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20/09/2017

Allan Kardec — Fundador do Espiritismo João Viegas


Os espíritas classificam e definem Allan Kardec como o Codificador[1] do Espiritismo. No entanto, uma análise mais justa de como se desenrolou a revelação espírita e do trabalho e papel de Kardec, concluiremos que esse atributo dado a ele é incompatível com a sua missão e inadequado a sua trajetória de vida. Veremos, portanto, que o atributo mais condizente é de Fundador do Espiritismo[2]. Para nos convencer disto é necessário compreender a amplitude da sua missão.

Os dicionaristas definem a palavra “codificar” como segue abaixo: reunir em código, compilar, coligir, sendo a palavra “codificador” seu substantivo[3]. O argumento muito utilizado pelos próprios espíritas é o seguinte: como a filosofia espírita é de autoria dos Espíritos, e não dos homens, coube a Allan Kardec o trabalho de organizar, reunir e compilar as comunicações que os Espíritos deram através da mediunidade em livros para publicação e conhecimento da sociedade.

O argumento de que a filosofia espírita pertence aos Espíritos é verdadeiro, e o próprio Kardec deixa bem clara esta questão em suas obras[4]. No entanto, ele ignora o fato que a filosofia espírita é resultado e consequência da ciência espírita. Se assim não fosse, teríamos apenas um corpo doutrinário cheio de equívocos, ideias controversas e antagônicas, pois seria apenas um conglomerado de opiniões pessoais dos Espíritos. Por fim, a revelação espírita careceria de seu caráter verdadeiro, e com o passar do tempo seria esquecido pelos homens.

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Allan Kardec

Hyppolite Léon Denizard Rivail

O relato de Kardec abaixo descreve a sua iniciação no Espiritismo, ficando evidente a sua postura investigativa, cautelosa e séria perante as manifestações espíritas:

“Apliquei a essa nova ciência,…, o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão… Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era,…, toda uma revolução nas ideias e nas crenças; fazia-se mister, portanto, andar com a maior circunspeção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir.” [5]

Kardec teve que se precaver de muitos problemas inerentes às manifestações espíritas, pois sabia que para conseguir alcançar as comunicações do mais alto conhecimento e sabedoria deveria se desvencilhar do charlatanismo, do embuste e da comercialização da mediunidade, práticas muito comuns a sua época e até os dias de hoje.

Mas isso não era suficiente. Mesmo as sessões espíritas cujos seus participantes: médiuns, evocadores e ouvintes sejam mulheres e homens de bem e estejam com as melhores das boas intenções, podem ser vítimas de espíritos mistificadores, que se passam por vultos dignos de respeito, apenas para ganhar a nossa confiança e plantar ideias equivocadas, controversas ou maliciosas com o intuito de criar a dúvida, a discórdia e a divisão.

Para se prevenir de todas as dificuldades inerentes à mediunidade, ele lançou as bases da ciência espírita, que se chama “Controle Universal do Ensino dos Espíritos” [6]. Uma metodologia, adequada ao seu tempo, na qual vários Espíritos, em locais diferentes, com médiuns distintos, nos ensinam espontaneamente sobre as questões da mais alta gravidade para filosofia: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Ele pôde comparar os ensinos que possuíam coerência, lógica e concordância daqueles que não passam de um equívoco, de uma opinião pessoal ou de uma ignorância.

Toda Ciência tem seus fundadores ou pais, que são mulheres e homens de gênio que conseguem ver aquilo que está além de seu tempo, transcendendo as limitadas percepções humanas, promovendo uma ruptura de conceitos equivocados e ultrapassados que eram tidos como verdades absolutas, derrubando-os e trazendo o novo, impulsionando, por fim, o progresso da humanidade.

O Espiritismo sendo uma Ciência, necessariamente tem seu fundador, e este é Allan Kardec. Sua missão consistia em fundá-lo, mas também em difundi-lo. É neste ponto que a sua missão tornou-se mais áspera. Veja abaixo a resposta que o Espírito Verdade deu a Kardec sobre as dificuldades que se depararia para o cumprimento de sua missão. Esta comunicação ocorreu antes da publicação de “O Livro dos Espíritos”, 1º livro de Kardec.

“P. — Que causas poderiam determinar o meu malogro? Seria a insuficiência das minhas capacidades?”

“R. — Não; mas, a missão dos reformadores é prenhe de escolhos e perigos. Previno-te de que é rude a tua, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro. Não suponhas que te baste publicar um livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficares tranquilamente em casa. Tens que expor a tua pessoa. Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo… Para tais missões, não basta a inteligência. Faz-se mister, primeiramente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens, são indispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios.

Vês, assim, que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.” [7]

A profecia do Espírito Verdade concretizou-se. Dez anos após a referida comunicação, Kardec confirma absolutamente tudo que foi escrito. Porém, não se arrependeu de sua decisão de aceitar sem restrição a sua missão, pois teve a certeza que logrou êxito.

A ideia de um Codificador do Espiritismo nos restringe a ver Kardec apenas como um homem intelectual sentado tranquilamente à sua mesa de trabalho a analisar documentos. Em contrapartida, a ideia de um Fundador do Espiritismo, amplia a nossa visão acerca dele, pois enxergamos um homem à frente de seu tempo, experimentando, investigando e examinando as manifestações espíritas, e das suas deduções produzindo vasto material sobre a sua experiência nesta ciência. Por fim, enxergamos Kardec em busca daquilo que todo homem de ciência e filosofia deseja: a verdade. Qual dessas ideias é mais compatível com o que Kardec foi de fato?

Os espíritas que compreendem a magnitude da missão de Kardec devem se convencer que a melhor maneira de homenageá-lo é estudar suas obras. Que o resultado das meditações sobre todos os seus ensinos, orientações e recomendações possam transformar-se em ações para que o Espiritismo esteja protegido de possíveis deturpações e que cumpra a missão de tornar a sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.

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Referências bibliográficas:

NOTA: Artigo publicado inicialmente em: Espiritismo na Essência

  • 1. Allan Kardec Codificador do Espiritismo, Capa, Ano 131, nº 2.215, Outubro de 2013, Revista Reformador, Federação Espírita Brasileira.
  • 2. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, Biografia de Allan Kardec.

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 41ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999, Biografia de Allan Kardec.

Luft, Celso Pedro. Mini Dicionário Luft. São Paulo: Editora Scipione ltda e Editora Ática.

  • 4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Prolegômenos.
  • 5. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.
  • 6. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Autoridade da Doutrina Espírita, item II, Introdução.
  • 7. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, Minha missão, 12 de junho de 1856, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.

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