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14/12/2017

A História de Katie King Francisco Klors Werneck


Os fenômenos de materialização constituem as mais altas e irrefragáveis demonstrações da imortalidade.

Surgir um ser defunto diante dos espectadores com uma forma corpórea, conversar, caminhar, escrever e desaparecer, quer instantaneamente, quer gradativamente, sob as vistas dos observadores, é de certo o mais empolgante e o mais singular dos espetáculos. Isso, para um incrédulo, ultrapassa os limites da verossimilhança e provas físicas, irrefutáveis se fazem necessárias para que o fenômeno não seja lançado à conta de fraude ou de alucinação.

Felizmente, porém, bom número existe de observações relatadas por homens imparciais e, ainda, dotados da frieza e competência indispensáveis a dar a tais experiências a corroboração da autoridade de que desfrutam.

O Sr. Aksakof fez com o médium Eglinton uma série delas, em que as mais minuciosas precauções foram tomadas, o que lhe facultou chegar a resultados absolutamente inatacáveis, do ponto de vista científico. O avultado número de matérias, de que temos de tratar, nos obriga, com muito pesar nosso, a remeter o leitor às obras originais onde esses casos se encontram longamente expostos. Serão consultadas com proveito: Animismo e Espiritismo, de Aksakof; Ensaio de Espiritismo Científico, de Metzger; Depois da Morte, de Leon Denis e Psiquismo Experimental, de Erny.

Aqui, agora, nos limitaremos a apresentar alguns dados geralmente desconhecidos sobre a celebre Katie King, cuja existência foi posta fora de dúvida pelos trabalhos, que se tornaram clássicos, de William Crookes, consignados em seu livro: Pesquisas Experimentais sobre o Espiritismo. Servir-nos-emos dos estudos que na Revue Spirite[1] publicou a Sra. de Laversay, resumindo o mais possível essa interessante tradução da obra de Epes Sargent, editada em Boston, no ano de 1875.

Muitas pessoas, pouco a par da literatura espírita, supõem que o espírito de Katie King só foi examinado por William Crookes. Vamos mostrar que há elevadíssimo número de atestados relativos à sua existência, procedentes de testemunhas bastante conhecidas no mundo literário e cientifico. Quando o ilustre químico teve de verificar a mediunidade da Srta. Cook, já muito tempo havia que Katie se materializava. Os grandes médiuns, por demais raros, não se revelam de improviso. Faz-se necessário certo tempo para que cheguem a produzir fenômenos físicos. Por um lado, o médium precisa de adestramento e, por outro, o espírito que dirige as manifestações é obrigado a exercitar-se longo tempo, para manipular, com a indispensável exatidão, os fluidos sutis que tem de empregar.

Em 1872, contava a Srta. Cook dezesseis anos. Desde a mais tenra idade via espíritos e ouvia vozes, mas, como somente ela observava esses fenômenos, seus pais nenhuma confiança depositavam em suas narrativas. Depois de haver ela assistido a algumas sessões espíritas, veiose a saber que a mocinha era médium e que obteria as mais belas manifestações. Entretanto, depois de assediados pelos espíritos, resolveram ceder aos desejos dos atores invisíveis e foi então que se deram fenômenos absolutamente probantes.

A 21 de abril de 1872, diz o Sr. Harrison, no jornal The Spiritualist, ocorreu um curioso incidente. Ouviram de súbito bater nos vidros de uma janela; aberta esta, ninguém viu coisa alguma. Fez-se, porém, ouvir a voz de um espírito, dizendo: “Senhor Cook, precisa mandar limpar as suas calhas, se não quiser que os alicerces de sua casa sejam abalados. As calhas estão entupidas”. Muito supreendido, procedeu ele a um exame imediato. Era exato! Chovera e o pátio da casa estava cheio da água que transbordara das calhas. Ninguém sabia deste acidente, antes que o espírito o houvesse revelado daquela forma notável. Acompanhando-se a marcha da mediunidade da Srta. Cook, observa-se o desenvolvimento de uma série de fenômenos, que se produzem, sucessivamente, tornando-se cada dia mais espantoso até chegarem à materialização de Katie. Ocorreu assim a primeira sessão em que ela se mostrou.

Até então, as sessões se haviam realizado no escuro. Querendo remediar a isso, o Sr. Harrison fez muitos ensaios em casa do Sr. Cook com luzes diferentes. Conseguiu uma luz fosforescente, aquecendo uma garrafa revestida interiormente de uma camada de fósforo misturada com óleo de cravo. Graças a esse engenho, podia-se ver o que se passava durante a sessão às escuras. A 22 de maio de 1872; a Sra. Cook, seus filhos, uma tia destes e a criada se reuniram e o espírito de Katie King se materializou parcialmente. A Srta. Cook não estava a dormir, como o faz certa uma carta que ela no dia seguinte dirigiu ao Sr. Harrison nestes termos:

Ontem à noite, Katie King nos disse que tentaria produzir alguns fenômenos, mas se concordássemos em armar um gabinete escuro com o auxilio de cortinas. Acrescentou que precisava que lhe déssemos uma garrafa de óleo fosforescente, visto não lhe ser possível tomar de mim o fósforo necessário, devido ao fraco desenvolvimento de minha mediunidade. Ela quer iluminar a sua figura, para se tornar visível.

Encantada com a idéia, fiz os preparativos necessários, ficando tudo pronto ontem à noite, as 8 e meia. Minha mãe, minha tia, os meninos e a criada sentaram-se fora, nos degraus da escada. Deixaram-me sozinha na sala de jantar, o que nada me agradou, porque estava com muito medo.

Katie mostrou-se na abertura das cortinas. Seus lábios se moveram, e, por fim, conseguiu falar. Conversou durante alguns minutos com a mamãe. Todos puderam ver-lhe o movimento dos lábios. Como eu, do lugar onde estava, não a visse bem, pedi-lhe que se voltasse para mim. O espírito me respondeu: Mas, de certo, fá-lo-ei. Vi então que só estava formada a parte superior do seu corpo, o busto, sendo o resto da aparição uma espécie de nuvem, ligeiramente luminosa.

Após breves instantes de espera, o espírito Katie King começou por trazer algumas folhas secas de hera, planta que não existe no nosso jardim. Depois, todos vimos aparecer, fora da cortina, um braço cuja mão segurava a garrafa luminosa. Mostrou-se uma figura com a cabeça coberta de uma porção de pano branco. Katie aproximou do seu rosto o frasco e todos a percebemos distintamente. Esteve dois minutos e em seguida desapareceu. O rosto era oval, aquilino o nariz, vivos os olhos e a boca lindíssima.

Disse Katie à mamãe que a olhasse bem, pois sabia que tinha um ar lúgubre. Eu, pelo que me diz respeito, fiquei muito impressionada quando o espírito se aproximou de mim. Emocionadíssima, não pude falar, nem mesmo esboçar um gesto. Da última vez que se apresentou na junção das cortinas, demorou-se uns bons cinco minutos e incumbiu a mamãe de lhe pedir que venha aqui um dia desta semana. Katie King encerrou a sessão, implorando para nós as bençãos de Deus. Exprimiu a sua alegria por se ter, podido mostrar aos nossos olhares.

O Sr. Harrison atendeu a 25 de abril ao convite de Katie e na sua presença se verificou a segunda sessão de materialização. Ele tomou interessantes notas que publicou depois no seu jornal, The Spiritualist, donde extraímos os tópicos seguintes:

Testemunho do Sr. Harrison – Com a minha presença, uma sessão se realizou a 25 de abril, em casa do Sr. Cook. O médium, Srta. Cook, sentou-se no interior de um gabinete escuro. De tempos a tempos, ouvia-se um ruído de raspagem com unhas. O espírito Katie segurava um tecido leve, por ela mesma fabricado e no qual procurava recolher, em torno do médium, os fluidos necessários à sua materialização completa. Para esse efeito, atritava o médium com o mencionado tecido. Dali a pouco, travou-se em voz baixa, entre o médium e o espírito, o seguinte diálogo:

— Srta. Cook – Vamos, Katie, não gosto de ser puxada assim.
— Katie – Não sejas tolinha, tira o que tens cabeça e olha-me. (E continuava a puxar).
— Srta. Cook – Não quero. Deixa-me, Katie. não gosto de ti. Metes-me medo.
— Katie – Como és tola. (E não cessava de puxá-la).
— Srta. Cook – Não me quero prestar a estas manifestações. Não gosto disto. Deixa-me sossegada.
— Katie – És apenas o meu médium e um médium é uma simples máquina de que os espíritos se servem.
— Srta. Cook – Pois bem! Se não sou mais do que máquina, não gosto de ser assombrada deste jeito. Vai-te embora.
— Katie – Não sejas grosseira.

Vê-se, por. este diálogo, que a aparição não é o duplo do médium, pois que a vontade consciente da moça se revela em oposição absoluta a do espírito, que se acha na sua presença. A Sra. d’Esperance, outro médium celebre[2] , resolveu não mais cair em transe durante as manifestações e o conseguiu, o que mostra a independência da sua individualidade psíquica no curso das aludidas manifestações. O Sr. Harrison, em sessões ulteriores, pôde apreciar o desenvolvimento do fenômeno e o descreveu assim:

A figura de Katie nos apareceu com a cabeça toda envolta num pano branco, a fim, disse ela. de impedir que o fluido se dispersasse muito rapidamente, Declarou que apenas o seu rosto se achava materializado. Todos puderam ver-lhe distintamente os traços do semblante. Notamos que tinha fechados os olhos. Mostrava-se durante meio minuto e desaparecia. Depois, disse-me: Willie, olha como sorrio; vê como falo. E exclamou: Cook, aumenta a luz. Imediatamente isso foi feito e todos puderam observar a figura de Katie brilhantemente iluminada. Tinha uma fisionomia jovem, linda, jovial, olhos vivos um tanto maliciosos. Sua tez já não era mate e imprecisa, como da sua primeira aparição a 22 de abril, porque, explicava ela: Já sei melhor como devo fazer. Quando sua figura se apresentou em plena luz, as suas faces pareciam naturalmente coloridas. Todos os assistentes exclamaram: Vemos-te perfeitamente. Katie manifestou a sua alegria, estendendo o braço para fora da cortina e batendo na parede com um leque achado ao seu alcance.

As sessões continuaram com bom êxito. As forças de Katie King aumentaram de mais em mais, porém, durante longo tempo, ela só conseguiu uma luz muito fraca, enquanto se materializava. A cabeça trazia sempre envolta em véus brancos, porque não a formava completamente, a fim de empregar menor quantidade de fluido e não fatigar a médium. Ao cabo de bom número de sessões, conseguiu mostrar-se em plena luz, com o rosto, os braços e as mãos descobertas.

Naquela época, a Srta. Cook permanecia quase sempre acordada, enquanto se achava presente o espírito. Algumas vezes, porém, quando fazia mau tempo ou eram desfavoráveis outras condições, a mocinha adormecia sob a influência espírita, o que aumentava o poder da médium e obstava a que a sua atividade mental perturbasse a ação das forças magnéticas. Depois, Katie não mais apareceu sem que a médium estivesse em transe. Realizaram-se algumas sessões para a aparição de outros espíritos, mas essas sessões tiveram que ser efetuadas com muito pouca luz e foram menos perfeitas do que as em que Katie se mostrava. Contudo, verificou-se a aparição de figuras conhecidas, cuja autenticidade ficou bem comprovada. Apreciaremos daqui a pouco o testemunho da Sra. Florente Marryat, conhecida escritora.

Numa sessão feita a 20 de janeiro de 1873, em Hackne, sua face se transformou, tornando-se, branca, negra, em poucos segundos, fato que em seguida se reproduziu muitas vezes. Para mostrar que suas mãos não eram movidas mecanicamente, ela fez uma costura na cortina que se havia rasgado. Noutra sessão, a 12 de março e no mesmo local, as mãos da Srta. Cook foram atadas, sendo postos selos de cera sobre os nós. Katie King se mostrou então a certa distância, à frente da cortina, com as mãos inteiramente livres.

Como se vê, só ao fim de longas experiências, a princípio imperfeitas e que com a continuação foram melhorando, o espírito de Katie King alcançou o desenvolvimento que lhe possibilitou manifestar-se livremente, em plena luz, sob forma humana, fora e à frente do gabinete escuro, diante de um círculo de espectadores maravilhados.

A partir desse momento, organizaram-se controles muito severos e, somente depois de os terem estudado com todo o rigor possível, foi que o Sr. Benjamin Coleman, o Dr. Gully e o Dr. Sexton proclamaram a realidade daquelas manifestações transcendentes. Tiraram-se à luz do magnésio muitas fotografias de Katie King, estando ela completamente materializada, de pé na sala, sob severíssima fiscalização. Desde os primórdios da mediunidade da Srta. Cook, o Sr. Ch. Blackburn, de Manchester, com ponderada liberalidade, lhe fez importante dote que lhe assegurou a subsistência. Assim procedeu ele, tendo em vista o progresso da Ciência. Todas as sessões da Srta. Cook se realizaram gratuitamente.

PRIMEIRAS FOTOGRAFIAS DE KATIE KING

Na primavera de 1873, muitas sessões se realizaram com o fito de obterem-se fotografias de Katie King. A 7 de maio tiraram-se quatro com bom resultado. Uma delas foi reproduzida em gravura.

As experiências fotográficas se acham bem descritas na resenha que abaixo transcrevemos, elaboradas depois de uma sessão e assinada com os seguintes nomes: Amélia Córner, Carolina Córner, J. Luxmore, G. Tapp e W. Harrison. Ao começar a sessão, tomaram-se as seguintes precauções: a Sra. Córner e sua filha acompanharam a Srta. Cook ao seu quarto, onde lhe pediram que se despisse, a fim de serem examinadas as suas roupas. Fizeram-na envergar um grande roupão de pano cinzento, em substituição ao vestido que despira e depois conduziram-na à sala das sessões, onde lhe ataram solidamente os pulsos com as fitas. O gabinete foi examinado em todos os sentidos, após o que a Srta. Cook se sentou dentro dele. As fitas, que lhe ataram os punhos, foram passadas por um anel fixado no assoalho, em seguida por baixo do manto, sendo, afinal, amarradas a uma cadeira colocada fora do gabinete. Desse modo, se a médium se movesse, logo o perceberiam.

A sessão principiou às seis horas da tarde e durou cerca de duas horas, com um intervalo de trinta minutos. A médium adormeceu logo que se instalou no gabinete e, decorridos poucos instantes, Katie apareceu e se encaminhou para o meio da sala. Também assistiram à sessão a Sra. Cook e seus dois filhos que muito se divertiam a conversar com o espírito.

Espírito Materializado de Katie King

Uma das 40 fotografias do espírito materializado de Katie King, tendo ao lado o Dr. Gully que a examinou anatomicamente.

Katie vestia de branco. Aquela noite, seu vestido era decotado e de mangas curtas, de sorte que se lhe podiam admirar o maravilhoso pescoço e os belos braços. A própria coifa que, como sempre, lhe envolvia a cabeça, estava ligeiramente afastada, deixando ver os seus cabelos castanhos. Os olhos eram grandes e brilhantes, de cor cinzenta ou azul escuro. Tinha a tez clara e rosada, os lábios rosados. Parecia inteiramente viva. Notando o prazer que experimentávamos em contemplá-la assim diante de nós, Katie redobrou os esforços para que tivéssemos uma boa sessão. Depois, quando acabou de pousar em frente do aparelho, passeou pela sala, conversando com todos, criticando os assistentes, o fotógrafo e seus dispositivos, completamente à vontade. Pouco a pouco, aproximou se de nós, animando-se cada vez mais. Apoiou-se ao ombro do Sr. Luxmore, enquanto a fotografavam. Chegou mesmo, uma vez, a seguir a lâmpada para melhor iluminar o seu rosto.

Consentiu que o Sr. Luxmore e a Sra. Córner lhe passassem as mãos pelo corpo para se certificar de que trazia apenas um vestido. Depois, divertiu-se em apoquentar o Sr. Luxmore, dando lhe tapinhas, puxando-lhe os cabelos e tomando-lhe os óculos para com eles mirar os que estavam na sala. As fotografias foram tiradas à luz do magnésio. A iluminação permanente era dada por uma vela e uma lâmpada pequena. Retirada a chapa para a revelação, Katie deu alguns passos, acompanhando o Sr. Harrison, a fim de assistir a essa operação.

Outro fato curioso também se deu essa noite. Estando Katie a repousar diante do gabinete, à espera de se colocar em posição de ser fotografada, todos viram aparecer por sobre a cortina um grande braço de homem, nu até a espádua e a agitar os dedos. Katie voltou-se e repreendeu o intruso, dizendo que era muito mal feito vir outro espírito perturbar tudo, quando ela se preparava para lhe tirarem o retrato, e ordenou que sem demora se retirasse. No dia da sessão, declarou Katie que suas forças desfaleciam. Com efeito, suas forças haviam diminuído tanto que à luz, que penetrava no gabinete para onde se retirara, ela pareceu esvair-se. Todos então a viram achatar-se, destituída totalmente de corpo e com o pescoço tocar o chão. A médium se conservava ligada como no começo.

Chamamos muito particularmente a atenção do leitor para este último pormenor, que mostra, a toda evidência, que a aparição não é um manequim preparado, nem o médium com um disfarce. Sobre esse ponto, outro testemunho probante é o da Sra. Florente Marryat[3] :

Perguntaram um dia a Katie King porque não podia mostrar-se sob uma luz mais forte. (Ela só permitia aceso um bico de gás e esse mesmo com a chama muito baixa). A pergunta pareceu aborrecê-la enormemente. Respondeu assim: Já vos tenho declarado muitas vezes que não me é possível suportar a claridade de uma luz intensa. Não sei por que me é isso impossível; entretanto, se duvidais de minhas palavras, acendei todas as luzes e vereis o que acontecerá. Previno-vos, porém, de que, se me submeterdes a essa prova, não mais poderei reaparecer diante de vós. Escolhei. As pessoas presentes se consultaram entre si e decidiram tentar a experiência, a fim de verem o que sucederia. Queríamos tirar definitivamente a limpo a questão de saber se uma iluminação mais forte embaraçaria o fenômeno de materialização. Katie teve aviso de nossa decisão e consentiu na experiência. Soubemos mais tarde que lhe havíamos causado grande sofrimento.

O espírito Katie se colocou de pé junto à parede e abriu os braços em cruz, aguardando a sua dissolução. Acenderam-se os três bicos de gás. (A sala media cerca de dezesseis pés quadrados).

Foi extraordinário o efeito produzido sobre Katie King, que apenas por um instante resistiu à claridade. Vimo-la em seguida fundir-se como uma boneca de cera junto de ardentes chamas. Primeiro, apagaram-se-lhe os traços fisionômicos, que não mais se distinguiam. Os olhos enterraram se nas órbitas, o nariz desapareceu, a testa como que entrou pela cabeça. Depois, todos os membros cederam e o corpo inteiro se achatou qual um edifício que se desmorona. Nada mais restava do que a cabeça sobre o tapete e, por fim, um pouco de pano branco que também desapareceu, como se houvessem puxado subitamente. Conservamo-nos alguns momentos com os olhos fitos no lugar onde Katie deixara de ser vista. Terminou assim aquela memorável sessão.

Com o exercício, o espírito adquirira maior força, pois que William Crookes pôde, a seguir, bater mais de quarenta chapas com auxílio da luz elétrica. Vimos antes que um espírito tentara materializar-se ao mesmo tempo em que Katie. É que, com efeito, este último não era o único espírito a mostrar-se. Eis aqui um novo testemunho da Sra. Marryat que, numa aparição que se lhe lançou nos braços, reconheceu uma deformação característica que sua filha apresentava em um dos lábios. Ouçamo-la:

A sessão se realizou numa pequenina sala da associação, sem móveis, nem tapete. Apenas cadeiras de vime foram ali colocadas para que pudéssemos estar sentados. A um canto, dependurou-se um velho chale preto, para formar o necessário gabinete, em o qual foi posto um coxim para servir de travesseiro à Srta. Cook.

Esta, moreninha, delgada, de olhos pretos e cabelos anelados, trazia um vestido de merinó cinzento, guarnecido de fitas de cor de cereja. Informou-me, artes de começar a sessão, que, desde algum tempo, se sentia enervada durante os transes e que lhe acontecia vir adormecida para a sala. Pediu-me então que a repreendesse, tal coisa ainda se desse, e que lhe ordenasse voltar para o seu lugar, como se fora uma criança. Prometi fazê-lo e logo a Srta. Cook se sentou no chão, por trás do chale preto que fazia de cortina. Víamos o seu vestido cinzento, por isso que o chale não chegava até o assoalho. Baixou-se a chama do gás e tomamos assento nas três cadeiras de vime.

A médium, a princípio, parecia não se sentir à vontade. Queixava-se de que a maltratavam. Decorridos alguns instantes, vimos o chale agitar-se e uma mão aparecer e desaparecer, repetindo-se isso várias vezes. Apareceu depois uma forma a se arrastar com os joelhos para passar por baixo do chalé, acabando por ficar de pé, perfeitamente ereta. A luz era insuficiente para que se lhe reconhecessem os traços fisionômicos. O Sr. Harrison perguntou se quem ali estava era a Sra. Stewart. O espírito abanou a cabeça em sinal negativo. Quem poderá ser? perguntei ao Sr. Harrison.

– Não me reconhece, minha mãe?

Quis lançar-me em seus braços; ela, porém, me disse: Fique no seu lugar; irei lá ter. Momentos após, Florente veio sentar-se nos meus joelhos. Tinha soltos os longos cabelos, nus os braços, assim como os pés. Suas vestes não apresentavam forma determinada. Dir-se-ia estar envolta nalguns metros de musselina. Por exceção, esse espírito não trazia coifa; estava com a cabeça descoberta.

— Minha querida Florente, exclamei, és mesmo tu?
— Aumentem a luz, respondeu ela, e olhem a minha boca.

Vimos então, distintamente, num dos seus lábios a deformação com que nascera e que os médicos, que a examinaram, haviam declarado constituir um caso muito raro. Minha filha viveu apenas alguns dias. Na sessão em que se me apresentava parecia contar 17 anos.

Diante dessa inegável prova de identidade, fiquei banhada em lágrimas, sem poder dizer palavra.

A Srta. Cook estava muito agitada por detrás do chalé e logo, de súbito, correu para nós, exclamando: É demasiado, já não posso mais.

Vimo-la então fora do gabinete, ao mesmo tempo que o espírito de minha filha sentado no meu colo. Isso, porém, durou apenas um instante. A forma, que eu abraçava, se lançou para o gabinete e desapareceu. Lembrei-me então que Srta. Cook me pedira que eu a repreendesse caso viesse a andar pela sala. Repreendi-a, pois, severamente. Ela tornou ao seu lugar no gabinete e logo o espírito voltou para junto de mim, dizendo: Não deixes que ela volte; causa-me um medo horrível.

Retruquei-lhe: Mas, Florente, nós outros, mortais, neste mundo, temos medo das aparições e tu, ao que parece, tens medo de tua médium!

Tenho medo de que ela me faça partir, respondeu ela. A Srta. Cook, porém, não tornou a sair do gabinete e Florente esteve mais algum tempo conosco. Lançando-me os braços ao pescoço e me beijou repetidas vezes. Nessa época, eu me achava muito atribulada. Disse-me Florente que, se pudera aparecer-me com a marca que me permitira reconhecê-la, fora bem para me convencer das verdades do Espiritismo, no qual eu encontraria copiosas fontes de consolo.

– Tu algumas vezes duvidas, minha mãe, disse ela, e supões que os teus olhos e os teus ouvidos te enganam. Nunca mais deves duvidar e não creias que, como espírito, eu me conserve desfigurada. Retomei hoje este defeito apenas para melhor te convencer. Lembra-te de que estou sempre contigo.

Eu não conseguia falar, tão emocionada me sentia à idéia de que tinha em meus braços a filha que eu própria depositara num caixão, de que ela não estava morta, de que presentemente era uma mocinha. Fiquei muda, com os braços passados pela sua cintura, com o coração a bater de encontro ao seu. Em seguida, a forca diminuiu. Florence me deu o último beijo, deixando-me estupefata e maravilhada com o que se passara.

Acrescenta a Sra. Florente Marryat que tornou a ver aquele espírito muitas vezes, em outras sessões e com diferentes médiuns, recebendo dele ótimos conselhos.

Facilmente se concebe que os incrédulos ajam negado com obstinação tão extraordinários fenômenos. Calorosas polêmicas se travaram, mesmo entre espíritas, e só as experiências e as afirmações de William Crookes puderam confirmar a autenticidade absoluta de Katie King. Recomendamos ao leitor a obra desse sábio; todavia, precisamos assinalar, de modo especial, que Katie é um ser vivo em tudo semelhante, anatômicamente, a um ser vivo.

AS EXPERIÊNCIAS DE CROOKES

São particularmente interessantes os trabalhos do grande sábio inglês do ponto de vista em que nos colocamos[4] , pelo que reproduzimos aqui uma pequena parte da sua narrativa, tão completamente probante ela é. Ele nos mostra um espírito tão bem materializado, que não se poderia distinguí-lo de unia pessoa normal.

Essa notável experiência estabelece, pertinentemente, que o perispírito reproduz não só o exterior de uma pessoa, mas também todas as partes internas do seu corpo.

Uma das mais interessantes fotografias é a em que estou de pé ao lado de Katie, tendo esta um pé nu em determinado ponto do assoalho. Em seguida, vesti a Srta. Cook tal qual o estava Katie e nos colocamos, ela e eu, na mesma posição em que estivéramos Katie e eu, e fomos fotografados pelas mesmas objetivas, situadas estas absolutamente como na outra experiência e iluminadas pela mesma luz. Superpostas as duas fotografias, as minhas imagens coincidem exatamente quanto ao talhe, etc., ao passo que a de Katie se mostra maior, de uma meia cabeça, do que a da Srta. Cook, junto de quem aquela parece uma mulher gorda. Em muitas das fotografias, o tamanho de seu rosto e a sua corpulência diferem essencialmente dos de seu médium, podendo-se ainda notas muitos outros pontos de dissemelhança.

Isto responde à objeção, tantas vezes formulada, de que, nas sessões espíritas, as aparições, que se fotografam, são desdobramentos do médium. Continuemos:

Recentemente vi Katie tão bem, à claridade da luz elétrica, que se me torna fácil acrescentar mais algumas diferenças às que, em precedente artigo, assinalei entre ela e seu médium. Tenho a mais absoluta certeza de que a Srta. Cook e Katie são duas individualidades distintas, pelo menos quanto aos corpos. Pequenas marcas que em grande número se encontram no rosto da Srta. Cook não existem no de Katie. Os cabelos daquela são de um castanho tão escuro que parecem pretos! Tenho sob os meus olhos uma madeixa que Katie permitiu que eu lhe cortasse da luxuriante cabeleira, depois de meter nesta os meus próprios dedos até ao alto da cabeça e de me haver certificado de que ela daí nascia realmente. É de um lindo castanho dourado.

Uma noite contei as pulsações de Katie. Eram em número de 75 e seu pulso batia regularmente. As da Srta. Cook chegaram, alguns minutos após, a 90, algarismo que lhe era habitual. Aplicando o ouvido ao peito de Katie, pude ouvir-lhe o coração a bater no interior, sendo os seus batimentos mais regulados do que os do coração da Srta. Cook quando, depois da sessão, ela me permitiu fazer a mesma experiência. Auscultados de igual modo, os pulmões de Katie se revelaram mais sãos do que os de sua médium, porquanto, no momento em que fiz a experiência, a Srta. Cook estava em tratamento de um grande resfriado.

Tais as primeiras manifestações de Katie King. Eis agora o que se passou da última vez que ela apareceu, achando-se entre os espectadores a Sra. Florence Marryat, o Sr. Tapp, William Crookes e a doméstica Mary[5].

A ÚLTIMA SESSÃO

Às 7 horas e 23 minutos da noite, o Sr. Crookes conduziu a Srta. Cook para o gabinete escuro, onde ela se deitou no chão, com a cabeça sobre um travesseiro. Às 7 horas e 28 minutos, Katie falou pela primeira vez e às 7 horas e 30 mostrou-se fora da cortina e em toda a sua estatura. Estava vestida de branco, de mangas curtas e o pescoço nu. Trazia soltos os seus longos cabelos castanho claro, de tom dourado, a lhe caírem em cachos até à cintura. Também trazia um longo véu branco que apenas uma ou duas vezes abaixou sobre o rosto, durante a sessão.

O médium trajava um vestido de merinó azul claro. Durante quase toda a sessão, Katie se conservou em pé diante dos assistentes. Corrida que fôra a cortina do gabinete, todos viam distintamente o médium adormecido, com o rosto coberto por um chalé vermelho, para preservá- lo da luz. Não deixara` a posição que havia tomado desde o começo da sessão, que transcorreu com uma luz que espalhava viva claridade. Katie falou de sua próxima partida e aceitou um ramo de flores que o Sr. Tapp lhe trouxera, bem como um apanhado de lírios que o Sr. Crookes lhe ofereceu. Pediu ao Sr. Tapp que desmanchasse o ramo e colocasse diante dela as flores, no chão. Sentou, então, à moda turca e pediu que todos fizessem o mesmo, ao seu derredor. Distribuiu as flores, fazendo com algumas um raminho, que atou com uma fita azul.

Escreveu cartas de adeuses a alguns dos seus amigos, pondo-lhes a assinatura: Annie Owen Morgan, dizendo que fora este o seu verdadeiro nome na vida terrena. Escreveu também urna carta ao seu médium e escolheu um botão de rosa para lhe ser entregue como presente de despedida. Pegou uma tesoura, cortou uma mecha de seus cabelos e ofereceu certa porção deste a cada um. Enfiou depois o braço no do Sr. Crookes e deu volta à sala, apertando a mão de todos, um por um. Sentou-se de novo, cortou vários pedaços do seu vestido e do seu véu, presenteando com eles os assistentes. Como fossem visíveis os grandes buracos que lhe ficaram nas vestes e estando ela sentada entre o Sr. Crookes e o Sr. Tapp, alguém lhe perguntou se poderia reparar aquêles estragos, como já o fizera em outras ocasiões. Ela então expôs à luz a parte cortada, bateu em cima com uma das mãos e imediatamente aquela parte do vestido se tornou tão perfeita como era antes. Os que lhe estavam próximos examinaram e tocaram, com sua permissão, a fazenda e afirmaram que não mais haviam buracos, sem costuras, nem a aposição de qualquer remendo onde um momento antes tinham visto cortes do diâmetro de muitas polegadas.

Transmitiu a seguir suas últimas instruções ao Sr. Crookes e aos outros amigos sobre como deviam proceder com relação às manifestações ulteriores que prometera, com o auxílio de seu médium. Essas instruções foram cuidadosamente anotadas e entregues ao Sr. Crookes. Parecendo então fatigada, Katie dizia com tristeza que precisava ir-se embora, que a sua força decaía.

Reiterou muito afetuosamente seus adeuses a todos e todos lhe agradeceram as maravilhosas manifestações que lhes havia proporcionado.

Dirigindo a seus amigos um último olhar grave e pensativo, desceu a cortina e tornou-se invisível. Ouviram-na despertar o médium, que lhe respondeu: Minha querida, não posso. Está cumprida a minha missão. Deus te abençoe! E todos ouviram o som de seu beijo de despedida na médium. Logo depois, a Srta. Cook vinha ter com os presentes, inteiramente e profundamente consternada.

Vê-se assim quanto a moça, rebelde a princípio, se afeiçoara à sua amiga invisível. Katie dizia que dali em diante não mais poderia falar nem mostrar-se; que, realizando, por três anos, aquelas manifestações físicas, passara vida bem penosa, para expiar suas faltas; que decidira elevar-se a um grau alto da vida espiritual; que só a longos intervalos poderia corresponder-se por escrito com a sua médium, mas que esta poderia vê-ia sempie, por meio da lucidez magnética.

Termino aqui a transcrição das aparições e materializações do espírito de Katie King, feita de 17 páginas do importante livro de Gabriel Delanne A alma é imortal. Quem desejar conhecê- la não apenas neste resumo, porém bem mais ampliada, poderá fazê-lo lendo a citada obra de Crookes, traduzida para o português sob o título de Fatos espíritas ou ainda a História das aparições de Katie King, no total de 87 páginas, publicada pela Federação Espírita Brasileira juntamente com o trabalho do Conselheiro Alexandre Aksakof intitulado Um caso de desmaterialização parcial do corpo de um médium.

Depois desta transcrição, pergunta-se ao leitor: a jovem médium, Florence Cook, enganou mesmo, durante três anos seguidos, por sedução e fraude, Sir William Crookes, bem como os seus companheiros de experiências, como afirma, gratuitamente, o escritor francês Robert Tocquet, que nunca esteve presente a nenhuma das experiências feitas, ou as experiências foram reais? Quem tem, pois, razão: o espírita que sempre busca a verdade, seja qual ela for, ou o parapsicólogo, anti-espírita, que torce a verdade, seja qual ela for? Cremos, sem a menor sombra de dúvida, que o leitor está conscientemente a favor do espírita. Quantos belos casos de materialização têm narrado as revistas e os jornais espíritas de todo o Brasil!

O Prof. Charles Richet, que viveu na mesma época que Crookes, o que já não aconteceu com Renê Sudre, Robert Amadou, Robert Tocquet e outros, assim se expressa no seu famoso Tratado de Metapsíquica (pág. 56 da edição brasileira da LAKE): Mas o respeito pelas idéias tradicionais era já coisa de idolatria, a ponto tal que ninguém se dava o trabalho nem de estudar nem de refutar. Contentava-se com o rir e confesso que, por vergonha minha, estava eu também entre os cegos voluntários. Sim! Eu ria, em vez de admirar o heroismo do grande sábio que ousava apregoar, em 1872, que há espíritos, que se pode ouvir o bater do seu coração, bem como tirar-lhe fotografias. Mas essa coragem foi sem grandes conseqüências imediatas. Devia produzir os seus frutos mais tarde. É somente hoje que se pode compreender bem Crookes, cujas experiências são ainda agora a base de toda a Metapsíquica objetiva. Foi feita com granito, nenhuma critica pode abalá-la. Nos últimos dias de sua gloriosa e laboriosa vida, dizia Crookes ainda que nada tinha a retratar com relação ao que outrora havia afirmado.

Quem foi este Charles Richet que assim se pronuncia a respeito das experiências de Crookes? Para não recorrer a notas biográficas de fonte espírita, recorro ao mesmo dicionário supracitado (pág. 1586), por onde se fica sabendo que ele foi um médico e fisiologista francês, que viveu de 1850 a 1935 e que foi autor de trabalhos notáveis dentro e fora de sua especialidade. No domínio da fisiologia devem-se a Richet trabalhos clássicos sobre o calor animal e a anafilaxia; no da psicologia pesquisas sobre a hipnose e fenômenos metapsíquicos.

Vários outros campos de estudo foram também cultivados por este cientista de insaciável curiosidade intelectual. Recebeu o Prêmio Nobel da medicina em 1913.

Dizemos ainda que Richet foi também autor de O sexto sentido e de A grande esperança e que só no fim de sua vida, em carta dirigida a Bozzano, se confessou vencido pela evidência dos fatos da sobrevivência, carta esta estampada na pág. 114 do belo trabalho do Dr. Sérgio Valle Silva Mello e os seus mistérios e que eu mesmo li, na íntegra, no n.° de 30 de maio de 1936 do Psychic News, de Londres.

Passo, conforme prometi, à tradução do trabalho do Dr. Paul Gibier, médico francês de renome, sob o título de Materializações de espíritos em proporções normais (título que acresci para confrontar com o que se lhe segue) e ao do Prof. Ernesto Bozzano intitulado Materializações de espíritos em proporções minúsculas, em que cai por terra a hipótese de que os espíritos são apenas desdobramentos dos médiuns de que se originam.

Como fantasma, sinônimo de espírito ou alma, em sua significação etnológica, é espectro, sombra, visão medonha e outras coisas mais, conforme nos ensina o Prof. João Teixeira de Paula na sua Enciclopédia de Parapsicologia, Metapsíquica e Espiritismo vol. I, pág. 113, de 1972, preferimos o termo espírito, mais significativo, a fantasma, nestas traduções.

Precedi o trabalho do Dr. Gibier de sua biografia e o do Prof. Bozzano de sua autobiografia. Dois verdadeiros sábios.


NOTAS:

1 – Revue Spirite: História de Katie King pela senhora de Laversay de março a outubro de 1897

2 – Sra. D’Esperance – Shadowland (No país das sombras).

3 – Florente Marryat: There is no death (Não há morte).

4 – Vide Researches on the phenomena of Spiritualism (Pesquisas sobre os fenômenos do Espiritismo).

5 – The Spiritualist de 29 de maio de 1874.

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