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25/04/2017

Alfred Russel Wallace e a Reencarnação Marcio Rodrigues Horta


Alguns espíritas brasileiros insistem em afirmar que Alfred Russel Wallace (o co-autor da teoria da evolução) era espírita; tal engano atinge vários cientistas famosos do século XIX[2] , mas no caso de Wallace há uma enfática manifestação negando que seu espiritualismo se resolvesse em espiritismo, como lemos no artigo abaixo, traduzido para o português.

Allan Kardec publicou O livro dos espíritos em 1857, na França, e o principal tema que distingue sua doutrina do novo espiritualismo já existente é o da reencarnação[3] ; por tê-lo adotado, Kardec desviou-se significativamente do curso até então seguido pelo movimento espiritualista, criando um cristianismo sui generis e formulando uma teologia & teodicéia neoplatônicas.

Assim, a informação verdadeira deve se impor, e este trabalho tenciona evidenciar que a propaganda acerca do Wallace espírita é enganosa; por outro lado, cumpre também observar que as objeções do famoso sábio inglês contra a reencarnação hoje não parecem decisivas, sendo maior seu interesse histórico.

Wallace (1823/1913) passou a mocidade no Brasil (de 1848 a 1852 na Amazônia) e na Oceania (de 1854 a 1862 no Arquipélago Malaio) dedicando-se à biologia, à qual forneceu contribuições notáveis[4] e, pouco depois de voltar à Inglaterra, aproximou-se do espiritualismo, interesse pelo qual jamais perderia; o panorama que encontrou nesse movimento não diferia significativamente do quadro que se encontra o espiritismo brasileiro hoje, com seus taumaturgos de variados efeitos e, rapidamente, o interesse do cientista inglês passou a ser aplicar o método científico a esse objeto, disposição que presentemente seria também benéfica aos espíritas brasileiros, ao menos para ajudá-los a identificar embustes.

No início do artigo em tela, Wallace justifica a escolha da teosofia como adversária alegando tratar-se do único sistema reencarnacionista meticulosamente elaborado, embora a descrição que dele ofereceu o fez parecer um tanto ingênuo; o eco da força psíquica como causa da mudança das formas materiais, advogada pela teosofia, pode ter origem imediata numa interpretação corrente da filosofia zoológica de Lamarck, na qual a força de vontade dos seres subumanos provocaria alterações desejáveis na presumidamente plástica estrutura material dos seres vivos[5] . Este aspecto algo espiritual fez com que, por ocasião da proposição da teoria da evolução de Darwin, em 1859, através de um mecanismo estritamente materialista, a seleção natural, muitos pensadores inicialmente fixistas assumissem o lamarckismo, filosofia até então pesadamente criticada [6] .

Outro ponto que salta aos olhos no artigo é que Wallace não refutou o tema da reencarnação; porém, acreditando fazê-lo, atacou fundamentalmente a associação que a teosofia fez entre os temas da reencarnação e da evolução da forma material (& do intelecto & da moralidade) humana, a hipótese auxiliar teosófica. Por exemplo, Richard Behe acreditou refutar a evolução por seleção natural atacando sua hipótese auxiliar, a de que a evolução ocorre por pequenas acumulações gradativas[7] ; contudo, mesmo se a hipótese auxiliar gradualista for falsa, não se infere logicamente que a evolução também o seja, pois esta pode ocorrer de outro modo, provavelmente como o próprio Wallace aqui argumentou, de modo pontuado (longos períodos geológicos de estabilidade gradualista com mudanças comparativamente rápidas). Assim, do fato de a reencarnação não ser o motor do progresso da forma material humana, não se segue necessariamente sua inexistência; isto apenas demonstra que, se a reencarnação for verdadeira, seus defensores superdimensionaram seu papel, função ou atributos.

Ao final do artigo, mais do que lógica ou cientificamente baseado, percebe-se que Wallace não gosta do tema da reencarnação, o que acaba transparecendo como constituindo a real motivação por trás do escrito. Um preconceito decide a contenda e, como tal, já estava presente desde o início: o tema da reencarnação é estranho ao cientista inglês, à sua formação vitoriana, marginal na cultura ocidental, fortemente minoritário na ciência contemporânea etc. Ao final do artigo, Wallace não esconde seu alívio por tê-lo afastado rapidamente com uma “enfática negativa”.

Teríamos já vivido na Terra? Viveremos nela novamente?[8]

Alfred Russel Wallace

Claro, não pode haver nenhuma resposta positiva (fundada na experiência) a essas questões; mas creio que podem ser respondidas com muita proximidade da certeza se basearmos nossas conclusões nos fenômenos verificados, leis da evolução e hereditariedade[9] . Em minha opinião, respostas que apelam principalmente a preferências pessoais ou presumam necessidades metafísicas são absolutamente inúteis. Para evitar equívocos, tomo os termos das questões em suas definições aparentemente usuais:

a) por “nós” significo almas idênticas e individuais, ou os “egos” de todas as pessoas vivas ou que viveram na Terra; e,

b) por viver “na Terra” significo viver em corpos humanos comuns, não em algum estado incorpóreo ou espiritual. De início, consideremos o que as respostas afirmativas às perguntas acima realmente implicam.

No início

Todos admitem que, em algum período não muito remoto geologicamente, o homem passou a existir; se começou com um único par ou como um grupo desenvolvendo-se simultaneamente a partir de alguma forma subumana inferior não importa muito. Nos dois casos houve um período no qual o número de indivíduos era relativamente pequeno e, evidentemente, os descendentes desses homens primitivos não poderiam já ter vivido na Terra em corpos humanos, nem as segunda ou terceira gerações, muito mais numerosas [10].

A doutrina teosófica da reencarnação, o único sistema meticulosamente elaborado que responde às nossas questões afirmativamente[11] , sustenta que o processo da reencarnação só começou depois que a forma humana estava aperfeiçoada; então, a alma humana ou manas nela encarnou, pois isso seria realmente essencial ao desenvolvimento da alma. A dificuldade relativa às primeiras gerações de homens que buscavam corpos nos quais viver uma segunda vez é superada pela teoria do devachan, um estado de existência intermediário no qual as lições da vida terrena frutificam por meio da contemplação e comunhão com as outras almas na mesma condição; e como tal estado pode perdurar por períodos muito longos, o início efetivo da reencarnação teria se dado num período posterior, quando já havia uma população considerável, fonte grande e contínua de nascimentos[12]. Daí em diante, supõe-se que todas (ou quase todas) as almas reencarnaram ao seu tempo com vistas a se desenvolver nos graus de existência do espírito. Se essa teoria for verdadeira, falando genericamente, segue-se sem dúvida que todos nós já vivemos na Terra e nela viveremos novamente, em todos os eventos até que o homem se torne muito mais avançado moral e intelectualmente do que é agora. Mas isto é verdadeiro? Até onde alcanço, trata-se de uma especulação pura que não tem como se apoiar em qualquer evidência direta[13] . Mas por outro lado, há um corpo considerável de evidências que a torna improvável no mais alto grau (isso se não demonstrar inteiramente a sua falácia), como agora esforçar-me-ei por mostrar.

As leis da hereditariedade

A parte da biologia mais diretamente relacionada à teoria da reencarnação aqui discutida consiste nas leis da hereditariedade recém descobertas pelo Sr. Francis Galton. Por meio de coleções muito grandes de fatos relativos às diferentes características das plantas, animais inferiores e homem, além da transmissão dos caracteres às gerações sucessivas, ele alcançou duas generalizações notáveis que, após terem sido bem examinadas e testadas por outros investigadores, hoje são geralmente aceitas como as verdadeiramente representativas leis da hereditariedade[14].

A primeira delas denomina-se lei da “regressão à mediocridade”. Ou seja, se considerarmos o conjunto dos indivíduos de qualquer espécie, variedade ou corpo considerável de indivíduos, podemos sempre encontrar para cada característica que possa ser medida ou estimada (tais como o tamanho do corpo, das partes, cor etc.) o valor médio do conjunto, com quantidades variáveis de desvio, freqüentemente muito grandes acima e abaixo da média. Mas se tomamos alguma dessas variações maiores (a maior ou a menor, a mais escura ou a mais clara etc.) e as cruzamos, descobrimos quase invariavelmente que os descendentes possuem, em média, caracteres menos extremos que os genitores. Eles tendem a se aproximar do valor médio do grupo. Assim, homens muito altos, mesmo se casarem com mulheres muito altas, raramente geram pessoas mais altas, geralmente ninguém tão alto e freqüentemente de estatura bem mediana; o mesmo ocorre com pessoas muito baixas, cujos filhos são geralmente mais altos do que eles mesmos. Esta lei aplica-se a todos os animais observados acuradamente pelos criadores e foi testada também por experimentos em larga escala com plantas. No entanto, o fato mais interessante notado repetidamente por muitos escritores é que as qualidades mentais seguem a mesma lei. Homens excepcionalmente inteligentes nascem de pais de habilidade apenas mediana, enquanto tais homens muito raramente têm filhos brilhantes; grandes gênios nunca. Então, há também aqui a “regressão à mediocridade”.

Como surge o gênio

A forma média ou típica da espécie, variedade ou raça parece permanecer fixa por períodos consideráveis; depende aparentemente do livre cruzamento entre indivíduos e da ausência de toda seleção ou destruição de tipos peculiares. Por meio de algum desses dois processos, a média pode ser alterada[15] e, então, a regressão dar-se-á para a nova média. Mas apesar dessa regressão geral das formas extremas para a média, excepcionalmente caracteres desenvolvidos (sejam físicos ou mentais) são hereditários, apesar de nem sempre e totalmente[16] . Embora o gênio mais elevado não seja diretamente hereditário, certas famílias têm produzido por sucessivas gerações grandes, talentosos e brilhantes seres humanos e, finalmente, nascem os grandes gênios [17], assim como um grande número de mediocridades. Weismann e muitos outros escritores forneceram numerosos exemplos que ilustram esta lei.

A outra generalização (que estabelece a proporção devida a cada pai e a cada ancestral na produção das características da descendência) é ainda mais notável, pois também serve para explicar a causa da primeira lei. De uma longa comparação de homens e animais com seus pais e antepassados próximos e remotos, o Sr. Galton obteve os seguintes resultados como uma média constante: os indivíduos derivam metade de suas peculiaridades dos pais (um quarto de cada), um quarto dos seus quatro avôs, um oitavo de seus bisavôs e assim indefinidamente. Dentre outros, esta lei foi criticamente examinada e testada por Karl Pearson, eminente matemático e professor, que a considerou em geral correta[18].

Por que nos assemelhamos aos nossos ancestrais?

O funcionamento efetivo dessa lei, em conexão com a teoria de Weismann da continuidade do plasma germinativo[19], parece ser que, nos órgãos reprodutivos de cada indivíduo, há uma mistura de germes hereditários derivados de uma longa série de ancestrais, quase nas proporções acima dadas, e certo número deles, tomados como que ao acaso de cada um dos pais, determina a forma e as características da prole, sejam físicas ou mentais. Portanto, em média, as crianças se assemelham a seus pais, seus avôs etc., quase na proporção acima citada, mas há espaço para uma variedade infinita de combinações. Às vezes, os germes parentais prevalecerão; por vezes, os de certos ancestrais e, se na linha ancestral quaisquer características especiais prevaleceram durante muitas gerações, tais caracteres seguramente aparecerão em algumas das crianças, mesmo se estiverem ausentes nos pais. Germes de vários ancestrais distintos podem também se combinar para produzir um resultado cumulativo em relação a qualquer grupo de personagens e, assim, surgem grandes homens de todo tipo – por combinações muito raras e sorte, grandes gênios. É claro que isto será mais provável de acontecer quando ambos os pais forem igualmente do mesmo estoque bom. Daí famílias aristocráticas ou comunidades rurais, que freqüentemente se casam entre si, serem mais propensas a perpetuar a boa (ou a má) qualidade do estoque ancestral que possuem; estes vários resultados são exatamente o que ocorre[20].

Argumentos negativos

Agora, a aplicação do acima exposto à nossa discussão tornar-se-á óbvia. As duas grandes leis da hereditariedade aqui expostas abrangem todo o mundo orgânico: plantas, animais e homem; aplicam-se à mente tanto quanto ao corpo, aos mais elevados sentimentos morais assim como ao intelecto puro[21] . Porém, se a teoria da reencarnação como um meio de progresso humano (operando incessantemente) é verdadeira, devem existir indícios de progressos contínuos e verdadeiramente excepcionais nas formas mais elevadas do caráter humano quando comparados com outras partes do mundo orgânico. Mas não há indícios sequer de uma diferença; decerto, não avançamos moralmente tanto quanto intelectualmente e, mesmo no intelecto, tomando à média, é duvidoso que tenhamos realmente avançado desde o tempo de Sócrates e Platão ou dos autores do Maha-Bharata. Não apenas não há nenhuma prova de qualquer avanço excepcional no homem, como deveria ter ocorrido se ele tivesse realmente sido influenciado beneficamente por sucessivas reencarnações, mas existem (como mostrei) provas diretas muito convincentes de que nenhum avanço efetivamente se realizou[22].

Um pesadelo grotesco

Sem dúvida, outros escritores debruçar-se-ão nas dificuldades inerentes a todo o suposto processo da reencarnação[23] ; para mim, não posso conceber que qualquer alma humana totalmente desenvolvida, apesar de má, possa ser beneficiada ao ser novamente mergulhada: no meio das condições deploráveis e degradantes hoje prevalecentes, seja na mansão ou na favela; dentre os ricos sensuais ou os pobres famintos; na desesperada luta pela riqueza ou pelo alimento básico; sujeita às torturas físicas e morais das workhouses e suas prisões; nas más paixões suscitadas pela opressão e injustiça; ao atravessar os horrores da guerra em cuja preparação concentramos todos os recursos da ciência e muito da riqueza duramente conquistada pelas massas, enquanto deixamos seus filhos crescerem na necessidade, miséria e vício e seus velhos e fracos morrerem lentamente[24].

A concepção toda da reencarnação parece-me um pesadelo grotesco que, como tal, só pode ter se originado nas eras de mistério e superstição 25 . Afortunadamente, a luz da ciência lhe apresenta como inteiramente infundada. Pelas várias razões aqui expostas, respondo às questões feitas com uma enfática negativa.

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BIBLIOGRAFIA

ASIMOV, I.; Gênios da humanidade. III vols. Rio de Janeiro: Bloch editores, 1980.

BEHE, R.; A caixa preta de Darwin. Tradução: Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

BLANC, M.; Os herdeiros de Darwin. Tradução: Mariclara Barros. São Paulo: Editora Página Aberta, 1994.

DOYLE, A.; História do espiritismo. Tradução: Júlio Abreu Filho; prefácio: J. Herculano Pires. São Paulo/SP; Editora Pensamento; 1995.

KANT, I.; “Los Sueños de un visionario explicados por os sueños de la metafísica”. Tradução, introdução e notas: Pedro Chacón & Isidoro Reguera, Madri; Aliança Editorial; 1987.

KARDEC, A.; Le livre des esprites – écrit sous la dictés et publié par l’ordels d’esprits supérieurs. 1a edição de 1857 fac-similada por Canuto Abreu; 1957.

LAMARCK, J.; Philosophie zoologique. Paris: Flammarion, 1994.

MAYR, E.; O desenvolvimento do pensamento biológico. Tradução: Ivo Martinazzo. UNB, Brasília, 1998.

MULLER, K.; Reencarnação baseada em fatos. Tradução: Harry Meredig. São Paulo, Edicel, 1970.

PETERS, F.; Termos filosóficos gregos. Tradução: Beatriz Rodrigues Barbosa; Lisboa; Fundação Calouste Gulbenkian; 1974.

STEVENSON, I.; “Research into the evidence of man’s survival after death – a historical and critical survey with a summary of recent developments”. The journal of nervous and mental disease; Universidade de Maryland; 1977. Vinte casos de reencarnação. Nova Fronteira, São Paulo, 1970.

SWEDENBORG, I.; De planetas y angeles. Tradução espanhola: Jesús Imirizaldu. Madri; Miraguano Ediciones; 1988.

SWEDENBORG, E.; O mundo dos espíritos segundo o que lá foi ouvido e visto. Tradução: Sérgio Luiz R. Medeiros. Editora Razão Social; São Paulo; 1992.

TARAZI, L.; “Um caso raro de regressão hipnótica com algum conteúdo inexplicado”. The Journal of the American Society for Psychical Research. Vol. 84, no 4, 1990.

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NOTAS

1. Apresentação, tradução e notas de Marcio Rodrigues Horta. Doutor em filosofia pela USP e funcionário de carreira do TRE/SP – trabalho terminado em 12/05/2011.

2. Por exemplo, no Brasil, a obra intitulada The history of spiritualism (ou seja, a história do espiritualismo) recebeu uma versão como a História do espiritismo; nesta, as palavras espiritualismo, espiritualista etc. foram sistematicamente traduzidas por espiritismo, espírita etc. O resultado consistiu na inclusão de uma série de personagens espiritualistas no rol de adeptos do espiritismo; Wallace foi citado algumas vezes em contextos sugestivos de ligação com o espiritismo, tal como na seguinte passagem: “desde os primeiros dias, os espíritas têm sustentado que há uma base física material para os fenômenos. Na incipiente literatura espírita, encontram- se centenas de vezes descrições de um denso vapor semiluminoso, que flui do lado ou da boca do médium… para citar alguns exemplos… Alfred Russel Wallace descreve ter visto com o Dr. Monck, primeiro “uma mancha branca” que gradativamente se transformou numa “coluna nevoenta””. DOYLE, 1995, p. 337.

3. Cf. KARDEC, 1857.

4. Cf. HORTA, 2004 & HORTA, 2004a.

5. Segundo Lamarck (1994, p. 230, tradução e negrito meus): “Relativamente aos hábitos, é curioso observar o seu resultado na forma particular e na estatura da girafa (camelo-pardalis): sabemos que este animal, o mais alto dos mamíferos, habita o interior da África em lugares onde a terra (quase sempre árida e sem arbustos) a obriga a comer a folhagem das árvores e esforçar-se continuamente para fazê-lo. Resultou deste hábito (…) que as suas pernas frontais se tornaram mais longas do que as pernas traseiras, e que o seu pescoço se alongou de tal modo que, a girafa, sem apoiar-se nas pernas de trás, eleva a sua cabeça para alcançar mais de seis metros de altura”.

6. Segundo BLANC (1994, p. 33): “A filosofia deísta de Lamarck (…) fez com que postulasse que as espécies não se extinguiam: seria uma afronta ao Criador (…). O que explica que, após ter sido combatida no início do século XIX pelo conservadorismo religioso (com Cuvier encabeçando a fila), a teoria de Lamarck tornou-se, ao contrário, a tábua de salvação dessa corrente filosófica, quando, a partir da segunda metade do século XIX, o darwinismo impôs a noção de evolução como inevitável – e isso num quadro conceitual agnóstico, para não dizer ateu”. Blavatsky e os seus podem ter aceitado considerar o transformismo porque as modificações aleatórias e casuais de Darwin não se ajustavam ao seu esquema crítico do acaso. Há um livro sobre a rejeição dos teosofistas a Darwin, intitulado O babuíno da Mme. Blavatsky.

7. BEHE, 1997, pg. 32 e outras.

8. Artigo publicado em novembro de 1904 na revista The London magazine.

9. Em termos metodológicos, distintamente do que Wallace presume, parece possível refutar ou corroborar alegações de reencarnação: obtida uma descrição espontânea, investigações em cartórios, arquivos, genealogias etc. podem ser realizadas no sentido de mostrá-las falsas ou sustentáveis. Por outro lado, o conhecimento científico permite separar rapidamente as descrições possíveis das impossíveis e, neste aspecto, o critério de Wallace sobre a aplicação da ciência nesse terreno é fundamentalmente valiosa. Por exemplo: as alegadas viagens astrais de Swedenborg, que dizia visitar seres inteligentes encarnados nos planetas do sistema solar, rapidamente podem ser descartadas e as investigações sobre tais fenômenos, com justiça, devem seguir para o terreno psiquiátrico (vide SWEDENBORG, 1988 & 1992).

10. No contexto, Wallace parece pressupor a teoria demográfica de Malthus, na qual a população humana tende a duplicar a cada vinte e cinco anos ou uma geração; assim, a segunda e terceiras gerações poderiam ser “muito mais numerosas”; todavia, Malthus também sustentava que o crescimento populacional é sistematicamente abortado por impedimentos massivamente mortais, tais como a peste, a fome, a guerra etc. Portanto, a alegação de que as gerações seguintes seriam muito mais numerosas tem algo de otimista, e as dificuldades para as almas encontrarem corpos nos quais encarnar e reencarnar poderiam ser ainda maiores do que as apontadas pelo autor do artigo.

11. Ignoro se Wallace desconhecia o kardecismo ou o avaliava negativamente.

12. Ao tempo de Wallace, a população humana caminhava para alcançar dois bilhões de pessoas, fato que, no contexto, significaria quase dois bilhões de almas. Considerando que a população humana inicial talvez contasse, quem sabe, uns mil corpos, uma imensa população de almas teria de aguardar uma oportunidade para encarnar, e ainda mais para reencarnar; por esta razão matemática é que Wallace afirma que “o início efetivo da reencarnação teria se dado num período posterior”. O quadro teosófico que Wallace descreve é muito ingênuo, pois, como os deuses no Olimpo, as almas permaneceriam observando a humanidade incipiente por milhares de anos.

13. Ponto crucial da crítica de Wallace: desqualificar a teosofia como um sistema puramente metafísico, pela ausência de sequer um ponto de contato com a realidade; portanto, construído apenas com a imaginação.

14. Alegação duvidosa de consenso na comunidade científica; aparentemente, trata-se mais de retórica destinada a persuadir o público leigo, visto que a pesquisa sobre a hereditariedade era um tema candente nessa época, a gerar muitas cisões no interior da comunidade de biólogos. A rigor, nesse terreno, a estabilização de opiniões na comunidade científica só foi obtida após a redescoberta e divulgação das leis de Mendel.

15. Com a seleção tornando-se eficiente, presume-se.

16. Interessante descrição da evolução, algo adaptada aos fins do artigo, a saber, abater a proposta teosófica de que a reencarnação das almas aperfeiçoa paulatinamente a forma material, o intelecto e a moralidade humanos. Para Darwin e Wallace, na comunicação conjunta dos dois grandes cientistas realizada em 1858, a hipótese auxiliar era natura non facit saltum. Ou seja, a evolução das formas vivas resultaria de um acúmulo lento e incessante das características num dado sentido, o que seria algo compatível com a doutrina teosófica (a diferença não seria a apontada por Wallace, de ritmos evolutivos, mas a autonomia do mundo material. Ou seja, na natureza, as mudanças são aleatórias, não dirigidas a um ponto desejado. A acumulação num dado sentido é uma casualidade estritamente material). No presente texto, Wallace descreve o processo evolutivo como um longo período de fixidez alterado por saltos súbitos, uma evolução pontuada motivada também (e não somente) pelo intento de provocar o desencontro dos processos material e espiritual.

17. Presumo que esta seja a melhor tradução para a obscura passagem escrita por Wallace; afinal, Galton estudou a “ocorrência de grande capacidade intelectual em determinadas famílias”, o que lhe permitiu “supor que as características mentais de um indivíduo eram hereditárias” (Asimov, 1976, II, p. 365).

18. Correta do ponto de vista estritamente matemático; aqui, Wallace vale-se de um argumento de autoridade ao citar a adesão do respeitado Pearson à segunda generalização. Efetivamente, Galton foi um dos primeiros a aplicar a matemática, particularmente a estatística, ao estudo da hereditariedade. Todavia, seu pressuposto é falso, a saber, quando indivíduos com características diferentes se cruzam, seus traços se misturam e o filho, assim, resultaria da composição (cf. Asimov, 1976, II, p. 364). Isto tornou falsa a segunda generalização, que estende o princípio a toda arvore genealógica do indivíduo, o resultado de um blend de sua ascendência inteira. Segundo Mayr, Galton dava às partículas, “no seu raciocínio, um tratamento no sentido de que elas se misturavam… o que acabou contribuindo para sua refutação inequívoca… o mendelismo não podia esperar ser universalmente aceito enquanto não fosse abandonada toda a aderência à lei de Galton” (MAYR, 1998, p. 876). Tal como Darwin, Wallace derrapou longamente na hereditariedade e, por jamais conhecer os trabalhos de Mendel, carregou o ônus de defender uma teoria que obstava suas descobertas teóricas evolutivas e sustentar ao grande público que ela harmonizava a biologia de então. Mendel, que haveria de se tornar a base da genética contemporânea, argumentou de modo radicalmente atomístico, e a partícula que determina uma característica não se desfaz, dissolvendo-se no todo, mas mantém sua individualidade, o que significa que, se receber variação, é capaz de transmiti-la à progênie, superando a mais renitente dificuldade científica à aceitação da evolução.

19. August F. L. Weismann (1834/1914), teórico da biologia alemão, sustentou nos últimos trinta anos do séc. XIX que a vida é contínua e imortal. A microscopia evidenciara que os microrganismos constantemente se subdividem & podem ser destruídos, mas nunca morrem por envelhecimento. Weissmann atribuiu tais propriedades aos macrorganismos, pois óvulos e espermatozóides que originam um indivíduo foram formados por outros indivíduos e assim por diante; portanto, a teoria da “continuidade do plasma germinativo” defendeu que este seria a essência da vida, criando um organismo em torno de si com a precípua finalidade de proteger o processo. Samuel Butler ironizou a teoria, ao dizer que por tal pensamento “uma galinha é apenas a maneira utilizada pelo ovo para produzir outro ovo”. Com efeito, para a teoria, o organismo, tendo cumprido sua função de proteger o plasma germinativo e reproduzi-lo, torna-se dispensável & pode & deve morrer para o êxito da vida em geral. Todavia, apresentar tal teoria ao grande público como amiga da evolução oculta que se criou aqui uma tensão teórica. A teoria de Darwin/Wallace pressupõe uma genética que demonstre variação & transmissão de um indivíduo de uma espécie para as gerações posteriores; contudo, o isolamento, superproteção e continuidade do plasma germinativo tende ao fixismo & não ao mutacionismo, a despeito da vontade de seu propositor (cf. Asimov, 1976, II, pp. 406/7).

20. Tecnicamente falando, vivemos presentemente um período neodarwinista em biologia (com várias ramificações), uma vez que a nova síntese, realizada por cientistas notáveis em meados do séc. XX, reuniu a ecologia de Darwin e a genética de Mendel.

21. A estratégia argumentativa de Wallace consiste em afirmar a autonomia do mundo material relativamente ao espiritual: a vida material evolui por suas próprias leis, o resultado de um longo período de estabilidade interrompido por um relativamente curto período de modificação. Mas não deveria ser assim, caso a lei espiritual alegada fosse realmente eficiente, ou seja, se estivesse incessantemente agindo como a teosofia sustenta (sistemático progresso produzido pelas reencarnações das almas, um aprimoramento lento e irresistível dos humanos em sua forma material, intelecto e moralidade). Afinal, Wallace argumenta, o homem não apresenta desde seu surgimento mudança substancial alguma, tanto em sua capacidade intelectual quanto moral, apenas mediocridades e alguns gênios eventuais que, por sua vez, não colocam as formas materiais num novo patamar, pois sua descendência tende a retornar à média.

22. Com efeito, os esquemas evolucionistas tanto da teosofia quanto do espiritismo parecem se ajustar menos mal ao lamarckismo do que ao darwinismo, uma vez que, naquele, a matéria foi concebida como sendo plasticamente mais sujeita às influências do espírito; contudo, suspeito que por uma longa influência do e ajustes ao pensamento fixista no Ocidente (aristotelismo & cristianismo), a teosofia naquele momento admitisse uma evolução restrita, apenas dos humanos, concebidos como seres especiais e a parte na natureza. Assim, a passagem das almas de encarnações em formas subumanas para as humanas, no início do séc. XX, estava fora de questão tanto para os teosofistas quanto para Wallace; porém, esteve presente nas derradeiras cogitações de Kardec, décadas antes, o que depõe contra a avaliação de Wallace de que, no que se refere ao tema da reencarnação, a teosofia era o “único sistema meticulosamente elaborado” então existente.

23. Para uma visão distinta do tema da reencarnação fornecida por Wallace, vide MULLER, 1970; STEVENSON, 1970 & 1977; TARAZI, 1990.

24. O Wallace socialista aproveita o ensejo para alfinetar a sociedade de seu tempo; todavia, o famoso cientista inglês fere um critério proposto por ele mesmo no início do artigo: “em minha opinião, respostas que apelam principalmente a preferências pessoais (likes & dislikes)… são absolutamente inúteis”. Portanto, sua opinião, que não percebe vantagens no retorno das almas por reencarnação a este mundo corrupto, a rigor não deveria ter sido enunciada para responder a pergunta sobre se elas voltam ou não à Terra; afinal, como regra geral do realismo, fatos independem de opiniões. Resta uma pergunta a ser respondida (agora dogmaticamente, e não de modo crítico) por espiritualistas tais como Wallace: por que a alma encarna uma vez neste mundo “corrupto”? A resposta tradicional dos espiritualistas, dentro da mentalidade herdada da religião européia, uma de suas matrizes, seria: para lutar pela salvação; contudo, como um estudioso do assunto uma vez observou, “se a alma desce à Terra uma vez, para viver num corpo material, em princípio não há razão para que isto não ocorra novamente, ou até diversas vezes”. MULLER, 1970, p. 20.

25. Com efeito, longe de tomá-lo por consolador, o budismo considera o ciclo das reencarnações um inferno, do qual a alma escapa quando se ilumina; modernamente, os que trouxeram esse tema para o Ocidente trataram de nele encontrar um sentido, no mais das vezes evolutivo.

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8 Responses “Alfred Russel Wallace e a Reencarnação Marcio Rodrigues Horta

  1. MARIO FONTES
    09/03/2016 at 17:49

    Marcio, gostei muito de ler seu artigo, está muito bem construido. Considero algo abaixo:
    Einstein não gostava da Mecânica Quântica( MQ) , pois dizia que ela era no mínimo incompleta, e fez uma serie de experimentos mentais “hipotéticos” para provar que ela leva a conclusões absurdas, porem, mais tarde, todos os experimentos foram implementados fisicamente e confirmaram a MQ, mostrando que a realidade a nível quântico é absurda mesmo para os nossos padrões cotidianos. Tentando desaprovar a MQ Einstein deu grandes contribuições a ela. Eu não vejo no meio Científico a preocupação de classificar Cientistas em crentes da MQ e não crentes MQ.
    Porque então essa preocupação de classificar os Cientistas em Espíritas e não Espíritas?

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  2. MARIO FONTES
    09/03/2016 at 18:07

    Tanto o Espiritismo na época de Wallace como a MQ na época de Einstein estavam se estabelecendo em seus princípios e haviam grandes debates como ainda existem, portanto natural que haja divergências.
    Acho que em face a tantas evidencias Einstein teria mudado de opinião.
    Creio que Wallace tendo contato com experimentos mais recentes sobre reencarnação teria mudado também.
    Parece que a principal objeção de Wallace é que não há evolução moral os erros se repetem ao longo dos Milênios em misérias e guerras. Já Emanuel diz que é esta é uma prova da reencarnação, porque são os mesmos espíritos, a cometerem os mesmos erros.

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  3. MARIO FONTES
    09/03/2016 at 18:23

    Dizem que Wallace tinha uma coleção de espécimes muito maior que a de Darwin e passou muito mais tempo e começou muito antes de Darwin a coletar e coletou numa diversidade de lugares muito maiores.
    Wallace sofreu ostracismo da Academia de Ciência ao ser banido como coautor da Teoria da Evolução apesar de Darwin ter insistido nisto, por escrito, com a Academia.
    Darwin disse que Wallace colocou tudo a perder quando colocou em público seu diploma de Espiritualista Moderno (Espírita?)

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  4. 21/03/2016 at 18:48

    Oi Mario, encontrei esta página por acaso, e agradeço seus comentários. O objetivo da distinção é que o panorama muda muito caso se aceite a reencarnação ou não. Por exemplo, Swedenborg aceitava a mediunidade, e “com” esta descreveu espíritos no céu e no inferno – eternos. Portanto, não basta ser espiritualista, a diferença ainda é imensa. Precisamos saber precisamente como as coisas são, para podermos tentar construir com a máxima exatidão uma ideia sobre as consequências. Um grande abraço, Marcio.

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    • 21/03/2016 at 19:10

      Olá Marcio.
      Muito nos honraria inaugurar uma coluna com seus artigos, se for do seu interesse. Nossos colunistas tem total liberdade para publicação de suas posições e pesquisas, para o Jornal Impresso e também online.

      Este em questão, foi sugestão de um leitor que nos enviou em formato .doc, mas ñ havia qualquer informação de contato.

      Ficamos no aguardo.
      Abraços

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  5. MARIO FONTES
    22/03/2016 at 09:42

    Marcio Horta,
    Grato pelo seu esclarecimento, entretanto pondero:
    As críticas e as perguntas que um pesquisador faz em relação a um principio pode ser muito útil a evolução deste.A palavra “Dogma” da Reencarnação empregada por Kardec se refere a um tempo em que as Filosofia da Ciencia ainda não tinha uma nomenclatura bem definida.
    A hipótese explicativa da Reencarnação está sujeita a evolução pela observação experimental e pelo próprio raciocínio critico.
    A ideia que fazíamos da Reencarnação na época de Kardec é diferente de hoje e será bem diferente amanhã.

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  6. 01/04/2016 at 18:48

    Olá caro editor, será um prazer conhecer vcs e colaborar: mrhorta50@gmail.com

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  7. 01/04/2016 at 18:53

    Sim, a palavra dogma é muito rica, e é utilizada também em ciência. Tem um interessante artigo do Thomas Kuhn, famoso historiador e filósofo da ciência, sobre “A função do dogma na pesquisa científica”. Ela tem uso amplo e útil. Aliás, algumas palavras utilizadas em ciência vem mesmo da religião & filosofia.
    No caso do Kardec, ele sabia que a maior parte do movimento espiritualista ainda não havia aceito a ideia, e, portanto, ainda não era hora de manifestar-se ambiciosamente, alegando que se tratava de uma posição comprovada. Preferiu então a retranca, a palavra dogma. Hoje ainda estamos assim, mas concordo com vc, avançamos bastante. Quero quer que em algum momento descobriremos um modo de evidenciá-la completamente…

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