de meio século, para assinarem pela mão de outra pessoa de carne e osso, podem ter a mesma letra que tinham quando vivos?” Um leitor irreverente, que leu o livro antes de mim, durante os setenta anos da publicação, escreveu à margem: “Ora bolas!”

Coitado do professor! Ainda há pouco, neste mesmo livro, ressaltava o fato de que a letra de Maria Antonieta desencarnada não conferia com a da Maria Antonieta encarnada. Lá, a evidência não servia porque não conferia; aqui, é porque confere …

A despeito de tudo isso, o ilustre professor continua imperturbável nas suas conclusões. Para ele, ficou demonstrado (palavra sua) que as chamadas “encarnações efêmeras”, ou seja, as manifestações mediúnicas de incorporação, não passam de “pastiches”, isto é, imitações arranjadas com fragmentos do subconsciente. Quanto às diversas personalidades – Léopold, Sirnandini, Maria Antonieta e outras -, “são estados psicológicos da própria Helène, modificações alotrópicas da sua individualidade”, criações teratológicas psíquicas, da mesma forma que existem mostrengos físicos. Esses pastiches, admiravelmente fabricados, diz ele, são “interessantes e instrutivos, pelas luzes que fazem incidir sobre o funcionamento íntimo de nossas faculdades … ” (pág. 416). Que luzes?

Ficamos, assim, também, com direito às nossas próprias conclusões, depois de muito estudar o livro do professor Theodore Flournoy. São as seguintes: perdeu-se uma oportunidade excelente de estudar uma boa médium, porque o pesquisador não se aproximou dos fenômenos com suficiente humildade intelectual e de espírito desarmado de dogmatismos científicos e idéias preconcebidas. Não estava, pois, qualificado para examinar os dados que lhe foram fornecidos. Ao que nos parece hoje, escorado nos ensinamentos da Doutrina Espírita, há em Helène Smith fenômenos absolutamente autênticos, seguros e patentes, e há também lapsos mais ou menos sérios em fantasias do seu próprio Espírito – fenômenos de animismo – ou engendradas por Espíritos desencarnados, como parece ser o episódio marciano.

Não ficamos sabendo, pelo menos com razoável margem de segurança, se o ciclo hindu e o ciclo real (Maria Antonieta) resultam de manifestações de Espíritos desencarnados, através da mediunidaade de Helène, ou se são lembranças espontâneas ou provocadas da própria Helene, relativamente a suas existências anteriores. A força do caso Chaumontet-Burnier é tão evidente que o professor Flournoy nem mesmo se atreveu a formular uma das suas costumeiras hipóteses: preferiu deixar o assunto à decisão do leitor, depois de reconhecer a identidade das letras, mas não sem lançar a tímida suspeita de que Helene teria visto algum dia as duas assinaturas! Que prodígio de mulher: consegue reproduzir de memória, com fantástica precisão, dois autógrafos de pessoas obscuras que viveram há meio século de distância, num lugar do qual ninguém no grupo, nem ela própria, sabia da existência …

E depois, venham dizer a nós que os espíritas não são bons pesquisadores porque são muito crédulos! Ou porque inventam teorias complexas quando há explicações tão simples (sic) para os fenômenos! Ou, que acham que tudo é produzido e provocado pelos Espíritos desencarnados, como se estes não tivessem mais que fazer.

Finalmente, é forçoso reconhecer que o ilustre Dr. Theodore Flournoy não conseguiu disfarçar a sua perplexidade diante dos fenômenos, a despeito de toda a empáfia de suas teorias ditas científicas. Termina o seu livro com uma excelente frase de Bacon:

“La verité est fille du temps, et non pas de Pautorité”. Ainda bem:

“A verdade é filha do tempo e não da autoridade.” Se não fosse isso, meu Deus, haveria uma verdade para cada autoridade, e neste assunto de Espiritismo todo mundo se julga investido de autoridade, pelo menos para desancar, mas poucos são os que reconhecem alguma dose de autoridade justamente naqueles que conhecem o fenômeno mais de perto porque o estudam com critério: os espíritas bem informados. Estes têm, ao longo de muitos anos, a oportunidade de examinar os aspectos teóricos nos livros doutrinários ou da pesquisa desapaixonada e de assistir, na tranqüilidade das sessões caseiras ou nos centros que frequentam, ao desenrolar de dramas terríveis que ninguém forjaria para se divertir ou mistificar, tanto quanto de belíssimas e descontraídas demonstrações de amor fraterno. Quem poderia iludir com fantasias e “pastiches subconscientes” o filho que conversa por longos anos com o Espírito de sua mãe, ou o irmão que dialoga com a irmã que partiu, ou o marido que palestra com a esposa querida desencarnada? Não é só o conhecimento de fatos, cenas e conversas esquecidas, que são reproduzidos, mas também os termos prediletos, os gestos típicos, os modismos, o jeito de falar e, às vezes, até mesmo a expressão facial, nos fenômenos de transfiguração.

Aqueles que viram, ouviram, sentiram e viveram tais experiências, através dos anos, e sobre elas meditaram profundamente, só poderão lamentar a obstinação de pesquisadores como o Dr. Flournoy. Que Deus nos mande mais doutores, professores e cientistas; que venham estudar os fenômenos com todo o rigor dos controles e dos cuidados, mas revestidos de humildade, desarmados, serenos. E que proclamem honestamente o que viram e observaram. Que venham novos cientistas ou que retornem os mesmos do passado, como Flournoy, Richet e outros, porque a humanidade descrente e sofredora precisa tanto deles, e já vai tarde o relógio dos milênios. Cada vez que sai um livro assim, obstinado, contraditório e negativista, apagam-se muitas esperanças e para muita gente detêm-se os ponteiros da evolução pessoal. Fé e ciência não são incompatíveis, são complementares.

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Por Hermínio C. Miranda

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