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24/08/2017

A Alma dos Animais: V – Seu único amigo diz adeus


Camille Flammarion comunicou aos Annales des Sciences Psychiques (1912, pág. 279) o relato seguinte que lhe foi enviado pelo senhor G. Graeser, que reside em Lausanne, Suíça:

saobernardo“… Permite-me relatar um pequeno fato que tem relação com aquilo que você fala em seu livro L’Inconnu? Não lhe falaria se não tivesse visto um caso como esse em seu livro. Não se refere a uma pessoa, mas a um animal… Um pouco solitário, amante do estudo e não do mundo, eu não tinha amigos, somente um cão. Ele era bem mais esperto que muitos homens. Era meu protetor; quando, à noite, eu ficava sozinho contemplando o céu, ele permanecia fielmente deitado aos meus pés, sua espessa pelagem (era um são-bernardo) cobria minhas pernas, e era difícil me mexer quando precisava seguir a cadência de uma estrela. Quando estava em meu quarto lendo, ele ficava me olhando; diria, inclusive, que ele me compreendia. Sentia que ele amava a solidão tanto quanto eu e era por isso que não nos deixávamos. Eu digo isso a vocês para que possam compreender meu afeto por ele e o motivo por considerá-lo um verdadeiro amigo.

Eis então meu relato:

No dia 14 de dezembro de 1910, minha mãe levou Bobby consigo. Devo lembrar que, antes de tudo, ele tinha dois desagradáveis costumes: assim que alguém se aproximava, recebia-o com muita folia; em segundo lugar, que, quando discutia com meu pai, ele tomava minhas dores e se colocava ao meu lado. Após uma queixa, penso eu (soube tarde demais, infelizmente), meus pais decidiram sacrificá-lo. Eram sete e meia da noite. Estava em meu quarto e ouvi a porta se abrir (ele a abria sozinho e era tão grande quanto eu). Então, ouvi a porta se abrir e vi aparecer meu Bobby. Ele ficou, com ar de sofrimento, sobre a soleira. Eu dizia: “Venha aqui, Bobbi!”, sem levantar os olhos. Ele não obedeceu. Repeti minha ordem, então ele veio. Ele se esfregou em minhas pernas e se deitou sobre o tapete; quis acariciá-lo, mas… nada, ele não estava mais ali!… Embora nunca tivesse lido histórias como essa no L’Inconnu, precipitei-me para fora do quarto; a porta tinha ficado aberta; telefonei para Lausanne (a dois quilômetros), para o matadouro, e eis então nosso diálogo:

– Pois não, é do matadouro.
– Teria o senhor visto uma dama de preto acompanhada por um cão são-bernardo?
– Acabamos de sacrificá-lo, há mais ou menos dois minutos; ele está estirado, e a dama está aqui!

Com estas palavras, caí no chão e desmaiei. Quando voltei ao meu estado normal, perguntei sobre meu cão: ele não estava ali, estava morto. Contaram-me todo o drama depois. Esta é a história de meu Bobby; é preciso ressaltar que no minuto em que ele morria, eu o vi com meus próprios olhos e o que retira toda e qualquer possibilidade de alucinação é o fato de que a porta se abriu sozinha…”

Camille Flammarion pediu a um professor da Universidade de Lausanne para realizar uma pequena sondagem; o pesquisador respondeu confirmando o relato do senhor Graeser. Neste caso bastante interessante, encontramos duas circunstâncias de produção que se realizam raramente nos casos de alucinação telepática. A primeira e mais importante consiste no fato de que a aparição do fantasma do cão foi precedida pelo fenômeno psíquico da porta que se abriu. Na fenomenologia telepática, encontramos amiúde episódios em que o percipiente vê se abrir uma porta e entrar o fantasma; porém, quase sempre a porta é, em seguida, encontrada devidamente fechada, o que mostra que o suposto fenômeno psíquico era tão somente uma alucinação complementar da outra. Em contrapartida, nesse caso – assim como, aliás, na maioria dos demais –, a porta foi encontrada aberta pelo percipiente; assim sendo, não se trata de uma alucinação e sim de um fenômeno psíquico de natureza paranormal.

O fenômeno a que nos referimos só poderia ser explicado se reconhecêssemos o fundamento daquilo que tínhamos ressaltado anteriormente, ou seja, que as aparições denominadas telepáticas nem sempre se encaixam numa significação puramente alucinatória verídica relacionada à telepatia. Pode-se tratar algumas vezes de verdadeiras aparições objetivas, as quais implicam a presença de uma Entidade espiritual que se manifesta. Tal Entidade, após a morte violenta bastante recente, permaneceria, durante algum tempo, saturada pela “força vital” e poderia, dessa forma, agir ainda sobre a matéria. Se o incidente da porta que se abriu for bem observado, somos então levados a concluir que o fantasma do cão era de forma alguma uma simples projeção alucinatório-verídica, mas sim a objetivação de algo análogo ao “corpo espiritual” do cão. A alegação seria, de certa maneira, confirmada pela circunstância que se produziu durante a manifestação, isto é, o cachorro respondeu ao convite de seu dono indo até o quarto, deitando-se aos pés do rapaz e se enfiando entre suas pernas. Todos esses detalhes são sugestivos a favo de uma presença real, uma vez que, em geral, as aparições telepáticas são inertes como as estátuas; quando se deslocam e andam, elas os fazem de maneira automática, como se ignorassem o meio em que se encontram – todas as modalidades se conformam com as teorias segundo as quais elas consistiriam em puros simulacros, projetadas exteriormente pelo pensamento do percipiente e influenciada pelo pensamento do agente.

De fato, em certos casos os fantasmas telepáticos provam não ignorar o meio onde se encontram nem as pessoas que os observam, aos quais, inclusive, eles emitem palavras. Unicamente em tais circunstâncias podemos nos perguntar se não se trata realmente, e sempre, de manifestações objetivas. Em suma, uma vez que tudo corrobora para provar que as aparições de fantasmas retiram sua origem de causas diversas, de tal maneira que, certamente, existem fantasmas objetivos (entre os quais se encontra toda uma classe de fenômenos de “bilocação”, nada impede de admitirmos isso para uma parte das manifestações que são consideradas telepático-alucinatórias.

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