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24/11/2017

A Revolução do Espírito – Perspectivas da Ciência Espírita André Henrique


Uma das ironias da ciência é que os pesquisadores em todos os campos parecem gostar de decidir quem de suas fileiras está transpondo os limites aceitáveis da invenção em busca do conhecimento científico – quem é culpado de inventar algo que pertença mais ao domínio da pseudo ciência ou mesmo da religião. Como o falecido filósofo Herbert Marcuse observou uma vez, a ciência não é isenta de juízos de valor, e embora desenvolver ‘teorias de panqueca’ para explicar a origem das galáxias e dividir os primeiros trilionésimos de trilionésimo de segundo da criação do universo possam ser aceitáveis, certas reflexões sobre outros assuntos não o são. – John Brockman[1]

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Num momento cultural em que a Ciência e a Tecnologia representam para a nossa sociedade o voto de Minerva com relação à maioria dos conceitos e valores, é justo esperarmos que nossas mais íntimas conjecturas encontrem, no contexto científico, sua abordagem, validação ou abandono. Mesmo não sendo a única forma de conhecimento aceitável, e apesar de não se ter encontrado um sentido completo para a palavra “verdade”, a sociedade ocidental elegeu a Ciência como sua representante gnoseológica, suprema intermediária entre o universo e a mente humana.

Entretanto, a Ciência não pode ser desvinculada dos valores humanos, pois é construída por homens e, como tal, sujeita à axiologia dos que a fazem. Ainda que idealizada como elemento neutro, ela tem sido resultante de influências outras além do puro desejo de conhecimento. Fatores econômicos, sociais e políticos depositam no seu fluxo contribuições que a fazem dirigir-se para este ou aquele aspecto sempre que se impõe uma necessidade. Face a esse panorama, salientamos a citação de Brockman, na abertura deste trabalho, como significativo termômetro para analisar o relacionamento entre a Ciência e o Espiritismo, cujo aspecto científico vem sendo pouco considerado e, por vezes, ignorado pelos pesquisadores, leigos e, inclusive, por muitos espíritas.

Neste trabalho não pretendemos uma tese sobre a Ciência ou o Espiritismo isoladamente, mas uma discussão sobre a interseção e a interação entre eles. Não intentamos a inovação de valores ou conceitos, mas o resgate, pela reflexão crítica, do íntimo relacionamento entre os dois, relacionamento este firmado pela metodologia científica utilizada na pesquisa mediúnica e desenvolvido na obra de Allan Kardec. Além disso, pretendemos transportar esses conceitos para a realidade atual onde a Ciência e o Espiritismo tiveram seu desenvolvimento natural face às profundas modificações de uma moderna tecnologia e da avançada estrutura de conhecimentos, hoje conquistados, acerca da Natureza.

Sentindo a necessidade de retomar a questão do aspecto científico do Espiritismo, de identificar e definir a abrangência e os métodos desse aspecto, pretendemos promover discussões e não necessariamente encerrá-las. Nosso interesse é o de apresentar pontos para reflexão, esperando que aqueles cuja visão não coincida com a nossa, e aqueles que algo tenham a acrescentar, possam nos encontrar neste terreno de indagações e críticas.

Salientamos que é nossa obrigação discutir os conceitos ora retomados porque a existência dos fatos estudados pelo Espiritismo nos obriga a um posicionamento. Ou o Espiritismo está certo em suas representações . e precisa ser desenvolvido como ciência, ou está equivocado e precisa ser corrigido através de uma melhor representação .Mas em ambos os casos precisamos conhecê-lo. Desse conhecimento brotará a crítica e a reflexão necessárias para darmos um passo a mais no sentido de elucidar os fatos por ele abordados.

Iniciamos o trabalho com uma análise sobre a Ciência e sua metodologia, procurando esclarecer o papel e os objetivos do conhecimento científico. Em seguida pensamos o Espiritismo analisando brevemente seu surgimento, seu contexto e, muito particularmente, a influência recebida pelo Positivismo de Augusto Comte. E para concluir apresentamos o modelo de conhecimento espírita sob seu tríplice aspecto – Ciência , Filosofia e Religião – como uma forma coerente de abordar o conhecimento, de representá-lo e de utilizá-lo no sentido da nossa transformação e da sociedade em que vivemos.

A Ciência e sua Metodologia.

“Representamos uma civilização científica: e isso significa uma civilização na qual o conhecimento e sua integridade são cruciais. ” Jacob Bronowski[2]

A ideia de uma civilização científica nos moldes definidos por Bronowski levou a sociedade ocidental a uma restruturação de conhecimentos e valores na busca de uma melhor integridade para eles. Verificar se o que sabemos é correto e conseguir novos meios para conhecer o que hoje ignoramos é o papel da Ciência e o compromisso de sua metodologia. Mas a definição destes termos, ciência e metodologia, é em si mesmo um objeto de estudo que, levado a efeito pela filosofia da ciência, deve nortear o pensamento humano sobre suas próprias descobertas e representações.

Definições

Antes de qualquer discussão sobre a temática da ciência, urge procurar uma delimitação para o sentido da palavra ciência de maneira que se possa identificar as características centrais do conhecimento científico. Só a a partir daí poderemos analisar o Espiritismo em seu aspecto de ciência. Nossa pergunta é: o que é ciência?

Vejamos algumas definições:

“a ciência caracteriza-se por ser a tentativa do homem entender e explicar racionalmente a natureza, buscando formular leis que, em última instância, permitam a atuação humana.” – Andery

“Enquanto tentativa de explicar a realidade, a ciência se caracteriza por ser uma atividade metódica. É uma atividade que, ao se propor conhecer a realidade, busca atingi-la através de 3 ações passíveis de serem reproduzidas” – Andery[3]

“Conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos.” – Enciclopédia Delta Larousse[4]

“a ciência não é um sistema de conceitos, mas, antes, um sistema de enunciados.” – Popper[5]

“a ciência pode ser definida por meio de regras metodológicas” – Popper[6]

“A ciência é todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento com objetivo limitado, capaz de ser submetido à verificação.” – Lakatos[7]

“A ciência é um conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos metodicamente, sistematizados e verificáveis, que fazem referência a objetos de uma mesma natureza.” – Lakatos[8]

Por estas definições podemos observar que a ciência está fundamentalmente relacionada ao problema da metodologia. A preocupação central é a de proporcionar um conteúdo de conhecimentos que possam ser tomados como verdadeiros ou prováveis; e, segundo a opinião de Popper 9 , que possam ser falseados por uma ou mais experiências. Assim, a este sistema de enunciados elaborados racionalmente, fundamentados na experiência empírica, e passíveis de falseabilidade através de experiências denominamos ciência.

Destacamos o conceito de falseabilidade pela experiência porque ele foi introduzido por Popper. Na sua concepção, o conhecimento científico é eminentemente dedutivo no sentido de que somente a experimentação possibilita a confirmação de uma idéia. E, singularmente, Popper propõe que uma representação da natureza só seja considerada conhecimento científico se formos capazes de estabelecer um critério, chamado critério de falseabilidade, através do qual a experiência possa comprovar que aquela representação, proposta como conhecimento científico, é falsa. Assim para que um conhecimento seja dito científico ele necessariamente deve estar aberto à possibilidade de estar errado. Além disso, somente a experimentação ao longo do tempo pode assegurar a permanência – ou não – de uma dada explicação ou teoria. Daí, segundo Popper, o conhecimento científico ser eminentemente dedutivo.

Para não nos determos em definições e obter uma abordagem mais significativa sobre o sentido de ciência, é preciso analisar alguns aspectos relacionados à sua estrutura , seus objetivos, sua função e objetos de pesquisa. Para tanto, apresentamos o pensamento de Eva Maria Lakatos[10] sobre o assunto. Segundo ela as ciências possuem:

a) objetivo ou finalidade. Preocupação em distinguir a característica comum ou as leis gerais que regem determinados eventos.

b) objeto. Subdividido em:

  • material – aquilo que se pretende estudar, analisar, interpretar ou verificar de modo geral;
  • formal – o enfoque especial, em face das diversas ciências que possuem o mesmo objeto material.

c) função. Aperfeiçoamento, através do crescente acervo de conhecimentos, da relação do homem com o seu mundo.

Dessa maneira, no contexto das ciências, os objetivos se voltam para a aquisição de conhecimentos e técnicas que nos possibilitem o entendimento das leis que regem determinados fenômenos. Esses fenômenos são os objetos da ciência, o ponto sob o qual converge o interesse do conhecimento. Assim a ciência é utilizada como ferramenta cuja função é identificar e definir mecanismos que permitam o refinamento desse conhecimento

A partir desses critérios – objetivo, objeto e função – pode-se propor algumas classificações para as ciências. Na verdade muitas são as classificações que se têm proposto. Para tomar uma delas, apresentamos a classificação dada por Mario Bunge:[11]

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O quadro nos mostra a estrutura de classificação proposta por Bunge. A divisão da ciência em formal e factual leva em consideração, entre outros, a diferença da natureza dos objetos, da espécie de enunciados e a distinção das metodologias aplicadas na comprovação dos enunciados.

Merece destaque o sentido dado aos adjetivos formal e factual quando aplicado às ciências:

• Formal – Estudo de idéias. Os objetos destas ciências são enunciados analíticos cuja verdade depende unicamente do significado de seus termos e de sua coerência lógica.

• Factual – Estudo de fatos. Seus objetos, além de enunciados analíticos possuem relação com fatos aos quais os enunciados se referem e a partir dos quais são elaborados.[12]

É importante ressaltar que existem pontos de contato muito sutis entre um e outro conceito, e que, a rigor, essa divisão é meramente simbólica e não absoluta. Porém, de maneira geral, as ciências se classificam em estudo de enunciados – ou idéias – e estudo de fatos. Apesar da variação de nomenclatura adotada, a idéia dessa divisão permanece aproximada entre os diversos autores. No tocante às ciências factuais, de acordo com os objetos de seu interesse, poderemos ainda dividí-las em dois tipos:

• Ideográficas – cujos fatos experimentados não estão sujeitos ao controle e à repetição laboratoriais;

• Nomotéticas – cujos fatos experimentados podem ser submetidos ao controle e à repetição em laboratório.

Essa distinção procura estabelecer características metodológica que devem ser dadas a cada tipo de ciência de acordo com a natureza dos objetos sob sua responsabilidade, e com os experimentos que podem ser aplicados para validação e refutação das teorias acerca desses fenômenos. Porém, a própria classificação é uma proposta para as ciências estabelecidas na atualidade, significando que outras propostas e abordagens poderão surgir.

A CIÊNCIA COMO REPRESENTAÇÃO 

Lembramos ainda que existe uma opinião segundo a qual a ciência não passa de um conjunto de idéias, coordenadas pela mente humana e dispostas de tal forma que se torna possível a compreensão de um universo limitado de fatos e fenômenos. Um representante destas idéias é apontado por John Brockman:

“A idéia de que a realidade não é mais que a rede imaterial e transitória de nossa linguagem descritiva já foi formulada de vários modos por vários pensadores importantes. Um dos mais eminentes dentre eles foi o físico alemão Werner Heisenberg que, em seu agora famoso princípio da incerteza, demonstrou que a realidade em seu nível mais fundamental, ou subatômico, é mais “criada” do que observada pelos físicos.”[13]

Edwin M. Bartee apresenta o mesmo pensamento:

“A solução de um problema não depende da natureza do problema verdadeiro, mas da natureza do problema percebido. (…) Admitindo que algumas percepções podem, teoricamente, ser totalmente isomórficas à situação real, torna-se essencial reconhecer que ainda assim se tratam de percepções.”[14]

Posto isso, podemos perceber que a ciência também pode ser entendida como uma forma de representação da realidade, mas uma representação respaldada na observação criteriosa de fatos, através de uma abordagem meticulosa, metódica e sistemática. Somos partidários desta idéia, segundo a qual, a ciência se mostra como uma forma de interação entre o homem e a realidade, uma ponte que o ser utiliza, entre tantas, para compreender o seu universo. Essa representação possibilita a ação do homem sobre a realidade; pois uma vez dominadas as leis que regem os fenômenos, a tecnologia se encarrega de encontrar aplicação para os princípios formulados pela Ciência. Nos dias atuais, em que a Ciência foi eleita como a representação mais precisa da realidade, devemos destacar o fato de que essa escolha se deu em detrimento de outras formas de percepção. Tal conduta estabeleu para a Ciência um aspecto popular de infalibilidade, errôneo segundo os próprios pesquisadores. Mas apesar de não ser infalível, a opinião da Ciência passou a ser o voto de Minerva nas questões relativas ao entendimento e representação do universo. As demais representações, oriundas da Religião ou da Filosofia, foram, a priori, consideradas inadequadas ou falsas.

Para entender o processo que determinou essa postura cultural é preciso discutir algo sobre a história da ciência.

BREVE HISTÓRIA DA CIÊNCIA

Uma das características mais fundamentais do conhecimento científico é o fato dele ser racional. A ciência surgiu exatamente da tentativa de opor um conhecimento racional a uma explicação mítica do mundo, uma explicação baseada em crenças e em outros valores subjetivos. A noção de racionalidade pode ser melhor analisada a partir do seguinte trecho extraído do livro Para compreender a ciência:

“Razão, logos – em seu sentido original – significa, por um lado, reunir e ligar e, por outro, calcular, medir; ambas relacionadas ao pensar, uma atividade fundamental da inteligência. (…) O conhecimento racional se opõe ao mítico, pois é um conhecimento sobre o qual se problematiza e não simplesmente se crê; um conhecimento no qual a explicação é demonstrada através da discussão, da exposição clara de argumentos e não apenas relatada, revelada oralmente; um conhecimento que busca uma intersubjetividade e não é mero fruto de um sentimento coletivo; um conhecimento em que se busca explicar e não encontrar modelos exemplares da realidade; um conhecimento que possibilita um movimento crítico, que possibilita sua superação e a dos mitos, e não se propõe como acabado, fechado(…); um conhecimento onde as explicações deixam de ser frutos da ação de seres sobrenaturais e divinos, que agem a despeito do próprio homem, para se tornarem explicações baseadas em mecanismos imanentes à natureza ou ao próprio homem em sua ação sobre a natureza(…)”[15]

Essa característica racional do conhecimento científico surgiu pela primeira vez na Grécia num período que vai do século VII ao século I a.C. Caracterizou-se pelas tentativas de racionalmente explicar o Universo e dar-lhe outras causas que não os deuses. A racionalização dessas explicações ocorreram, em sua maioria, sem o apoio da observação experimental baseada numa metodologia específica, o que fez com que a racionalidade grega propusesse uma representação do universo baseada na noção de um organismo com suas leis e “vontades”.

A ciência grega e a cultura judaica

Apesar de dar início a um período de explicações racionais acerca da Natureza, a cultura científica da Antigüidade Grega não se assemelha com as concepções científicas que ora adotamos. A origem da especulação racional é atribuída a Tales – de Mileto – um filósofo jônico cuja preocupação era identificar o elemento primitivo do universo. Tentando identificar uma razão para a phisys – Física ou Natureza – Tales identificou na água o elemento primitivo do universo, colocando nela a origem de todas as coisas e desenvolveu um sistema de leis para explicar o comportamento desse elemento primitivo. Posteriormente a Física, o estudo da Natureza – de seus princípios e leis, recebeu de Aristóteles atenção especial . O livro “Física” de Aristóteles estabeleceu um novo marco para a cultura humana. Tratava-se da exposição de um sistema completo para explicar a natureza e as leis do elemento material, identificado na Natureza.

Vejamos a análise de R. Hooykaas sobre esse ponto de vista grego:

“(…) o mundo era um organismo vivo, a divina fonte de todos os seres vivos – e até dos deuses. (…) Os filósofos jônicos encaravam a própria natureza como uma divindade, um ser eterno em processo de contínua auto-regeneração. (…) não importa quão divergentes possam ter sido as diferentes concepções dos filósofos pré-socráticos, ainda assim, como salientou O. Gilbert, ‘toda a especulação dos jônicos e dos eleáticos, e até mesmo dos pitagóricos, nada mais é que a busca da divindade: isto é, da substância divina que determina e dirige o desenvolvimento do mundo’.”[16]

E acrescenta:

“(…) a fabricação e a geração representavam o aspecto racional e organístico da concepção grega. “[17]

Essas palavras de Hooykaas demonstram que a postura grega frente à Natureza, apesar de ter determinado o rumo das especulações filosóficas e científicas, não se aproxima da noção de ciência que hoje possuímos. Trata-se de uma resposta ao pensamento mítico vigente naquela cultura, uma resposta que ainda procura relacionar a Natureza com as concepções humanas e moldar o universo segundo os parâmetros de idéias e não de observações humanas. Tal concepção levou o homem a tomar, perante os fatos, uma postura conseqüente:

“Os produtos da Natureza são inteligíveis por serem o resultado da auto-reprodução de formas racionais.”- Hooykaas[18]

O antigo homem grego concebeu a Natureza como algo limitado pela razão, pelas idéias e concepções humanas, ou seja, o que não fosse racional – para o homem – não poderia existir porque ela não age de maneira absurda, mas seguindo uma ordem passível de ser concebida pelo pensamento humano.

Por tudo isso a ciência grega se constituiu na busca das razões da Natureza, da forma como o mundo se conformava à concepção humana. A regra do dia foi estabelecida por Protágoras quando disse – “o homem é a medida de todas as coisas.”

Outra cultura que merece destaque na opinião de Hooykaas é a cultura judaica. Mesmo não tendo uma ciência formulada, os judeus ofereceram uma visão diferente para a representação da natureza. Diferente da postura grega, a cultura judaica atribuía à Natureza uma hierarquia distinta. Para os judeus ela era uma criação de Deus – ao contrario do organismo vivo dos gregos – e não estava submetida aos moldes dos homens. Quando Deus disse “faça-se e luz”, a luz se fez. O fato, na concepção judaica, foi esse, e não caberia ao homem julgar se isso era ou não racional, mas apenas estudar e procurar uma explicação que possibilitasse o entendimento do observado.

Para os gregos era preciso racionalizar e explicar os fenômenos conforme as idéias humanas; para os judeus importava observar os fatos e explicá-los não segundo a razão, mas a observação. Como conseqüência dessa concepção a postura do homem, na cultura judaica, era a de identificar os fatos, estudá-los e, se possível, controlá-los.

A ciência medieval

A Idade Média caracterizou-se por uma infeliz tentativa de reunir numa só cultura os pensamentos gregos e judaicos. Enquanto o Movimento Cristão optava por atalhos[19] e se degenerava na concepção católica, a ciência foi se limitando aos moldes do pensamento de Aristóteles com seus modelos físicos e metafísicos. Frente a isso podemos compreender o sentido das palavras de Hooykaas:

“A ciência medieval não deu um passo no sentido de eliminar os principais vícios inerentes à postura grega em face da natureza, pois nela deparamos novamente a mesma subestimação do poder humano e a mesma deificação da natureza; a mesma superestimação da razão humana e a mesma depreciação do trabalho manual.”[20]

“A natureza era considerada como um poder semi-independente, e quando as coisas aconteciam de acordo com a natureza isso significava que seguiam um modelo que pareceria racional à mente humana, um modelo descoberto por Aristóteles. (…) A ordem regular da natureza era considerada como algo instituído por Deus, embora suscetível de ser anulada por Ele de forma sobrenatural (o termo é significativo), ao realizar um milagre.”[21]

Estas idéias a respeito do mundo fizeram da cultura medieval uma caricatura do saber humano; a união perfeita de dois aspectos curiosos e que redundou em nada. O esforço de Tomás de Aquino em interpretar o pensamento cristão nas bases aristotélicas resultou numa representação estética do mundo dissociada, porém, da realidade. A beleza desse conhecimento trouxe, no entanto, terríveis conseqüências para os períodos imediatamente seguintes. Deslumbrados com o dourar das palavras os homens esqueceram de analisar o sentido experimental das proposições. A Ciência desapareceu do contexto e deu lugar a uma infindável discussão no campo da escolástica – ou seja, dentro de padrões distorcidos já que o valor das idéias não estava consignado nas observações, mas adequado a princípios dogmáticos já estabelecido pela crença em voga e apresentados como inquestionáveis.

Razão e Experiência

Foi no final do século XVI e início do XVII que a ciência conseguiu desvencilhar-se das rígidas estruturas do preconceituoso racionalismo grego e lançar mão da observação e experiência como critérios de validação. As contribuições de Johanes Kepler e Ticho Brahe foram de caráter fundamental. As formulações matemáticas feita por Kepler para explicar as órbitas elípticas dos planetas e repensar o sistema heliocêntrico de Copérnico foram baseadas nas observações de Ticho Brahe cuja dedicação à técnica e paixão pelas coisas precisas possibilitaram a formulação de uma visão matematicamente consistente da astronomia[22] O esforço de Brahe no sentido de utilizar a medição e a observação representou a primeira oportunidade de crescimento significativo na metodologia científica e graças às suas observações e medidas a teorização de Kepler pode ser desenvolvida.

Contemporâneo de Kepler e Brahe, o italiano Galileu Galilei entrou para a história como o marco fundamental da disputa entre a fé cega e a razão luminosa. Procurando aferir as teorias aristotélicas Galileu propõe uma nova visão da Física e sua obra “Duas Novas Ciências” representa um marco na evolução do pensamento humano. A postura de Galileu na tentativa de verificar se aquilo que era racional era de fato real retoma e desenvolve a estrutura do pensar judaico que posicionava o homem como observador das “irracionalidades de Deus”. Observemos os seguintes trechos retirados da introdução à edição brasileira de “Duas Novas Ciências”:

“… Galileu não só ridiculariza e ataca a teoria aristotélica tradicional dos elementos, mas propõe uma alternativa metodológica baseada na observação e no experimento como principal critério da verdade. É interessante o uso de experimentos para refutar argumentos verbais apresentados pela teoria aristotélica.”[23]

Seguindo essa linha Galileu destaca em seus escritos:

“Penso que discussões sobre problemas da Física devem tomar como ponto de partida não a autoridade de passagens das Escrituras, mas, sim, experiências sensíveis e suas necessárias demonstrações. Deus não é revelado com menor excelência nos atos da Natureza do que nas afirmações sagradas da Bíblia.”[24]

Aqui, a proposta é que o problema da ciência deixe de ser teologicamente estético – no sentido de que não se pretende mais a exaltação da Perfeição e Racionalidade da Obra Divina – e desloque-se para o terreno da quantificação matemática pela observação do real. Embora Galileu tenha sido tomado como marco dessa modificação, as contribuições de Kepler e Brahe não podem ser desmerecidas.[25] A introdução na observação e experiência no processo de validação do conhecimento trouxe nova luz para o pensar humano, possibilitou o surgimento de um pequeno facho que iluminaria os séculos porvindouros.

Nesse contexto surge a necessidade do MÉTODO.

A essa época surge uma voz que dá o toque de reunir para os conhecimentos dispersos. Francis Bacon, espírito pratico e perspicaz, apresenta uma nova visão para a Ciência. No seu “Novum Organon” ele propõe:

“O homem enquanto ministro e intérprete da natureza, só faz e compreende tanto quanto lhes permitem suas observações sobre a ordem da natureza… mais do que isso não conhece, nem é capaz de conhecer.”[26]

Vemos que a temática central, proposta por Bacon, passa a ser a observação da natureza para verificação do nosso conhecimento sobre ela, a experimentação como elemento validador das nossas representações acerca da Natureza. Essa concepção, porém, limita o mecanismo do conhecimento à experiência dos sentidos.

A formulação de “O Discurso sobre o Método” de René Descartes posiciona a dúvida como forma de apreender a verdade e estabelece princípios de lógica para verificação do que é real.

As idéias de Descartes baseavam-se no pressuposto de uma dicotomia entre os dois princípios existentes no Universo: Espírito e Matéria. Na concepção cartesiana esses elemento constituiam os fundamentos de duas realidades paralelas. Essas realidades, material e espiritual, jamais interagiam em virtude de suas naturezas serem absolutamente díspares. A essa postura seguiram-se severas críticas com relação à existência do Espírito.

Uma das conseqüência da dúvida concernente à existência do Espírito foi a solidificação de uma concepção mecanicista da Natureza, segundo a qual o Universo seria uma máquina, um mecanismo movido por forças e cuja explicação sistematizava relações entre causas e efeitos. A Mecânica, oriunda dos trabalhos de Isaac Newton, conseguiu eminentes conquistas com esta interpretação do universo como máquina. Isso definiu o rumo a ser tomado pela Ciência ao ponto de séculos depois, com o advento da quântica e da relatividade homens como Einstein, Dirac, Plank, Bohr e Heinsemberg encontrarem extremas dificuldades para reposicionar a interpretação da Natureza em bases transcendentes à da mecânica newtoniana.

O Método Científico

A necessidade de métodos para validação do conhecimento foi a etapa conseqüente do processo de observação e experiência. Não basta apenas observar, tornava-se preciso delimitar critérios de observação, isolar o essencial do secundário e relacionar causas a efeitos. A metodologia científica se propõe, então, a definir regras e procedimentos que darão segurança e validade ao exercício de conhecer.

Vejamos algumas observações sobre método científico:

“O método científico é um conjunto de concepções sobre o homem, a natureza e o próprio conhecimento, que sustentam um conjunto de regras de ação, de procedimentos prescritos para se construir conhecimento científico” – Andery[27]

“Método é um procedimento regular, explícito e passível de ser repetido para conseguir-se alguma coisa, seja material ou conceitual.” – Bunge[28]

“Método científico é um conjunto de procedimentos por intermédio dos quais a) se propõe os problemas científicos e b) colocam-se à prova as hipóteses científicas” – Lakatos[29]

Observamos particularmente a última definição. Enquanto as outras duas se baseiam na idéia de propor procedimentos para validação, esta procura distinguir a forma de propor os problemas e de resolvê-los. Caracteriza duas etapas distintas do procedimento científico: a proposição metódica do problema e a explicação sistemática dele.

Neste ponto, fica bem destacado o papel da ciência como representação de uma realidade metodicamente percebida e sistematicamente explicada. Portanto, um sistema que permanece válido até que novas observações o contrariem e exijam novas representações para a explicação dos fatos.

Essa opinião é igualmente apresentada por Karl Popper e Thomas Kuhn em “Lógica da Pesquisa Científica” e “A estrutura das revoluções científicas”, respectivamente.

Para Popper a falseabilidade é utilizada como critério metodologicamente, até quando uma representação da Natureza permanecerá válida.

Da mesma forma, para Kuhn, a noção de paradigmas caracteriza a prática da ciência normal, que explora a representação do Universo até que revoluções coloquem em xeque essa mesma representação quando, então, a ciência desloca-se para um enfoque especial à procura de novos paradigmas. Em ambos os casos, a idéia de conhecimento científico como representação, e a necessidade de método para erigir esse mesmo conhecimento, fica suficientemente realçada.

Para compreender a Ciência

A concepção científica da humanidade tem evoluído com o passar dos tempos. Merece ser considerada a proposta de Karl Raimund Popper. Ele vê a ciência como uma interpretação parcial e temporária de uma realidade existente; uma interpretação atualizável porém nunca exata.

Essa mesma percepção é apresentada por Albert Einstein e Leopold Infield em “A Evolução da Física”:

“Em nosso esforço para compreender a realidade somos algo semelhante a um homem tentando compreender o mecanismo de um relógio fechado. Ele vê o mostrador e os ponteiros em movimento, até ouve o seu tique-taque, mas não tem meio algum de abrir a caixa. Se for engenhoso, poderá formar alguma imagem de um mecanismo que seria o responsável por todas as coisas que observa, mas jamais poderá estar bem certo de que sua imagem seja a única capaz de explicar as suas observações. Jamais poderá comparar esta imagem com o mecanismo real e não pode sequer imaginar a possibilidade ou o significado de tal comparação. Mas certamente acredita que, com o aumento de seus conhecimentos, a sua imagem da realidade se tornará cada vez mais simples e explicará uma gama cada vez maior de suas impressões sensoriais. Pode também acreditar na existência do limite ideal de conhecimento e que a mente humana dele se aproxima. Poderá chamar este limite ideal de a verdade objetiva”[30]

Esta visão da Ciência como representação e explicação de uma realidade percebida, sujeita a mudanças e atualizações estabeleceu um novo parâmetro para as concepções humanas que da Antiga Grécia às concepções de Popper pretende estabelecer a Ciência como uma das tentativa humana de encontrar padrões e estabelecer relações que nos permitam compreender o mundo através da proposição de modelos. Além disso, em 1962, com o lançamento do livro “A estrutura das revoluções científicas”, Thomas Kuhn critica o conceito de ciência, e de método científico, apresentando uma noção ainda mais explícita da ciência como representação temporal de problemas, percebidos e propostos a partir de determinadas idéias que são compartilhadas pelas comunidades científicas: os paradigmas.

Nesse sentido ele esclarece[31]

“A pesquisa eficaz raramente começa antes que uma comunidade científica pense ter adquirido respostas seguras para perguntas como: quais são as entidades fundamentais que compõem o universo? como interagem essas entidades umas com as outras e com os sentidos? que questões podem ser legitimamente feitas a respeito de tais entidades e que técnicas podem ser empregadas na busca de soluções?”

Tal visão recoloca o papel da filosofia no contexto da ciência e introduz o conceito de paradigma como pressupostos, leis, métodos e técnicas aceitas e demonstradas para uma comunidade científica e que fundamenta todo o trabalho de pesquisa daquela comunidade.

Como teremos a oportunidade de demonstrar, esse foi exatamente o procedimento de Kardec ao abordar a questão do espírito: identificar a natureza do problema; os métodos que poderiam ser aplicados na solução dele; as entidades fundamentais que deveriam ser tomados como pressupostos para a colocação dos problemas; as experiências que poderiam ser feitas para validar as hipóteses e, conforme a proposta de Popper, os fatos que falseariam a teoria no caso de ocorrem. Essa lucidez kardequiana foi o motivo mais forte pelo qual Camille Flammarion referiu-se ao Codificador do Espiritismo como “o bom senso encarnado”.[32]

O Espiritismo

Origens

O Espiritismo surgiu na França a 18 de abril de 1857, com o lançamento da obra “O Livro dos Espíritos”. Essa data desponta, no entanto, como um ponto crucial em que culmina um trabalho de quase uma década.

Os fatos que deram origem ao Espiritismo ocorrem desde que se tem notícia do homem, posto que todas as culturas reportam-se a comunicações efetuadas entre vivos e “mortos”. No entanto, foi a partir de 31 de março de 1848 que o mundo ocidental pareceu se preocupar mais com os fenômenos de comunicação mediúnica. Após os fenômenos de Hydesville, o mundo inteiro foi invadido pela chamada dança das mesas. Em 1854, por intermédio do Sr. Fortie, seu amigo pessoal, Hyppolyte Léon Denizard Rivail, entrou em contato com os referidos fenômenos. Após três anos de pesquisas vem a lume “O Livro dos Espíritos”. Nele está a assinatura de Allan Kardec, pseudônimo de Rivail. Surgia o Espiritismo como uma doutrina de origens científica, de caráter filosófico e de conseqüências religiosas[33]

O Espiritismo se apresentou como uma nova visão para os problemas até então relegados ao campo do maravilhoso e do sobrenatural, mas a primeira preocupação do Prof. Rivail foi justamente a de reposicionar o problema sob o ponto de vista do natural. Dessa preocupação com a maneira de propor e tratar o problema evidencia-se uma postura metódica que busca definir o universo no qual o problema está inserido.

Apesar de a comunicação com os Espíritos estar reportada ao longo de toda a história da humanidade como uma relação mística, de caráter maravilhoso e sobrenatural Rivail efetua pesquisas como quem está lidando com uma potência da natureza cujo tratamento deve ser de observação e crítica; dúvida e ponderação e não mais uma crença cega ou obstinada negação. Cabia-lhe a observação metódica partindo da verificação da veracidade dos fatos até à explicação dele por um sistema de leis que possibilitassem o entendimento humano.

Aplicando aos “fatos espíritas” a mesma metodologia empregada para analisar os problemas científicos da época, Kardec deu um passo decisivo na abordagem de uma área que, até então, permanecia intocável para a Ciência. Propondo questões e compilando leis através de uma abordagem metódica e sistematizada, ele desafiava outros pesquisadores a examinar os fatos e propor novos modelos com suas respectivas soluções para os fatos observados. Vejamos suas palavras:

“Resumimos nas proposições seguintes o que havemos expendido:

1. Todos os fenômenos espíritas têm por princípio a existência da alma, sua sobrevivência ao corpo e suas manifestações.

2. Fundando-se numa lei da Natureza, esses fenômenos nada têm de maravilhosos, nem de sobrenaturais, no sentido vulgar desses palavras.

3. Muitos fatos são tidos por sobrenaturais, porque não se lhes conhece a causa: atribuindo- lhes uma causa, o Espiritismo os repõe no domínio dos fenômenos naturais.

4. Entre os fatos qualificados de sobrenaturais, muitos há cuja impossibilidade o Espiritismo demonstra, incluíndo-os em o número das crenças supersticiosas.

5. Se bem reconheça um fundo de verdade em muitas crenças populares, o Espiritismo de modo algum dá sua solidariedade a todas as histórias fantásticas que a imaginação há criado.

6. Julgar do Espiritismo pelos fatos que ele não admite é dar prova de ignorância e tirar todo valor à opinião emitida.

7. A explicação dos fatos que o Espiritismo admite, suas causas e conseqüências morais, forma toda uma ciência e toda uma filosofia, que reclama estudo sério, perseverante e aprofundado.

8. O Espiritismo não pode considerar crítico sério, senão aquele que tudo tenha visto, estudado e aprofundado com a paciência e a perseverança de um observador consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto qualquer adepto instruído; que haja, por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da ciência; aquele a quem não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que não já não haja cogitado e cuja refutação faça, não por meio de mera negação. mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente, que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhes aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.”[34]

Diante dessas palavras, observamos que a postura do Espiritismo, frente aos fenômenos observados – e que antes eram enquadrados no campo do maravilhoso e do sobrenatural – , é a de lhes assinalar uma causa natural, que estivesse fundamentada numa visão realística da natureza, despojada de mitos ou crenças irracionais. Os fenômenos são colocados do ponto de vista de uma filosofia global que pressupõem, como toda e qualquer ciência, a existência de entidades básicas no universo, as quais fundamentam a explicação desses mesmos fenômenos.

Dessa forma, Kardec efetuava, com toda propriedade, uma revolução na maneira de abordar a questão do espírito, a qual permanecia relegada ao plano da Filosofia, da Religião e do Misticismo. Sua postura é inicialmente a de tentar identificar, no problema, uma solução coerente com o mecanicismo vigente na Ciência de então.

Tentando identificar explicações de caráter puramente “material” Kardec depara-se com anomalias expressivas que impossibilitam o enquadramento dos fenômenos nos moldes da Ciência corrente. Sua postura é idêntica à referenciada por Thomas Kuhn:[35]

“Confrontando com uma anomalia reconhecidamente fundamental, o primeiro esforço teórico do cientista será, com freqüência, isolá-la com maior precisão e dar-lhe uma estrutura. Embora consciente de que as regras da ciência normal não podem estar totalmente certas, procurará aplicá-las mais vigorosamente do que nunca, buscando descobrir precisamente onde e até que ponto elas podem ser empregadas eficazmente na área de dificuldades.”

Esta posição de Kardec fica bem destacada na introdução de O Livro dos Espíritos, quando ele descreve:

“Se tal fenômeno (o das mesas girantes)[36] se houvesse limitado ao movimento de objetos materiais, poderia explicar-se por uma causa puramente física. Estamos longe de conhecer todos os agentes da Natureza ou todas as propriedades dos que conhecemos: a eletricidade multiplica diariamente os recursos que proporciona ao homem e parece destinada a iluminar a Ciência de uma Luz nova. Nada de impossível haveria, portanto, em que a eletricidade modificada por certas circunstâncias, ou qualquer outro agente desconhecido, fosse a causa dos movimentos observados. O fato de que a reunião de muitas pessoas aumenta a potencialidade da ação parecia vir em apoio dessa teoria, visto poder-se considerar o conjunto dos assistentes como uma pilha múltipla, com seu potencial na razão direta do número dos elementos.”

É clara a postura de Kardec. Primeiramente ele pretendeu aplicar aos fenômenos sob análise dos crivos da ciência corrente, com seus métodos, pressupostos, e conceitos. O fato de procurar, na eletricidade, uma possível explicação para os fenômenos mostra seu rigor metodológico de buscar primeiramente nos elementos conhecidos, ou paradigmáticos, como propõe Kuhn, as causas desses mesmos fenômenos. Não encontrando porém, lança mão de novas alternativas ao colocar o problema para o campo da Ciência.

Mas, conforme o destacamos acima, a Ciência não é isenta de juízos de valor e o assunto não recebeu a abordagem merecida. Os sábios da época, representantes da Ciência, tratavam da questão com desdém, como se ela não existisse. A Ciência de então procurava abordar o problema segundo o ponto de vista mecânico e a influência do Positivismo foi marcante, tanto no sentido da abordagem kardequiana como na negação dos sábios de então. É Kardec quem destaca:

“Até aí, como se vê, tudo pode caber no domínio dos fatos puramente físicos e fisiológicos. Sem sair desse âmbito de idéias, já havia ali, no entanto, matéria para estudos sérios e dignos de prender a atenção dos sábios. Porque assim não aconteceu?”[37]

A pergunta é incisiva e podemos imaginar uma resposta. Ocorre que os fatos fugiam dos limites da ciência de então. As teorias e pressupostos não se aplicavam à nova ordem de fatos que ali se demonstrava. Muitos querendo verificar a realidade deles pretenderam reproduzir o fenômeno a seu bel prazer, acreditando que ele se dava de conformidade com os preparativos humanos, como ocorre com os estudos físicos.

“Mas ocorreu – diz Kardec – que o fenômeno nem sempre lhes correspondeu à expectativa e, do fato de não se haver produzido constantemente à vontade deles e segundo a maneira de se comportarem na experimentação, concluíram pela negativa. Mau grado porém, ao que decretaram, as mesas – pois que há mesas – continuam a girar e podemos dizer com Galileu: todavia, elas se movem!. Acrescentaremos que os fatos se multiplicaram de tal modo que desfrutam hoje do direito de cidade, não mais se cogitando senão de lhes achar uma explicação racional.”[38]

Foi então que o Espiritismo se apresentou como uma ciência que pretende oferecer uma explicação racional e coerente com os fatos observados, livre do espírito de sistema. Criticado pelos religiosos por ser demasiadamente metódico e racional no trato com fenômenos espirituais, e enquanto os cientistas lhe acusavam se ressucitar o mito do Espírito, o Espiritismo apresentava fatos e conclusões inaugurando a fase crítica da revolução do espírito.

O Positivismo de Augusto Comte ( 1798 – 1845 )

Para melhor entendimento do contexto e da dimensão do Espiritismo, precisamos vislumbrar o horizonte cultural da França no século XIX. Em particular, sob o ponto de vista da Ciência, necessitamos observar o movimento Positivista de Augusto Comte e tentar apreender quais as influências que esse movimento teve sobre o Espiritismo.

O Positivismo surge como uma nova visão da forma como o homem tem se relacionado, ao longo do tempo, com a Natureza. Assume a postura de instrutor do intelecto humano e pretende elevar o homem no sentido de abranger pela explicação, dita positiva, os fenômenos observados. Mas o movimento positivista tem como proposta central uma tentativa de transformar a Ciência em Religião.

Observemos as citações sobre o Positivismo colocadas por Maria Amália Andery:

“Comte elabora (…) uma proposta para as ciências, pretende ser o fundador de uma nova ciência – a sociologia e funda uma religião”[39]

E Verdenal destaca:

“…Em última análise o positivismo é a fórmula filosófica que permite transmutar a ciência em religião: a ciência desembaraçada de todo além teórico da especulação, converte-se em religião despojada de perspectiva teológica e reduzida aos fatos da prática religiosa: os ritos sociais.”[40]

O pensamento de Comte propõe em primeiro lugar três momentos para a historia da humanidade: o estado teológico, o metafísico e o positivo. E, de maneira sistemática, pretende aplicar esses estados a todos os episódios da aventura humana. Cada estado, segundo Comte, é caracterizado por abordagens e pressupostos próprios. O teológico pela busca de causas divinas e sobrenaturais para os fenômenos do Universo; o metafísico por causas e forças abstratas, ainda personificadas e com moto próprio; e o positivo pelo busca de um mero relacionamento entre causa e efeito na explicação, que mais se assemelha a uma descrição, dos fenômenos.[41]

Essa interpretação positiva da evolução humana trouxe uma conseqüência particular para a abordagem científica. A Ciência deixou de ocupar-se com as causas dos fenômenos no sentido de identificar-lhes as origens; importava agora uma abordagem descritiva que relacionasse causas a efeitos no sentido de explicar o como e não o porquê. Para Comte o conhecimento científico é baseado na observação de fatos e nas relações entre eles. Essas relações são estabelecidas pelo raciocínio e excluem as tentativas de descobrir a origem, ou uma causa subjacente aos fenômenos. São, na verdade, descrições das leis que os regem, nada mais.

É importante destacar que a visão da Natureza como um grande mecanismo, a visão mecanicista, teve uma influência decisiva na tomada desse rumo por parte da Ciência. A conseqüência mais direta para esse tipo de abordagem foi o fortalecimento de uma visão exclusivamente materialista do Universo, visão essa assumida pela Ciência e sistematizada no campo da História e da Economia com o advento do Materialismo Histórico Dialético de Karl Max e Friederich Engels.

O pensamento de Comte, exposto no Positivismo, tem alguns pressupostos que também merecem ser considerados, vejamos:

• A natureza é um conjunto de leis eternas e imutáveis.

• O progresso é uma sucessão linear de aquisições cuja base fundamental e a ordem.

• O conhecimento científico é real porque parte do real.

Merece destacar o último pressuposto de Comte, que nos leva a ver o conhecimento científico como absoluto, não uma representação da nossa percepção da realidade, mas a formulação da realidade em si mesma. Para Comte a metodologia da ciência deve ser a ordem. A partir daí o progresso é sempre crescente e linear porque o conhecimento adquirido é absolutamente correto e, portanto, não tem que se preocupar com o que já foi “conhecido”.

O tempo se encarregou de demonstrar o quão errada estava essa posição.

O Espiritismo – seu aspecto de ciência

“O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia ele compreende todas as circunstâncias morais que decorrem dessas relações.

“Podemos definí-lo assim: ‘O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal.’ ” – Allan Kardec[42]

Vemos que Kardec procurou caracterizar o Espiritismo como uma ciência e enfaticamente qualificou-o de ciência de observação. Segundo ele, este caráter científico do Espiritismo é decorrente do método empregado para a construção do conhecimento:

“Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental.[43]

Com o termo ciência positiva Kardec faz referência ao Positivismo. Sem pretender vincular o Espiritismo à interpretação sistêmica de Comte, destaca, contudo, o caráter de objetividade que as pesquisas espíritas possuíam com relação ao emprego do método experimental. O Espiritismo agiu com os fenômenos sob sua análise da mesma forma que o Positivismo propunha a análise dos fenômenos físicos: identificando os efeitos e procurando-lhes uma explicação objetiva e racional.

Foi exatamente o emprego deste método experimental que conferiu no alvorecer do século XVII o caráter de distinção ao conhecimento científico. As experiências de Brahe e Galileu trouxeram as questões científicas do terreno das indagações para o campo da observação experimental. Este foi o mesmo método empregado por Kardec: trouxe a problemática do Espírito do plano especulativo para o ambiente da observação. Os fatos lá estavam e necessário era se lhes dessem alguma explicação. O Espiritismo surgiu então como um sistema doutrinário de caráter científico, quando se reporta aos fatos observados e experimentados, e de caráter filosófico quando reflete a respeito das conseqüências dessas explicações para o pensamento e conduta humanos.

No entanto, o Espiritismo se apresenta de maneira distinta das ciências do século XIX , tanto em proposição de problemas quanto no objeto de suas pesquisas. É este objeto de reflexão que distingue o Espiritismo enquanto disciplina científica.

Recorramos à percepção de Kardec:

“Assim como a Ciência, propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da Natureza, a reagir incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, segue-se que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do outro. “[44]

O Objeto de pesquisa do Espiritismo: as leis do princípio espiritual

A partir da concepção racionalista dos gregos, a Ciência definiu-se como uma pesquisa de elementos naturais. Procurando identificar nos fenômenos uma causa que não fosse sobrenatural e o homem pretendeu compreender as leis que regem os fenômenos sob sua observação.

Quando a Ciência veio a libertar-se das amarras da religião, procurou assentar sua atenção sobre a Física como estudo da Natureza. Esse estudo baseou-se na pesquisa sobre o elemento material. O elemento espiritual foi suprimido da especulação pois pertencia ao domínio da teologia. Era um mistério, e como os mitos gregos, deveria permanecer assim. Haviam portanto dois elementos: um material – acessível ao conhecimento humano pelas vias da observação; espiritual, o outro – inacessível à percepção e ao entendimento humanos.

Nos chamados milagres, que eram fenômenos sobrenaturais, as leis da matéria eram quebradas e a ação do elemento espiritual permanecia misteriosa, inacessível, misticamente dogmática.

Kardec, como codificador do Espiritismo, observa que:

“As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam no método experimental, até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas.”[45]

Como coisas metafísicas Kardec engloba aquelas cuja base está no elemento espiritual, que estão além da física (na concepção aristotélica e newtoniana).

É preciso lembrar a noção de matéria vigente no século XIX era a de uma substância formada por átomos “sólidos”, indivisíveis. Além disso, o pensamento cartesiano estabeleceu um princípio de dicotomia entre Espírito e Matéria como duas realidade absolutamente distintas que de modo algum interagem.

O elemento material fundamentava a concepção da física mecanicista e fornecia a base para as pesquisas da Ciência. Pesquisar o elemento material era pesquisar o que estava na Natureza. O elemento espiritual referia-se ao sobrenatural e para o progresso da Ciência, então materialista, devia ser ignorado, posto que não existia, que não estava na Natureza. A pesquisa da Ciência voltava-se para a aplicação de métodos experimentais no estudo dos fenômenos da matéria – como era entendida. Os métodos aplicados baseavam-se nas concepções mecânicas e procuravam identificar o como e não o porquê das coisas, seguindo o pensamento positivista. Destacamos que os métodos de pesquisa empregados na obtenção do conhecimento voltavam-se para a análise de elementos materiais. A tradição científica havia se especializado na compreensão deste elemento: o material.

O Espiritismo vem buscar novos referenciais para a explicação dos fatos sob sua observação, e para isso, procura entender as leis que regem o elemento espiritual. Entretanto, o “elemento espiritual” referido por Kardec é de ordem diferente. Esse “elemento espiritual” apresenta-se sob diversas e distintas formas; possui leis de regência próprias e é responsável pela explicação de inúmeros fenômenos até então inexplicáveis.

Na proposição dos elementos fundamentais do Universo, o Espiritismo coloca:

DEUS – inteligência Suprema e causa primária de todas as coisas.

ESPÍRITO – o elemento inteligente do universo;

MATÉRIA – o elemento do qual o Espírito se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, atua; e

FLUIDO UNIVERSAL – elemento intermediário entre o Espírito e a Matéria.

Como podemos ver, as entidades fundamentais no processo de proposição de novas leis, está colocada. A discussão do Espiritismo sobre os fatos está baseada, como qualquer outra ciência, em pressupostos filosóficos. Deus, Espírito e Matéria são os elementos basilares do Cosmo; mas ao elemento material necessário é acrescentar-se o Fluido Universal, um elemento com características bastante peculiares e que funciona, sob algumas de suas transformações, como a “matéria” do mundo espiritual. Para uma análise mais aprofundada a respeito dos elementos fundamentais do Universo na visão espírita, recomendamos a leitura do capítulo IV do livro “O PASSE – SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA” de Jacob Melo.

Em “O Livro dos Espíritos” na questão 23 a Kardec questiona:

“Qual a natureza íntima do Espírito?

– Não é fácil analisar o Espírito com a vossa linguagem. Para vós ele nada é, por não ser palpável. Para nós entretanto, é alguma coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe.”[46]

A resposta deixa bem claro que o Espírito é um ser “substancial” e não uma abstração idealizada. Esse ponto de vista a respeito do Espírito colocou o Espiritismo numa posição de vanguarda para analisar os fenômenos da mediunidade. Uma vez que o Espírito era em si mesmo alguma coisa, a idéia de agir sobre a matéria já não permanecia tão absurda quanto o era na concepção de Descartes. Para Kardec ficou tão clara a realidade da substância que na questão 28 ele propõe:

“Pois que o Espírito é, em si, alguma coisa, não seria mais exato e menos sujeito a confusão dar aos dois elementos gerais (Espírito e Matéria) as designações de – matéria inerte e matéria inteligente?

As palavras pouco nos importam. Compete a vós formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos.”[47]

Não é sem oportunidade a colocação de Kardec. Para os extremados soa, inclusive, como um ponto de vista que corrobora o Materialismo. Na verdade, o que se pretende é destacar o caráter de realidade do elemento inteligente do universo.

Uma vez que entendemos os elementos fundamentais colocados pelo Espiritismos para equacionar o Universo, podemos identificar que o elemento espiritual que é objeto de pesquisa da ciência espírita, é, por assim dizer, bastante espiritual, daí porque a colocação de Kardec a respeito da interação e cooperação da Ciência com o Espiritismo:

“O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam o apoio e a comprovação.[48] ” – Kardec (Voltaremos a comentar esta citação mais adiante)

A Ciência estudaria o elemento material e suas leis, o Espiritismo, o elemento espiritual..

Espiritismo e Ciência

Kardec não entende o Espiritismo como de competência da Ciência vigente no século XIX.. Por ser materialista a abordagem científica e pelos métodos de pesquisa que procuravam as leis do elemento material, a Ciência, de então, enquanto método de pesquisa e pelos objetos de estudo que elegeu, colocava-se, em sua própria constituição, à distância do estudo do elemento espiritual, relegando-o ao campo do sobrenatural.

Afirmando que:

“Desde que a Ciência sai da observação material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar, o campo está aberto às conjecturas.”

Kardec conclui:

“As ciência ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular livremente; os fenômenos espíritas repousam na ação de inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se acharem subordinadas aos nossos caprichos. As observações não podem, portanto, serem feitas da mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida. Querer submetê-las aos processos comuns de investigação é estabelecer analogias que não existem. A Ciência propriamente dita, é, pois, como ciência[49] , incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter. O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal, que os sábios, podem adquirir, abstração feita da qualidade de sábios. Pretender deferir a questão à Ciência equivaleria a querer que a existência ou não da alma fosse decidida por uma assembléia de físicos ou de astrônomos. Com efeito, o Espiritismo está todo na existência da alma e no seu estado depois 50 da morte. (…) Vedes, portanto, que o Espiritismo não é da alçada da ciência.”[50]

E, por fim, complementa:

“(…) desde que se trata de uma manifestação que se produz com exclusão das leis da Humanidade, ela escapa à competência da ciência material, visto que não pode explicar-se por algarismos, nem por uma força mecânica.”[51]

Nossa primeira observação a respeito desse trecho é o sentido das palavras Ciência, com “C” maiúsculo e ciência com “c” minúsculo. Pelo contexto em que ele vem utilizando esses termos, poderíamos substituir ciência com “c” minúsculo por método utilizado e então a expressão torna-se mais clara e possibilita melhor entendimento das seguintes palavras contidas em “A Gênese” sobre o Espiritismo e a Ciência.

“O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam o apoio e a comprovação. “[52] – Kardec

E prossegue:

“Pela sua substância, (o Espiritismo) alia-se à Ciência que, sendo a exposição das leis da Natureza, com relação a certa ordem de fatos, não pode ser contrária às leis de Deus, autor daquelas leis. (…)

Vemos então que a reserva colocada por Kardec ao estudo dos fatos “espíritas” por parte da Ciência trata-se de uma coerência com os objetos e métodos desta própria ciência, que se auto restringiu à pesquisa dos objetos materiais e das leis que os regem, os quais são passíveis de explicação por algarismos e forças mecânicas. Os fatos que se apresentavam não se enquadravam nesta ordem de fenômenos, daí a afirmação de Kardec de que o Espiritismo não era da alçada da ciência, de então, enquanto enfoque metodológico.

Entretanto, a restrição não se faz de maneira absoluta. Kardec pôde perceber que o Espiritismo estudava uma potência da Natureza, o Espírito, e que, portanto, não poderia seguir um caminho isolado. Sabia que o elemento espiritual não atuava sozinho e reconhecia que alguns tópicos estudados pelo Espiritismo, necessariamente seriam abordados pelas demais ciências. Daí a suas criteriosas observações a respeito dos pontos de contatos entre o Espiritismo e as outras ciências:

“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrasse estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”[53]

Essas percepções acerca do Espiritismo deixam bem caracterizada a posição de Kardec com relação à estrutura do conhecimento espírita, que não é de modo algum fechado em si mesmo. Ele entendia o Espiritismo como uma representação de nossas atuais percepções acerca de uma determinada ordem de fatos – os espirituais; e propunha que esta representação não fosse estática, mas continuamente atualizável como o resto do conhecimento científico.

Cabe ressaltar que a representação dos fenômenos espirituais colocada pelo Espiritismo possui como fundamento a observação de fatos e a experimentação segundo as técnicas permitidas pela tecnologia vigente. Desse modo, foi na observação dos fatos que o Espiritismo fundamentou sua metodologia de conhecimento.

Observemos, novamente, as palavras de Kardec a respeito do método experimental:

“As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental, até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas.”[54]

E com relação ao Espiritismo, ele destaca:

“Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos se apresentam que não puderam ser explicados pelas leis conhecidas; ele (o Espiritismo) os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega às leis que os rege; depois deduz-lhe as conseqüências e busca as aplicações úteis.”[55]

Afirmando categoricamente[56] que não são os fatos que vêm a posteriori confirmar a teoria, mas a teoria é que vem subseqüentemente explicar e resumir os fatos, Kardec acrescenta:

“O Espiritismo, pois, não estabelece como princípio absoluto senão o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação.”[57]

Essa posição levou o Espiritismo a uma situação de vanguarda na pesquisa dos fenômenos espirituais.

A abordagem espírita – metodologia aplicada ao elemento espiritual

A abordagem que o Espiritismo propõe às questões envolvendo o Espírito estão em plena coerência com o conceito de que metodologia científica ” é um conjunto de procedimentos por intermédio dos quais a) se propõe os problemas científicos e b) colocam-se à prova as hipóteses científicas” [58]

É assim que a primeira proposta do Espiritismo com relação à maneira de abordas as questões pertinentes aos Espíritos seja uma mudança sobre a forma como o problema é proposto. Analisemos a opinião de Kardec continua em o Livro dos Médiuns:

“A dúvida, no que concerne à existência dos Espíritos, tem como causa primária a ignorância acerca da verdadeira natureza deles. Geralmente, são figurados como seres à parte na criação e de cuja existência não está demonstrada a necessidade.”[59]

E propõe:

“O Espírito não é, pois, um ponto, uma abstração; é um ser limitado e circunscrito, ao qual só falta ser visível e palpável, para se assemelhar aos seres humanos.”[60]

Essa maneira de propor o Espírito como uma potência da natureza cuja existência possui um caráter substancial e não abstrato, removeu as barreiras da abordagem metodológica, segundo a qual o Espírito era inacessível à pesquisa científica por tratar-se de uma abstração. Kardec devolve o Espírito para o plano real e pretende abordá-lo com o mesmo enfoque com que a ciência do seu século estudava a Matéria: como uma das potências da Natureza.

Seguindo essa linha de proposição, Kardec defini o Espiritismo como:

“..ciência que trata da natureza origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.[61]

O problema passou a ser percebido com método; pode ser resolvido com um sistema de leis explicativas, que ressaltaram da observação e abriu-se para as críticas e correções que, segundo a percepção de Kardec, necessariamente ocorreriam com o desenvolvimento natural da pesquisa.

É ele mesmo quem propõe que a melhor forma de combater a explicação espírita é oferecendo uma mais adequada aos fatos observados, em sua totalidade e não isoladamente; isto é, oferecendo uma teoria que explicasse de uma só vez e com a mesma elegância os fatos estudados pelo Espiritismo.

A abordagem kardequiana mostrou-se tão segura que imediatamente surgiram outras posições como as da Metapsiquica Francesa, de Charles Richet, e da Parapsicologia Alemã; como outras tentativas para explicação dos fatos analisados. Eminentes pesquisadores engajaram-se na elucidação dos fatos estudados pelo Espiritismo. Homens como Friederich Zölnner, Alexandre Aksakof, Gustave Geley, Cammile Flammarion, Cesare Lombroso, Gabriel Dellane; William Crockes; Albert de Rochas; Crawford; Bozzano, entre outros dedicaram suas pesquisas aos fenômenos em questão. Mas esses mesmos fenômenos permanecem, até o momento, desprezados pela chamada ciência oficial – ainda não destituída dos seus juízos de valor.

Apesar deste elemento espiritual ser desprezado pela dita ciência oficial ressaltamos aqui as palavras de Brockman inseridas na introdução:

“Uma das ironias da ciência é que os pesquisadores em todos os campos parecem gostar de decidir quem de suas fileiras está transpondo os limites aceitáveis da invenção em busca do conhecimento científico e quem é culpado de inventar algo que pertença mais ao domínio da pseudo ciência ou mesmo da religião. ”

É preciso que se retome as opiniões de Kardec acerca da postura da Ciência. Se ela deseja demonstrar que o Espiritismo está errado deve fazê-lo com a observação dos fatos por ele estudados. Se insiste que estes fatos não existem então demonstre que eles são realmente impossíveis de acontecer e se ocorrem apresente explicações mais coerentes acerca das observações. O Espiritismo será o primeiro a seguir-lhe, conforme afirmou Kardec.

Os fatos existem e não se pode fugir deles. O Espiritismo apresenta suas conclusões baseadas em observações e apoiadas numa metodologia e portanto, é uma explicação de caráter científico. A explicação espírita está proposta. É preciso que outras apareçam para que se possa avaliar qual a que melhor representa a realidade dos fenômenos observados.

Podemos verificar, então, que o Espiritismo possui um aspecto de ciência muito bem definido: procura, através da observação e experimentação, extrair uma representações das leis que regem os fenômenos espirituais, aqueles cuja origem se encontra no elemento espiritual, que seja coerente com os fatos sob observação.

Contudo, o Espiritismo não tem apenas o caráter científico. É filosófico e religioso também. E isso tem sido motivo de profundos desentendimentos e incompreensões.

Natureza do conhecimento Espírita

O Conhecimento Espírita transcende ao caráter puramente científico. Pela sua essência deságua numa estrutura de conhecimento filosófico que implica num redimensionamento da postura do sujeito com relação ao universo conhecido, objeto de suas reflexões.

Como forma de conhecimento o Espiritismo precisa acompanhar a posição da Ciência, e divide com ela fatias do seu objeto de pesquisa, já que na atualidade é tendência que o “elemento espiritual” possa fazer parte das conjecturas científicas, que deixam de ser estritamente “materiais”.

Vale ressaltar que uma tendência à qual a Doutrina Espírita não está inclinada é a de estabelecer seus princípios como verdades incontestáveis. O Espiritismo, desde Kardec, reconhece seu caráter representativo e atualizável. É Kardec mesmo que propõe aos opositores do Espiritismo que expliquem melhor, isto é, com um modelo mais adequado o conjunto de fenômenos que o Espiritismo explica.

A estrutura da Doutrina Espírita é de origem humana e espiritual, já que é um conhecimento oriundo dos Espíritos, mas a sua representação, validação e sistematização são de caráter essencialmente humanos, confeccionados pelos homens. Por este mesmo motivo não está isenta de erros, inerentes à interpretação e representação das questões. A pedra de toque utilizada para a validação dos princípios, mais do que as idéias, são os fatos.

A postura espírita perante o Universo é bastante semelhante à postura das outras ciências: O Espiritismo, partindo de alguns pressupostos fundamentais, como a existência de Deus e da Alma, em observando fatos objetivos, compõe um modelo explicativo para o fenômeno e testa se o modelo é adequado aos fatos observados. Tal modelo é aceito até que a experimentação demonstre que ele está equivocado. então, outro modelo é proposto.

Enquanto ciência o Espiritismo interpreta um conjunto objetivo e restrito de fatos, para a partir das leis que estes demonstram, e que os homens interpretam, edificar um conjunto de conhecimentos filosóficos capazes de simbolizar o universo na idéia humana. Importante perceber que na elaboração da Filosofia Espírita entram não somente os dados da Ciência Espírita, mas de todo o conhecimento científico, daí o afirmar Kardec que a Ciência e o Espiritismo se completam. Com base nesta elaboração filosófica é que decorre, por uma necessidade de coerência entre teoria e prática, uma mudança de comportamento ético, decorrente da Filosofia Espírita. Para aquelas que se detém na ciência espírita, a mudança de comportamento é uma abstração carente de sentido pois somente o caráter filosófico do Espiritismo induz a uma nova postura ética. Daí o afirmar Kardec:

“Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso.”[62]

O aspecto religioso do Espiritismo ressalta dos seus pressupostos: Deus, existência da alma, etc. E principalmente pelo caráter de revivecência da ética cristã, igualmente decorrente de sua filosofia. Além disso, a proposta de levar o homem a uma experiência existencial de auto-realização pelo progresso; pelo desenvolvimento dos potenciais intuitivos e pela comunhão e integração consigo, com o próximo e com Deus – que o Espiritismo propõem, caracterizam-no como uma religião transcendente aos ritos e dogmas.

O conhecimento espírita é um conhecimento de tríplice aspecto. Está fundamentado na Ciência, edifica-se na Filosofia e evidencia-se na prática. É a prática, coerente com a filosofia, o caráter fundamental da religião espírita. A religião espírita não se mostra no culto realizado no templo, mas como expressão de viver, como atividade prática, exercício de vida, na coerência entre saber e agir, um mecanismo profundo de sentir e experienciar a vida.

O não entendimento deste aspecto tríplice do Espiritismo tem levado alguns a posições extremadas e atitudes incoerentes com a essência da Doutrina Espírita. A tendência eminentemente religiosa ou a pura especulação filosófica ou ainda a fria pesquisa científica são aspectos isolados que não possuem a coerência que o Espiritismo lhes dá. A estrutura de conhecimento do Espiritismo é uma proposta de educação integral para personalidade humana.

Uma dimensão do conhecimento que não pode ser desprezada pelo Espiritismo é a Arte. Como mecanismo de conhecimento e vivência, a arte desperta realidades para a alma de maneira inexprimível em argumentos lógicos. Kardec preocupava-se com a questão. Encontramos em Obras Póstumas as seguintes afirmações a respeito do assunto:

“Assim como a arte cristã sucedeu à arte pagã, transformando-a, a arte espírita será o complemento e a transformação da arte cristã”[63]

E complementa:

“Sem dúvida, o Espiritismo abre à arte um campo inteiramente novo, imenso e ainda inexplorado.”[64]

De fato, a opinião de Kardec vai até aí: esta profunda influência que o Espiritismo teria sobre a Arte. Sua opinião é de que a Filosofia Espírita erigiria uma Arte Espírita, mas como uma demonstração descritiva.

Entretanto, a simples preocupação com o caso, por parte do Codificador do Espiritismo, deixa-nos ainda mais à vontade para apontar a Arte como um dimensão extra para a Natureza do conhecimento espírita. Ciência, Filosofia, Religião e Arte seriam, pois, aspectos de percepção para tornar o Espírito educado para a realidade da vida.

A proposta de educação integral que o Espiritismo vem apresentar à humanidade pretende colocá-la no plano do desenvolvimento de todas as potencialidades para uma íntima integração do ser consigo, com o próximo e com Deus. Mas essa integração não é apenas de caráter racional; é também de conotação profundamente afetiva.[65]

 

Reflexões finais

Pudemos verificar que o Espiritismo possui um aspecto de ciência. Porém não podemos afirmar que tal aspecto vem sido desenvolvido no Movimento Espírita de maneira geral.

É preciso se destaque dois elementos no contexto do Espiritismo: o Espiritismo enquanto conhecimento – A Doutrina Espírita; e o Espiritismo enquanto fenômeno social – o Movimento Espírita. A Doutrina Espírita é de caráter tríplice. Deve ser observado sob este ponto de vista. Sua estrutura é bidirecional, influência os demais ramos do conhecimento e é por eles influenciada. Está naturalmente sujeita ao progresso e esforça-se por fazê-lo. O Movimento Espírita é de iniciativa de grupos. Recebe influência direta da Doutrina Espírita e pretende ser a aplicação desta. Mas nem sempre é isto o que ocorre. Aqui é que vamos identificar a estagnação do aspecto científico do Espiritismo.

Por motivos os mais variados possíveis, cuja análise não cabem neste contexto, o Movimento Espírita de modo geral descuidou-se do aspecto científico da Doutrina Espírita.

A pesquisa espírita precisa ser ressucitada. Enquanto a Ciência evoluiu, o aspecto científico do Espiritismo permaneceu centrado no século XIX.

Hoje se dispõem de modernos arsenais tecnológico cujo emprego poderão trazer significativas conquistas para elucidação de problemas pertinentes ao Espiritismo . Urge retomar a linha traçada por Kardec, mas é preciso igualmente cautela. Não se faz ciência apenas com boa vontade, outros requisitos são necessários. E na retomada deste aspecto não podemos correr o risco de menosprezar os demais. O Espiritismo é uma estrutura de conhecimento coerente e não podemos perder de vista essa estrutura.

Necessário que o Movimento Espírita procure mecanismos para desenvolver a pesquisa espírita sem perder o contexto global do Espiritismo. Pretender isolar o conhecimento espírita dos demais ramos do saber é cometer um erro de proporções desastrosas, assim como desprezá-lo é equívoco de mesmo escalão.

O Espiritismo possui um aspecto de ciência. Negar isto é ignorar os fatos ocorridos ao longo de toda a história da humanidade. Se este aspecto não está desenvolvido é por causa do movimentos humanos, não da estrutura do conhecimento ou pela inexistência de fatos.

À medida que a Ciência oficial se aproxima dos problemas propostos pelo Espiritismo, e ao mesmo tempo tenta ignorá-los; vemos, mais uma vez, a caracterização do pensamento humano repleto de juízos, preconceitos e valores. Por não mover-se apenas por motivos de conhecimento é que a Ciência ainda não voltou-se para o estudo do Espírito. Não existe financiamento. Não há interesses econômicos. Afinal, tudo que poderá ficar demonstrado é que no homem só existe uma máquina biológica cuja existência esta limitada pelo fenômeno da morte, como afirma o materialismo; ou que existe o Espírito, que sobrevive e antevive à existência terrena, que seu objetivo é o progresso através de múltiplas experiências, que o mundo espiritual é um fato e que precisamos modificar nossas condutas diante dessas realidades – como afirma o Espiritismo.

A metodologia colocada por Kardec para abordar as questões até então relegadas ao plano do maravilhoso e do sobrenatural, colocaram o Espiritismo, diante do fenômeno espiritual, na condição de vanguardeiro. Kardec não apenas apresentou o problema, mas soube dar-lhe uma solução baseada em estruturas de conotação filosófica, e em leis passíveis de experimentação e análise.

Do ponto de vista de Thomas Kuhn, diríamos ele efetuou uma revolução na estrutura do pensar humano concernente ao Espírito. Levantou questões e ousou respondê-las. Outros seguiram seus passos; outros mais ainda o farão por quê os fatos permanecem, e com eles, a explicação espírita.

Estará absolutamente certa? Kardec considera que não. Considera-se um elemento de princípio, responsável pelas bases iniciais mas que o tempo saberá apontar falhas e desenvolver. Soube colocar o Espiritismo numa posição de abertura para que pudesse se desenvolver a posteriori.

A revolução espiritual de que tratamos destacou a figura deste pesquisador Allan Kardec como um homem de visão abrangente. Soube reunir abordagens tão distintas quais as da Ciência, da Filosofia e da Religião, para abordar um mesmo problema e, ainda assim, permanecer nos limites da coerência. Seus resultados foram desafiadores. Sua resposta para os que o criticaram, ou criticam, é ainda a mesma: que apresentem um conjunto de idéias – de paradigmas, diria Kuhn, capazes de explicar e resolver, de maneira mais adequada, os problemas estudados pelo Espiritismo.

E, enquanto a ciência normal permanece avaliando as suas teorias de panqueca, permanecemos com Brockamn e Marcuse à espera de que “certas reflexões sobre outros assuntos” possam, de igual forma, ser convenientemente consideradas.

Nosso esforço é recuperar reflexões. O Espiritismo tem um aspecto científico que precisa ser revitalizado. O homem tem aspectos espirituais que precisam ser estudados. Então, que possam os espíritas cuidar do primeiro problema, e que a ciência oficial considere o segundo. É tempo de ouvirmos o voto de Minerva. É tempo de considerar a urgente necessidade de ponderar essa revolução do Espírito. Traçar novos rumos para a Ciência Espírita e propor-lhe novas perspectivas afinal, num momento cultural em que a Ciência e a Tecnologia representam para a nossa sociedade o voto de Minerva com relação à maioria dos conceitos e valores, é justo esperarmos que nossas mais íntimas conjecturas encontrem, no contexto científico, sua abordagem, validação ou abandono.

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REFERÊNCIAS:

1. BROCKMAN, Jonh. – Einstein, Gertrude Stein, Wittgenstein e Frankstein: reinventando o universo. Companhia das Letras. 1a edição. Parte V. Introdução. pg. 277. . Companhia das Letras. São Paulo. 1988.

2. BRONOWSKI, Jacob – A Escalada do Homem. cap. 13. pg437. Editora Universidade de Brasília. 2a edição,1983.

3. ANDERY, Maria Amália e outros. – Para compreender a ciência. . Introdução. pgs. 15 e 16. EDUC. Rio de Janeiro.1988

4. Grande Enciclopédia Delta Larousse

5. POPPER, Karl R. – A Lógica da Pesquisa científica. cap 1. pg. 35. 2a ed. São Paulo. Cultrix

6. POPPER, Karl R. – A Lógica da Pesquisa científica. cap 2. pg. 56. 2a ed. São Paulo. Cultrix

7. LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de Andrade – Metodologia Científica. cap.1. pg.23. Editora Atlas. 1a edição. São Paulo. 1985

8. LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de Andrade – Metodologia Científica. cap.1. pg.22. Editora Atlas. 1a edição. São Paulo. 1985

9. Vide “A lógica da pesquisa científica” de K. R. Popper.

10. LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina de Andrade – Metodologia Científica. cap. 1. pg.24. Editora Atlas. 1a edição. São Paulo. 1985

11. LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade Marconi – Metodologia Científica. cap. 1. pg.26. Editora Atlas.1a edição.São Paulo. 1985

12. Para uma discurssão mais detalhada consultar : LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade Marconi – Metodologia Científica. cap. 1. pg.28, 29 e 25. Editora Atlas. 1a edição. São Paulo. 1985

13. BROCKMAN, Jonh. – Einstein, Gertrude Stein, Wittgenstein e Frankstein: reinventando o universo. Companhia das Letras. 1a edição

14. BARTEE, Edwin M. , apostila sobre MRP ( Método de resoluçãode problemas)

15. ANDERY, Maria Amália e outros. – Para compreender a ciência. Parte 1. pg. 23. EDUC. RIO DE JANEIRO. 1988.

16. HOOYKAAS, R. – A religião e o desenvolvimento da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988 . pg 13

17. HOOYKAAS, R. – A religião e o desenvolvimento da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988. pg. 29

18. HOOYKAAS, R. – A religião e o desenvolvimento da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988 . pg. 29

19. Vide o conjunto de artigos “O atalho” de autoria de Luciano dos Anjos publicados em O REFORMADOR – coleção de 1973. Editora FEB.

20. HOOYKAAS, R. – A religião e o desenvolvimento da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988. pg. 15

21. HOOYKAAS, R. – A religião e o desenvolvimento da ciência moderna. Editora Universidade de Brasília. 1988. pg 31

22. Para maiores detalhes sobre Kepler e Brahe consultar – KOESTLER, Arthur. O homem e o Universo..Parte IV. Caps 1-11. 2a ed. IBRASA. São Paulo. 1989.

23. MARICONDA, Pablo Rubén – in introdução ao livro DUAS NOVAS CIÊNCIAS de Galileu Galilei. 1a edição .Nova Stella. pg XV.

24. Galileu – citado por BRONOWSKI, Jacob in – A Escalada do Homem. Editora Universidade de Brasília. 2a edição,1983. pg. 209.

25. Sobre o assunto consultar a obra “Netuno” de Isaac Asimov e “O Homem perante o Universo” de Arthur Koestler

26. DURANT, Will – História da Filosofia. cap. III. pg 136. Edição “Livros do Brasil” Lisboa.

27. ANDERY, Maria Amália e outros. – Para compreender a ciência. Introdução. pg 16. EDUC,1988.

28. Citado por LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade Marconi – Metodologia Científica. cap. 1. pg.41. Editora Atlas.1a edição.São Paulo. 1985

29. Citado por LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade Marconi – Metodologia Científica. cap. 1. pg.41. Editora Atlas.1a edição.São Paulo. 1985

30. Einstein, Albert e INFIELD, Leopold – A Evolução da Física – Zahar Editores. São Paulo.1980. 4a ed. pg. 36

31. KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. Editora Perspectivas.1992. 3a edição. pg. 23.

32. Conforme se pode verificar no “Discurso pronuciado junto ao túmulo de Allan Kardec” por Camille Flammarion inserido no livro “Obras Póstumas” de Allan Kardec – FEB. 22a edição. pg. 24.

33. Para maiores detalhes consultar as obras “História do Espiritismo” de Arthur Conan Doyle e “Allan Kardec” de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen.

34. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. FEB.55a edição. 1987. pg.30-31.

35. KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Editora Perspectivas.1992. 3a edição. pg. 23.

36. O Fenômeno das mesas girantes foi que deu início às pesquisas em torno da mediunidade. Para maiores detalhes consultar as obras “História do Espiritismo” de Arthur Conan Doyle e “Allan Kardec” de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen.

37. KARDEC. Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução. FEB. 56a edição. 1982. pg.18.

38. idem.

39. ANDERY, Maria Amália e outros. – Para compreender a ciência. EDUC,1988. pg. 381

40. VERDENAL, R. – in A Filosofia Positiva de Augusto Comte – Citado por ANDERY in Para compreender a ciência. EDUC,1988. pg. 381

41. “…cada uma das nossas principais concepções, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três estados teóricos diferentes: o estado teológico ou fictício, o estado metafísico ou abstrato, o estado científico ou positivo. / No estado teológico o espírito humano, ao dirigir suas pesquisas essencialmente no sentido da natureza íntima dos seres, das causas primeiras e finais de todos os efeitos que impressionam, numa palavra, no sentido dos conhecimentos absolutos, representa os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo. / No estado metafísico os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação, consiste então em designar para cada um a entidade que lhe corresponde. / No estado positivo o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, assim como a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para se dedicar unicamente a descobrir, pelo uso bem combinado da razão e da observação, suas leis efetivas, isto é, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a termos reais, não é, desde então, mais do que a ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número os progressos da ciência tendem a diminuir.” – COMTE, Augusto – citado em “História dos filósofos Ilustrada pelos textos” de A. Vergez e D. Huisman – 5a ed. Rio de Janeiro. Freitas Bastos, 1982. pgs.291 e 292.

42. KARDEC, Allan – O que é o Espiritismo. I.D.E. 15a ed. São Paulo. 1983. pg. 10

43. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 20

44. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 21

45. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 20

46. KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos. FEB. 56a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 59

47. KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos. FEB. 56a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 60

48. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 21

49. Observe-se que Kardec faz uma distinção entre a Ciência – propriamente dita – com C maiúsculo e ciência com c minúsculo.

50. KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos. FEB. 56a ed. Rio de Janeiro. 1982. pgs. 28 e 29

51. Idem . pg. 30

52. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 21

53. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pgs 44 e 45.

54. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 20

55. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 20

56. A Gênese, cap. 1 item 14.FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982

57. KARDEC, Allan – A Gênese. FEB 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 44

58. LAKATOS, Eva Maria e Marina de Andrade Marconi – Metodologia Científica. cap. 1. pg.41. Editora Atlas.1a edição.São Paulo. 1985

59. KARDEC, Allan – O Livro dos Médiuns. FEB.48a ed. Rio de Janeiro.1983. pg. 16

60. KARDEC, Allan – O Livro dos Médiuns. FEB.48a ed. Rio de Janeiro.1983. pg.20

61. KARDEC, Allan – O que é o Espiritismo. FEB. 24a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg.50

62. KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos. FEB. 56a ed. Rio de Janeiro. 1982. pg. 484

63. KARDEC, Allan. Obras Póstumas. FEB. 22a ed. Rio de Janeiro. 1987. pg.158.

64. KARDEC, Allan. Obras Póstumas. FEB. 22a ed. Rio de Janeiro. 1987. pg.158.

65. Em Setembro de 1993, tivemos a oportunidade de trocar idéias com um companheiro das lides espíritas, o Dr. André Luiz Peixinho, que, n ocasião, nos apresentou a Arte como um elemento adicional à natureza do conhecimento espírita. Na época, o confrade nos apresentou o modelo, que reproduzimos abaixo, sobre as percepções do homem. O esquema nos mostra que tipo de percepção predomina em cada ramo do conhecimento. O modelo parece ser uma proposta de concepção holística, proveniente da teoria do hólon de Arthur Koestler. Mas não nos foi dado identificar, efetivamente, a fonte.

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Por André Henrique

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