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22/09/2017

A Navalha de Occam Richard Simonetti


É fácil escrever difícil. Basta colocar no papel as idéias que surgem no bestunto, ainda que, não raro, desandem em destemperos mentais.

Difícil é escrever fácil. Exige demorada e árdua elaboração para tornar a leitura elegante, atraente e objetiva, sem impor prodígios de concentração e entendimento.

Trata-se de uma gentileza que todo autor esclarecido deve ao leitor que se dispõe a examinar suas criações. O texto que exige cuidadosa interpretação é mais charada do que literatura. Fica por conta da capacidade de quem lê, no empenho em orientar-se por labirintos tortuosos, fruto dos devaneios do autor.

Jesus dizia que a verdade está ao alcance dos simples.

Os doutos e entendidos costumam sofrer uma intoxicação intelectual que oblitera o bom senso e os leva a imaginar que tortuosidade e complexidade são sinônimos de cultura e saber.

***

A propósito vale lembrar Guilherme de Occam (1285-1349), notável teólogo e filósofo inglês (nascido em Occam, nos arredores de Londres).

Ingressou bem jovem na ordem franciscana. Estudou e lecionou na gloriosa universidade de Oxford. Destacou-se pela obstinação com que defendeu a separação entre a Igreja e o Estado e contestou a infabilidade papal, o que lhe valeu a excomunhão. Seria impossível, a um intelectual de sua lavra, permanecer fiel ao fantasioso dogmatismo religioso. Inteligente e lúcido, estimava a simplicidade na exposição de suas idéias. Complexidades ou conjecturas, apenas se absolutamente necessárias.

Adotou um princípio que ficaria conhecido como a navalha de Occam, definindo o empenho em retirar de um pensamento ou de uma tese acessórios e complicações desnecessários, louvando-se no bom senso.

Se a aplicássemos em textos herméticos e obscuros dos teólogos e filósofos que fazem a história das contradições do pensamento humano, seria uma “carnificina”. Pouco sobraria.

***

Nem sempre Occam conseguiu usar sua navalha.

Isso aconteceu particularmente em relação à existência de Deus, assunto que preferia não abordar. Não a negava, mas considerava que, devido à transcendência do tema, seria impossível conjeturar sobre o Criador sem recorrer a argumentos complexos, de difícil entendimento.

Os Espíritos que orientaram a codificação da Doutrina Espírita ensinaram diferente.

Dotados de notável capacidade de síntese, própria da sabedoria autêntica, demonstraram que é possível passar a navalha de Occam em lucubrações complexas e reduzir a argumentação em favor da existência de Deus à sua expressão mais singela.

Isso acontece na questão número quatro, em O Livro dos Espíritos.

Pergunta Kardec:  Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?

Resposta: — Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.

Comenta Kardec:

Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pode fazer alguma coisa.

Simplíssimo!

Se o Universo é um efeito inteligente, tão superior ao nosso entendimento que seus segredos são inabordáveis, forçosamente tem um autor infinitamente inteligente – Deus.

A partir dessa ideia o difícil é provar que Deus não existe.

Teríamos que explicar o efeito sem causa, a criação sem um Criador.

Quaisquer argumentos em favor desta tese ingrata seriam facilmente eliminados pelo próprio Occam, usando a navalha do bom senso.


Por Richard Simonetti

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