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18/08/2017

A complexidade da acepção dos termos Espiritismo e Espírita Herivelto Carvalho


 

Explicação em áudio pelo autor NO FINAL DO ARTIGO

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O léxico de uma filosofia é um sistema dinâmico, portanto sujeito a mudanças que podem ser provocadas por diversas influências culturais. Essas mudanças podem acrescentar novos termos ou então modificar o sentido original daqueles já utilizados produzindo, em algumas situações, confusões sobre o significado originalmente empregado a uma determinada palavra. O Espiritismo também se enquadra nesse processo e, ao longo de sua história, muitos termos utilizados em seu corpo doutrinário sofreram mudanças e hoje são objeto de dúvidas quanto ao sentido e a etimologia.  Inclui-se, dentre estes, a própria palavra Espiritismo e consequentemente o adjetivo espírita.

É possível identificar, na atualidade, pelo menos três acepções para a palavra Espiritismo:

 

  1. A Doutrina fundada no século XIX pelo pedagogo francês Allan Kardec a partir da publicação de O Livro dos Espíritos em 1857.
  2. Sinônimo do movimento filosófico-religioso Espiritualismo Moderno.
  3. As manifestações religiosas cujas práticas e doutrinas são fundamentadas sobre um conjunto de fenômenos mediúnicos.

No Brasil, a primeira acepção é compartilhada e defendida oficialmente pela maior parte dos movimentos espíritas organizados enquanto a segunda é quase que completamente rechaçada. Para os espíritas brasileiros o Espiritualismo Moderno e o Espiritismo são movimentos distintos. No entanto, essa distinção, que não existia entre os espíritas europeus, surgiu no Brasil, originada durante o embate doutrinário entre os diferentes grupos que formaram a atual conjuntura do espiritismo brasileiro que, por razões ideológicas, passaram a se designar, cada um à sua maneira, como os autênticos continuadores do legado kardequiano, considerado por estes, aquele que representava perfeitamente o verdadeiro sentido do Espiritismo.

Historicamente o Espiritualismo Moderno e o Espiritismo são classificados como sinônimos na obra de muitos autores. Kardec, na edição de maio de 1864 da Revista Espírita, declarou que “A América, pois, foi o berço do Espiritismo, mas foi na Europa que ele cresceu e fez suas humanidades.”, atribuindo a origem do Espiritismo aos mesmos fatos que deram surgimento ao Espiritualismo Moderno. Afirma ainda, na mesma edição, que os movimentos francês e americano são uma mesma filosofia dividida em duas escolas:

“O que distingue principalmente a escola espírita dita americana da escola europeia é a predominância, na primeira, da parte fenomênica, à qual se liga mais especialmente, e, na segunda, a parte filosófica.”

 Na edição de janeiro de 1869, designa os adeptos do Espiritualismo Moderno como espíritas:

Não existe, por assim dizer, nenhum país civilizado da Europa e da América onde não haja espíritas. Aquele em que são mais numerosos, são os Estados Unidos da América do Norte.

Na edição de abril de 1869, afirma categoricamente que a diferença em relação aos nomes das duas escolas não seria motivo para distingui-las:

Em que o Espiritismo americano difere, pois, do Espiritismo europeu? Seria porque um se chama Espiritualismo e o outro Espiritismo? Pueril questão de palavras sobre a qual seria supérfluo insistir.

Os continuadores de Kardec defenderam a mesma concepção. Gabriel Delanne, em O Espiritismo perante a Ciência (1885), sobre a palavra neo-espiritualismo informa:

É este o nome que, na América, se dá ao Espiritismo.

De parte dos espiritualistas, também havia reciprocidade: Frank Podmore, em Modern Spiritualism (1902) declara que:

A maioria dos franceses e, de fato, em última análise, a maioria dos espiritualistas continentais – ou “espíritas”, como preferiram intitular-se – tornaram-se seguidores da doutrina de Allan Kardec.

Os que defendem a distinção alegam que Allan Kardec, ao criar as palavras espiritismo e espírita, em substituição a espiritualismo e espiritualista, estava declarando que o movimento por ele fundado seria algo novo, uma nova filosofia espiritualista distinta da americana. Porém, o pensamento defendido pelo codificador, é o da criação de uma nova escola no âmbito do Espiritualismo Moderno.

Na opinião de outros autores, Kardec realiza, concomitantemente, dois feitos, ou seja, cria uma nova escola do Espiritualismo Moderno ao mesmo tempo em que lhe dá novo nome. Essa estratégia foi pioneira pois, na França, a palavra Espiritualismo provocou uma enorme confusão lexical porque sua versão spiritualisme já possuía pelo menos dois sentidos bastante popularizados em francês: designava a corrente filosófica de Cousin, Ravaisson e Biran, e ainda uma escola mesmerista francesa chamada magnetisme spiritualiste, que acreditava serem os sonâmbulos, agentes dos espíritos dos mortos.

Buscando uma alternativa para resolver o problema linguístico, Kardec propõe a palavra spiritisme para, em francês, designar o Espiritualismo Moderno. Para ele, este novo termo, seria mais adequado porque sendo um movimento novo, melhor ter outro nome do que buscar a polissemia em um termo mais antigo. O antropólogo francês Guillaume Cuchet, em seu artigo Le retour des esprits ou la naissance du spiritisme sous le Second Empire (2007) destacou a importância dessa decisão de Kardec:

Se o termo (espiritismo) se impôs rapidamente, não foi somente pelo talento de propagandista de Kardec, mas sim porque permitiu levantar uma ambiguidade lexical. Na verdade, a tradução de “spiritualism” – o termo usado nos países anglo-saxões – por “spiritualisme” não deu muito certo em francês, porque esta palavra já tinha um significado.

A proposta de Kardec ultrapassou a França, e o que se viu nos anos posteriores, foi a adoção na Europa Continental de Espiritismo para designar, ao mesmo tempo, tudo que se referia a obra de Kardec e ao Espiritualismo Moderno. Esse feito de Kardec foi comentado pelo historiador John Monroe, em seu livro Laboratories of Faith: Mesmerism, Spiritism, and Occultism in Modern France (2007):

Os benefícios dessa estratégia tornaram-se claros no início da década de 1860, quando a palavra spiritisme entrou no uso geral em francês como o termo genérico para a crença no contato com espíritos, posição ainda ocupada nos dias de hoje. Toda vez que um jornalista ou padre usasse a palavra – mesmo em artigos críticos – indiretamente apoiava o status de Kardec como a autoridade líder entre esses pensadores heterodoxos, ao aceitar a terminologia dele. Como o termo spiritisme ia se tornando cada vez mais comum, os competidores de Kardec – muitos dos quais persistiam em se chamar spiritualistes – foram sendo deixados à margem. Por estarem engajados nas mesmas práticas que as dos seguidores de Kardec, os spiritualistes tornaram-se spirites aos olhos do grande público, mesmo se atacassem com violência as ideias de Kardec.

Na língua inglesa, a palavra espiritualismo tem um sentido particular, diferente daquele que se refere a uma postura filosófica, que é considerado sinônimo de espiritismo.   Este sentido particular, como definem diversos dicionários, o original spiritualism é traduzido para o francês como spiritisme. No Dictionnaire Larousse Anglais-Français a tradução de spiritualism para o francês tem duas versões: como movimento religioso é spiritisme e como filosofia é spiritualisme. Também o Vocabulaire technique et critique de la philosophie (1926) de André Lalande, no verbete Spiritisme, o autor nos apresenta seus correspondentes em inglês como Spiritism e Spiritualism. O filósofo italiano Nicola Abbagnano, em seu Dicionário de Filosofia (1961), afirma que um dos significados de Espiritualismo é:

O mesmo que espiritismo. Este uso é mais comum em inglês, todavia se pode falar também em italiano, alemão e espanhol.

Mas em toda esta história, resta ainda uma dúvida: Segundo alguns a palavra Espiritismo, não teria sido propriamente criada por Kardec, mas sim adotada como versão da inglesa spiritism, cujo radical seria spirit, como defendem, por exemplo, os linguistas Manfred Höfler, Jean-Paul Kurtz e Daniel Sokol, classificando o termo como um caso de anglicismo na língua francesa. De fato, a palavra spiritism aparece pela primeira vez na história, durante os anos 1850, nos Estados Unidos, como um dos nomes do Espiritualismo Moderno. A versão francesa, spiritisme, Kardec declara, na introdução de O Livro dos Espíritos, item I, tê-la apenas empregado, porém, mais tarde, no texto Constituição do Espiritismo que foi publicado em Obras Póstumas, ele afirma sobre a mesma, sua autoria:

Criamos a palavra Espiritismo, para atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita.

Na falta de maiores evidências, podemos cogitar duas possibilidades, a de que Kardec conhecia a palavra inglesa e a adotou ou então, coincidentemente, criou a versão francesa sem saber de sua existência na América.

O escritor americano J. Gordon Melton, autor de Encyclopedia of Occultism & Parapsychology define a palavra spiritism como:

Um termo geral para a crença de que os espíritos ou as almas dos mortos se comunicam com os vivos através de um médium ou de um indivíduo psiquicamente sensível

E ainda esclarece que no século XIX este termo era comumente empregado em dois sentidos:

Como um termo pejorativo para descrever o Espiritualismo na literatura “anticulto” e também como designação específica dos seguidores dos ensinamentos espíritas de Allan Kardec (1804-1869).

Como a palavra spiritism ganhou um sentido pejorativo, principalmente por parte dos cristãos, que viam o Espiritualismo Moderno como uma forma degenerada de religião, surgida sob a influência de demônios, os espiritualistas americanos decidiram não associá-la ao corpo doutrinário de seu movimento.

Em 1859, durante a National Spiritualist Convention, ocorrida em Plymouth, Massachusetts, os espiritualistas americanos decidiram que o adjetivo spiritist poderia ser empregado para designar apenas a parte fenomenológica do movimento ou então as pessoas ou grupos que se limitavam a prática da comunicação com os espíritos enquanto spiritualist designava o seguidor da parte doutrinária do Espiritualismo Moderno.

Essa decisão impactou muito no uso desse termo na posteridade, de forma que muitos autores anglófonos passaram a classificar como espíritas todas as manifestações religiosas que possuíam a crença na comunicabilidade com os espíritos. Esta é também a classificação adotada pela The Association of Religion Data Archives (ARDA) que em 2005 divulgou uma estatística afirmando a existência de aproximadamente 13 milhões de espíritas no mundo, sendo, portanto o Espiritismo a 8ª maior religião do mundo em número de adeptos. Muitos órgãos de imprensa, no Brasil, incluindo periódicos espíritas,

divulgaram essa informação sem entender que para a ARDA, espíritas não são apenas os kardecistas, mas também os seguidores da santeria, da mesa blanca, do vudu, da umbanda, do culto marioloncero, dentre outras expressões religiosas animistas, muito comuns em todo o continente americano.

Percebemos que há grande dificuldade para se chegar a um consenso sobre uma definição mais precisa do que seja o Espiritismo. Isto ocorre porque geralmente as definições são dadas por grupos que já tem estabelecidas suas ideologias, e assim, buscam definir o Espiritismo de forma a adequá-lo às suas próprias convicções. Falta, portanto, uma definição isenta e imparcial, mais centrada nas dimensões histórica e sociológica da cultura espírita. A perspectiva livre-pensadora do Espiritismo pode contribuir para a ampliação de uma pesquisa nessa área, pois evitando o aparecimento de dogmas de qualquer natureza, pode estabelecer, sem obstáculos, o desenvolvimento de uma análise mais nítida de sua natureza e fundamentação.

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One Response “A complexidade da acepção dos termos Espiritismo e Espírita Herivelto Carvalho

  1. 24/02/2016 at 11:37

    NOTA:
    Removido BUG no sistema de comentários: 24/02/2016.
    Sem alterações na diagramação.

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