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30/05/2017

A investigação psíquica é coisa inteiramente distinta da religião? Sir Arthur Conan Doyle


Posso agora, com certo desafogo, abordar um aspecto mais impessoal desta importante questão. Aludi à constituição de uma nova doutrina. Donde nos vem ela? Vem principalmente pela escrita automática, que a mão do médium traça, quando este a tem governado, seja pelo suposto espírito de um ser humano já morto, como no caso de Miss Júlia Ames, seja por um suposto instrutor invisível, como no de William Stainton Moses.

Essas comunicações escritas hão sido completadas por grande número de exposições feitas pelo médium em estado de transe e por mensagens dadas verbalmente pelos espíritos, servindo-se estes dos órgãos vocais do médium. Algumas vezes, até, têm vindo sem intermediário, falando os espíritos diretamente, como nos diversos casos que o almirante Usborne Moore refere no seu livro The Voices (As Vozes). Não raro também têm sido reveladas a alguns círculos familiares, por meio da mesa girante, como nos casos que relatei anteriormente, tratando das minhas experiências pessoais. Doutras vezes, como no caso citado por Morgan, têm sido transmitidas pela mão de uma criança.

Logo certamente se nos faz esta objeção: Como sabeis que essas mensagens vêm de fato do Além? Com o podeis saber que o médium não escreve conscientemente, ou, admitido que isto seja improvável, que não escreve apenas, sem que de tal se aperceba, o que lhe é ditado pelo seu subconsciente? É esta uma objeção perfeitamente razoável e que devemos ter em conta diante de qualquer caso, porquanto, se o mundo viesse a encher-se de profetas sem valor, cada um alardeando suas idéias acerca do novo do mínio religioso e apoiando-as unicamente nas suas próprias afirmações, volveríamos aos obscuros tem pos da fé cega.

Devemos responder que reclamamos provas cuja autenticidade podemos testificar e que não aceitamos asserções cuja veracidade se não possa provar. Outrora se pedia ao profeta um sinal atestador do que dizia. Era uma exigência absolutamente justa e que hoje também o é. Se alguém me trouxesse uma descrição da vida em qualquer outro mundo, sem mais credenciais que não as suas próprias afirmações, longe de colocar esse trabalho sobre a minha mesa de estudos, atirá-lo-ia à cesta dos papéis inservíveis. A vida é por demais curta para aferirmos do valor de semelhantes produções.

Se, porém, como se deu com Stainton Moses em seus Ensinos Espiritualistas, as doutrinas apresentadas como vindas do Além são acompanhadas da manifestação de múltiplas faculdades anormais – e Stainton Moses foi a todos os respeitos um dos mais notáveis médiuns que a Inglaterra já produziu – então encaro o assunto com mais seriedade.

Igualmente, desde que Miss Júlia Ames logrou, da sua vida terrena, revelar a W. T. Stead particularidades que ele não podia conhecer e que, depois de muitas investigações, verificou serem exatas, naturalmente qualquer pessoa se sentirá inclinada a admitir como verdadeiras outras revelações cuja exatidão se não pode provar. Assim, também, desde que um Raymond nos pode descrever uma fotografia, da qual nenhuma cópia havia chegado à Inglaterra e que depois se verifica ser exatamente como fora descrita; desde que esse Raymond, por boca de estranhos, nos transmite toda sorte de detalhes da sua vida familiar, detalhes que seus parentes verificaram e atestaram ser exatos; fora despropositado dar-lhe crédito quando ele descreve o gênero de vida que tem no Além, no momento mesmo em que se comunica conosco?

Ainda mais: quando Sir Arthur Hill recebe mensagens de pessoas de quem nunca ouvira falarem e verifica que tais mensagens são verdadeiras em todos os seus pontos, não é justo deduzir-se que essas entidades dizem a verdade quando nos elucidam sobre as condições em que se encontram?

Conta-se por muitos os casos desta natureza. Apenas menciono alguns. Mas, penso que todo o sistema que eles formam, desde o fenômeno físico do simples ruído numa mesa até a mais inspirada alocução de um profeta, constitui um todo completo, uma cadeia cujos elos se ligam uns aos outros e que, se o extremo inferior dessa cadeia veio ter às mãos da Humanidade, foi para que esta, por seus esforços e pelo uso da razão, encontrasse o caminho a seguir até chegar à revelação que a esperava no extremo superior.

Não mofeis do fato de lhe terem servido de início as mesas girantes ou as pranchetas a flutuarem no ar, embora esses fenômenos possam ter sido muitas vezes enganosos ou simulados. Lembremo-nos de que a queda de uma maçã nos deu a lei da gravidade; de que da panela a ferver nos veio à máquina a vapor; de que a contração da pata de uma rã abriu caminho às elucubrações e experiências que nos levaram à descoberta da eletricidade. Do mesmo modo as grosseiras manifestações de Hydesville deram em resultado interessar pelo assunto a plêiade dos mais eminente s intelectuais daquele país, durante os últimos vinte anos, estando, a meu ver, destinadas a imprimir às experiências humanas o maior desenvolvimento que já o mundo presenciou.

Personalidades cujas opiniões têm na mais alta conta, especialmente Sir William Barrett, afirmaram que a investigação psíquica é coisa inteiramente distinta da religião. Isso é incontestável no sentido de que um mau indivíduo pode, no entanto, ser excelente investigador dos fenômenos psíquicos. Mas, os resultados dessas pesquisas, as deduções que delas podemos tirar e as lições que podemos colher nos ensinam à sobrevivência da alma, a natureza dessa sobrevivência e como o nosso proceder neste mundo a influencia.

Se isto é coisa distinta de religião, confesso que não compreendo bem a distinção. Para mim, é religião, é a essência mesma da religião.

Não quer, entretanto, dizer que esses resultados virão necessariamente a cristalizar-se numa nova religião. Pessoalmente confio que tal não se dará. Já nos achamos sobejamente divididos. Antes, vejo neles a grande força unificadora, a única coisa provável em conexão com qualquer das religiões, cristã ou não, formando uma sólida base comum sobre a qual cada uma delas, admitido que o deva fazer, erija um sistema particular em correspondência com os vários tipos de mentalidades.

Efetivamente, as raças meridionais preferirão sempre, em oposição às do Norte, o que seja menos austero; as do Oeste serão sempre mais analistas do que as do Leste. Ninguém poderá conduzir todas a uma perfeita igualdade de nível. Todavia, se forem aceitas as amplas premissas que o ensinamento vindo do Além nos oferece, a Humanidade terá avançado grandemente para a paz religiosa e para a unidade.

Logo, porém, esta outra questão se nos apresenta: De que maneira atuará o Espiritismo sobre as antigas religiões existentes e sobre os diferentes sistemas filosóficos que têm influenciado as ações dos homens. A resposta é que só a uma dessas religiões ou filosofias a nova revelação será absolutamente fatal: ao Materialismo. Não digo isto com espírito de hostilidade aos materialistas, que, como coletividade organizada, são tão sérios e morais como qualquer outra classe. Porém, é manifesto que, se o espírito pode viver sem a matéria, desaparece a base mesma do materialismo, acarretando o desmoronamento de todas as suas teorias.

Pelo que toca às outras crenças, forçoso será admitir que a aceitação do ensino que nos vem do Além modificaria profundamente o Cristianismo convencional. Essas modificações, entretanto, não se fariam no sentido de contradição, mas no de explicação e desenvolvimento. Aquele ensino corrigiria as graves dissensões que sempre chocaram a razão dos pensadores, confirmando e tornando absolutamente certo o fato da continuação da vida após a morte, fundamento de todas as religiões. Confirmaria as desgraçadas conseqüências do pecado, mas mostrando que elas não são eternas.

Confirmaria a existência de seres superiores, até aqui chamados anjos, e a de uma hierarquia ascendente acima de pós, na qual tem seu lugar o espírito do Cristo, colocado a uma altura do infinito a que associamos sempre a ideia de onipotência, ou seja, de Deus. Confirmaria, enfim, a ideia de um céu e de um estado penal transitório, ponderado mais ao purgatório do que ao inferno.

Assim, a nova revelação, na maioria de seus pontos essenciais, não se apresenta como destruidora das velhas crenças. Ela, pois, seria recebida pelos fiéis, realmente fervorosos, de todos os credos, antes como uma aliada poderosa, do que como um perigoso inimigo engendrado pelo diabo.

Examinemos, por outro lado, os pontos em que o Cristianismo deverá ser modificado pela nova revelação.

Antes de tudo direi uma coisa, óbvia para muitos, que, no entanto, muito a deploram: o Cristianismo tem que evolver ou perecer. É lei da vida que o que não se adapta perece. O Cristianismo já deferiu demais a sua transformação; deferiu-a tanto que as suas igrejas já se acham meio vazias; que as mulheres lhe constituem o principal sustentáculo; que, assim, de um lado, os membros mais instruídos da coletividade humana, como, de outro, os mais pobres, quer na cidade, quer no campo, se separaram completamente dela. Procuremos descobrir a razão deste estado de coisas. Ele é patente em todas as seitas do Cristianismo. Deriva, portanto, de alguma profunda causa comum.

As gentes se afastam porque francamente não podem ter por verdadeiros os fatos tais como lhes são apresentados. Semelhante coisa lhes ofende igualmente a razão e o senso da justiça. Ninguém, com efeito, pode vislumbrar justiça num sacrifício feita em substituição, nem num Deus cuja clemência só por esse meio se consiga. Sobretudo, muitos há que não logram compreender o que signifiquem expressões como “remissão do pecado”, “purificação pelo sangue do Cordeiro” e outras.

Enquanto perdurou a questão da queda do homem, havia pelo menos, para tais frases, certa explicação. Desde que, porém, ficou demonstrado que jamais o homem caiu; desde que, graças ao progresso da ciência, se nos tornou possível reconstituir a nossa ascendência ancestral e, passando pelo homem das cavernas e pelo homem nômade, remontar às épocas sombrias e distantes em que o macaco-homem evolveu lentamente para o homem-macaco; se lançamos um olhar retrospectivo sobre essa longa sucessão da vida verificamos que ela se vai sempre desdobrando passo a passo, sem que encontremos nunca qualquer prova de queda. Ora, se queda nunca houve, a que ficam reduzidas às doutrinas da expiação, da redenção, do pecado original? Numa palavra, que resta de uma grande parte da filosofia mística do Cristianismo?

Dado que aquelas doutrinas tivessem sido tão racionais em si mesmas, quanto presentemente são absurdas, elas estariam, apesar de tudo, em oposição aos fatos.

Acresce que muito exagero houve, ao que parece, com relação à morte do Cristo. Morrer alguém por uma idéia não é fato fora do comum. Todas as religiões tiveram seus mártires. Constantemente morrem homens pelas suas convicções. Milhares de nossos mancebos estão fazendo isso, neste momento, em França. Daí vem que a morte do Cristo, sublime, aliás, como a descreve o Evangelho, assumiu uma importância injustificada, como se constituísse fenômeno singular sacrificar-se um homem pela realização de uma reforma.

No meu entender, à morte do Cristo se atribuiu excessivo valor, ao passo que muito pouca se tem dado à sua vida.

Entretanto, nesta é que se encontram a verdadeira grandeza e a verdadeira lição. Mesmo imperfeitamente descrita como o é, foi uma vida ante nenhum traço se descobre que não seja admirável; uma vida plena de tolerância para com todos, de suave caridade, de ampla moderação, de serena coragem; vida sempre votada ao progresso e aberta a todas as ideias novas; vida sem nenhuma nota de azedume contra as ideias que ele realmente suplantava, se bem manifestasse justificado desgosto ante a estreiteza de espírito e a tartufice dos que as defendiam. Particularmente notável era nele a agudeza com que penetrava o espírito mesmo da religião, pondo de lado os textos e as fórmulas. Não há exemplo de igual bom senso, nem de tanta simpatia para com os fracos. Em verdade, sua vida foi a mais maravilhosa de quantas se conhecem, o que não se dá com a sua morte, que, não obstante, forma o ponto central da religião cristã.

Consideremos agora quanta luz os nossos guias espirituais hão lançado sobre a questão do Cristianismo. Lá no Além as opiniões não são absolutamente uniformes, como não o são aqui na terra. Contudo, se lê certo número de comunicações sobre esse assunto, vê-se que tudo se reduz a isto:

Juntamente com os nossos mortos, há muitos espíritos mais elevados, variando entre eles os graus de elevação. Chamemos-lhes “anjos” e nos teremos aproximado da antiga concepção religiosa.

Acima de todos esses espíritos se acha o maior Espírito que eles conhecem e que não é Deus, pois que Deus, sendo infinito, não lhes está ao alcance da percepção. É o espírito mais próximo de Deus e que, até certo ponto, o representa: o Espírito do Cristo. A Terra é o objeto de toda a sua solicitude. Ele à ela baixou numa época de grande depravação, numa época em que o mundo era quase tão perverso quanto agora, a fim de dar o exemplo de uma vida ideal. Em seguida, voltou à morada celestial que lhe é própria, tendo legado aos homens ensinamentos que ainda por vezes são postos em prática. Eis a história do Cristo, conforme a narram os espíritos. Nela nada há de expiação, nem de redenção. Encerra, porém, a meu ver, um sistema perfeitamente racional e realizável.

Se esta maneira de conceber a Cristianismo fosse geralmente aceita, tendo a corroborá-la a certeza e a demonstração que nos vêm do outro mundo pela Nova Revelação, então possuiríamos uma crença que unificaria todas as igrejas, que estaria de acordo com a ciência, que desafiaria todos os ataques e sustentaria indefinidamente a fé cristã. A razão e a fé se reconciliariam finalmente; todos nos livraríamos de um pesadelo atroz e reinaria a paz espiritual.

Não entrevejo a consecução desses resultados por efeito de uma conquista rápida ou de uma violenta revolução. Eles advirão por meio de uma penetração pacífica, do mesmo modo que certas ideias abstrusas, qual, por exemplo, a de um inferno eterno, se vão lentamente apagando, já nos tempos que correm. Mas, é quando a alma humana se acha trabalhada e torturada pela dor que se devem espalhar as sementes da verdade. Se assim fizemos, destes dias em que vivemos despontará no futuro uma abundante colheita espiritual.

Quando leio o Novo Testamento com o conhecimento que tenho do Espiritismo, fico profundamente convencido de que os ensinos do Cristo, sob vários pontos de vista muito importantes, a Igreja primitiva as perdeu, de sorte que não chegaram até nós. Todas as alusões, que ele encerra, à possibilidade de triunfar-se da morte, nada significam, ao que me parece, na atual filosofia cristã. Entretanto, para os que já viram alguma coisa, ainda que obscuramente, através do véu que nos encobre o mundo invisível; para os que já tocaram, ainda que ligeiramente, as mãos que se nos estendem do Além, para esses a morte já foi vencida.

Quando ele nos fala de fenômenos que se nos tornaram familiares, tais como as levitações, as línguas de fogo, as ventanias, os dons espirituais, em suma, de milagres, reconhecemos que o fato capital entre todos, o da continuidade da vida e da comunicação com os mortos, era plenamente conhecido naquela época. Se nos deparam ditos como este: “Aqui ele não fez milagres porque o povo carecia de fé.” Isto não está de perfeito acordo com a lei psíquica que conhecemos? Noutro ponto lemos que o Cristo, tendo sido tocado pela hemorroíssa, exclamou: “Quem me tocou? Sinto que de mim saiu uma virtude.” Pudera ele ter dito mais claramente o que um médium curador diria hoje, apenas empregando a palavra “poder” em lugar do termo “virtude”?

Mais ainda. Quando lemos: “Experimentai os espíritos, para saberdes se eles são de Deus”, não encontramos aí o aviso que hoje daríamos ao neófito que quisesse tomar parte numa sessão?

Excessivamente vasta é esta questão para que me seja possível mais do que enflorá-la. Creio, no entanto, que este assunto, que as igrejas cristãs mais rigoristas presentemente atacam com tanto furor, constitui realmente a ensino básico do próprio Cristianismo. Aos que quiserem ir mais longe nesta ordem de ideias, recomendo muito a leitura do livro do Doutor Abraham Wallace, Jesus de Nazaré, caso não esteja esgotada a edição dessa valiosa obrinha. Seu autor demonstra, de modo convincente, que os milagres da Cristo estavam todos no campo de ação da psíquica, como a compreendemos hoje, e se conformavam, ainda nas menores particularidades, com os princípios precisos dessa lei.

Dois exemplos já foram citados. Muitos outros são apontados no opúsculo a que me refiro. O que me convenceu da veracidade da tese sustentada nele foi que, se a apreciamos de conformidade com aquela lei, a história da materialização dos dois profetas, no monte, se nos patenteia extraordinariamente exata. Há primeiramente a notar que Jesus escolheu para o acompanharem a Pedro, Tiago e João, os mesmos que formavam o círculo psíquico na ocasião em que o morto foi chamado de novo à vida e que, provavelmente, do grupo dos discípulos, eram os mais apropriados ao fenômeno. Houve depois a preferência pelo ar puro da montanha, a sonolência que atacou os três médiuns, a transfiguração, as vestes resplandecentes, a nuvem, as palavras: “Construamos três tabernáculos”, que também se podem ler: “Construamos três tendas ou gabinetes”, meio ideal de se produzirem às materializações pela concentração dos poderes psíquicos.

Tudo isto compõe uma teoria muito sólida da natureza dos processos. Quanto ao mais, os dons que São Paulo indica como de necessidade que o discípulo cristão reúna, em si, são idênticos aos que um médium poderoso deve possuir, compreendidas as faculdades de profetizar, de curar, de operar milagres (ou fenômenos físicos), de clarividência e outros. (Epístola aos Corintios, Xll, 8, 11.)

A primitiva igreja cristã viveu saturada de Espiritismo e não parece que tenha atendido às proibições do Velho Testamento, as quais objetivavam reservar esses poderes para uso e proveito do clero.


Artigo publicado na Revista Light por Sir Arthur Conan Doyle

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